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09 January 2013
19 December 2007
AND SO ON

Ai Phoenix - The Light Shines Almost All The Way
Ai Phoenix - The Light Shines Almost All The Way
A lista de referências e influências que eles próprios reivindicam na sua página do MySpace é quase irritantemente impecável: Bob Dylan, Hal Hartley, Salinger, Leonard Cohen, Sonic Youth, Aki Kaurismaki, “Olympia”, de Manet, Hiroshima Mon Amour e The Ramones. À qual acrescentam “and so on”. O que se poderá vir, posteriormente, a saber inclui os Velvet Underground, Stina Nordenstam ou Vic Chestnutt. Mas o mais interessante nesta banda norueguesa de Bergen é que, mesmo conhecendo o seu mapa de estradas privado, nenhum dos pontos de paragem pode ser imediatamente identificado.
Eles até poderão lá estar todos, no entanto, é como se tivessem sido apenas fotografados e, deles, os Ai Phoenix só tivessem guardado os negativos em versão de muito baixa definição. The Light Shines Almost All The Way não será tão excelente como The Driver Is Dead (2000) ou Lean That Way Forever (2002) mas não deixa, por isso, de conter uma notável colecção de canções construídas de poucas peças, “valores de produção” rudimentares e um esplêndido sentido de encenação “povera” que lhes assenta como uma luva. (2007)
ARTESANATO
Ai Phoenix - Lean That Way Forever
Baixa, baixíssima tecnologia para o maximo de esplendor: guitarras (eléctrica e acústica), baixo, banjo, um vetusto moog, acordeão e bateria. É quanto basta e sobra para que Lean That Way Forever, como se se tratasse da coisa mais evidente deste mundo, seja capaz de concentrar em si dez canções daquela variedade de pop assombradamente mágica em que, só muito episodicamente, tropeçamos. Eles chamam-se Patrick, Mona, Bosse, Espen, Robert e Odd-Erik, são de Bergen, na Noruega (o que só contribuirá para a felicidade dos descobridores de "cenas locais" geograficamente arrumadinhas), respondem colectivamente como Ai Phoenix e a música que criam dir-se-ia uma espécie de artesanato sonoro minimalista, qualquer coisa de rústico e poeticamente secreto que tanto parece resgatado da desolação dos desertos como inventado no crepúsculo de uma mansarda parisiense.
Mona canta como uma Hope Sandoval ainda mais glacialmente espectral — e o grupo, às vezes, soa como uns Mazzy Star que tivessem decidido levar à letra o laconismo espartano dos Young Marble Giants —, por todo o álbum paira o espírito paralisadamente narcótico dos primeiros Spain, aqui e ali entrevê-se o fantasma bizarro de Martin Stephenson e, de "valses-musettes" do Moulin Rouge como Nico as cantaria a miniaturas cripto-folk-country geradas num universo paralelo (em "Where Is Your Heart" ou "Hopscotch", o tempo verdadeiramente pára), eles reclinam-se para sempre sobre o nosso ombro e nós não queremos outra coisa. (2002)
09 December 2007
OUTRA ILUMINAÇÃO

