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15 October 2009

O PENSAMENTO FILOSÓFICO PORTUGUÊS (XXVIII)

Jorge Coelho


Quando Jorge Coelho, eminente empreiteiro, optimista antropológico e Tarzan da crítica musical, coloca Amália Rodrigues no seu devido lugar e, de caminho, aproveita para reduzir o que escrevi à merecida insignificância, só resta meter o rabo entre as pernas e reconhecer que, perante um mestre (de obras), há que guardar o mais respeitoso silêncio.

"Eu vi um espectáculo fabuloso, há quatro ou cinco dias, da Amália Hoje: pegaram em canções que são tristes, canções que têm o destino traçado, e transformaram-nas em música pop, alegre, virada para o futuro. Eu acho que também temos que acreditar que é possível ter um futuro melhor". (Jorge Coelho, aqui, no "Gato Fedorento")

(2009)

17 August 2009

UMA QUESTÃO CADA VEZ MAIS DOCUMENTADA CONTEMPORANEAMENTE
 

Madredeus & A Banda Cósmica - A Nova Aurora

Os mais optimistas de entre nós acreditavam que, no processo de involução dos Madredeus, Metafonia – primeira encarnação da dupla entidade Madredeus & A Banda Cósmica – teria sido o tombo derradeiro no fundíssimo poço da liquefação new-age, o ponto de não-regresso definitivo. É no que dá ser optimista... afinal, o fundo do poço é elástico e consegue descer sempre um pouco mais: A Nova Aurora apresenta como único mérito o facto de ter descoberto o lugar geométrico onde o easy-listening de Holiday Inn se cruza com a metafísica de papelão à la Paulo Coelho e ambos caminham em filinha sorridente para o estatuto de hino de campanha das Laurindas deste mundo. Confessadamente “dedicado a cantar a maravilha da evolução espiritual da Humanidade, à medida que vai descobrindo a dimensão do Universo físico em que se encontra o Sistema Solar”, aspira à condição de “cantata popular” acerca do “Homem na sua escala de ser vivo e consciente, recentíssimo episódio da história do planeta e da sua origem, uma questão cada vez mais documentada contemporaneamente”. Derrama-se, então, sobre os ouvidos incautos, uma ânfora inteira de xarope melódico em ponto de pérola (temperado com “plins” mais ou menos “espaciais”, mais ou menos “étnicos”), por onde sobrenadam nacos de profético enlevo (“Sós, não estamos sós, há-de haver outros além de nós, eles hão-de vir e tudo há-de ser normal, quer-me parecer que se vierem tudo há-de ser normal”), perplexidades de Twilight Zone (“olho-me ao espelho e vejo, não é o presente momento, mas outro momento qualquer, estou noutra dimensão”), existencialismos galácticos (“As naves cruzam o espaço frio, os homens lutam contra o vazio”), proclamações de misticismo visionário (“Da noite profunda nasceu uma nova aurora e a esperança de novo alvorecer”), elucubrações de astronomia esotérica (“O planeta gira sozinho, volta não volta, anda tudo a girar, o cometa roda num círculo, volta não volta, acabamos de acordar”) e, acima de todos, o manifesto em "spoken word" sobre eco de vozes-do-Além, "A Trajectória do Afastamento", sobre o Big-Bang, as partículas cósmicas, os colegas, os pais, os filhos, o “Ritual” e os “Laços do Amor”. Nos quatro meses que ainda restam tudo é possível. Mas não é fácil imaginar que algum competidor à altura se consiga intrometer entre Amália Hoje e A Nova Aurora na assanhada disputa pelo título de pior álbum do ano.

(2009)

17 May 2009

FEAR AND LOATHING IN LISBOA



Hoje - Amália Hoje

Alexandre O’Neill, David Mourão-Ferreira, Camões, José Régio, Pedro Homem de Mello, Reinaldo Ferreira, Luís Macedo. Alguns dos maiores estetas da língua portuguesa escreveram para a voz de Amália Rodrigues. Para que, à beira do final da primeira década do século XXI, as suas canções fossem abandonadas às mãos de quem, em luxuosa e cara edição cartonada – cujos textos terão sido supostamente revistos –, é capaz de supliciar o Português redigindo barbaridades como "não haviam notas, não haviam letras". Poderia ser (sejamos generosos...) só gralha se não fosse sintoma: Nuno Gonçalves, (The Gift), Sónia Tavares (The Gift), Fernando Ribeiro (Moonspell) e Paulo Praça, fria e calculadamente, aplicam-se na missão de transformar nove canções de Amália (mais, inexplicavelmente, "L’Important C’est La Rose") em matéria kitsch de Festival da Eurovisão. Esses são, ainda, os melhores exemplos. As outras, algures entre banda sonora de bar de alterne e a "playlist" da Ovibeja, chafurdam (vozes, arranjos e orquestrações) na abominação. Não é uma questão de purismo – o reportório de Amália é tão susceptível de ser relido e reinventado como qualquer outro – mas de pura e visceral repugnância. Onde estão as providências cautelares quando mais falta fazem?

(2009)