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11 December 2019

19 December 2011

ESTILHAÇOS DO BIG BANG



B Fachada - B Fachada




Osso Vaidoso - Animal

Quando houver recuo suficiente para se fazer a história da música popular portuguesa nas primeiras décadas do século XXI, há-de ser inevitável dedicar um extenso capítulo – de certeza, o mais importante – à improbabilíssima aventura dupla FlorCaveira/Amor Fúria, episódio de imprevisíveis raízes cristãs remontando às cisões no empório do Vaticano do século XVI, entre o magnífico papa ateu, Giovanni di Lorenzo de Medici, aliás, Leão X (ele que afirmava “Quantum nobis prodeste haec fabula Christi”, isto é, “Quão proveitosa nos tem sido esta fábula de Cristo” mas, igualmente, o genial criador do Seguro de Pecado Vitalício conhecido como “Taxa Camarae”), e o teutónico e aborrecidíssimo Martinho Lutero. Alegadamente, protestantes/baptistas uns, católicos os outros – e não estamos propriamente habituados a estabelecer este tipo de clivagens no que ao pop/rock diz respeito –, inegável é que, após demasiado tempo de domínio de roqueiros lusos travestidos de naturais do eixo UK/USA, o terreno estava preparado para a germinação de uma estirpe de renascentistas dedicados a reactivar o ADN – Heróis do Mar, Variações, GNR, Sétima Legião, até a geração prévia dos cantautores – que havia permanecido em estado de latência desde o início de 90. E se, até agora, daí não emergiu ainda nenhum A Um Deus Desconhecido ou Os Homens Não Se Querem Bonitos, já nesse santíssimo ventre foram gerados alguns belos nacos de música e de palavras bem saboreáveis.



Como, por exemplo (para além do que pariram Tiago Guillul, João Coração, Os Golpes, Samuel Úria ou Os Pontos Negros), a discografia bianual de Bernardo Fachada, espécie de desarrumado artesanato salta-pocinhas entre a música tradicional e as muitas declinações da pop: ora Reininho, ora Gainsbourg, aqui Giacometti, ali Godinho, concentrado no estudo quase entomológica do sapiens local, observado do exterior ou encarnado na primeira pessoa do singular, em perfurantes tiradas multireferenciais do jeito de "Vou casar discretamente e ser um belo pai presente, ter pouca vida social e ser senhor de Portugal, vou candidatar-me à presidência, vou fazer concertos de Natal, vou insistir na persistência, eu vou ser o Zappa nacional". Com temíveis desvios infanto-juvenis adicionais (B Fachada É Pra Meninos, 2010) e oferendas estivais (o EP Deus, Pátria e Família, 2011) em modo de imprecação diante das muralhas da cidade: “Portugal está para acabar, é deixar o cabrão morrer, sem a pátria para cantar, sobra um mundo para viver”. B Fachada (indistintamente intitulado da mesma forma que o opus de 2009), entretanto, não será motivo para celebrar com foguetório o décimo volume em quatro anos e meio de discografia: desta vez, em registo autêntica ou ficcionalmente confessional, se a agilidade verbal se deixa reconhecer desde o primeiro instante (“Noutro tempo, noutra configuração, eu dedicava-me ao roque, só tocava distorção, entretinha as raparigas com letras de pressão, uma cassete das antigas, pelas garagens do Monte Abraão”), a moldura musical – piano escolar, coros esquemáticos, percussão residual – reduz ao menor denominador comum uma sequência de canções melodicamente letárgicas, francamente muito pouco memoráveis e de rumo errático, que dificilmente puxarão o lustro ao CV de Fachada.



Se, no entanto, recuarmos até ao tal Big Bang da pop nacional, pelo caminho, tropeçaremos naquele instante em que, tal como se fala dos Pink Floyd com e sem Syd Barrett, nos deveremos referir aos GNR com e sem Alexandre Soares (embora com danos colaterais consideravelmente mais atenuados na banda do Porto): de coração pop e sistema nervoso experimental, os GNR devem-lhe algumas das mais preciosas jóias da primeira e melhor fase (só um exemplo: o alinhamento integral de Os Homens Não Se Querem Bonitos), pecúlio estético que transportaria, primeiro, para o seu The Madcap Laughs, a solo (Um Projecto Global, 1988), e que, mais tarde, integrado na tripulação dos Três Tristes Tigres – onde se cruzaria com Ana Deus –, voltaria a reconfigurar em formato de nave pop com radares apontados à estratosfera, em Guia Espiritual (1996), e Comum (1998). É, justamente, o núcleo Soares/Deus que, agora (metabolizadas obscuras etapas intermédias universalmente desconhecidas sob os nomes de Nadadores de Inverno e D. Chica), regressa, muito apropriadamente, sob a designação de Osso Vaidoso.



Porque a primeira sensação é a de tratar-se de uma reencarnação apenas um pouco menos sonoramente anoréctica dos Young Marble Giants: melodias telegráficas, traçado rítmico de electrocardiograma, espessura harmónica espalmada no quase único contraponto de voz e guitarra, com os eventuais adereços remetidos à percussão-Mo Tucker de "Cacofonia", às interferências siderais de "Animal" ou aos abstraccionismos cenográficos de "Ponto Morto". Caso absolutamente eloquente de quão produtiva pode continuar a ser a atitude "less is more", há, mesmo assim, que reconhecer o valioso contributo dos textos de Regina Guimarães (o terceiro tigre retornado à selva, aqui literaturando a partir dos estímulos de Nina Simone, Charles Cros e de interlocutores de diversas e insondáveis proveniências – é favor dar uso útil à ficha técnica), dos outros de Alberto Pimenta e Valter Hugo Mãe, da semi-invisível mas indispensável aguada tímbrica dos teclados de João Pedro Coimbra (dos Mesa, e outro tigre episódico), das percussões de Gustavo Costa e da electricidade de Tó Trips que, apesar de apenas presente numa só faixa, terá, aparentemente, reanimado o espectro Velvet Underground que Alexandre Soares mantinha sequestrado dentro de si e que ioniza com minerais radioactivos o frágil tecido conjuntivo, esplendorosamente descarnado, do Osso deste Animal.

(2011)

01 June 2011

NOBRE POVO

















Os Golpes - G


















Os Velhos - Velhos

Numa daquelas releituras dos clássicos que sempre ajudam a refrescar as ideias, pode acontecer tropeçarmos numa crónica jornalística de Fernando Pessoa (para o nº6 de “O Jornal”, de 1915) em que, apelando ao cultivo da “desintegração mental como uma flor de preço” e à construção de “uma anarquia portuguesa”, depois de caracterizar o sapiens lusitano (“O português é capaz de tudo, logo que não lhe exijam que o seja. Somos um grande povo de heróis adiados. Partimos a cara a todos os ausentes, conquistamos de graça todas as mulheres sonhadas, e acordamos alegres, de manhã tarde, com a recordação colorida dos grandes feitos por cumprir. Cada um de nós tem um Quinto Império no bairro, e um auto-D. Sebastião em série fotográfica do Grandela”), proclamava: “Portugal precisa dum indisciplinador. Todos os indisciplinadores que temos tido, ou que temos querido ter, nos têm falhado, Como não acontecer assim, se é da nossa raça que eles vêm? As poucas figuras que, de vez em quando, têm surgido na nossa vida política com aproveitáveis qualidades de perturbadores fracassam logo, traem logo a sua missão. Qual é a primeira coisa que fazem? Organizam um partido”. E Fernando Pessoa é muito bem-vindo à conversa não apenas por aquilo de que, com os sinais vitais razoavelmente mantidos, cada um se pode, facilmente, aperceber mas, aqui, em particular, no que diz respeito a alguma música portuguesa.