Sigur Rós - Heima

Sigur Rós - Hvarf-Heim
Sigur Rós - Heima
Sigur Rós - Hvarf-Heim
Num ponto incerto da primeira metade da década de noventa do século passado – por comodidade, simplifiquemos bastante considerando que começámos a reparar nisso quando Björk, em 1993, publicou Debut –, a música do extremo Norte da Europa iniciou um gradual e quase ininterrupto processo de afirmação no exterior das suas fronteiras nacionais. Havia, é verdade, o longínquo precedente dos ABBA (e de mais uns quantos outros praticantes menores), mas esta “segunda vaga” optou antes por desbravar território habitualmente assinalado como “indie” e zonas afins. De facto, não existia nenhum motivo plausível para que aquela que é, muito provavelmente, a zona civilizacionalmente mais avançada do planeta não fosse capaz de gerar música dotada de uma identidade própria mas, ao mesmo tempo, totalmente em sintonia com o ar dos tempos. Foi, por isso, inteiramente natural que, dos Hedningarna às Värttinä, dos Gus Gus a Anja Garbarek, Jimi Tenor, Ai Phoenix, Stina Nordenstam, Jens Lekman, Hanne Hukkelberg, Kings Of Convenience, Jagga Jazzist, Múm, Irene, Sondre Lerche, Röyksopp, Benni Hemm Hemm e mais uns (consideráveis) quantos, a Suécia, Noruega, Finlândia e Islândia – a Dinamarca mantem-se conspícua e misteriosamente ausente – tivessem começado a hastear bandeiras em domínios anteriormente sob quase total hegemonia anglo-americana. Bastante mais interessante, no entanto é que, de um modo geral, praticamente todos eles (independentemente da avaliação dos resultados) se furtassem deliberadamente à tendência “copy+paste” dominante e procurassem sublinhar traços de personalidade autónomos. Era exactamente a isso que se referia Georg Holm, baixista dos islandeses Sigur Rós, quando, por altura da edição de Agætis Byrjun (1999), afirmava “O que me deixa perplexo quando desembarco em Inglaterra, é até que ponto a música é urbana, frustrada, sem alegria. Nunca tem o ar de gastar um minuto a reflectir ou de oferecer qualquer matéria para reflexão”. E propunha um programa: "Apagar o quadro onde se distribuem todas as etiquetas musicais e deixar apenas um grande espaço em branco onde só se possa ler 'música'".
Quase uma década depois, ninguém duvidará que o objectivo foi atingido, embora as opiniões se possam dividir entre quem vê nos Sigur Rós apenas uma declinação da “new age” em variante “indie rock” escandinavo (e o apetite devorador com que inúmeros documentários, séries televisivas e filmes se lançaram sobre a música do grupo sempre que se tratou de retratar a “transcendência”, o “insondável maravilhoso” e a “imensidão” são, acerca disso, eloquentes) e quem os encara como a mais sublime oferenda dos deuses aos humanos desde os Pink Floyd.
Heima (duplo DVD) e Hvarf-Heim (duplo CD) não servirão para pôr fim ao debate mas, introduzem, pelo menos, alguns dados novos: concretizados no intervalo entre o final da digressão mundial que se seguiu a Takk (2005) e a pausa para reflexão pré-novo álbum, num recolhem-se as imagens de uma curta volta de concertos gratuitos pela Islândia (em modelo-filme-propriamente-dito e sob a forma de documentário) e, no outro, uma colecção de temas inéditos, versões alternativas e revisões acústicas de peças já conhecidas da banda. Se, no(s) filme(s), a assombrosa “coincidência” entre imagens e música (e a Islândia oferece o género de paisagem onde o director de fotografia mais sapateiro se transforma instantaneamente em inspiradíssimo poeta telúrico e toda a avalanche de preconceitos sobre a natureza “vulcânica” e “glaciar” da música dos Sigur Rós encontra a previsível confirmação) e a calorosa convivialidade dos concertos – ao ar livre, em centros sociais e paroquiais, fábricas de conservas desactivadas, minúsculas igrejas, perante as várias gerações de famílias das reduzidas populacões locais ou no confronto com “cromos” indígenas – são, à partida, apostas esmagadoramente ganhas, é, porém, nas releituras via vibrafone, pianos de brinquedo, marimbas de lousa, ensemble de cordas, harmónios de fole e banda de sopros em trânsito do palco para a rua (saúde-se aqui a porosidade entre filme e registo áudio), contra a formulaica estética eléctrica “fogo e gelo” de espirais “orgásmicas” em crescendo/diminuendo, que alguma “food for thought” desponta. E isso é bom e, se calhar, muito inesperadamente iluminador. (2007)
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