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02 December 2022

 
(sequência daqui) Gravado entre a Primavera e o Verão de 2021, foi literalmente sacudido por duas tempestades: a que abalou o Mèxico e, enquanto escrevia a faixa de abertura, "Paloma" (“I woke up at the darkest hour, every light upon the shoreline was out, I gazed out into the deep blue, as the thunderous waves roared, in the black of night, I wouldn’t be taken aback, if the water came up and swept us out to sea“), deixou Alela às escuras; e o furioso ciclone na região do Pacific Northwest que atiçou devastadores fogos florestais mas também a escrita de "Howling Wind" (“Howling wind, there's a howling wind, a wild wind that's howling through all that we've built”), metáfora para “estes tempos de incerteza, fragilidade, guerra, doença e brutalidade”. Delicada folk de câmara iluminada pelos arranjos de cordas de Heather Woods Broderick.

30 November 2022

NUM MUNDO ÀS AVESSAS

Em Through the Looking-Glass, and What Alice Found There – a sequência de 1871 para Alice's Adventures in Wonderland, publicado seis anos antes –, Lewis Carrol faz Alice penetrar, através de um espelho, num outro mundo fantástico no qual, tal como sucede numa imagem reflectida, tudo se encontra invertido. A propósito de Looking Glass (sucessor de Cusp, 2018), Alela Diane reconhece a ascendência literária e, à God Is In The Tv, explica: “Após a pandemia, demos connosco a viver num mundo às avessas, o oposto do que seria normalmente de esperar. Uma grande parte da nossa realidade foi distorcida através de uma lente com que não contávamos. No contexto do álbum, Looking Glass tanto se refere a um portal para o passado e o futuro como é um reflexo de tudo o que existe entre ambos. Tiraram-nos o tapete debaixo dos pés. Amparámo-nos na memória, aprisionados no aquário das nossas casas – acenando a um amigo através do vidro. Um ecrã de telemóvel – uma conversa por Zoom –, a toca digital do coelho deixada para trás por aqueles que desapareceram das nossas vidas ou, simplesmente, se afastaram”. (daqui; segue)

23 May 2018

TELA BARROCA


“To be on the cusp” significa “estar à beira de”, “prestes a”, “na iminência”. Ou, no caso de Alela Diane, nascida a 20 de Abril de 1983, o dia de transição – "cusp" – entre o Carneiro e o Touro do Zodíaco (não acreditamos mas é simpático que alguém tenha descrito esse dia como “a data em que nasce o amor físico, o início de todos os prazeres, o ponto no qual a energia se converte em matéria”). O que voltaria a acontecer com a sua segunda filha, Oona, vinda ao mundo a 20 de Fevereiro de 2017, "cusp" de Aquário e Peixes. Um parto difícil e prematuro que deixaria Alela “on the cusp of life and death”. Com mais ou menos tempero esotérico, a dose suficiente de coincidências e drama para não ser demasiado estranho ter atribuído o título Cusp ao seu quinto álbum a solo, ensaio intensamente poético sobre a experiência da maternidade, observada sob ângulos vários. 



Provavelmente, mais autobiográfica em "Threshold" (“Certain things cannot be explained even when you're on the other side, I'm standing in the threshold between two white rooms, in each I see a vision of something I hold true”), deliberadamente política em "Émigré" – inspirada na fotografia de Aylan Kurdi, o menino refugiado sírio afogado numa praia da Turquia –, com o arranjo de cordas a submergir literalmente as palavras (“I can feel the fear hang heavy on the water, glinting sharply with the pale moonlight, mothers hold on tightly to your children as the waves are breaking violently tonight”), evocando Sandy Denny – perturbadíssima mãe de uma bebé prematura mas autora e voz sobrenatural – em "Song For Sandy" (“A lady came from London town, her voice like water from a snowmelt stream, shared her songs in drunken rooms, never once sang out of tune”), Cusp é uma belíssima tela de folk requintadamente barroca que, aqui e ali, dir-se-ia ter tido a mão de Van Dyke Parks: escute-se a alucinada insolação de "Yellow Gold" (“Colors, colors, swallow me whole, weightless, brightness, abandoning fear, turbines spinning, indigo skies, mirages flicker on the endless desert road”) ou a impressionista beatitude intrauterina de "Buoyant" (“Buoyant in the water, swimming in the river, she was floating sweet within me, waiting on the other side”) e não se duvidará que, ao contrário do que Alela Diane supõe (ler entrevista), a folk actual está em muito melhor forma do que quando parecia "on the cusp" de voltar a conquistar o mundo.