Irmã teologicamente adversa da FlorCaveira, a Amor Fúria, ao surgir, em 2007, não se limitou a publicar discos: perante o universo, anunciou-se como movimento “espontâneo, total, (...) um exército de rapazes e raparigas de caras e almas pintadas, pronto a transformar as emoções colectivas num momento partilhável pelas multidões. Apresentam cantigas, planeiam o fim deste mundo e o início de um novo tempo onde as canções substituam as janelas fechadas dos automóveis, as conversas dentro dos edifícios, as filas de espera para os autocarros, os desesperos solitários. Assumem a vontade de dançar um país diferente, e das ruínas de Portugal, dos seus ícones e bandeiras, desafiam o futuro, roubam o nome a uma canção dos Heróis do Mar, para se devolverem na partida ‘em busca de um país de árvores’. Eles são os Amantes Furiosos e proclamam as palavras de Carlos Drummond de Andrade (‘Chegou um tempo em que não adianta morrer, chegou um tempo em que a vida é uma ordem, a vida apenas, sem mistificação’)”.



Aparentemente, não na totalidade mas em boa parte e, sobretudo, no espírito, Heróis do Mar e regiões limítrofes (gente, por acaso, também de inspiração inicial assaz pessoana), acabaria por ser o conceito operativo. Porque, do “exército de rapazes e raparigas” – algo como o partido musical doutrinariamente unificado de candidatos a indisciplinadores -, o que mais notoriamente emergiria, seriam Os Golpes, revisão actualizada e (reconheça-se) algo melhorada da banda de Pedro Ayres de Magalhães e Rui Pregal da Cunha. “Com Portugal encravado na espinha e no coração” e um Quinto Império no bairro, reeditam, agora, em versão expandida, um EP lançado no final do ano passado, no qual, sem surpresa, participa... Rui Pregal da Cunha e se escuta uma enérgica releitura de "Paixão", dos Heróis, navegando o total das oito canções por águas esteticamente afins onde, certamente, se identificam as ruínas dos ícones e bandeiras mas o desafio ao futuro ainda se assemelha consideravelmente ao passado. O auto-D. Sebastião de Os Velhos, por outro lado, situa-se algures entre a primeira Sétima Legião e o punk de garagem, menos trágico-marítimo e mais urbano-épico, em cenários de três acordes e textos concisamente literatos. Num e no outro caso, porém, “o início de um novo tempo” continua em atraso.

(2011)

08 April 2011

PEGADAS



Aquaparque - Pintura Moderna

Abandonar o centro para, após o ter relocalizado noutro lugar geométrico, o voltar a ocupar. Não é estratégia nova nem sequer extraordinariamente distante daquela outra que, há várias décadas, Bryan & Brian raptaram para o perímetro pop e designaram como "Re-Make/Re-Model". É, aliás, sintomático que Brian (Eno) apareça no ramalhete de alusões estéticas que acompanha a publicação de Pintura Moderna, ao lado de tão diversa gente quanto Stock, Aitken & Waterman, Trevor Horn, Jellybean Benitez, Vince Clarke e Bill Laswell. E costuma ser também o procedimento através do qual sucessivas gerações pop mudam de pele - tal como no embrulho-manifesto se alega - acercando-se dos velhos materiais para reproduzir-lhes os códigos, trocando-lhes a lógica.



Pedro Magina (voz, Casio Tonebank, Yamaha DS55, harmónica, percussão) e André Abel (voz, programações, guitarra), gente de Santo Tirso com percursos paralelos e anteriores (enquanto Aquaparque haviam já editado, em 2009, É Isso Aí), redescobrem, então, as pegadas que, em outros anos, levaram Pop Del’Arte ou Mler Ife Dada a desenhar um distinto perfil para a música moderna lusa (e que, sob diferentes ângulos e iluminações, inspiraram também o eixo FlorCaveira/Amor Fúria), manipulam, desfiguram, realinham e fragmentam abstracções digitais, enovelam melodias, perplexidades e distorção, e, um pouco à maneira rigorosamente caótica de uns Animal Collective, inventam um privado e luminoso labirinto sonoro onde já começa a ser perigosamente apetecível perder-se. É diamante ainda em bruto de cuja lapidação – a ser realizada com precaução mas não exagerado desejo de perfeição – bem poderá resultar mais uma jóia da coroa.

(2011)

17 August 2010

ESFORCEMO-NOS, SIM



GNR - Retropolitana

Tudo pediria para colocar o teclado em piloto automático e deixá-lo escrever sozinho “oito anos após o último álbum de originais, Do Lado dos Cisnes, saúda-se o regresso dos GNR, com Retropolitana”. Tudo pediria mas não vale a pena incomodar-se a pedir. Porque, ainda que o percurso dos GNR, desde o brilhante trio de partida – Independança (1982), Defeitos Especiais (1984) e Os Homens Não Se Querem Bonitos (1985) –, tenha tido algum perfil de montanha russa, nunca, verdadeiramente, como neste disco se aproximou tanto do que se assemelha perigosamente a um plano inclinado final. Não traz felicidade nenhuma fazer profecias destas: poucas bandas se podem orgulhar de ter contribuído de modo tão decisivo para a gramática da pop lusa como o grupo de Rui Reininho, Toli César Machado e Jorge Romão (sem esquecer o génio de Alexandre Soares nos capítulos iniciais).



Dos textos de Reininho (escrevi e não me arrependo que, no último meio século, apenas Alexandre O’Neill e Caetano Veloso coreografaram a língua portuguesa como ele) à tradução da new wave e do pós-punk para o perímetro entre Minho e Guadiana, não foi, obviamente, por acidente que os novíssimos pop-rockers do eixo FlorCaveira/Amor Fúria incluíram os GNR no seu panteão de divindades tutelares. A pequena tragédia é que Retropolitana tem muito pouco ou quase nada que o redima. Musicalmente raso, naquele registo de preguiçosa modorra-FM desesperantemente resignada e previsível, o que ainda resta de aventureirismo descobre-se apenas numa ou noutra curva das palavras e, mesmo aí – embora Reininho esteja geneticamente impossibilitado de escrever uma má letra –, a considerável distância das gloriosas gincanas semânticas a que tão mal fomos habituados. Esforcemo-nos, então, por acreditar que não é ainda a descida final da montanha russa mas só aquela queda arrepiante antes da escalada seguinte.

