Travo sempre uma batalha comigo mesma para sair de casa, seja a hora que for, sobretudo à noite, mas hoje, instigada pelo post da carrie do sublimesucubus e também porque o Museu da República é aqui ao lado, fui ver a Primavera do Livro e só coisas ótimas aconteceram, querem ver?
Primeiro, comprei cinco livros, três da Cosac daquelas mulheres fantásticas (Karen Blixen e os dois da Duras, que eu já tenho mas não posso viver sem essas edições lindas), além de A lua da verdade, do Isaías Pessotti (alguém leu?), de quem li Aqueles cães malditos de Arquelau e amei demais. Também comprei um livrinho de pequenos contos pra Lu que, milagre, já leu dois e está gostando (milagre as duas coisas).
Segundo, depois de caminhar pelos estandes, estava tomando um café e pedi licença a uma moça que me pareceu acessível para sentar na mesma mesa, que permitiu, claro, e engrenamos um papo só ótimo - ela lida com cinema, é super extrovertida, gosta de conversar e de gente, pelo que pude ver. Além disso tudo, vocês não vão acreditar - é filha do João Cabral, que máximo! Já pensou, conversar assim de pertinho com a filha do homem, aquele mesmo, ele, JCMN. Pra quem passou a vida admirando sua obra e trabalhando com sua poesia foi um presente. Foi muito bom, viu, Inês? Beijo, adorei conhecer você.
Como se não bastassem tantas emoções, outra moça simpaticíssima pede também a nós duas licença para sentar e engrena outro papo ótimo conosco, a Márcia, com quem depois conversei sobre assuntos em comum e que parece ter sido enviada para esse encontro, porque falou de coisas que me interessam mas para as quais não sei ainda se estou pronta.
Por fim, enquanto conversava com essas duas damas encontro saindo do cinema a Silvinha, que não via há séculos, linda, com um cabelo tão fofinho, que também gostou de Piaf, como eu, e me deu notícias de um amigo comum. Foi muito bom revê-la, encontrar pessoas interessantes e foi uma festa essa minha ida ao Museu. Um abraço a todas as meninas que fizeram meu dia mais alegre hoje.
E, claro, em homenagem e preito de admiração irrestrita, poemas de João Cabral, retirados da Obra completa, Editora Nova Aguillar, 2003:
Tecendo a manhã
1
Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
2
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão. (p. 345)
***
A educação pela pedra
Uma educação pela pedra: por lições;
para aprender da pedra, freqüentá-la;
captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
ao que flui e a fluir, a ser maleada;
a de economia, seu adensar-se compacta:
lições de pedra (de fora para dentro,
cartilha muda), para quem soletrá-la.
Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
e se lecionasse não ensinaria nada;
lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha a alma. (p. 338)
***
A mulher e a casa
Tua sedução é menos
de mulher do que de casa:
pois vem de como é por dentro
ou por detrás da fachada.
Mesmo quando ela possui
tua plácida elegância,
esse teu reboco claro,
riso franco de varandas,
uma casa não é nunca
só para ser contemplada;
melhor: somente por dentro
é possível contemplá-la.
Seduz pelo que é dentro,
ou será, quando se abra;
pelo que pode ser dentro
de suas paredes fechadas;
pelo que dentro fizeram
com seus vazios, com o nada;
pelos espaços de dentro,
não pelo que dentro guarda;
pelos espaços de dentro:
pelos recintos, suas áreas,
organizando-se dentro
em corredores e salas,
os quais sugerindo ao homem
estâncias aconchegadas,
paredes bem revestidas
ou recessos bons de cavas,
exercem sobre esse homem
efeito igual ao que causas:
a vontade de corrê-la
por dentro, de visitá-la. (p. 242)
***
Janelas
Há um homem sonhando
numa praia; um outro
que nunca sabe as datas;
há um homem fugindo
de uma árvore; outro que perdeu
seu barco ou seu chapéu;
há um homem que é soldado;
outro que faz de avião;
outro que vai esquecendo
sua hora seu mistério
seu medo da palavra véu;
e em forma de navio
há ainda um que adormeceu. (p. 50)
***
Estudos para uma bailadora andaluza
1
Dir-se-ia, quando aparece
dançando por siguiriyas,
que com a imagem do fogo
inteira se identifica.
Todos os gestos do fogo
que então possui dir-se-ia:
gestos das folhas do fogo,
de seu cabelo, sua língua;
gestos do corpo do fogo,
de sua carne em agonia,
]carne de fogo, só nervos,
carne toda em carne viva.
Então, o caráter do fogo
nela também se adivinha:
mesmo gosto dos extremos,
de natureza faminta,
gosto de chegar ao fim
do que dele se aproxima,
gosto de chegar-se ao fim,
de atingir a própria cinza.
