Há uma espécie de espírito do mal que se pela por descobrir génios injustiçados e visionários antes do seu tempo; porém, se interrogássemos os génios e os visionários, todos, unanimemente, declarariam que não se importariam nada, não senhor, de terem sido justamente recompensados na altura certa. E os Abztraqt Sir Q – discípulos das melhores academias pop-experimentalistas lusas –, seguramente, não o negariam. Porque ou alguma coisa drasticamente inesperada acontece ou todas as constelações parecem alinhar-se de forma a que, daqui por vinte anos, alguém virá anunciar que viu o futuro da pop/rock portuguesa e ele se aloja nos esporos lançados pelos Abztraqt Sir Q, algures nas primeiras décadas do século XXI. Vai ficar-lhes extraordinariamente bem no currículo (provavelmente, na secção póstuma do currículo), se calhar, será pretexto para uma reunião nostálgica e tournée complementar mas, agora, entre 2009 (Qorn Pop Garden), 2010 (Extimolotion) e 2012 (este EP, Warmony), é que daria bastante jeito.
Quatro temas ("Meta For Me", "Warmony", "Wrathful Love Line, Like Love" e "Qanimale"), acrescentam um mini-capítulo à lenda em processo de edificação: ninguém como eles caminha, hoje, melhor sobre aquela estreitíssima linha – traçada nos anos do pós-punk – em que complexidade e comunicação imediata, racionalidade e instinto se equilibram. Mundina Moruniq, “a vocalista exibicionista”, cedeu o lugar a Dichma Rahma, “a vocalista inconstante” (o jogo de máscaras é constitucional mas não "gimmick" indispensável), contudo, a perfeitíssima máquina de expelir figuras geométricas sob a forma de canções não acusou o abalo. O tempo para resolver a contradição que enunciam em ‘Qanimale’ ("There is no room for us, there is room for us") é que continua, inexoravelmente, a correr.
29 January 2011
SEXO VIRTUAL
Vários - T(h)ree
Se, como no Livro Rosé de Sua Santidade o Camarada-Presidente Vieira profeticamente se afirmava (parafraseemos de forma publicável), “um país sem orçamento oferece à China aquela modalidade de sexo oral que começa com um ‘c’ e termina em ‘lingus’”, não poderia ser mais oportuno o surgimento de um projecto cujo objectivo é estreitar as relações entre duas “regiões administrativas especiais” da República Popular (Hong Kong e Macau) e outra que, ansiosamente, se candidata a idêntico estatuto com considerável dose de luxúria (Portugal). Concebido pelo produtor David Valentim que, exclusivamente através da Internet, estimulou bandas e músicos dos três territórios a partilharem criatividade e ficheiros musicais (permanecemos, pois, neste caso, ainda no domínio do sexo virtual), integraram o contingente luso, entre outros, os AbZTRAQT SiR Q, Balla, Ölga, Kubik, Erro!, Hipnótica, Norberto Lobo e Bernardo Devlin e, pelo destacamento oriental, número igual de manipuladores sonoros portadores de nomes razoavelmente impronunciáveis.
AbZTRAQT SiR Q e Joey Chu - "Honqon"
Seria particularmente apropriado que, no contexto de intimidade a que se refere o Camarada-Presidente, versões de "Just Like Honey" (dos Jesus & Mary Chain), "Work It" (de Missy Elliott) ou "Where Life Begins" (de Madonna) - meros exemplos de uma lista potencialmente muito mais extensa -, integrassem o reportório mas não é essa ausência a falha essencial: escutado sem informação adicional, dificilmente se adivinharia que T(h)ree não é apenas uma colectânea de faixas avulsas de cada um dos grupos nacionais, sem que se detectem as contribuições exteriores. Honrosas excepções em que se suspeita ter sido bom para ambos: AbZTRAQT SiR Q e Joey Chu, Norberto Lobo com Gloria Tang e a revisão de Winnie Lau para "Esta Depressão Que me Anima", de A Naifa.