(2010)

13 August 2010

TEEN SPIRIT



Os Pontos Negros - Pequeno Almoço Continental

Eles dizem “Não sei ler escalas em clave de sol, e muito menos em clave de fá, para Mozart, Chopin e Ravel, sou um mal agradecido do pior que há” e não poderia existir melhor cartão de visita: de um só golpe, inscrevem-se, instantaneamente, na grande tradição de uma outra música clássica, a iniciada por Elvis Presley que também, muito descontraidamente, declarava “Não sei ler música, no meu ramo de actividade não é necessário”. E os Pontos Negros parecem ser a mais recente confirmação da tese: de obscura banda de garagem chocada no viveiro das catacumbas da Igreja Baptista de Queluz e dada à costa na grande maré FlorCaveira/Amor Fúria de 2008, rapidamente saltou para a arena do circo das multinacionais, desesperadas por entrever um oásis no meio do infindável deserto de uma crise que, para elas, chegou muito antes da crise-propriamente-dita, tal como uns valentes milhões de desempregados a conhecem.



E irão os moços dar uma enorme alegria – regional, portuguesa, portanto, não tão enorme assim, mas quem dá o que tem… – a Doug Morris, o CEO do Universal Music Group? Não é impossível. Pelo menos, desde o anterior Magnífico Material Inútil, é obrigatório reparar que, se o “teen spirit” permanece integralmente presente, aquele lado mais desagradável das borbulhas do acne parece definitivamente resolvido. Nem tudo é perfeito mas há condimentos simpaticamente vampireweekendianos enxertados na matriz panque (mantenhamo-nos fiéis à terminologia das origens), um bem apreciável e inteligente domínio da dinâmica da besta pop/rock e, particularmente, em "Se O Variações Fosse O Meu Barbeiro" – todo um programa, como se imagina –, uma assaz promissora derrapagem para a electricidade descontroladamente em roda-livre que não lhes fica nada mal. A seguir com muita, muita atenção.

(2010)

27 December 2009

DEPOIS DA CORRIDA AO OURO



B Fachada - B Fachada




Samuel Úria - Nem Lhe Tocava

Um ano depois de o petardo mediático FlorCaveira/Amor Fúria rebentar, ter-se-à tudo esfumado como acontece, regularmente, com as modas sazonais, ou haverá estilhaços valiosos para recolher? Quando, por essa altura, Tiago Guillul declarava “Há um sentido de desgosto, de não identificação com a maior parte das coisas que a geração à minha volta está a fazer. Quando ninguém nos ouvia, tínhamos a profunda consciência de que éramos pessoas que ninguém ouvia. É preciso que alguém se sinta, às vezes, enojado para conseguir fazer alguma coisa. Há pessoas que não gostam de nós e não gostam por boas razões: 'Estes gajos têm a mania que são espertos!' E, nesse sentido, temos, de facto, a mania que somos espertos em relação ao resto, aquilo embaraça-nos”, estava apenas a tirar partido dos megafones que lhe eram colocados à frente ou, durante os doze meses seguintes, justificou – por obras, além de palavras – aquilo que afirmava?



Dos manifestos da Amor Fúria (“Surge um exército de rapazes e raparigas de caras e almas pintadas, pronto a transformar as emoções colectivas num momento partilhável pelas multidões. Apresentam cantigas, planeiam o fim deste mundo e o início de um novo tempo onde as canções substituam as janelas fechadas dos automóveis, as conversas dentro dos edifícios, as filas de espera para os autocarros, os desesperos solitários”), emergiram, de facto, destacamentos poéticos armados, de carne e osso? Será que o que Samuel Úria escreveu acerca de B Fachada (“Alguém que se julga um povo não pode estar bom da cabeça. Eu não sei o que é que o B Fachada se julga, mas lá que se etnografa a si próprio, etnografa. Giacomette-se consigo mesmo, não pode estar bom da cabeça. Graças a Deus”) teve consequências práticas? O que o próprio Úria confessou sobre si mesmo (“já nasci depois do PREC, tarde demais para proto-punk, branco demais para ser do rap") eram só "soundbytes" rimados ou confirmou-se?



Nada como fazer o balanço: um belíssimo devaneio estival de João Coração (Muda Que Muda); vários EP, compilações e elucubrações artesanais a ensaiar sementeiras diversas; duas ou três estreias com índices de acerto no alvo variáveis (Pontos Negros, Smix Smox Smux, Os Golpes); uma colecção de polaróides de figurões urbano-rurais de B Fachada (Um Fim-de-Semana no Pónei Dourado); um EP de “seis canções que rockam-popam-dançam em cima do tempo” (Meio Disco, de Os Quais); e uma longa pausa de Tiago Guillul que, ainda assim, não o impediu de, aqui e ali, ir opinando com imponderável sabedoria (exemplo: “Sempre os mesmos acordes. Sempre os mesmos xilofones sentimentais. Sempre as mesmas capas péssimas em subtis variações de auto complacência. Sempre os mesmos optimismos insufláveis ianques. Sempre as mesmas queixinhas de classe média. Sempre a mesma coisa. Bruce Springsteen não sabe fazer maus discos"). Chega, agora, o momento em que os piores receios de Guillul (“Irrita-me muito pensar ‘será que isto é o próximo passo, este grau de respeitabilidade crítica em que as pessoas andam todas a dar palmadinhas nas costas umas às outras?...’ O nosso rastilho é um certo prazer em fazer inimigos”) se irão concretizar: Nem Lhe Tocava, de Samuel Úria, e B Fachada (apesar de publicado pela Mbari e já não pela incubadora FlorCaveira), irão fazer muitos amigos e a respeitabilidade crítica está a bater-lhes à porta.



Por mui óptimas razões, aliás: se, nem um nem outro perderam aquela faceta de artesãos que preferem lidar com materiais recolhidos no quintal das traseiras ou em que tropeçaram, acidentalmente, numa investida pelo sótão, tudo atingiu já, um grau mínimo de perfeição de acabamentos que, sem tresandar a produto industrial, também não é, decididamente, apenas coisa de amador jeitoso. Fachada é o diletante que respiga na tradição e a evapora ("Responso Para Maridos Transviados"), quase incorpora o espírito do primeiro Kevin Ayers ("Tempo Para Cantar"), joga ao toca-e-foge com o ié-ié tal como Rui Reininho, em dia de folga, o pratica ("Estar à Espera Ou Procurar"), gainsbourgiza-se levianamente ("Setembro" e "A Bela Helena"), pisca o olho a Vitorino, Cesariny e (no grafismo da capa) aos Trovante e, de tudo isso, constrói uma personagem inteiramente singular de quem não esperamos senão que debite aforismos como “É bom ter má fama, dá para ter vazia a cama, e nesta solidão de Kant, é bom ter de fundo o que anda nas bocas do mundo” e mais uma mão cheia de outros de igual quilate.



