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Eu ia entrar em recesso por tempo indeterminado, como o Idelber, mas no meu caso por falta absoluta de leitores, já que os meus 2 ou 3 resolveram fazer forfait.
Mas eis que surge a sempre pródiga e bem-vindíssima Melissa para de novo salvar esse blog do naufrágio completo.
En hommage, minha leitura desse romance do McEwan, que acabou por se revelar melhor do eu pensava, aí embaixo.
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quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Jardim de cimento
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Não, não é absolutamente chato o livro (na verdade, seu primeiro romance) do Ian McEwan, como havia aventado rapidamente lá embaixo, é que eu demorei um pouco a engrenar na leitura e as frases mais descritivas, enquanto as coisas não estão claras, faz parecer lento. Mas ele vai ficando cada vez melhor a partir do momento em que a mãe dos quatro irmãos morre.
Desde que enterram a mulher num baú, dentro do qual jogam cimento e o deixam ficar no sótão, o leitor vai ficando cada vez mais interessado naquelas vidas totalmente entregues ao deus dará, sem lei nem grei, incapazes de sentir profundamente seja o que for - dor, luto, alegria, vergonha. É como se pairassem num lugar sem constrições sociais, sem regras a que obedecer, o que não significa em absoluto que sejam bestializados, mas que vão cada dia mais se colocando à margem da vida comum, violando as normas sem que isso nos pareça absurdo. Só estranho. Como se estivessem anestesiados, já que tampouco veem o tempo passar.
Assim, vão amolecendo os sentidos, e vão descobrindo mais e mais nos corpos uns dos outros uma existência, um estar-no-mundo, uma força que, não sendo pensada, nutre-se mais e mais das sensações epidérmicas. Essa aproximação física dos irmãos é narrada sem detalhes, meio por alto, nos moldes da letargia de que são possuídos, mas nem por isso deixa de pulsar a carga erótica, sobretudo no encontro final entre os dois irmãos.
Toda a estranheza daquelas vidas aumenta quando entra em cena um quinto personagem (ou sexto, já que a mãe morta está viva na história), algo como um namorado da irmã mais velha. Ele vai, de algum modo, suspender o véu do senso comum e sublinhar o estranho daquilo tudo. Espécie de anjo exterminador, quando flagra a namorada na cama com o irmão sabemos que nada mais será como antes. Ele desce, transtornado, ouvem-se marretadas no sótão, um carro que dá a partida e, logo, outros carros com sirene ligada que se aproximam. Os irmãos (Julie, por volta de 17 anos; Jack, 15 anos, narrador; Sue, 13 anos e Tom, talvez 11 anos) estão todos agora no mesmo quarto, trancam a porta e continuam desejando ignorar a realidade.
Começamos a varrer a sujeira e recolhê-la em caixas de papelão, que carregávamos para as latas de lixo. Sue nos ouviu e desceu para ajudar. Desentupimos os ralos, lavamos as paredes, esfregamos o chão. Enquanto Sue e eu atacávamos os pratos, Julie foi comprar os gêneros alimentícios. Acabamos no exato momento em que ela voltou, e logo começamos a cortar os legumes parar preparar um grande cozido. (p. 77-8).
Não estávamos tristes, e sim excitados, numa espécie de torpor. Esquecíamos de falar baixinho até que um de nós fazia shhh! Conversamos sobre a festa de aniversário junto à cama de mamãe e a exibição de Julie, pedindo que a repetisse. Ela chutou algumas roupas para o lado e se pôs de cabeça para baixo num movimento felino, as pernas bronzeadas mal se movendo ao atingir a vertical. Sue e eu aplaudimos baixinho. Foi o som de dois ou três carros parando do lado de fora, as batidas de portas e os passos apressados de várias pessoas no caminho que levava à porta da frente que acordaram Tom. Através de uma abertura nas cortinas, uma luz giratória projetava um reflexo ondulante na parede do quarto. Tom sentou-se, piscando os olhos, e ficou observando aquele efeito luminoso. Reunimo-nos em torno do berço e Julie, inclinando-se para a frente, o beijou.
