Antes de mais, que fique inteiramente claro:
Another Self Portrait não vem repor verdade nenhuma nem reparar qualquer injustiça. Pela muito simples razão de que não existe nenhuma verdade para repor nem injustiça para reparar, apesar de ainda haver quem continue a duvidar da autenticidade do propósito de
deliberada autodemolição do estatuto de messias da contracultura que Bob Dylan, em
Chronicles Volume One, confessa ter sido o objectivo da publicação, em 1970, do duplo
Self Portrait. É, por exemplo, outra vez, o caso de Mark Richardson, na “Pitchfork” de 30 de Agosto, ao argumentar que
“a ideia de Dylan ter gravado propositadamente um disco fraco nunca fez sentido. Ele trabalhou com muitos músicos de topo de quem gostava e tinha demasiados amigos e colegas que investiram o seu tempo nele para ser capaz de gravar algo que os envergonhasse. É bem mais plausível que a história do álbum ‘intencionalmente mau’ tenha sido um mecanismo de defesa de um artista misterioso que, no fundo, tinha um enorme ego e profunda consciência do seu talento”. O problema é que nem precisaríamos de ter esperado pelo primeiro tomo da sua autobiografia para conhecermos o que Dylan pensava. Já em Junho de 1984, em entrevista a Kurt Loder, na “Rolling Stone”, ele havia afirmado exactamente o mesmo, classificando esse álbum como
“uma anedota”. E, quando Loder lhe perguntava por que motivo, para fazer circular uma anedota, teria sido necessário gravar um duplo, a resposta não poderia ter sido mais esclarecedora:
“Um álbum simples não bastaria. Seria apenas mau. Se é para o encher de merda, mais vale enchê-lo até acima”.
Se reparamos bem, no entanto, aperceber-nos-emos de que a péssima reputação de
Self Portrait poderia, ainda que mais atenuada, estender-se facilmente ao anterior
Nashville Skyline (1969) e ao seguinte
New Morning (1970), nenhum deles digno sequer de beijar a sombra de tudo o que Dylan publicara até
Blonde On Blonde (1966). E é justamente isso que
Another Self Portrait vem iluminar: mui correctamente datado entre 1969 – 1971, é a demonstração definitiva de que, nesse período, ou Bob Dylan sofria de severo défice da acuidade auditiva ou, então, conspirou, de facto, para que os seus apóstolos o abandonassem. Porque, embora não se descobrindo um filão de preciosidades ocultas (e persistindo a esquizofrenia vocal entre o meloso timbre de alcaçuz-country e a velha e amada aspereza nasalada), todas, literalmente todas, as versões de temas desse trio de publicações e/ou os respectivos inéditos são, aqui, incomparavelmente superiores aos que conhecíamos. Essencialmente acompanhado por Al Kooper, David Bromberg (e os ocasionais George Harrison, Charlie Daniels, Russ Kunkel e a Band, nas faixas recuperadas do concerto no festival da ilha de Wight), como "test drive", chegará a escuta de "Time Passes Slowly #2", com o Hammond B-3 de Kooper em chamas, a evocar os tempos, à época, ainda não tão longínquos de "Like A Rolling Stone". Mas, acima de tudo, que não se perca a superior ironia de alguém que jurava pelo
“je est un autre”, de Rimbaud (em dylanês,
“I’m not there”), ter chamado
Self Portrait ao seu dejecto.