22 May 2018

UM PONTO DE EQUILÍBRIO


Cinco anos após About Farewell, Alela Diana publica Cusp, um álbum composto entre o nascimento das duas filhas e – por esse motivo mas não só – acerca da experiência da maternidade: “Se somos artistas mas também mulheres e mães, o caminho é muito mais difícil. Neste disco, quis especificamente escrever sobre esse tópico. Tenho a sensação que se espera que o varramos para baixo do tapete, não se fale mais nisso e se ande para a frente como se nada tivesse acontecido nem merecesse ser abordado. Mas, para mim, mudou tanto a minha vida que não me passaria pela cabeça não escrever sobre isso”. Um saber de amarga experiência feito: “Exerce-se uma enorme pressão sobre as mulheres para serem jovens, belas e se manterem desejáveis, e a questão da maternidade levanta imensos obstáculos. Quando fiquei grávida da minha filha mais velha, tinha saído da Rough Trade mas havia uma outra editora que estava interessada. No entanto, assim que souberam que eu estava grávida, desistiram. Tinha-me tornado, subitamente, obsoleta, inapta para trabalhar, dar concertos, e um enorme problema de marketing. Isto tem um nome: discriminação”. 

    Cusp foi composto durante uma residencia artística no Arts Center de Caldera, na encosta das Cascade Mountains, no Oregon. Mas To Be Still (2009) também já havia resultado de um processo semelhante de isolamento, numa cabana de Portland, apenas com um gato por companhia...

Foi bastante diferente. No caso de To Be Still, eu, de facto, vivia numa cabana, em Portland. Era mais nova e tinha toda a reclusão de que precisava. Desta vez, tratou-se de uma residência artística, durante três semanas e meia, em Caldera, no Oregon, em Janeiro de 2016. Já tinha uma filha de três anos e precisava de toda a calma e tranquilidade para poder escrever. Encontrar um ponto de equilíbrio entre a vida familiar e a criatividade não é fácil.

    Mas alguma forma de isolamento é-lhe essencial?

Esse isolamento tanto pode acontecer numa cabana nas montanhas como num qualquer outro lugar sereno. Preciso de espaço mas também pode perfeitamente acontecer que escreva o texto de uma canção à mesa de um café que é um sítio ruidoso, desde que consiga habitar o meu mundo e possa dispor de momentos para por alguma ordem no pensamento.
 


    
    Ter composto a maior parte deste álbum ao piano modificou o carácter ou a tonalidade das canções de alguma forma? Consegue imaginar como teriam sido se as tivesse composto à guitarra?

Não sei... é verdade que o piano abre um pouco mais as canções, evoca um tipo de sensações diferentes. Mas, reflectindo sobre a forma como resultou – até porque foi a minha primeira experiência com o piano –, parece-me que, sem dúvida, modificou o espírito do álbum.

    Numa entrevista sua que li numa publicação francesa, às tantas, diz que “no fundo, as pessoas não querem saber da folk para nada”... 

Eu disse isso?

    Foi o que eu li... 

Há pessoas que, nesta matéria, são muito tradicionalistas e puristas e não suportam que não se leve a tradição à letra. Isso nunca foi coisa que me interessasse... 

    Mas ainda existem muitos espécimes dessa corrente de pensamento-Pete Seeger?...

Há, há... Eu não sou purista de modo algum mas compreendo que exista quem se preocupe dessa forma, quem leve terrívelmente a sério a história e a tradição folk. Creio que, nessa entrevista, estaria a falar acerca do facto de, no contexto musical em geral, actualmente, a folk music não ser a "hot new thing" que já foi, por volta de 2005. Quando, nessa altura, publiquei The Pirate’s Gospel, a redescoberta da folk, a recuperação das sonoridades e instrumentos acústicos, estavam num momento de grande evidência e muita gente lhes prestava imensa atenção. Mas os gostos e as tendências mudam muito rapidamente e, hoje, estamos longe de viver uma situação idêntica.