"Muito bem", ela disse, "que soninho gostoso, não foi?" (p.129).
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Ian McEwan. O jardim de cimento. Tradução Jorio Dauster. São Paulo: Cia das Letras, 2009. Coleção Companhia de Bolso.
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Não, não é absolutamente chato o livro (na verdade, seu primeiro romance) do Ian McEwan, como havia aventado rapidamente lá embaixo, é que eu demorei um pouco a engrenar na leitura e as frases mais descritivas, enquanto as coisas não estão claras, faz parecer lento. Mas ele vai ficando cada vez melhor a partir do momento em que a mãe dos quatro irmãos morre.
Desde que enterram a mulher num baú, dentro do qual jogam cimento e o deixam ficar no sótão, o leitor vai ficando cada vez mais interessado naquelas vidas totalmente entregues ao deus dará, sem lei nem grei, incapazes de sentir profundamente seja o que for - dor, luto, alegria, vergonha. É como se pairassem num lugar sem constrições sociais, sem regras a que obedecer, o que não significa em absoluto que sejam bestializados, mas que vão cada dia mais se colocando à margem da vida comum, violando as normas sem que isso nos pareça absurdo. Só estranho. Como se estivessem anestesiados, já que tampouco veem o tempo passar.
Assim, vão amolecendo os sentidos, e vão descobrindo mais e mais nos corpos uns dos outros uma existência, um estar-no-mundo, uma força que, não sendo pensada, nutre-se mais e mais das sensações epidérmicas. Essa aproximação física dos irmãos é narrada sem detalhes, meio por alto, nos moldes da letargia de que são possuídos, mas nem por isso deixa de pulsar a carga erótica, sobretudo no encontro final entre os dois irmãos.
Toda a estranheza daquelas vidas aumenta quando entra em cena um quinto personagem (ou sexto, já que a mãe morta está viva na história), algo como um namorado da irmã mais velha. Ele vai, de algum modo, suspender o véu do senso comum e sublinhar o estranho daquilo tudo. Espécie de anjo exterminador, quando flagra a namorada na cama com o irmão sabemos que nada mais será como antes. Ele desce, transtornado, ouvem-se marretadas no sótão, um carro que dá a partida e, logo, outros carros com sirene ligada que se aproximam. Os irmãos (Julie, por volta de 17 anos; Jack, 15 anos, narrador; Sue, 13 anos e Tom, talvez 11 anos) estão todos agora no mesmo quarto, trancam a porta e continuam desejando ignorar a realidade.
Começamos a varrer a sujeira e recolhê-la em caixas de papelão, que carregávamos para as latas de lixo. Sue nos ouviu e desceu para ajudar. Desentupimos os ralos, lavamos as paredes, esfregamos o chão. Enquanto Sue e eu atacávamos os pratos, Julie foi comprar os gêneros alimentícios. Acabamos no exato momento em que ela voltou, e logo começamos a cortar os legumes parar preparar um grande cozido. (p. 77-8).
Não estávamos tristes, e sim excitados, numa espécie de torpor. Esquecíamos de falar baixinho até que um de nós fazia shhh! Conversamos sobre a festa de aniversário junto à cama de mamãe e a exibição de Julie, pedindo que a repetisse. Ela chutou algumas roupas para o lado e se pôs de cabeça para baixo num movimento felino, as pernas bronzeadas mal se movendo ao atingir a vertical. Sue e eu aplaudimos baixinho. Foi o som de dois ou três carros parando do lado de fora, as batidas de portas e os passos apressados de várias pessoas no caminho que levava à porta da frente que acordaram Tom. Através de uma abertura nas cortinas, uma luz giratória projetava um reflexo ondulante na parede do quarto. Tom sentou-se, piscando os olhos, e ficou observando aquele efeito luminoso. Reunimo-nos em torno do berço e Julie, inclinando-se para a frente, o beijou.