Porém a imagem do fogo
é num ponto desmentida:
que o fogo não é capaz
como ela é, nas siguiriyas,
de arrancar-se de si mesmo
numa primeira faísca,
nessa que, quando ela quer,
vem e acende-a fibra a fibra,
que somente ela é capaz
de acender-se estando fria,
de incendiar-se com nada,
de incendiar-se sozinha. (p. 219-20)
[...]
sexta-feira, 30 de novembro de 2007
quinta-feira, 29 de novembro de 2007
Adélia Prado
Hoje estou com saudades de Adélia Prado, sobre cuja poesia já escrevi um livrinho. Acho que mais do que sobre a obra de Manoel de Barros, se pode usar a palavra singeleza para definir uma de suas fortes qualidades. Quando estou muito carente de coisas simples e essenciais, leio Adélia.
Com licença poética
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo.
Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
Ensinamento
Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
'Coitado, até essa hora no serviço pesado'.
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.
Casamento
Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.
A invenção de um modo
Entre paciência e fama quero as duas,
pra envelhecer vergada de motivos.
Imito o andar das velhas de cadeiras duras
e se me surpreendem, explico cheia de verdade:
tô ensaiando. Ninguém acredita
e eu ganho uma hora de juventude.
Quis fazer uma saia longa pra ficar em casa,
a menina disse: "Ora, isso é pras mulheres de São Paulo"
Fico entre montanhas,
entre guarda e vã,
entre branco e branco,
lentes pra proteger de reverberações.
Explicação é para o corpo do morto,
de sua alma eu sei.
Estátua na Igreja e Praça
quero extremada as duas.
Por isso é que eu prevarico e me apanham chorando,
vendo televisão,
ou tirando sorte com quem vou casar.
Porque tudo que invento já foi dito
nos dois livros que eu li:
as escrituras de Deus,
as escrituras de João.
Tudo é Bíblias. Tudo é Grande Sertão.
Pelicano
Um dia vi um navio de perto.
Por muito tempo olhei-o
com a mesma gula sem pressa com que olho
Jonathan:
primeiro as unhas, os dedos, seus nós.
Eu amava o navio.
Oh! eu dizia. Ah, que coisa é um navio!
Ele balançava de leve
como os sedutores meneiam.
À volta de mim busquei pessoas:
olha, olha o navio
e dispus-me a falar do que não sabia
para que enfim tocasse
no onde o que não tem pés
caminha sobre a massa das águas.
Uma noite dessas, antes de me deitar
vi - como vi o navio - um sentimento.
Travada de interjeições, mutismos,
vocativos supremos balbuciei:
Ó Tu! e Ó Vós!
- a garganta doendo por chorar.
Me ocorreu que na escuridão da noite
eu estava poetizada,
um desejo supremo me queria
Ó Misericórdia, eu disse
e pus minha boca no jorro daquele peito.
Ó amor, e me deixei afagar,
a visão esmaecendo-se,
lúcida, ilógica,
verdadeira como um navio.
Mais poemas de Adélia em Poesia reunida, Siciliano, 1991; republicado por editora Arx.
Com licença poética
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo.
Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
Ensinamento
Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
'Coitado, até essa hora no serviço pesado'.
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.
Casamento
Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.
A invenção de um modo
Entre paciência e fama quero as duas,
pra envelhecer vergada de motivos.
Imito o andar das velhas de cadeiras duras
e se me surpreendem, explico cheia de verdade:
tô ensaiando. Ninguém acredita
e eu ganho uma hora de juventude.
Quis fazer uma saia longa pra ficar em casa,
a menina disse: "Ora, isso é pras mulheres de São Paulo"
Fico entre montanhas,
entre guarda e vã,
entre branco e branco,
lentes pra proteger de reverberações.
Explicação é para o corpo do morto,
de sua alma eu sei.
Estátua na Igreja e Praça
quero extremada as duas.
Por isso é que eu prevarico e me apanham chorando,
vendo televisão,
ou tirando sorte com quem vou casar.
Porque tudo que invento já foi dito
nos dois livros que eu li:
as escrituras de Deus,
as escrituras de João.
Tudo é Bíblias. Tudo é Grande Sertão.
Pelicano
Um dia vi um navio de perto.
Por muito tempo olhei-o
com a mesma gula sem pressa com que olho
Jonathan:
primeiro as unhas, os dedos, seus nós.
Eu amava o navio.
Oh! eu dizia. Ah, que coisa é um navio!
Ele balançava de leve
como os sedutores meneiam.
À volta de mim busquei pessoas:
olha, olha o navio
e dispus-me a falar do que não sabia
para que enfim tocasse
no onde o que não tem pés
caminha sobre a massa das águas.
Uma noite dessas, antes de me deitar
vi - como vi o navio - um sentimento.
Travada de interjeições, mutismos,
vocativos supremos balbuciei:
Ó Tu! e Ó Vós!
- a garganta doendo por chorar.
Me ocorreu que na escuridão da noite
eu estava poetizada,
um desejo supremo me queria
Ó Misericórdia, eu disse
e pus minha boca no jorro daquele peito.
Ó amor, e me deixei afagar,
a visão esmaecendo-se,
lúcida, ilógica,
verdadeira como um navio.