    Mas continuam a existir bastantes músicos e artistas que podem ser incluídos nessa área e que não são propriamente ignorados... a Jesca Hoop, a Tamara Lindeman (dos Weather Station), a Laura Marling, a Nina Nastasia, a Sharon Van Etten, que até apareceu num dos episódios desta última temporada de Twin Peaks...

A sério?... Que sorte... Pois... esse meu comentário deve ser entendido no contexto geral daquilo que é mais popular nos media, actualmente. 

    Sempre suspeitei da Sandy Denny que existia em si. E, agora, em Cusp, aparece uma canção sobre ela e a ela dedicada...

Tenho um imenso respeito por ela enquanto "singer/songwriter". Era extraordinariamente poderosa e arrebatadora. E aquela voz... Descobri-a quando andava pelos vinte e poucos anos e estava a iniciar a minha própria carreira musical, apaixonei-me pela voz dela. Primeiro, através dos discos com os Fairport Convention e, depois, os outros, a solo. Não posso dizer que tenha ouvido tudo, tudo que ela gravou. Mas aqueles que conheço são uma preciosidade.

    Se quiséssemos identificar alguma influência dela neste seu último álbum, poderíamos dizer que provém mais dos últimos discos a solo, mais densamente orquestrados?

Não sei... eu inspiro-me em bastante música do passado mas nunca de uma forma absolutamente deliberada, como se escutasse um disco e pensasse fazer uma réplica exacta dele. Isso pode incluir, por exemplo, tanto gravações da Joni Mitchell nas quais ela explora orquestrações mais jazzy e com cordas, como as coisas da Sandy Denny de que temos estado a falar. Vou escrevendo as minhas canções e explorando as formas que me parecem mais adequadas a cada uma delas. Mas não estou o tempo todo a pensar em música nem me dedico a conhecer o catálogo integral de um artista de que goste. Gosto muito do Leonard Cohen ou da Joni Mitchell mas não conheço todos os álbuns deles.
 


     
    Neste álbum, algumas canções socorrem-se de belíssimos arranjos de cordas ("Émigré", por exemplo) e "Yellow Gold" acaba afogada em dissonâncias... 

É uma maneira de assegurar que, para mim, as coisas continuem a ser interessantes: experimentar arranjos diferentes em que aconteçam surpresas sonoras. 

    Quando, em 2011, Bob Dylan celebrou 70 anos, o “Observer” perguntou a uma série de músicos que presente gostariam de lhe oferecer. A Alela sugeriu uma tarte de maçã. Agora que ele é um ilustre Nobel da Literatura, mantinha essa sugestão?

(risos) Tenho a certeza que ele pode comprar aquilo que lhe apetecer mas uma tarte de maçã caseira continuaria a ser uma prenda oferecida do fundo do coração. E no que respeita ao Nobel, como não reconhecer que, há décadas, ele escreve as palavras que tanta gente, em todo o mundo, adora? O homem é um escritor. E um muito bom escritor.

18 May 2018

(O 8º ANO A SEGUIR AO) ANO DO TIGRE (CXXXIV)
 
Bramble Rose (com Alela Diane)





(contracapa de Cusp, 2018 + aqui e aqui)

02 January 2012

MÚSICA 2011 - INTERNACIONAL (II)
(iniciando-se, de baixo para cima *, de um total de 20)







































Não fosse Tom Waits quem é e dir-se-ia que apenas aparece nesta lista para tentar disfarçar uma selecção discográfica dos melhores do ano militantemente organizada de acordo com uma agenda implacavelmente feminista. A verdade, no entanto, é que, olhando friamente para os álbuns que, ao longo de doze meses, este par de ouvidos foi escutando, o problema foi o da regra imposta dos dez ter obrigado a deixar ainda de fora Alela Diane & Wild Divine, Thao & Mirah, Ragged Kingdom (o outro álbum de June Tabor com a Oysterband), Last Summer, de Eleanor Friedberger, e – vá lá, não oprimamos demasiado o sexo fraco – So Beautiful Or So What, de Paul Simon, Beer In The Breakers, dos Wave Pictures, Tomboy, de Panda Bear, ou Here Before, o belíssimo regresso dos Feelies. A ordenação vertical na escala de excelência é assaz aleatória, embora a singularidade sonora de whokill e a dupla-maravilha de June Tabor mereçam ser destacadas.

