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19 April 2017

NEUROCIÊNCIA

  
No último mês da campanha para a presidência norte-americana, Aimee Mann, contribuiu com uma canção peculiar para o site independente “30 Days 30 Songs”, ponto de encontro dos “musicians for a Trump-free America” (actualmente convertido em “1000 Days 1000 Songs”, segundo o Washington Post, “a playlist of songs that Donald Trump will hate”): numa demonstração exemplar do seu “sense of irony made of real iron”, "Can’t You Tell?" apresentava um Trump que, falando na primeira pessoa, confessava que apenas se candidatara pela emoção da vitória e para se vingar da humilhação que sofrera às mãos de Barack Obama, em 2011, no jantar de correspondentes da Casa Branca. Mas que, apavorado perante a possibilidade cada vez mais concreta de vir a ser presidente, terminava, suplicando: “Isn’t anybody going to stop me? I don’t want this job, my god, can’t you tell I’m unwell?” 



“Unwell” é também o mínimo que poderá dizer-se do estado de espírito da maioria das personagens que, desde 1985, com os ‘Til Tuesday, e, a partir de 1993, a solo, habitam as canções de Mann. Muito em particular em álbuns como Bachelor No. 2 (2000), Lost in Space (2002), The Forgotten Arm (2005), @#%&*! Smilers (2008), e, acima de todas, nas que escreveu para a perfeitíssima banda sonora de um dos mais devastadores filmes de sempre – Magnolia, de Paul Thomas Anderson (1999) –, cujo argumento foi, aliás, inspirado nelas. Razão pela qual não seria, de todo, um disparate supor que um título como Mental Illness designaria uma compilação/"best of" de Aimee. Afinal, é tão só o seu nono registo de estúdio que, em modo sarcástico, assume o rótulo “depressivo” que lhe foi colado mas não desiste de investigar e inventariar aquilo de que, já há 50 anos, em The Ghost In The Machine, Arthur Koestler suspeitava: fundamentalmente disfuncional, do cérebro da criatura humana pouco há a esperar senão a trágica repetição dos mesmos erros. Nas palavras e melodias de uma suprema classicista pop, isto deverá ler-se “Here we go again, it's obvious, here we go again, we've just become our worst mistakes, the rattles off two rattlesnakes, the antidote that no one takes, so here we go again”. Ou, nitidamente, já no fim da linha, “Philly thinks, and when he thinks he can't feel anymore, Philly drinks, and when he drinks, all the drunks hit the floor”.

02 April 2007



The Young Snakes (featuring Aimee Mann)

Atenção jovens músicos e bandas em início de carreira! Se, após um primeiro concerto ou publicação de primeiro disco, acerca de vós disserem ou escreverem que a vossa obra — tão suadamente arrancada às mais insondáveis profundezas da alma — não vale a ponta de um chavelho, e, muito especialmente, se isso for desgraçadamente verdade, nunca abandoneis a esperança! Pode muito bem acontecer (quer dizer, talvez possa acontecer...) que, um dia mais tarde, ainda o vosso nome venha a constar entre os mais ilustres autores de música do novo século. E afirmo-o porque, perante os meus olhos (e depois de dolorosa passagem pelos meus tímpanos), se encontra o "lost album" só agora finalmente editado da primeira banda de Aimee Mann, The Young Snakes.


Não adianta poupar palavras, ser caridoso ou puxar o lustro aos eufemismos: é mau, muito, muito mau, andou mais do que merecidamente "lost" durante vinte e quatro anos e o mundo nada teria perdido se assim permanecesse por toda a eternidade. Aimee Mann e os seus dois companheiros da altura (que, generosamente, não nomearei) dedicavam-se a um plágio muito rasteirinho do que, à época, Siouxsie & The Banshees+Nina Hagen+The Slits inventavam e não apenas rastejavam como o faziam bastante desajeitadamente. Pois bem, de tal ovo tão mal enjorcado, sairia (primeiro, via 'Til Tuesday, depois, a solo) uma das mais brilhantes "songwriters" actuais que nos ofereceria álbuns a roçar a perfeição. Importa, então, esquecer este objecto rapidamente, escrever aí pelo meio patinho-feio-e-coisa-e-tal (por acaso, de corte de cabelo punk, Aimee até não ficava nada mal...) e passar ao capítulo seguinte.

20 January 2007

VENENO



Bachelor nº 2 (Or The Last Remains Of The Dodo)

Para quem ainda não tinha reparado, a banda sonora de Magnolia deve ter dissipado as últimas dúvidas: Aimee Mann é uma das mais importantes "songwriters" contemporâneas. Justamente daquela estirpe — como aconteceu com a génese do filme de Paul Thomas Anderson — de cada canção conter o embrião em potência de um "script" para cinema. Com cada uma das treze de Bachelor nº2 (onde se incluem três dos temas presentes em Magnolia) passa-se exactamente o mesmo: como uma espécie de Elvis Costello no feminino ou de Suzanne Vega com pior feitio, de "How Am I Different" a "You Do", desfila uma galeria de situações e personagens sobre as quais a ex-'Til Tuesday vai destilando um insidioso veneno que (se as canções forem autobiográficas e os destinatários se sentirem atingidos) não lhe deve propriamente alargar o círculo de amigos, conhecidos e ex-namorados...



Recortadas num pano de fundo musical de puríssimo classicismo pop onde a melodia infecto-contagiosa predomina e os arranjos e instrumentação sublinham e adjectivam harmonicamente o sentido global, as circunstâncias variam entre o cinismo militante ("Once you were just our dear friend Ron, now you look out for number one, who would've guessed that you'd become what you hated"), o desespero puro ("So do me a favor, if I should waver, be my savior and get out the gun") ou a incredulidade perante a improvável felicidade ("And just one question before I pack, when you fuck it up later, do I get my money back?"). E, em todas elas, simultaneamente arrogante e falsamente ingénua, Aimee Mann como narradora, observadora, personagem secundária ou eventual protagonista, edificando cenários e animando personalidades naquele que, embora objectivamente seja uma das "sobras" de 2000, irá ficar, sem dúvida, como o primeiro grande álbum de canções clássicas do novo século. (2000)