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13 November 2019

VINTAGE (DIV)

"Season of the Witch" (Donovan)

Julie Driscoll, Brian Auger & The Trinity

Mike Bloomfield, Al Kooper & Steve Stills

(ver também aqui)

19 September 2013

ELE NÃO ESTAVA ALI


Antes de mais, que fique inteiramente claro: Another Self Portrait não vem repor verdade nenhuma nem reparar qualquer injustiça. Pela muito simples razão de que não existe nenhuma verdade para repor nem injustiça para reparar, apesar de ainda haver quem continue a duvidar da autenticidade do propósito de deliberada autodemolição do estatuto de messias da contracultura que Bob Dylan, em Chronicles Volume One, confessa ter sido o objectivo da publicação, em 1970, do duplo Self Portrait. É, por exemplo, outra vez, o caso de Mark Richardson, na “Pitchfork” de 30 de Agosto, ao argumentar que “a ideia de Dylan ter gravado propositadamente um disco fraco nunca fez sentido. Ele trabalhou com muitos músicos de topo de quem gostava e tinha demasiados amigos e colegas que investiram o seu tempo nele para ser capaz de gravar algo que os envergonhasse. É bem mais plausível que a história do álbum ‘intencionalmente mau’ tenha sido um mecanismo de defesa de um artista misterioso que, no fundo, tinha um enorme ego e profunda consciência do seu talento”. O problema é que nem precisaríamos de ter esperado pelo primeiro tomo da sua autobiografia para conhecermos o que Dylan pensava. Já em Junho de 1984, em entrevista a Kurt Loder, na “Rolling Stone”, ele havia afirmado exactamente o mesmo, classificando esse álbum como “uma anedota”. E, quando Loder lhe perguntava por que motivo, para fazer circular uma anedota, teria sido necessário gravar um duplo, a resposta não poderia ter sido mais esclarecedora: “Um álbum simples não bastaria. Seria apenas mau. Se é para o encher de merda, mais vale enchê-lo até acima”



Se reparamos bem, no entanto, aperceber-nos-emos de que a péssima reputação de Self Portrait poderia, ainda que mais atenuada, estender-se facilmente ao anterior Nashville Skyline (1969) e ao seguinte New Morning (1970), nenhum deles digno sequer de beijar a sombra de tudo o que Dylan publicara até Blonde On Blonde (1966). E é justamente isso que Another Self Portrait vem iluminar: mui correctamente datado entre 1969 – 1971, é a demonstração definitiva de que, nesse período, ou Bob Dylan sofria de severo défice da acuidade auditiva ou, então, conspirou, de facto, para que os seus apóstolos o abandonassem. Porque, embora não se descobrindo um filão de preciosidades ocultas (e persistindo a esquizofrenia vocal entre o meloso timbre de alcaçuz-country e a velha e amada aspereza nasalada), todas, literalmente todas, as versões de temas desse trio de publicações e/ou os respectivos inéditos são, aqui, incomparavelmente superiores aos que conhecíamos. Essencialmente acompanhado por Al Kooper, David Bromberg (e os ocasionais George Harrison, Charlie Daniels, Russ Kunkel e a Band, nas faixas recuperadas do concerto no festival da ilha de Wight), como "test drive", chegará a escuta de "Time Passes Slowly #2", com o Hammond B-3 de Kooper em chamas, a evocar os tempos, à época, ainda não tão longínquos de "Like A Rolling Stone". Mas, acima de tudo, que não se perca a superior ironia de alguém que jurava pelo “je est un autre”, de Rimbaud (em dylanês, “I’m not there”), ter chamado Self Portrait ao seu dejecto.

29 August 2013

(AINDA) OUTRO LADO DE BOB DYLAN

  
Bob Dylan deverá ter pulado de alegria ao ler a pergunta com que Greil Marcus iniciava os 40 000 caracteres da crítica a Self Portrait, no número de 23 de Julho de 1970 da “Rolling Stone”: “What is this shit?...” E mais feliz terá ficado ao reparar que, evidentemente, Marcus não se ficava por aí mas zurzia forte e feio na obra e no autor, comparando-o com Rimbaud que trocara a poesia pelo comércio na Abissínia, interrogando-se acerca do real valor de Dylan (“Em 65 e 66, seríamos assim tão impressionáveis? Não teremos sobrevalorizado algo que, afinal, não era melhor do que isto? Aqueles discos tão intensos terão sido apenas acidentais?”), desafiando-o a ir até ao fim e a assumir o “Bing Crosby Look”, e confessando amargamente que era a primeira vez que se sentia cínico ao ouvir um disco dele. Mas, a certa altura, por acaso ou não, Greil Marcus acerta no alvo: “Há uma curiosa tendência para o auto-apagamento. Dylan retira-se de uma posição na qual lhe é exigido que exerça o poder. Quase como o duque de Windsor abdicando do trono”. De facto, estava tudo a correr tal como fora planeado: um pouco por todo o lado, Self Portrait seria incinerado, o “Pravda” soviético chamaria a Dylan “capitalista ganancioso” e este fizera questão de não recusar o muito institucional e nada revolucionário doutoramento honoris causa que a universidade de Princeton lhe concedera. Ainda que, desgraçadamente, na cerimónia de atribuição dessa distinção, o académico de serviço não tenha resistido a apresentá-lo na qualidade de “expressão autêntica da consciência inquieta da Jovem América”.


Porque era justamente disso que ele queria fugir! Se seleccionara para Self Portrait os registos mais deslavadamente country e as mais pálidas interpretações de "standards", a intenção era, precisamente (assim o afirma em Chronicles Volume One), alienar de uma vez por todas a multidão de fãs e apóstolos que o acossava e lhe exigia “que saísse à rua e os conduzisse sabe-se lá onde, deixando de me esquivar aos meus deveres de porta-voz de uma geração. (...) Eu apenas cantara canções directas que falavam de realidades novas e poderosas. Tinha muito pouco em comum e sabia ainda menos de uma geração de que era o suposto porta-voz. (...) Sentia-me como um pedaço de carne atirado aos cães. (...) Escreviam-se histórias acerca de eu andar em busca de mim, numa demanda interior atormentada. Tudo isso me parecia óptimo. Gravei um álbum duplo [Self Portrait] para o qual atirei tudo o que colasse e não colasse à parede. (...) Convencera-me de que, quando a crítica demolisse a minha obra, o mesmo aconteceria comigo e o público me esqueceria”. Another Self Portrait (1969–1971), décimo volume das Bootleg Series editado a 27 de Agosto, apresenta-se com a exigente missão de demonstrar que, nesses anos de eclipse, ao lado da Band, de David Bromberg e de Al Kooper, nem tudo o que Dylan gravou era o esterco que, deliberadamente, amontoou no duplo de 1970. Bem mais difícil será fazer o mesmo em relação aos registos do período "born-again", quando o seu fervor evangelizador nem perante o produtor Jerry Wexler se deteve, obrigando este a dizer-lhe “Bob, estás a lidar com um judeu ateu de 62 anos. Vamos só gravar um álbum...”