Nem Lhe Tocava é um sinuoso, virtuoso e vertiginoso exercício de mimetismo em que, sobre uma camaleónica pele inconfundivelmente lusa, se projectam as sombras do tango, do blues, de Elvis Presley, Johnny Cash, caricaturas de Prince e daquele género de soul gingada nos arraiais de Verão, revisteirices de coreto, sobras da mesa do rock português de 80, e por tão repetidas e rápidas sobreimpressões, transpira nacos de língua em estado de graça nos quais, Úria se confessa (“Pôr sal nas minhas feridas e acordes nos meus brados, derramar mel nas saudades, verter choros sincopados”), se desenha (“Eu nunca fui do prog-rock, sou neo-retro-redneck, nasci num antro só de Enters, já nem sei carregar num Rec”) e, no ultra-waitsiano "Batuta e Batota", abre completa e magnificamente o jogo: “Ou em berço de ouro, ou em disco de prata, brotei já artista ou fiz-me pirata? Um Messias pop, freewheelin com dono, se me biografo ou revisiono”.

(2009)

05 September 2009

DEPOIS DA LUSOFOBIA


Real Combo Lisbonense - Real Combo Lisbonense

Quando, em 1989, os Tina & The Top Ten se apresentaram como "the first all portuguese fake american rock’n’roll band", o caldo de cultura de então na pop-rock portuguesa possuía o equilíbrio de microorganismos exactamente adequado para que o gesto de João Paulo Feliciano (aliás, Dr. Top), Tina Costa, Johnny "Scratch" Money, Captain M. D., Lee "Beaty" Deasy, Cosmic Rita e Plastic Mimi pudesse ser facilmente interpretado enquanto acto de ironia arty, um "scherzo" conceptual em torno das velhas categorias do "autêntico" e do "falso", encenado, de princípio a fim, como se, por um golpe de magia, num universo alternativo, os Sonic Youth – com quem, para adensar a trama do argumento, os T&TTT viriam a estreitar relações e a actuar conjuntamente, em 1993, no Campo Pequeno, em Lisboa – tivessem nascido para o mundo não em Nova Iorque mas algures entre Lisboa e as Caldas da Rainha. E uma das razões porque, nessa altura, não existiriam muitas dúvidas acerca do sentido estético da banda era o facto de, à época – dos GNR aos Mler Ife Dada, dos Rádio Macau aos Pop Dell’Arte – ser absolutamente insólito pretender simular-se uma identidade pop com registo de nacionalidade diferente daquele que o BI exibia.


Nada de extraordinário, afinal: das cantigas de amigo medievais, ao fado, ao amarrotado nacional-cançonetismo ou à geração imediatamente anterior dos cantautores como José Afonso, Sérgio Godinho ou José Mário Branco, a norma “espontânea” (em todas as suas infinitas variações e contaminações) sempre foi a de, com maior ou menor dose de tempero patrioteiro, se compor e interpretar música portuguesa e em português. É, talvez, por isso, que soa um pouco bizarra alguma perplexidade actual perante a inevitabilidade de, após o curto interregno de domínio anglófono iniciado pelos Silence 4 em meados da década de 90, a pop lusa – essencialmente, através das independentes FlorCaveira e Amor Fúria, mas não exclusivamente – ter voltado a proferir frases como “beijas como uma freira” em vez de portentosos absurdos do género “I will build my world, I will sing my songs, I will keep my helmet on”. E duplamente interessante é também, neste preciso instante, darmos com o regresso de João Paulo Feliciano, desta vez, ao leme do Real Combo Lisbonense.



O manifesto/declaração de princípios (com contextualização histórica incluída: “Num mundo em transformação a um ritmo cada vez mais acelerado, corremos o risco de deixar, irrecuperavelmente, para trás muitas marcas, objectos e tradições da maior importância para a preservação da nossa identidade. Na música, uma das tradições que lamentavelmente se perdeu foi a das orquestras e conjuntos que, em meados do século XX, animavam os casinos, hotéis, bares e restaurantes das principais metrópoles ocidentais. Lisboa não era excepção – apresentava, nas décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, uma cena viva de espaços dedicados ao convívio e à dança”) não podia ser mais sério, reivindicando-se dos “clássicos de sempre e pérolas perdidas da música portuguesa”, das “tradições da canção ligeira e romântica”, dos “sons e ritmos oriundos da América do Sul”, do “ twist, (d)o yé-yé e (d)o rock’n’roll”.



E, sem se rir, João Paulo (Hammond, piano, guitarra), Ana Brandão (voz), Bernardo Barata (baixo), Ian Mucznik (voz, guitarra, percussões), João Leitão (guitarra), João Pinheiro (bateria), Márcia Santos (voz, percussões), Mário Feliciano (Farfisa, percussões, voz), Rui Alves (percussões, voz), Sérgio Costa (piano, piano eléctrico, flauta, saxofone) e Tomás Pimentel (trompete, fliscorne), numa atitude “congregadora, transgeracional, transsocial e transcultural”, apelam a que “novos e menos novos, ricos, pobres e remediados”, dançando, participem da “recuperação de algo vital, de manifesto interesse, que se perdeu nessa corrida desenfreada do progresso que tudo atropela e tudo faz esquecer”. Traduzindo: aquilo que, em versão caricatural, Os Tornados, de Twist do Contrabando (ed. Arthouse/Valentim de Carvalho), ensaiam e os OqueStrada, de Tasca Beat, cinematizam e gloriosamente baralham, o Real Combo Lisbonense, assumindo a pose de "first all portuguese fake fifties dance band", junta as pontas soltas do imenso baú de tesouros que as edições Portugal Deluxe começaram a revelar (e que, no plano internacional, a monumental enciclopédia Ultra Lounge arrancou das trevas), puxa o lustro a meia dúzia de suaves frivolidades de Eugénio Pepe, Frederico Valério, Artur Ribeiro, Carlos Canelhas, Byron Gay e Mário Simões (o insano surrealismo de casino de "A Borracha do Rocha") e, tão naturalmente como quem, todos os dias tropeça em Thurston Moore à porta da tabacaria, projecta-as como novas para o enorme coreto do arraial pós-neo-alter-moderno do admirável mundo velho.

(2009)

05 July 2009

BOLONHA



Smix Smox Smux - Eles São Os Smix Smox Smux

Apanhar um comboio já em bom andamento tem vantagens e desvantagens: tanto pode servir para tirar partido do movimento iniciado como, face aos restantes passageiros a bordo, o jogo de comparações não ser o mais favorável. A locomotiva bimotor – FlorCaveira/Amor Fúria – que, durante os últimos meses, tem puxado pela reactivação do pop/rock nacional possui um belo jogo de trunfos para exibir mas isso não deverá ser motivo suficiente para que qualquer nova publicação seja automaticamente louvada. Os Smix Smox Smux, trio da academia-pós-punk de Braga, concluiram a licenciatura (versão-Bolonha) mas ainda lhes falta notoriamente o mestrado e o doutoramento.