"Muito bem", ela disse, "que soninho gostoso, não foi?" (p.129).
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Ian McEwan. O jardim de cimento. Tradução Jorio Dauster. São Paulo: Cia das Letras, 2009. Coleção Companhia de Bolso.
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sábado, 14 de fevereiro de 2009
Sábado
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Acabei lendo Sábado com certo prazer, do segundo terço em diante, embora tenha achado a discussão sobre a guerra do Iraque entre pai e filha meio chata, bem como todas as descrições minuciosas das cirurgias e procedimentos que o cirurgião faz.
Acho que certas intervenções no mundo ficcional de problemas reais sempre enfraquecem uma obra, mesmo tendo sido feitas com o maior cuidado pelo autor, que as insere numa discussão perfeitamente verossímel entre pai e filha, que vivem um pouco o clássico conflito de gerações e pontos de vista divergentes sobre guerra - e sobretudo sobre essa guerra, por todos os motivos -, mas ainda assim, para mim, ficou um momento panfletário e de 'romance de tese'.
Quanto ao uso dos termos médicos, eles me chamaram imediatamente para a realidade do trabalho de pesquisa (que o autor reconhece ao final, agradecendo aos cirurgiões que o ajudaram), soaram artificiais e um pouco como "vejam como tudo está perfeitamente adequado ao universo médico-cirúrgico". Não me importa que esteja tudo certo, mas erudição artificial em ficção não me pega.
Há, ainda, digressões demais, parece que o McEwan esqueceu a qualidade da síntese nesse romance, quase tudo poderia ter sido dito melhor em menos.
Um momento em que me senti na mesa de cirurgia, visualizando com angústia coisas como:
"Antes de levantar a aba do osso, examina os fragmentos da fratura com afundamento. Pede um dissector Watson Cheyne e os levanta, delicadamente, com um movimento de alavanca. Eles saem com facilidade, e Henry os coloca na bandeja em formato de rim, cheia de betadina, que Emily lhe oferece." (p. 301).
Em compensação, as observações sobre música, inspiradas pelo trabalho do filho, são tocantes e delicadas:
"Existem esses raros momentos em que, juntos, músicos atingem algo mais doce do que tudo o que já obtiveram antes, nos ensaios e nas apresentações, algo além da mera competência técnica e cooperativa, quando a expressão deles se torna tão fácil e elegante quanto a amizade e o amor. É então que nos proporcionam um relance do que poderíamos ser, do que temos de melhor, e de um mundo impossível em que damos para os outros tudo que temos, mas sem perdermos nada." (p. 208).
Posso reconhecer isso, comungo com essa percepção e a reconheço como parte de mim. Não há quebra do pacto ficcional, porque são impressões que podem ser compartilhadas por qualquer leitor que já tenha imergido na música, qualquer música.
E embora já esperasse a cena da agressão desde que ocorre o incidente com Baxter e Nigel na rua sem saída, o momento em que o revide acontece surpreende, e todo esse entrecho na casa é muito bom - tenso, denso, forte.
Mesmo um pouco piegas, é bonitinho quando Daisy-menina e futura poeta descobre o sentido da literatura:
"... a encontraram chorando, debaixo de uma árvore, perto do pombal, não por causa da história, mas porque tinha terminado, e ela saíra de um sonho, para se dar conta de que era tudo criação de uma mulher que ela jamais conheceria. Chorava, explicou Daisy, de admiração, de alegria, por coisas assim poderem ser inventadas". (p. 161).
Pois é, ainda bem que coisas assim continuam sendo inventadas, e continuarão sempre, acho.
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Ian McEwan. Sábado. Tradução Rubens Figueiredo. São Paulo: Cia das Letras, 2005.
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