FEAR AND LOATHING IN LISBOA
Hoje - Amália Hoje
Alexandre O’Neill, David Mourão-Ferreira, Camões, José Régio, Pedro Homem de Mello, Reinaldo Ferreira, Luís Macedo. Alguns dos maiores estetas da língua portuguesa escreveram para a voz de Amália Rodrigues. Para que, à beira do final da primeira década do século XXI, as suas canções fossem abandonadas às mãos de quem, em luxuosa e cara edição cartonada – cujos textos terão sido supostamente revistos –, é capaz de supliciar o Português redigindo barbaridades como "não haviam notas, não haviam letras". Poderia ser (sejamos generosos...) só gralha se não fosse sintoma: Nuno Gonçalves, (The Gift), Sónia Tavares (The Gift), Fernando Ribeiro (Moonspell) e Paulo Praça, fria e calculadamente, aplicam-se na missão de transformar nove canções de Amália (mais, inexplicavelmente, "L’Important C’est La Rose") em matéria kitsch de Festival da Eurovisão. Esses são, ainda, os melhores exemplos. As outras, algures entre banda sonora de bar de alterne e a "playlist" da Ovibeja, chafurdam (vozes, arranjos e orquestrações) na abominação. Não é uma questão de purismo – o reportório de Amália é tão susceptível de ser relido e reinventado como qualquer outro – mas de pura e visceral repugnância. Onde estão as providências cautelares quando mais falta fazem?
(2009)