A música e a estenografia dos textos – salpicados de referências à coisa-pop de raiz local – têm a cabeça e o coração nos sítios certos, a onda sonora (aqui punk-punk, ali Pavement, acolá, eixo Manchester-Liverpool primeira forma) ainda denuncia demasiado a caligrafia dos mestres e, ao longo de um álbum de treze canções, repara-se bastante que a elasticidade estética e a amplitude do vocabulário musical não são exactamente grandes. Mas antes mil vezes eles que um qualquer outro produto laboratorial-industrial.

(2009)

15 June 2009

"RICH KIDS WANNA HAVE FUN"



Os Golpes - Cruz Vermelha Sobre Fundo Branco

Muito e mui justamente foi escrito acerca da recuperação da melhor época do pop-rock português (e em português) pela dupla de editoras teologicamente irmãs/desavindas FlorCaveira/Amor Fúria. Nem tudo – coloquemos os devidos pontos nos exactos "i" – estaria à altura do verdadeiramente óptimo IV, de Tiago Guillul, mas o ímpeto global do empreendimento estético apontava na direcção certa e, mesmo os mais filosoficamente agnósticos/ateus de entre nós, se renderam à singularidade planetariamente anómala de a reanimação da pop nacional se ver entregue a uma dupla brigada de militantes baptistas/católicos.



Agora, se não se incomodam, um ponto de ordem: o álbum de Os Golpes é bom mas – e isso importa e está na cara – totalmente derivativo do nacionalismo dos Heróis do Mar e pós-punk coevo. Mas, mais decisivo, et pour cause, muito melhor do que eu poderia dizê-lo, afirma-o Tiago Guillul no seu blog, "Voz do Deserto": "Sexta-feira passada, o concerto dos Golpes no Santiago Alquimista mostrou que também os "rich kids wanna have fun". Até para alguém politicamente conservador, como eu, era desconfortável o ambiente. Umas centenas de miúdos bem nascidos ansiosos para fazer daquele 1 de Maio o seu 25 de Abril. No que diz respeito à luta de classes, Marx não se enganou. Existe. E eu vi-a, irremediavelmente favorecendo os verdugos do proletariado, em compasso quaternário com estes olhos que a terra há-de comer". Como diria o ateu Lenine, "que fazer?".

(2009)

09 February 2009

MEIO DO ATLÂNTICO



Os Quais - Meio Disco

Na toca do MySpace, anunciam “seis canções que rockam-popam-dançam em cima do tempo, sem medos, desabitualmente. Fundar o mundo em Portugal, imaginar um sotaque do meio-do-Atlântico” e esclarecem que "pop é o contrário de pop". No BI e no cartão de contribuinte constam como Jacinto Lucas Pires, escritor, e Tomás Cunha Ferreira, professor e pintor. Meio Disco (designação apropriada para o que, quando ainda existiam discos, se designava por EP, no caso, com seis faixas) é editado pela Amor Fúria o que, a fazer fé na taxonomia do pastor-irmão, Tiago Guillul, indicia a emergência de uma parceria de perfil católico, baptizada, digamos assim, a partir de uma tradução literal de The Who.



Em termos mais terrenamente agnósticos, assegure-se que começam muito bem com o belo balanço eléctrico a acompanhar as palavras “Não me olhes assim, vamos comer carne, mas com nomes falsos, vamos pelo jardim pisar obras de arte, mas com pés descalços”, prosseguem em óptimo andamento piscando repetidamente o olho ao Caetano Veloso de (parente próximo do outro do Tropicalismo) e concluem bravamente num improvável matrimónio dos Clash com o espírito de John Coltrane (via Carlos Martins) e um poema de José Tolentino de Mendonça. O disco inteiro promete.

(2009)

28 December 2008

FUTURO AQUI?



Enquanto o mundo, primeiro, invisivelmente, depois, de forma estrondosa, assegurava que, de uma vez por todas, atribuíssemos o verdadeiro sentido a “It’s The End Of The World As We Know It” (sem que, no entanto, fossemos capazes de, imperturbavelmente, lhe pronunciar o anexo “and I feel fine”...), uma canção dos R.E.M. com 21 anos, no admirável universo da música era apenas “business as usual”. Um “business” que, sem dúvida, “as we knew it”, caminha, inexoravelmente, para o seu declínio – a queda nas vendas de fonogramas físicos aprofunda-se, muito insuficientemente compensada pelas vendas legais “online” e em gigantesca devantagem face aos “downloads” ilegais – mas que nem assim se sentiu verdadeiramente estimulado para, perante a hecatombe, mudar radicalmente de processos. Enquanto indústria e enquanto manifestação estética, em 2008, a música pareceu continuar a viver estranhamente isolada no interior de uma bolha impermeável aos abalos externos, reciclando-se infinitamente, rapando o último fundo aos catálogos, persistindo em métodos de uma idade bem anterior à emergência da Internet, continuando a publicar-se belíssima música (e, naturalmente, também excremento sonoro em abundância) mas nada a partir de onde se pudesse enxergar sinais de futuro. Negro ou luminoso, mas, pelo menos, futuro.



Curiosamente, num cenário onde, entre legiões de melancólicos aspirantes a descendentes de um “one night stand” de Woody Guthrie com June Carter numa cabana das Apalaches e sucessivos e vertiginosos revivalismos, o único fenómeno genuinamente inesperado – a relativamente nova “cena de Brooklyn”, dos Vampire Weekend aos High Places, parece ter potencial renovador mas Nova Iorque sempre foi terreno reconhecidamente fértil –, deste ponto de vista onde nos situamos, foi o que eclodiu nos subúrbios de um diminuto lugar periférico, à beira de mais outra fatal depressão. A saber, Portugal, de Queluz a S. Domingos de Benfica, das caves de Igrejas Baptistas para um circuito alternativo ao alternativo, compondo, em português, “panque-roque” e tosco “folque” artesanal, com epicentro em editoras como a FlorCaveira e AmorFúria e protagonistas de nome Tiago Guillul, Pontos Negros, Samuel Úria, João Coração ou B Fachada. Pop “povera” e a que repugnam os “valores de produção”, vivendo de um excesso de convicção e, por aí mesmo, sinal dos tempos e matéria de proclamações, provocações e manifestos. Por uma vez, se surpresas houve, nasceram aqui e não sabemos como evoluirão. E isso é muito bom. Porque o destino de quase todo o resto não poderia ser mais previsível.