Em 1983, Woody Allen criou a personagem Leonard Zelig, singular "camaleão humano" das décadas de 20 e 30 do século passado, capaz de, em virtude de uma incomum disfunção psíquica, involuntária e dolorosamente, mimetizar os traços de personalidade e os maneirismos sociais daqueles com que convivia. Começava a sua trajectória como freak circense e acabava na qualidade de herói de guerra mas – é da própria natureza das melhores histórias – não se ficaria pelas salas de cinema a sua peculiar condição. Exactamente da mesma forma que, dois anos depois, em outro filme de Allen, A Rosa Púrpura do Cairo, Jeff Daniels saltava do ecrã para o mundo real, o "síndroma de Zelig" - uma raríssima forma de perturbação cerebral – seria identificado, em 2007, por uma equipa de cientistas italianos dirigida por Giovannina Conchiglia. Não desistam de ler já: no quinto episódio da quarta temporada da série Dr. House (“Mirror, Mirror”), a um doente era diagnosticado o "síndroma de Giovannina", versão retorcidamente televisiva do Zelig original. E, por estes dias, há quem fale de um "síndroma de House", problema com que os médicos apenas humanos têm de lidar face à desconfiança dos doentes que não descobrem neles o poder dedutivo, sherlockianamente sobre-humano, do intratável figurão representado por Hugh Laurie. O qual (House, não Laurie), dizem as más línguas, sofrerá do "síndroma de Asperger". A arte imita a vida que imita a arte que imita a vida que imita a arte que imita a vida...
Para o que, agora, realmente, interessa, por diversos motivos, Zelig dá imenso jeito. Em primeiro lugar, porque uma das bandas portuguesas de que, aqui, se falará responde pelo nome de Zelig. E não inocentemente: são eles mesmos quem confessa que “a nossa música tem uma influência muito forte de muitos géneros diferentes. É uma música que se transfigura muito e passa por muitas mutações” e reivindicam Zelig-personagem como “metáfora da influência que as coisas exercem umas sobre as outras”. Depois, porque, tanto no caso deles como no dos Pop Dell’Arte e dos Abztraqt Sir Q, coexistem, em simultâneo, o impulso para a permanente transformação e a recusa de se deixarem indistinguir da atmosfera musical circundante. Por outras palavras, todos são Zeligs para si mesmos mas sobressaem, violentamente, no cenário, quais bizarras e inclassificáveis criaturas. Porque cometeram a proeza de reinventar a roda da gramática musical? Não, apenas porque, nesse toca-e-foge de mimetismo/antimimetismo, optaram pelo jogo de reflexos sobre espelhos quebrados e, sabiamente, recompuseram os estilhaços segundo as regras de uma (des)ordem muito pessoal e privada.
Prioridade, então, aos veteranos. Mas pela única razão de que, na circunstância, os Pop dell’Arte funcionam, de modo ideal, como precursores e elo de ligação – estético e ético – em relação aos outros dois grupos. Quixote romântico da segunda vaga do pop/rock luso, editor, com a independente Ama Romanta, de múltiplos embriões de muito e nada (Mler Ife Dada, Sei Miguel, Croix Sainte, Nuno Canavarro, Tó Zé Ferreira, Pascal Comelade, Mão Morta...), ao leme do "bateau-ivre" Pop Dell’Arte, João Peste inventou o equivalente musical de um jornal que somente é publicado quando tem, de facto, notícias relevantes para dar – de 1986 até hoje, pelo meio de singles, EP dispersos e compilações, apenas três álbuns: a memorável estreia de 1987, Free Pop (isso mesmo que o título insinua: a atitude libertária do free-jazz transposta, via Duchamp, Warhol e descendência para o universo-pop) e os quase nada menores Ready Made (1993) e Sex Symbol (1995). Pelo que, quinze anos depois, Contra Mundum seria sempre motivo de celebração. Acresce, entretanto, que não se trata, exclusivamente, de saudar o regresso do Pierrot Lunaire trágico da pop nacional: centrados no núcleo resistente Peste/José Pedro Moura, os Pop Dell’Arte que, de novo, escutamos reiniciam a jornada interrompida e voltam ao laboratório subterrâneo onde dão vida aos psicadelismos fadistas, às fanfarras eléctricas, aos arraiais weillianos e à poeticamente perversa candura de palavras e melodias estropiadas em bailado demente de que só eles conhecem o segredo.