* a ordem é razoavelmente arbitrária...

(2012)

07 June 2011

UMA TARTE DE MAÇÃ



Alela Diane & Wild Divine - Alela Diane & Wild Divine




Fleet Foxes - Helplessness Blues

Dois dias antes do 70º aniversário de Bob Dylan – celebrado no passado 24 de Maio –, o “Observer” decidiu inquirir uma série notáveis da música e outras artes acerca de qual o presente que achariam mais apropriado para lhe oferecer. As propostas foram, previsivelmente, assaz diversas: Martin Carthy (recordando um episódio ocorrido no Inverno de 1962 entre ambos) sugeriu um piano e uma espada de samurai para despedaçar o piano e o usar como lenha para a lareira nas noites frias; Isobel Campbell pensou numa camisa de seda e num par de sapatos italianos; Chrissie Hynde lembrou-se de um jogo de dardos (“por nenhuma razão especial: suponho que ele gostaria”); e Alela Diane, imaginando sensatamente que ele poderá comprar tudo aquilo que quiser, optou pelos valores básicos e seguros: uma tarte de maçã que confeccionaria segundo a infalível receita da mãe. E explicou-se: “A música folk, na sua essência mais profunda, foi criada para as pessoas conviverem à sombra do alpendre e eu associo a tarte de maçã a esse tipo de comportamento. Suponho que a vida do Bob Dylan, nestes últimos tempos, se tenha tornado muito mais simples e que, no dia de anos, lhe saiba bem sentar-se no alpendre e fazer o que lhe apetecer. Como companhia, uma tarte de maçã será tudo o que precisa”.



A música que emergiu do que foi baptizado como "new weird America" (padrinho do baptismo: David Keenan, no número de Agosto de 2003 da “Wire”), "free-folk", "psych-folk" ou "freak-folk" não foi, assim, senão um ensaio do regresso da boa velha tarte, mais ou menos condimentada com temperos psicotrópicos, e preparada de acordo com uma interpretação livre dos antiquíssimos preceitos recuperados das tradições britânica e norte-americana. Que, agora, quase dez anos depois, e após a poeira ter assentado suficientemente, permite distinguir com maior facilidade os folqueiros de fim-de-semana (aqueles que apreciavam travestir-se de descendentes híbridos de Jesse James e feiticeiros comanches com uma costela de bardo celta) dos outros que, verdadeiramente, reinventavam e retomavam o fio da história no ponto em que – sem nunca, de facto, ter sido interrompida –, há trinta e tal anos, ficara suspensa. Por motivos de proximidade geracional e geográfica, inicialmente, Alela Diane foi associada a algumas das cintilações da seita neo-hippie, caso, por exemplo, de Joanna Newsom.



Mas, com The Pirate’s Gospel (2006) e To Be Still (2009), tudo ficaria devidamente esclarecido: a ascendência poderia ter ramos comuns mas o que dela resultava era, afinal, uma novíssima e valiosa voz de songwriter bem mais afim de Neko Case ou Jolie Holland (ou, recuando até às origens, Sandy Denny) do que de míticas lambisgóias “celtas”. Alela Diane & Wild Divine (a saber: ela e banda acompanhante que, em registo de "family affair", inclui o pai e o marido), sem exibir tremendas alterações no perfil musical reconhecível, encorpa sensivelmente a sonoridade das óptimas canções – o produtor Scott Litt, com CV ao lado dos R.E.M., Nirvana e Patti Smith, terá modificado dois ou três parâmetros – e aproxima-as dos igualmente recomendáveis padrões de Neil Young ou Richard & Linda Thompson, povoadas de inquietantes recados como “death is a hard act to follow” ou “we are hopeful, we are scattered, we are dust”.