(2008)

14 December 2008

CANÇÕES DE PROTESTO *



No lado oposto da praceta em que se situa a imobiliária Sétimo Céu, Tiago Guillul abre-me a porta e, com uma cortesia quase fora de época, convida-me a visitar as modestas instalações da Igreja Baptista de Benfica - “a vantagem é que todas as outras parecem logo grandes” - onde combinámos encontrar-nos. O local não seria, talvez, o mais aconselhável para isso mas o meu plano era claro: pretendia, essencialmente, conhecer o criador da editora FlorCaveira, responsável pela actual e surpreendente segunda vaga de “música moderna portuguesa” (herdeira directa da que, nos anos 80, praticamente inventara um vocabulário luso para o rock), também autor-compositor de, nas suas próprias palavras, “panque-roque”. A sua condição de pastor/pregador evangélico, essa, desejava bastante colocá-la entre parêntesis, para que a faceta teologicamente “exótica” que tende a ser-lhe associada, não ocupasse o primeiro plano. Porém, ao fim dos primeiros minutos de conversa e após meia dúzia de frases pontuadas por observações do tipo “nós, enquanto protestantes” ou “como projecto português, católico”, tornou-se absolutamente evidente que não haveria modo de lhe fugir. Citei Frank Sinatra em The Man With The Golden Arm - “let's go down and dirty!” - e permiti, então, que Tiago explicasse exaustivamente o punk que há na sua teologia (e vice-versa) e na de companheiros de viagem como Samuel Úria, João Coração, Os Pontos Negros, B Fachada ou na editora-“irmã” (mas católica...) AmorFúria.



“Há, de facto, uma certa tendência para poluir o que se escreve sobre nós com aquela estranheza 'Ah, é um padre protestante...'. Tenho a certeza que há até quem nem sequer nos oiça por causa destas ressonâncias religiosas: as pessoas ficam tão maçadas, com a ideia de ter um pregador a fazer um disco que pode, eventualmente, colher boa crítica, que se recusam a escutá-lo. Reconheço que há um exagero no meu discurso analítico de autovalidação quase-National Geographic desta coisa. Mas, a alguém que cresce como protestante, também é difícil a sua condição não estar perante tudo. No limite, acho que a música deste universo sobrevive por si. Uma das coisas que mais me surpreendeu foi que boa parte das pessoas que têm falado sobre nós fá-lo independentemente das questões religiosas e ideológicas”, começa por dizer. O problema, no entanto, poderia ver-se de outro ângulo: porquê incluir à viva força na equação a questão religiosa, à maneira de John Zorn que, na colecção “Great Jewish Music”, não descansou enquanto não nos fez saber que Burt Bacharach, Marc Bolan ou Serge Gainsbourg eram judeus? Guillul, “motormouth” profissional (“é característica de pregador”), não desarma:



“Independentemente de as pessoas serem ou não católicas em Portugal, a matriz católica atravessa a crença ou não crença de cada indivíduo. No cristianismo não católico, a assunção da diferença está sempre presente. Na cultura americana, onde a diversidade religiosa é vivida como condição inaugural, existe essa capacidade de nos colocarmos uns junto dos outros mas na nossa diferença. Aqui, as pessoas são muito cautelosas em relação aquilo que presumem ser uma diferença. Não estou a fazer um hino à diferença até porque não acredito nela como abstracção. Mas tem um potencial que acho desafiador, interessante e divertido. Há amigos que se irritam comigo quando faço tanta questão de ser suburbano. Mas uma das coisas de que me apercebi quando entrei para a faculdade é que há uma grande diferença entre crescer na Amadora ou em Lisboa. É um clima muito português – eu diria, razoavelmente católico – pensar que 'está tudo bem', uma certa universalidade que se exprime através daquela frase 'no fundo, no fundo, estamos todos a dizer a mesma coisa', quase sempre quando as pessoas estão a discordar!... Depois, calha-nos a nós, aos evangélicos – que são protestantes mais vitaminados –, o papel de exagerar o outro lado”.



Recuo temporal de quinze anos, até 1993 e às primeiras aventuras punk que, após sucessivas encarnações, desembocaram nos Bible Toons (“uma banda de punk-hardcore, muito suburbana e panfletária como o punk-hardcore costuma ser”) que, em Queluz, criou um microfenómeno regional: “É preciso ver que Queluz é um daqueles sítios onde não há espaços para se tocar e, ao fazermos parte de uma igreja Baptista grande, tínhamos sempre sala para dar concertos e ensaiar. A mesma onde, ainda hoje, ensaiam Os Pontos Negros que são uma espécie de segunda vaga do movimento musical a sair de lá. No final do meu curso, essa banda deixa de ser uma coisa tão fechada e começo a fazer coisas menos típicas de um universitário, deixo de ouvir apenas as coisas pelas modas suburbanas, começo a ter pretensões mais intelectuais e oiço, por exemplo, bandas 'fundadoras' como os Clash e os Sex Pistols. Os Bible Toons passam a chamar-se A Instituição e, nessa altura, já procurávamos um pouco - o que ainda terá a ver com muitas coisas que, hoje, fazemos - uma certa ideia de 'música moderna portuguesa', na antiga acepção que a expressão teve com grupos como os Heróis do Mar ou os GNR. A Instituição começa por ser uma banda de hardcore que se tornou mais punk e eu, como pessoa razoavelmente chata e pretensiosa, começo a criar teorias... Com a dissolução d'A Instituição, acaba também um certo sonho de 'banda adolescente'”.



A música, contudo, teima em persistir. Informalmente, a FlorCaveira já existe desde 1999 mas só é levada mais a sério a partir de 2002, quando as suas edições (“essencialmente, os meus discos a solo e nos desdobramentos em colectivo que foram existindo; o Samuel Úria foi a primeira pessoa a chegar que não era de Queluz, embora viesse também de uma igreja Baptista de Tondela”) começam a ser numeradas (“o primeiro foi o meu Fados Para o Apocalipse Contra A Babilónia). Objectivamente, por essa altura, “são dez ou doze pessoas que se vão gerindo em projectos colectivos e individuais e sem grande capacidade de sair fora desse universo muito em circuito fechado”. Uma página no MySpace, o convite para a gravação de sessões de rádio na Antena 3 e tudo muda: “É o primeiro momento em que nós, que vivíamos na nossa condição de semiartistas incompreendidos, nos apercebemos que, aqui e acolá, começa a haver algum interesse e pessoas do universo da música começam a saber que nós existimos. Os Pontos Negros são a banda que acaba por ser apanhada em apogeu – o Samuel Úria usa uma expressão bastante apropriada para os descrever: 'a FlorCaveira para as massas'. Revejo-me um pouco neles como se, há dez anos, a minha banda adolescente tivesse dado certo. Ensaiam e trabalham de um modo para o qual nunca tivemos muito talento: preparar as músicas e estar lá tudo muito quadradinho e tudo definido. Geraram um pequeno burburinho dentro deste meio”.



O contágio, entretanto, acontece: “O Manuel Fúria conheceu-nos através do MySpace e a FlorCaveira, de certo modo, surgiu como inspiração para o projecto da AmorFúria”. Embora - e ei-lo, de novo, lançado - “enquanto projecto português, católico, seja um projecto megalómano. Coisa com que nós não temos nada a ver. Até porque, como protestantes, uma das coisas que nos marca um bocado é uma certa incapacidade de nos encontrarmos na cultura popular do país. Quando começa o plano da Amor Fúria é logo para dominar o país todo, para ser uma canção pop que chegue a toda a gente, é um projecto ultravitaminado de um católico que se sente à vontade para acreditar. Nós sempre achámos que a nossa coisa era muito evangélica, estamos aqui nas caves, não temos catedrais, tem a ver com a cultura protestante, o espírito de livre iniciativa. A FlorCaveira é feita de uma certa tendência protestante para não procurar legitimidades externas, não temos 'imprimaturs'.



