Revisões da matéria dada (XXII)
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21 May 2011
ELA JÁ TINHA AVISADO

Que idade tem?
Se responder a isso, terei de a matar depois.
(...)
O que é que estudou?
Eu ainda estudo. Sou autodidacta. Nada do que me preenche foi adquirido em universidades. Não deposito grande fé no ensino académico "superior". A menos que tenham estudado na Sorbonne e falem francês.
(...)
Quais os autores de que mais gosta?
Gosto de muitos autores (sou uma promíscua literária), mortos na sua esmagadora maioria. Habita-me a ideia de que um escritor morto está mais completo. (...) Mas posso acrescentar que, se tivesse tido oportunidade, teria tentado beijar o Camus na boca. (da entrevista da Livreira Anarquista ao "i" de hoje)
(2011)
Que idade tem?
Se responder a isso, terei de a matar depois.
(...)
O que é que estudou?
Eu ainda estudo. Sou autodidacta. Nada do que me preenche foi adquirido em universidades. Não deposito grande fé no ensino académico "superior". A menos que tenham estudado na Sorbonne e falem francês.
(...)
Quais os autores de que mais gosta?
Gosto de muitos autores (sou uma promíscua literária), mortos na sua esmagadora maioria. Habita-me a ideia de que um escritor morto está mais completo. (...) Mas posso acrescentar que, se tivesse tido oportunidade, teria tentado beijar o Camus na boca. (da entrevista da Livreira Anarquista ao "i" de hoje)
(2011)
04 April 2009
HOMENS E LOBOS *
João Pereira Coutinho
* (mas o que interessa são os gatos)

Existem momentos em que fico horas a olhar para o meu gato. Com inveja, sempre com inveja. Só Deus sabe o que existe na cabeça de um felino. Mas acompanho as rotinas dele e sei, filosoficamente falando, que ele é feliz. Nós, humanos, seres temporais por excelência, vivemos aprisionados à ideia do nosso próprio fim. E, como se não bastasse essa terrível condenação, somos também incapazes de habitar cada momento inteiramente. O presente, em nós, está sempre carregado de passado e de futuro: do que fomos, das memórias que temos, do caminho e das escolhas que fizemos; e daquilo que gostaríamos de ser, ou ter, ou fazer. O presente, para nós, não é um lugar para estar. É uma breve passagem a caminho de outra breve passagem. Sempre e sempre e sempre até a despedida final. Por isso, aconselho: se quiserem entender a natureza da felicidade, comprem um gato.

E acompanhem a forma como ele cumpre as suas rotinas com entrega contida e total. Ele não espera nada, ele não deseja nada. A felicidade, para ele, não existe por adição: de objectos, experiências, lugares. Mas por repetição: ele repete as experiências que são significativas. E, em cada repetição, existe a certeza da mesma felicidade. Um gato ajuda a entender tudo isso. Mas um livro publicado recentemente reforça a ideia. Confesso: comprei o livro sem expectativas numa livraria do aeroporto de Heathrow, em Londres. Só o título despertou a curiosidade: "The Philosopher and the Wolf: Lessons from the Wild on Love, Death and Happiness" (o filósofo e o lobo: lições do selvagem sobre amor, morte e felicidade; Granta, 246 págs.). Não é manual de filosofia "ligeira". Longe disso. O livro de Mark Rowlands é uma mistura erudita de experiência pessoal e reflexão metafísica, em que Nietzsche, Heidegger e Camus têm participação direta.

Ponto de partida: certo dia, o professor Rowlands leu anúncio no jornal. Alguém vendia lobos por US$ 500. Rowlands entrou na aventura. Horas depois, a casa estava destruída pelo novo hóspede, de nome Brenin, que não poupou a mobília e as cortinas. Primeira lição: um lobo não é um cão. E, nos 11 anos seguintes e após treino apertado, Brenin foi a companhia do professor. Em casa. Na rua. Em viagem. E até nas aulas, para espanto de colegas e alunos: enquanto o professor dissertava sobre Platão e Aristóteles, o lobo dormitava ao seu lado. As aulas terminavam com um uivo. O livro de Rowlands é uma descrição pessoal de tudo isso: da relação idiossincrática de um homem com um lobo. Mas o livro de Rowlands oferece-se essencialmente como uma longa meditação sobre a natureza da felicidade humana. Ou, se preferirem, sobre a sua impossibilidade.