Genuína emanação da cena "freak-folk", os Fleet Foxes, pelo seu lado, mantém inalterada a faceta menos digerível da genealogia – a da chinela “poética” que os obriga a, sem se rirem, formularem portentosas interrogações do gènero de “why is the Earth moving around the sun? why is life made only for it to end?” – mas como, muito mais do que canções, o que eles criam são majestosas catedrais de remoinhos corais que ampliam desmedidamente a matriz Beach Boys-CSN&Y-Simon & Garfunkel, “Helplessness Blues” não deixa de ser uma tentadora peça de dulcíssima massagem auditiva.

(2011)

04 June 2011

ALELA DIANE - "THE WIND"



Woman of the island, please send me light
Put it in an envelope, post it to L.A.
'Cause I'm on the wind, I can't go back
I am a dream on the wind

The organ cried out in the night
A phantom song of notes in time
It is I, pounding out the chords
From the still, of the unknown

Cause I'm on the wind, I can't go back
I am a dream on a wind

Too late darling, it was too late
Too late mama, I've gone to the sky
How can we learn, learn to lose
How can we learn, learn to lose

Death is a hard act to follow, ooh
Death is a hard act to follow

Now I give grace to you and yours
From this bright new home of silver moon
Sweet sister, I am with you forever more


(2011)

29 May 2011

02 January 2010

UMA GRANDE DESORDEM SOB OS CÉUS



Após um julgamento que durou nove dias, a 17 de Abril, Peter Sunde, Fredrik Neij, Gottfrid Svartholm e Carl Lundström, responsáveis pelo Pirate Bay – o maior site de download ilegal de ficheiros torrent – eram condenados por um tribunal de Estocolmo a pôr termo à sua actividade, a um ano de prisão e a pagar uma multa de cerca de 2 700 000 euros. Todos recorreram da pena aplicada e, um mês depois, o Pirate Party sueco (braço político do movimento a favor da liberalização completa do filesharing), conquistava 7.13% de votos e dois deputados nas eleições para o Parlamento Europeu. A 6 de Outubro, e na sequência de diversos contratempos e peripécias (só um exemplo: a 15 de Agosto, um uploader anónimo iniciou a partilha de um torrent contendo o índice integral do Pirate Bay), em local indeterminado, o site corsário estava, de novo, online. Entretanto, a 24 de Novembro passado, o Parlamento Europeu aprovou um pacote de medidas destinado a combater a pirataria na Web que prevê a possibilidade do corte, por parte dos fornecedores, do acesso à Internet de quem descarregue ilegalmente ficheiros, não especificando, porém, a quem caberá a decisão: se aos tribunais, se a uma entidade administrativa.



É bem possível que a indústria discográfica não concorde com a célebre afirmação de Mao Tsé Tung “Há uma grande desordem sob os céus, a situação é excelente”. Até porque – a menos que alguma solução milagrosa e inesperada surja –, até agora, cada tentativa de controlar as forças que se libertaram da caixa de Pandora da Internet foi sempre torneada por um agilíssimo jogo de cintura tecnológico que a todas anulou. Naturalmente, tudo isto terá consequências quanto aos recursos de que os músicos (e não apenas músicos: a partilha de ficheiros abrange livros, filmes, séries de televisão...) poderão dispor, numa conjuntura em que as editoras vêem os lucros a reduzir-se drasticamente. Sintomaticamente (ou não), porém, o que na pop parece acontecer é um período de laboração no interior de códigos mais ou menos clássicos, sem que nenhuma sublevação estética se anteveja: dos (admiráveis) neo-academismos de Sufjan Stevens, Grizzly Bear, St Vincent e Noah & The Whale, à folk redescoberta de Alela Diane e The Unthanks, aos segundos e terceiros fôlegos dos clássicos Dylan ou Springsteen ou às grandes operações industriais de reciclagem do passado e repackaging – de que a remasterização da discografia integral dos Beatles foi, este ano, o mais emblemático exemplo – tudo parece ter entrado num compasso de espera de duração imprevisível. A história da música, de certeza, não parou e o negócio discográfico precisa de tempo para inventar e amadurecer modelos viáveis de reconversão. Mas, por enquanto, tudo indica que, tão cedo, não vale a pena sonhar com estrondosas e fulgurantes rupturas e inovações que, de resto, a atmosfera global de pós(?)-crise também não parece favorecer.

(2010)