Foi este “excesso de convicção” que acabou por determinar a forma e a substância do programa estético e ideológico: “Se não fosse isso (passando, obviamente, pela questão da religião), creio que nunca levaria as coisas tão a sério e com aquela atitude do tipo chato que olha para a música quase como uma agenda. Quer no início, com o punk, quer, depois, no desencanto mais pós-moderno da coisa, com a recuperação da ideia de 'música moderna portuguesa'. A utilização da língua portuguesa sempre foi, para nós, uma questão ideológica. Já se zangaram comigo quando se tem esta conversa de como é que se olha para a língua. Se não houvesse este exagero, acho que a FlorCaveira não existia. É este ataque filosófico que permite insuflar as outras coisas de uma convicção para além dos contextos. Há um sentido de desgosto, de não identificação com a maior parte das coisas que a geração à minha volta está a fazer. Quando ninguém nos ouvia, tínhamos a profunda consciência de que éramos pessoas que ninguém ouvia. Mas sempre foi claro que não estava a ser ouvido porque, se calhar num exagero de 'self-righteousness', não fazia parte de uma coisa com a qual não me identificava. É preciso que alguém se sinta, às vezes, enojado para conseguir fazer alguma coisa. Há pessoas que não gostam de nós e não gostam por boas razões: 'Estes gajos têm a mania que são espertos!' E, nesse sentido, temos, de facto, a mania que somos espertos em relação ao resto, aquilo embaraça-nos. Isto são pequenas novelas, paroquialíssimas, do país que somos, mas a maioria das reacções vem de algumas pessoas da música alternativa e independente, porque se apercebem de que, vindo nós do mesmo contexto, nunca estivemos nas capelas onde as coisas aconteciam e sempre as desprezámos. Isto não é treta: sempre achei que a FlorCaveira tinha mais a ver com a música ligeira dos artistas que vendem nas feiras que funcionam, de facto, em sistema de música independente, do que com as supostas bandas punk que faziam um barulho parecido com o nosso”.



Por esta altura, já tinha confessado a Tiago Guillul o meu agnosticismo com uma costela ateia em vigoroso desenvolvimento (ainda que leitor compulsivo de livros sobre religião). O que, certamente, limita consideravelmente o meu conhecimento desse peculiar fenómeno do “rock cristão” que, no entanto, sempre me pareceu algo de severamente betinho, enjoativamente FM, penteadinho e asséptico. Adjectivos que nunca me passaria pela cabeça aplicar às edições da FlorCaveira. Mais uma daquelas originalidades portuguesas? “Um dos meus amigos mais antireligiosos diz que faz todo o sentido que, em Portugal, alguma coisa interessante tivesse de nascer à custa da religião! Eu diria que se trata de sentido de humor divino... de facto, alguma coisa com alguma energia ser obrigada a sair da cave de uma igreja é, sem dúvida, uma grande ironia. Mas há que dizer que a maioria das pessoas das nossas igrejas nunca gostou muito da nossa música e sempre a achou um pouco desviante. Na minha igreja, das poucas pessoas que lêem jornais, volta e meia, uma ou outra diz ‘Olha, o Tiago anda a aparecer nos jornais!...’ As pessoas não fazem a mínima ideia do que está a acontecer. Isto para dissipar aquele receio de que os evangélicos são um braço armado qualquer, que isto é um plano de dominação! Antes pelo contrário: o pai do Silas – um dos Pontos Negros – está preocupadíssimo com o filho. No nosso meio, sempre fomos olhados com alguma desconfiança. Nesse sentido, é verdade que a nossa música tem muito pouco a ver com o cliché do ‘rock cristão’. A maior parte é um pastiche muito desinteressante, tanto a nível musical como lírico é muito pobre”.



Insisto na questão das opções estéticas: a faceta “lo-fi”, artesanal e amadora, é deliberada, desejada, ou apenas consequência da penúria? Se o editor e produtor Tiago Guillul tropeçasse numa mala forrada de dinheiro, a identidade sonora da FlorCaveira sofreria alterações radicais? “Sou uma pessoa que se deslumbra facilmente. É uma luta pessoal até em relação à minha fé. Há uma certa vaidade na pobreza mas também nos vendemos rapidamente pelo prato de lentilhas. Eu não demonizo a alta-fidelidade. Quando produzi o disco dos Pontos Negros, ia até um pouco amedrontado para os estúdios da Valentim de Carvalho, cheios de história... eu que não tinha experiência nenhuma. Sou, sobretudo, o gajo que tem a mania que é intelectual e tem teorias sobre a música. Mas, embora o álbum dos Pontos não seja nada de genial a nível de produção, acho que ter lá estado protegeu-o de muita coisa que poderia ter acontecido. A minha relação com a música sempre foi demasiado urgente, sempre quis gravar logo e encerrar capítulos, sem pensar em regravar mais tarde quando houvesse melhores condições técnicas. Se calhar, isto é excesso de poetização mas, quando vou ouvir o que gravei num quatro-pistas, com relativa baixa-fidelidade e sem grande domínio sobre os meios técnicos, há uma surpresa relativamente à minha música: tinha uma ideia vaga de como poderia ser mas aquilo é ainda outra coisa. Isso continua a seduzir-me muito. Porque, tecnicamente, sempre fui um desastre, abandono-me um bocado ao que acontece. Hoje, é mais fácil as pessoas ouvirem isto embora ainda haja quem diga ‘O quê? Este disco está à venda na FNAC? Nem sequer foi masterizado...’ Claro que é uma espécie de vaidade, ‘Toma lá que nem masterizado foi!...’, especialmente agora que as bandas gastam rios de dinheiro a enviar as gravações sabe-se lá para onde, para as masterizações... No início, pode ser uma questão de meios mas, depois, há um lado talvez menos interessante porque já não é tão inocente (embora o interesse da inocência seja, provavelmente, perdê-la...). Quando comecei a ouvir o Tom Waits dos anos 80, foi uma espécie de validação à posteriori para o que eu, sem querer, tinha começado a fazer. Mesmo o Dylan que, de alguma maneira, sempre tinha transportado os erros para a sua música. A determinada altura, há um encontro entre não haver meios e um desencantamento com o que acontece quando os meios existem. Sinto que precisava de dominar muito bem o estúdio para achar que valeria a pena. Aquilo tem uma certa frieza com que não me dou bem, a pessoa parece que vai fazer um electrocardiograma... as coisas estão lá, está a ouvir-se tudo mas, do outro lado, falta aquele excesso de narrativa que continua a agradar-me. Não estou para gastar dinheiro em estúdio, o que se esbanja é uma loucura. Ainda por cima, hoje em dia, já não há justificação”.