Impossibilidade? Precisamente. A modernidade ofereceu-se aos Homens como projecto de construção secular. Por meio da Razão, seria possível conquistar a "sorte" que tanto afligia os gregos e realizar na Terra o que a cristandade medieval apenas prometia para o Reino dos Céus. A felicidade seria uma construção individual e progressiva rumo a um fim determinado. Paradoxalmente, essa ideia libertadora apenas trouxe o seu reverso: se a felicidade era responsabilidade nossa, a infelicidade também. E, adicionalmente, se a felicidade era convertida em projecto, ela seria igualmente convertida em insatisfação interminável: jamais estaremos onde queremos estar; jamais seremos o que queremos ser; jamais teremos o que queremos ter. A felicidade moderna converteu-se numa vigília permanente: a vigília de Homens insatisfeitos; de Homens esmagados pelos seus próprios ideais de felicidade e perfeição. Viver com Brenin ensinou a Rowlands essa crucial diferença entre Homens e animais: nós vivemos mergulhados no tempo e nas nossas próprias teleologias pessoais. E a forma como desejamos sempre momentos que são posteriores ao momento presente impede-nos de viver qualquer momento de forma real e total.

A infelicidade humana não nasce da nossa ignorância ou da nossa imperfeição. Muito menos da ignorância ou da imperfeição das nossas sociedades. A infelicidade humana é um produto da nossa específica temporalidade. Resta uma questão final: serão os Homens superiores aos animais? A resposta de Rowlands talvez seja a mais honesta: depende do que entendemos por "superioridade". Sim, um lobo jamais pintaria o tecto da Capela Sistina. Mas será a Capela Sistina uma necessidade para um lobo? Ou, pelo contrário, será antes uma necessidade para nós? Uma forma de completarmos a parte que nos falta das várias partes que nos faltam? (começou aqui, na caixa de comentários, saltou para aqui, foi parar ali e ainda sobrou para aqui, com o bónus do Eliot-link que, por acaso, até tinha partido cá de casa - ou as maravilhas da Net)
(2009)
João Pereira Coutinho
* (mas o que interessa são os gatos)
Existem momentos em que fico horas a olhar para o meu gato. Com inveja, sempre com inveja. Só Deus sabe o que existe na cabeça de um felino. Mas acompanho as rotinas dele e sei, filosoficamente falando, que ele é feliz. Nós, humanos, seres temporais por excelência, vivemos aprisionados à ideia do nosso próprio fim. E, como se não bastasse essa terrível condenação, somos também incapazes de habitar cada momento inteiramente. O presente, em nós, está sempre carregado de passado e de futuro: do que fomos, das memórias que temos, do caminho e das escolhas que fizemos; e daquilo que gostaríamos de ser, ou ter, ou fazer. O presente, para nós, não é um lugar para estar. É uma breve passagem a caminho de outra breve passagem. Sempre e sempre e sempre até a despedida final. Por isso, aconselho: se quiserem entender a natureza da felicidade, comprem um gato.
E acompanhem a forma como ele cumpre as suas rotinas com entrega contida e total. Ele não espera nada, ele não deseja nada. A felicidade, para ele, não existe por adição: de objectos, experiências, lugares. Mas por repetição: ele repete as experiências que são significativas. E, em cada repetição, existe a certeza da mesma felicidade. Um gato ajuda a entender tudo isso. Mas um livro publicado recentemente reforça a ideia. Confesso: comprei o livro sem expectativas numa livraria do aeroporto de Heathrow, em Londres. Só o título despertou a curiosidade: "The Philosopher and the Wolf: Lessons from the Wild on Love, Death and Happiness" (o filósofo e o lobo: lições do selvagem sobre amor, morte e felicidade; Granta, 246 págs.). Não é manual de filosofia "ligeira". Longe disso. O livro de Mark Rowlands é uma mistura erudita de experiência pessoal e reflexão metafísica, em que Nietzsche, Heidegger e Camus têm participação direta.
Ponto de partida: certo dia, o professor Rowlands leu anúncio no jornal. Alguém vendia lobos por US$ 500. Rowlands entrou na aventura. Horas depois, a casa estava destruída pelo novo hóspede, de nome Brenin, que não poupou a mobília e as cortinas. Primeira lição: um lobo não é um cão. E, nos 11 anos seguintes e após treino apertado, Brenin foi a companhia do professor. Em casa. Na rua. Em viagem. E até nas aulas, para espanto de colegas e alunos: enquanto o professor dissertava sobre Platão e Aristóteles, o lobo dormitava ao seu lado. As aulas terminavam com um uivo. O livro de Rowlands é uma descrição pessoal de tudo isso: da relação idiossincrática de um homem com um lobo. Mas o livro de Rowlands oferece-se essencialmente como uma longa meditação sobre a natureza da felicidade humana. Ou, se preferirem, sobre a sua impossibilidade.