É fácil relacionar os Pop Dell’Arte com os muitíssimo mais novos Abztraqt Sir Q. Desde logo, porque algum motivo terá havido para que João Peste (não propriamente uma guest star de serviço) tenha aparecido como convidado do seu óptimo álbum de estreia, Qorn Pop Garden, publicado no final de 2008. A afinidade que, então, já se pressentia – a costela teatral e operaticamente excessiva, os malabarismos linguísticos poliglotas, a veia experimentalista domesticada pelo vício pop – confirma-se integralmente mas, desta vez, em Extimolotion, aprofundando a morfologia ossuda das canções, o perfil esquinado das melodias e o solavanco rítmico como forma superior do riff, numa espécie de depuração última do pós-punk, filtrado através de trinta anos de história, alguma erudição e um prazer evidente em construir diagramas sonoros a três dimensões e bastante mais variantes cromáticas.
Os Zelig, enfim, são o improbabilíssimo lugar geométrico onde gente oriunda dos Ornatos Violeta, Pluto, Drumming, Dep, Electric Buttocks, Tchakare Kanyembe, Foge Foge Bandido e tropelias punk hardcore paralelas tropeça em Sun Ra, nos Naked City, em John Barry e Frank Zappa e, armada de marimbas, vibrafones, contrabaixo, flauta, teclados, percussões, serrote, guitarra e uma devastadora secção de sopros de faca nos dentes, capaz de passar a ferro uma seara, vai-se estatelar gloriosamente muito próximo da terra de ninguém onde, num hipotético momento de repouso, a Flat Earth Society de Peter Vermeersh e seus pacientes de Tourette associados recupera o fôlego, após mil refregas sonoras. António Serginho, Eduardo Silva, José Marrucho, Nico Tricot e Pedro Cardoso – muito conservatório, muito currículo de jazz, rock e ruídeira marginal afim – estão prontos para, caso seja necessário, operar como reserva estratégica da brigada de combate flamenga: as coordenadas do terreno conhecem-nas de cor e não têm a alma menos engarrafada de sonhos de Morricone em pagodes chineses, de surf bands flutuando em jangadas de juncos no Sahara, de James Bond correndo por entre semifusas numa animação musicada por Carl Stalling ou de cenas tórridas de Rita Hayworth nos braços de um mullah de Andrómeda. Não duvidem por um só segundo: com um máximo de prontidão, esse será sempre o mínimo que deles poderemos esperar.
Há um cenário exótico de ficção algures pelo Oriente e quatro personagens heterónimas – Andy Newman, “o baterista pedante”, Egon Crippa, “o baixista esquivo”, Mundina Moruniq, “a vocalista exibicionista”, e Peter Shuy, “o guitarrista neurótico”. O “lettering” e a concepção gráfica da capa remetem também para um universo paralelo alternativo, com script final assinado por AbZTRAQT SiR Q para a BD/filme sem imagens Qorn Pop Garden.
O finíssimo elo de ligação com a realidade conduz-nos daí até Lisboa, Portugal, ainda que com um considerável solavanco na máquina do tempo, projectada duas décadas para trás, na direcção daquele remoinho sonoro onde se geraram bandas como os Mler Ife Dada e Pop Dell’Arte (cujo lendário João Peste, apanhado numa curva apertada do espaço-tempo, foi para aqui aspirado em “Sorry O”) e, sob outras coordenadas geográficas mas também com significativo ADN luso, até ao esconderijo londrino no qual as Raincoats se debatiam com a afinação das guitarras.
A língua portuguesa, durante o teletransporte, foi, acidentalmente, trocada pelo inglês mas a perda é largamente compensada através da viagem que nos é oferecida por um constante zig-zag de ritmos e melodias, planos harmónicos em declive e interpelações sedutoramente absurdas.