Entretanto, com a crescente projecção dos diversos músicos e bandas da FlorCaveira/AmorFúria, uma terrível ameaça espreita: a da respeitabilidade crítica. Tiago não a ignora, já se apercebe dos primeiros sinais e... teme-a: “A respeitabilidade crítica é uma coisa tipicamente portuguesa. Quer dizer, se calhar, também não é só cá, nunca vivi lá fora...Uma pessoa grava um disco e, logo ao segundo, chama toda a gente para participar. Eu gosto do Jorge Palma mas, se pusessem uma bomba no videoclip do 'Encosta-te a Mim', a música portuguesa morria ali, estão lá todos! Isto é enjoativo, sempre detestei esta coisa do 'somos todos amigos e, agora, vou gravar uma harmónica no teu disco'. Gosto da música dele mas acho o Sérgio Godinho um chato. É um chato com a desvantagem de ter talento, o que acontece volta e meia. É o cantor português respeitado pelos antigos e pelos novos. É como os rappers a dizer bem do Carlos do Carmo. Também gosto do Carlos do Carmo mas esta coisa de dizer 'o Carlos do Carmo é um senhor!'... É o que dizia o O'Neill, 'é um país que se assoa à gravata'. Irrita-me muito pensar ‘será que isto é o próximo passo, este grau de respeitabilidade em que as pessoas andam todas a dar palmadinhas nas costas umas às outras?...’ O nosso rastilho – e, aí, tenho novamente de insistir que é uma coisa um bocado protestante – é um certo prazer em fazer inimigos”.

* (versão integral da entrevista publicada no "Actual"/"Expresso" de 13.12.08)

(2008)

27 October 2008

BEM-VINDOS AO RENASCIMENTO!



Tiago Guillul - IV




João Coração - Nº 1 Sessão de Cezimbra




Os Pontos Negros - Magnífico Material Inútil

O pop/rock português não teve, praticamente, Pré-História. Escutaram-se apenas uns vagidos inaugurais (que, volta e meia, são reeditados “por causa da nostalgia”) em versão mimética e pobrezinha do que, de Elvis aos Beatles, Shadows e horrores “prog” avulsos, se fazia no grande mundo e, por esse motivo, queimando etapas, no final dos anos 70/início de 80, saltámos directamente do Homo habilis para a Idade Clássica. Entrámos, naturalmente, pela porta do punk/new wave mas, rapidamente, recuperámos os milénios perdidos através de bandas, editoras “independentes” e lugares capazes de – à dimensão local – constituir uma vigorosa “cena” esteticamente autónoma das referências iniciais, com rosto próprio e espaço suficiente para “mainstream” e aventuras marginais. Entre os Pop Dell’Arte e os GNR, a Ama Romanta e as “majors” que surfaram a onda, os Mler Ife Dada e os Xutos & Pontapés, a Sétima Legião, o Rock Rendez Vous e os Heróis do Mar, o Quinto Império de Vieira parecia chegar, de guitarra eléctrica em punho e carregado de saudades do futuro. Porém, como o dos Césares, também este acabaria por ajoelhar às mãos dos bárbaros, adoptar o idioma e os costumes do invasor e mergulhar numa prolongada Idade das Trevas que a emergência de um ou outro herético não bastaria para pôr termo. A imaginação da espécie, como se sabe, é limitada e a História (para o pior e para o melhor) repete-se. Aproveitemos, então, estes dias: parece ter, finalmente, soado a hora do Renascimento e da recuperação dos valores clássicos!


Tiago Guillul - "Beijas Como Uma Freira"

A Florença do pop/rock luso situa-se algures entre Queluz e S. Domingos de Benfica – com derivações para outras coordenadas – e os seus mecenas e artistas (que, por vezes, coincidem) são gente animada daquele espírito que conduz a redigir manifestos e proclamações (“Surge um exército de rapazes e raparigas de caras e almas pintadas, pronto a transformar as emoções colectivas num momento partilhável pelas multidões. Apresentam cantigas, planeiam o fim deste mundo e o início de um novo tempo onde as canções substituam as janelas fechadas dos automóveis, as conversas dentro dos edifícios, as filas de espera para os autocarros, os desesperos solitários”). O quartel-general/laboratório aloja-se nas editoras FlorCaveira e Amor Fúria e, se lhe quisermos identificar um porta-voz, escolhamos Tiago Guillul que, a si mesmo (em página do MySpace), se define como cidadão “casado, monogâmico, pai de três filhinhos, pregador baptista, escreve em cantos obscuros da imprensa”, adopta como lema “religião e panque-roque” e refere como influências “o Evangelho do Senhor Jesus e o Roque-Enrole”. Atenção: aqui não existe uma gota de comédia! Há, certamente, ironia e sarcasmo de sobra mas todas as declarações devem ser levadas a sério. A quarta publicação de Guillul (antecedida de Fados Para o Apocalipse Contra a Babilónia, 2002, Mais Dez Fados Religiosos de Tiago Guillul, 2003,e Tiago Guillul Quer Ser o Leproso Que Agradece, 2004, todos publicados pela FlorCaveira) é o género de OVNI estético que sobrepõe sem problemas apostolado tão convicto quanto verrinoso (“Igrejas Cheias ao Domingo”, “Pior Que Gente Devassa É Um Clero Com Preguiça”) ácido sulfúrico “à la Dylan” (“murmuras modelo em Madonna mas tu beijas como uma freira”), imprecações literalmente incendiárias (“se o país tivesse de arder seria pela minha mão, Portugal tornar-se-ia a lareira da Europa”) e infantilidades surrealmente dementes, em gloriosa encenação sonora que faz ricochete do “panque” para o arraial “cool”, da tasca para o altar.


João Coração - "Dobra"

Pelo meio de um arquipélago densamente povoado de outros nomes – Ninivitas, Manuel Fúria, Os Lacraus, Almirante Ramos, Samuel Úria –, em Nº1 Sessão de Cezimbra, João Coração entrega-se a um estilo de canção acústica com iluminuras “bruitistas”, nascida da improvável intersecção de um Chet Baker sonâmbulo com um Fausto perdidamente romântico, embora ele prefira falar de outros (Arvo Part, Bob Dylan, Camané, Tom Waits, Will Oldham, Erik Satie, Fiona Apple, Cohen, Caetano, Nick Drake, Variações) e de cinema (Godard, Truffaut, Vincent Gallo, Tarkovski, Cassavettes, Murnau). Muitas vezes mais balbuciada e suspirada do que propriamente cantada, é uma pequena música de crepúsculos cujo melhor exemplo, a mui waitsiana “Fado do Bolo Alimentar”se encontra na sua página do MySpace.



Por fim, do lado do neo-punk “teen”, Magnífico Material Inútil, dos Pontos Negros, não será ainda exactamente a “ponte para esse longínquo oásis da cantiga certeira do roque português” que o produtor Guillul anuncia mas, nesta variante de Strokes com infusão bíblica e “crítica social” ingénua gerada na cripta de uma igreja baptista, há francamente mais energia e futuro do que em mil e um produtos formatados com que a indústria se entretém.

(2008)