Impossibilidade? Precisamente. A modernidade ofereceu-se aos Homens como projecto de construção secular. Por meio da Razão, seria possível conquistar a "sorte" que tanto afligia os gregos e realizar na Terra o que a cristandade medieval apenas prometia para o Reino dos Céus. A felicidade seria uma construção individual e progressiva rumo a um fim determinado. Paradoxalmente, essa ideia libertadora apenas trouxe o seu reverso: se a felicidade era responsabilidade nossa, a infelicidade também. E, adicionalmente, se a felicidade era convertida em projecto, ela seria igualmente convertida em insatisfação interminável: jamais estaremos onde queremos estar; jamais seremos o que queremos ser; jamais teremos o que queremos ter. A felicidade moderna converteu-se numa vigília permanente: a vigília de Homens insatisfeitos; de Homens esmagados pelos seus próprios ideais de felicidade e perfeição. Viver com Brenin ensinou a Rowlands essa crucial diferença entre Homens e animais: nós vivemos mergulhados no tempo e nas nossas próprias teleologias pessoais. E a forma como desejamos sempre momentos que são posteriores ao momento presente impede-nos de viver qualquer momento de forma real e total.
A infelicidade humana não nasce da nossa ignorância ou da nossa imperfeição. Muito menos da ignorância ou da imperfeição das nossas sociedades. A infelicidade humana é um produto da nossa específica temporalidade. Resta uma questão final: serão os Homens superiores aos animais? A resposta de Rowlands talvez seja a mais honesta: depende do que entendemos por "superioridade". Sim, um lobo jamais pintaria o tecto da Capela Sistina. Mas será a Capela Sistina uma necessidade para um lobo? Ou, pelo contrário, será antes uma necessidade para nós? Uma forma de completarmos a parte que nos falta das várias partes que nos faltam? (começou aqui, na caixa de comentários, saltou para aqui, foi parar ali e ainda sobrou para aqui, com o bónus do Eliot-link que, por acaso, até tinha partido cá de casa - ou as maravilhas da Net)
(2009)
04 June 2008
MATAR UM ÁRABE
(a propósito de Albert Camus)
No Verão de 2006, os “spin-doctors” da Casa Branca puxaram os cordelinhos necessários para que chegasse ao conhecimento público que, de férias no seu rancho do Texas, George W. Bush (a quem o mundo em geral não atribui exactamente o estatuto de intelectual) tinha escolhido como leitura O Estrangeiro, de Albert Camus. Dava jeito até porque, no ano anterior, num discurso em Bruxelas, no qual enaltecia o papel da aliança entre os EUA e a União Europeia com a finalidade de “disseminar a democracia pelo mundo”, alguém lhe havia plantado no texto uma citação de Camus onde este afirmava que “a liberdade é uma corrida de longa distância”. A manobra, porém, teve o resultado oposto ao pretendido porque, inevitavelmente, houve logo quem chamasse a atenção para a passagem do livro onde o protagonista, Mersault, mata a tiro, fria e amoralmente, um árabe.
Um tiro que, para o texano de poucas letras, no actual clima político, fez ricochete e lhe acertou, mais uma vez, no pé. Nada, porém, que não pudesse ter sido evitado se a quadrilha de assessores de Bush fosse um bocadinho mais versada em matéria de pop britânica e conhecesse, por exemplo, a teia de equívocos urdida em torno de “Killing An Arab”, o primeiro single dos Cure, de 1978, também ele inspirado no romance de Camus: desde o primeiro instante, por mais que Robert Smith se esgotasse a explicar que a canção era apenas uma tentativa de transpor para o idioma da pop a sua leitura da obra do escritor francês e que, onde se lia “árabe” (no livro e na canção), poderia estar qualquer outra etnia ou nacionalidade, isso não impediu que, a sua primeira compilação de singles, Standing On A Beach (1986), fosse obrigada a ostentar um autocolante que alertava contra a potencial utilização para fins racistas da canção, que esta fosse excluída de Greatest Hits (2001) ou que, já no pós-11 de Setembro, em diversos festivais, Smith tivesse de alterar grotescamente o texto para “kissing an arab” ou “killing another”. Invariavelmente, a iliteracia conduz ao disparate ou à censura.
(2008)
ALBERT CAMUS E O LUDOPÉDIO
(resposta a pedido anónimo da caixa de comentários)

(2008)
(resposta a pedido anónimo da caixa de comentários)
"Tudo o que aprendi sobre a moral e o dever devo-o, certamente, ao futebol"
Comentário: independentemente de "a moral" e "o dever" serem, provavelmente, dois dos tópicos mais desinteressantes no Top-3 dos tópicos mais desinteressantes (e de, para conhecer alguma coisa acerca deles, ser necessário recorrer ao ludopédio), só o facto de Camus conseguir citá-los na mesma frase em que inclui a palavra "futebol" demonstra, para além de qualquer dúvida razoável, como ele era uma criatura antiga.
Borges é moderno.
(2008)
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