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15 January 2019

DÓ MAIOR


Em O Resto é Ruído, Alex Ross conta que, fugindo ao regime nazi (que considerava a sua música “degenerada”) e emigrado nos EUA desde 1934, Arnold Schoenberg, a partir de determinado momento, “passou por aquilo a que chamou um ‘arrebatamento do desejo da tonalidade’. (...) Como professor, manteve-se muito rigoroso e exigente, mas não impunha os seus métodos aos alunos da UCLA. Ao louvar a arte sinfónica tonal de Sibelius e Shostakovich, que poderia esperar-se que deplorasse, provocava dúvidas. Quando um dos alunos começou a atacar Shostakovich, Schoenberg mandou-o calar e disse: ‘Esse homem é um compositor nato’. Uma ou duas vezes apanhou a turma de surpresa ao anunciar que ‘ainda falta escrever muito boa música em Dó maior’”. Por outras palavras, o compositor que – com Alban Berg e Anton Webern – desarticulara o sistema das hierarquias tonais que caracterizava toda a música erudita europeia anterior e a conduzira pelas vias do atonalismo e do serialismo dodecafónico, não era, afinal, visceralmente avesso a uma linguagem sonora mais tradicional. 


No último número da “Mojo”, o tema volta duas vezes â baila pelos mais improváveis atalhos. Em entrevista a Paddy McAloon (Prefab Sprout) a propósito da reedição de I Trawl The Megahertz (2003) – na qual este revela que Cinqué Lee, irmão de Spike Lee, pretende realizar um filme musical baseado nas canções dos Sprout –, a certa altura, McAloon explica que, desde o início, tinha gostos musicais muito amplos: “Recordo-me de comprar, aqui em Durham, o Pássaro de Fogo, de Stravinsky, que imaginava ser algo que os Television poderiam ter feito”. E associava isso a uma incapacidade natural para “escrever uma canção convincente utilizando ferramentas tão básicas como os acordes de Dó, Fá e Sol 7. Se escutarem ‘I Never Play Basketball Now’ (de Swoon, 1984), descobrem 50 ou 60 formas diferentes". Em síntese, “o mais difícil para mim sempre foi e continua a ser – embora já não tanto – repousar sobre um acorde de Dó maior”. Meia dúzia de páginas antes, num perfil de Trevor Horn – “the man who invented the eighties", fundador da ZTT Records, co-criador dos Art Of Noise, produtor de Malcolm McLaren e de Frankie Goes To Hollywood –, ele confessa que, quando morrer, embora não seja capaz de adivinhar como será o Além, “se tiver de ir para algum lado, gostaria de ficar a viver num acorde de Dó maior de sétima, algures. Parece-me um sítio agradável”. Que é como quem diz, um porto de abrigo seguro faz sempre falta.

14 August 2017

APENAS É 

Num texto para a “New Yorker” do passado 12 de Julho, Alex Ross – o autor de The Rest Is Noise: Listening to the Twentieth Century (2007) – referia-se ao discurso que, dias antes, o ignaro Trump havia proferido em Varsóvia, no qual, defendendo a superioridade da civilização ocidental, argumentara “We write symphonies!” E acrescentava que, no dia seguinte, durante a cimeira do G20, em Hamburgo, “The Donald”, na companhia de gente tão pouco recomendável como Putin, Erdoğan, Xi Jinping ou Ibrahim Abdulaziz Al-Assaf (Arábia Saudita), assistira a uma interpretação da “Nona” de Beethoven. O que Joachim Lux, do Thalia Theatre, consideraria “um abuso pornográfico da arte”: apresentar uma das bandeiras da fraternidade universal perante uma plateia que incluía governantes capazes de espezinhar diariamente os direitos humanos não seria senão uma fantochada.



É, então, um bom pretexto para recordar aquilo que, em A Nona Sinfonia de Beethoven: Uma História Política (1999), Esteban Buch escreveu: “Os músicos românticos transformaram-na num símbolo da sua arte. Aos olhos de Bakunine, que sonhava fazer tábua rasa do mundo burguês, apenas a ‘Ode à Alegria’ merecia ser salva. Os nacionalistas alemães admiravam a potência heróica dessa música, enquanto os republicanos franceses reconheciam nela a tripla divisa de 1789. Se os comunistas a olhavam como o evangelho de um mundo sem classes, para os católicos era, pura e simplesmente, o Evangelho que nela estava espelhado. (...) E era com ela que Hitler festejava os seus aniversários, apesar de as suas vítimas a tocarem como símbolo de oposição nos campos de concentração. (...) Foi, em tempos, o hino da república racista da Rodésia, como é hoje o hino da União Europeia”. 41 anos antes de Buch, a 18 de Janeiro de 1958, num dos seus Concertos para Jovens subordinado ao tema “O que significa a música?”, Leonard Bernstein (depois de contar uma trepidante aventura do Super Homem como argumento imaginário do Don Quixote, de Richard Strauss) tinha já deixado o assunto razoavelmente esclarecido: “Sejam quais forem as histórias que vos contem acerca do que a música quer dizer, esqueçam-nas. O que a música significa não são histórias. A música nunca é sobre coisa alguma. A música apenas é. A música são notas, belíssimas notas e sons combinados de tal forma que retiramos prazer de os escutar e nada mais. (...) Não precisamos de histórias nem de imagens para nos explicar o que a música significa”.

15 November 2010

PODERÍAMOS SER VERDADEIRAMENTE FELIZES
(ONTEM E HOJE) SEM HAVER GENTE ASSIM?

(a pergunta não é retórica)


Salome - Berlim 1990 (Catherine Malfitano, Salome, Horst Hiestermann, Herodes, Maestro, Giuseppe Sinopoli)

"Sou um homem de meia idade que tem dedicado mais de vinte anos à prática de uma profissão que, no tratamento de doenças nervosas e mentais, exige um contacto directo com degenerados (...) e posso afirmar, após devida ponderação, e de a obra de Oscar Wilde e Richard Strauss me ser familiar, que Salomé, é uma pormenorizada e explícita exposição dos aspectos mais horríveis, repugnantes, revoltantes e indescritíveis da degenerescência (utilizando agora a palavra com o seu significado social e sexual habitual) que jamais ouvi, li ou imaginei". (carta de um médico ao "NY Times", Janeiro de 1907, em The Rest Is Noise, de Alex Ross)

(2010)

26 May 2010

NÃO ME LIXES, NEIL...



White Rabbits - It’s Frightening

Vinha numa sequência quase perfeita: The Rest Is Noise, o livro sobre a história da música no século XX, de Alex Ross, The Heart Of The Matter, de Graham Greene, Synecdoche, New York, de Charlie Kaufman, a Penguin Cafe Orchestra, Paolo Conte – todos recomendados por Neil Hannon, num daqueles perfis do artista-enquanto-consumidor, a pretexto da edição de Bang Goes The Knighthood. E, a fechar, It’s Frightening, de mais uma banda de Brooklyn, White Rabbits, definida como “Adam Ant drums, school-room piano, enormous guitar riffs, sparse yet ferocious”. Fui na conversa. E, apesar de apenas distribuído em Portugal, quase um ano após a publicação americana, dei-lhe ouvidos. Não me voltas a enganar outra vez, Neil, que esta receita de clichés rock com o anzol de duas baterias para impressionar tolos (uma única, nos National, jorra mil vezes mais ideias rítmicas por segundo) foi um dos maiores desgastes inúteis de tímpanos dos últimos meses.

(2010)