MÚSICA 2024 - INTERNACIONAL (VI)
02 January 2025
14 December 2024
11 December 2024
FAÇO PORQUE QUERO
27 October 2024
LA - The Ark aborda a questão da sobrevivência - o modo como nós, enquanto cultura, lidamos com as crises e o que significa sobreviver num mundo tecnológico. Não apenas a sobrevivência física mas também cultural e emocional. Usamos muita tecnologia para contar essa história. Mas a tecnologia nunca foi o ponto essencial. Importante é o modo como a usamos para reflectir a experiência humana, para observar como ela transforma as nossas relações e a forma como olhamos para o mundo. A arca é um símbolo poderoso de preservação, um veículo que transporta tudo quanto é importante para um futuro incerto. Jogámos com aquela ideia: o que devemos salvar e o que deveremos deixar para trás? Trata-se de criar uma experiência viva e imersiva. Não era apenas uma performance mas uma forma de convidar as pessoas para este mundo que construimos no qual elas poderão reflectir sobre as suas ideias de sobrevivência e que significado poderá isso ter. É, afinal, tudo uma consequência do modo como nos movemos através do tempo. Há quem pense que, no prazo de 4 anos, será já demasiado tarde para sobrevivermos ao desastre climático. A outra metade das pessoas nos EUA acha que é indispensável tornarmos a América grande outra vez. Como no passado. Mas em que ficção do passado estarão a pensar? É muito diferente pensar no passado quando se tem 77 anos ou quando se tem 17.
JL - Conhece, por acaso, Uma História do Mundo em Dez Capítulos e Meio, do escritor inglês, Julian Barnes, cujo primeiro capítulo conta a história da arca de Noé mas apenas na última linha ficamos a saber quem é o narrador?
LA - A sério? Sempre as dúvidas, sempre as perguntas... Vou ter de investigar.
24 October 2024
(sequência daqui) JL - A Laurie nunca aderiu muito a fazer grandes declarações panfletárias acerca da situação política nos EUA e no mundo em geral. Mas há casos que, de tão extremos, é praticamente impossível fugir a manifestar uma opinião. Donald Trump é, sem dúvida, um deles...
LA - Trump é um sintoma de uma doença muito mais generalizada de medo e desinformação. É um performer mas o problema de fundo é saber o que lhe permitiu conquistar tamanha popularidade. Ele transformou a política num "reality show". É completamente absurdo. Vemos aquela enormidade a desenrolar-se perante os nossos olhos e perguntamo-nos como foi aquilo possível. As palavras podem construir pontes ou podem derrubá-las. O que Trump tem feito é usar a linguagem para dividir e criar inimigos, O oposto da empatia. A democracia é frágil e a era Trump mostrou-nos quão fácil é ameaçá-la. É um grito de alerta para nós artistas e para qualquer pessoa que se preocupe com a verdade e a justiça. Aquela criatura acredita que as mulheres são estúpidas e idiotas e isso aterroriza-me! (segue para aqui)
18 October 2024
(sequência daqui) JL - Por outro lado, a história trágica de Amelia Earhart, contém uma série de elementos quintessencialmente americanos, não é verdade?
LA - Absolutamente! Ela era apaixonada pela velocidade e pela tecnologia. A ideia de poder estar a falar com as mulheres americanas motivava-a também muito. E casou com o assessor de imprensa: em cada pausa da viagem, falava com jornalistas contava-lhes detalhes, telefonava, enviava telegramas, escrevia o diário de bordo. Deixou um enorme registo da viagem! Mas tudo isto é o que nós fazemos: tecnologia, velocidade e guerra. Vendemos armas ao mundo. A II Guerra Mundial realmente acabou? Olhamos à volta - Israel, Rússia, Ucrânia - e pensamos que, provavelmente, durante algum tempo terá arrefecido um bocadinho mas agora parece estar a aquecer outra vez. (segue para aqui)
14 October 2024
(sequência daqui) JL - Trabalhar com uma orquestra transformou de alguma forma o seu modo habitual de encarar a música, o spoken word e a relação entre ambos? A fronteira entre a fala e o canto manteve-se mas, aqui, permitindo que, como nunca antes, este fosse invadido pela orquestra...
LA - Trabalhar com orquestras é fascinante porque damos connosco a ter de lidar com aquele imenso corpo sonoro orgânico. É como uma espécie de paisagem. Se lhe acrescentarmos a dimensão tecnológica, abre-se um universo de possibilidades ainda maior: tanto permite concentrar-nos em detalhes ínfimos como alargar o ângulo sobre vastos espaços abertos. Além disso, também cometemos algumas heresias como, por exemplo, gravar baixo e bateria em último lugar, ao contrário do que é habitual. Usei a história de Amelia Earhart como estrutura narrativa, incorporando simultaneamente referências ao voo, ao desaparecimento e à comunicação.
JL - Amelia reflecte, mais uma vez, o seu interesse na combinação de elementos pessoais, históricos e míticos na criação de peças totalmente contemporâneas mas de modo algum prisioneiras do seu tempo...
LA - A Amelia Earhart é, simultaneamente, uma heroína e um mito. Uma figura de exploradora corajosa que pretendeu romper limites mas que, ao mesmo tempo, se deixou capturar no espaço entre o sucesso e a extinção. Há qualquer coisa de muito perturbador nas últimas transmissões de rádio dela (um motivo que pontua todo o álbum), enviadas para o vazio, fragmentos de som que ficaram perdidos no ar, à deriva na vastidão. A voz dela estava lá mas inatingível. E falava-nos do medo de se sentir irremediavelmente perdida, de, pela quebra de comunicação, desaparecer sem deixar rasto. (segue para aqui)
06 October 2024
23 September 2024
16 September 2024
09 September 2024
06 September 2024
INTRINCADO LABIRINTO
Tenham medo. Tenham muito medo. Laurie Anderson é exactamente o tipo de pessoa que, involuntariamente, quase sem se aperceber disso, actua como veículo de antecipação do futuro. Aquilo que, antigamente, se designava como profeta. Em 1981, no primeiro álbum Big Science, incluia 'O Superman', inviamente inspirada na ópera "Le Cid", de Jules Massenet, na qual, em gélido registo vocal, mecanicamente entoava: “Well, you don't know me, but I know you, and I've got a message to give to you: here come the planes, they're American planes, made in America (…) And the voice said: neither snow nor rain nor gloom of night shall stay these couriers from the swift completion of their appointed rounds”. Dez anos depois, uma semana e um dia após o atentado da Al Qaeda ao World Trade Center, Laurie Anderson actuaria no Town Hall de Nova Iorque. Durante a interpretação de peças como "Strange Angels" (“Big changes are coming, here they come, here they come”), "Let X=X" ("I feel like I am in a burning building... I gotta go"), e, sobretudo, "O Superman'", na própria gravação (Live At Town Hall, New York City, September 19-20, 2001) era palpável a tensa atmosfera glacial que se instalara. (daqui; segue para aqui)