Mais poemas de Adélia em Poesia reunida, Siciliano, 1991; republicado por editora Arx.
segunda-feira, 26 de novembro de 2007
Piaf, amigos, canções
Piaf é um filme que fica em nós muito tempo depois que saímos do cinema: é bonito, a atriz é ótima e intensa, sobretudo o olhar e a postura comovem, a dublagem é perfeita e somos todos contagiados pelo drama daquela vida e pela luz de sua canção. Vale muito ver.
Também Meu melhor amigo é ótimo, além de fazer um bem enorme à alma. E tem também o homem comum mais charmoso dos últimos tempos (Dany Boon), que engole praticamente o Daniel Auteuil ao longo do filme. Além disso de novo, não é um filme americano, e isso é coisa à beça, estou meio saturada da cultura cinematográfica americana, sobretudo a televisiva, querendo ficar pelo menos um mês de jejum de qualquer coisa falada in English. A Net devia pagar seus assinantes por impingir tanto lixo americano.
terça-feira, 20 de novembro de 2007
Reparação
Reparação, do Ian McEwan,é um romance extraordinário. Quando, não há muito, tivemos decretado o fim das grandes narrativas, sejam históricas ou ficcionais, o autor retoma o fio da meada da grande tradição do romance moderno e escreve uma saga contada pela perspectiva de três narradores distintos, que vivenciam o mesmo acontecimento fundador e desestabilizador, cujos desdobramentos sobre a vida de cada personagem serão a matéria do que se vai ler.
O homem escreve que é um escândalo, e acho que ele realmente toma a Virginia Woolf como fonte e modelo de seu estilo, e o diz explicitamente ao longo da narrativa em dois momentos: por ocasião de uma reflexão de Briony acerca do novo texto que havia escrito e quando ela recebe uma longa carta da editora justificando por que seu texto estava sendo rejeitado:
"Ah, se ela pudesse reproduzir a luz límpida de uma manhã de verão, as sensações de uma criança olhando por uma janela, a curva e a descida do vôo de uma andorinha sobre a lagoa! O romance do futuro seria totalmente diferente dos que existiram no passado. Briony tinha lido As ondas de Virginia Woof três vezes, e achava que uma grande transformação estava ocorrendo na própria natureza humana; apenas a ficção, um novo tipo de ficção, poderia captar a essência dessa mudança." (p. 336);
"Algo de singular e inexplicado é apreendido. No entanto, por vezes nos pareceu haver uma presença um pouco excessiva das técnicas de Virginia Woolf. O momento presente cristalino em si é, sem dúvida, um tema merecedor, especialmente no caso da poesia; ele permite que o escritor exiba seu talento, mergulhe nos mistérios da percepção, apresente uma versão estilizada dos processos de pensamento, permite a exploração das circunstâncias imprevisíveis do seu íntimo etc. Quem haverá de questionar a validade dessa experimentação? Porém esse tipo de prosa pode resvalar no preciosismo quando falta um movimento para frente. Em outras palavras, nossa atenção teria sido cativada ainda mais se houvesse uma correnteza subjacente de simples narrativa. É preciso haver um desenvolvimento." (p. 373).
Com fina ironia, McEwan rende o tributo incontornável a Woolf, mas diz também onde ancorar seu traço pessoal e particular: na narrativa, no plot, na história a ser contada, porque é preciso contar uma história e isso o autor faz de forma magistral, além de criar personagens inesquecíveis. Quando Briony comete afinal seu crime, eu me alinhei imediatamente ao lado dos que jamais a perdoarão, como Cecilia e Robbie, mesmo conhecendo que a ignomínia é um traço humano, demasiado humano, ao longo da vida de qualquer um, e mesmo tendo compreendido todas as nuanças de seu temperamento: a difícil passagem da infância à puberdade; a inveja (mesmo que intangível) do amor da irmã; a exacerbação da vaidade daquele que cria, sobretudo daquele que escreve; a extrema sensibilidade, aguçada pelos excessos permitidos à filha caçula, enfim, Briony é uma personagem complexa e rica em sutilezas, o que impede que sua ação seja lida maniqueisticamente, ou as ações de quaisquer outros personagens, mas nem por isso a reparação me parece possível, ou a cooptação do leitor. Acho que nem mesmo ela pede isso, e o romance se escreve face a essa impossibilidade.
Quanto às engrenagens do "movimento para frente" mencionado acima, uma das mais contundentes é a da guerra, de que se ocupa Robbie por longo tempo na segunda parte. É interessante que o tributo à ação no romance se dê exatamente por aquilo que algumas vertentes da crítica feminista consideram o mundo male por excelência - a guerra, se se pensa que Woolf também é uma das grandes autoras da teoria crítica feminista, sobretudo com Um teto todo seu. Confesso, por outro lado, que pulei algumas passagens mais candentes dessa parte, não por serem ruins, mas por serem excessivas em sua força (descritiva e narrativa), compondo figuras dignas de Jeronimus Bosch. Na verdade, o mundo da guerra não me interessa em nada, sob nenhum de seus aspectos.
Por fim, considero o final do livro um achado extremamente sofisticado, porque recoloca em foco a questão visceral do fato literário per se e, à maneira de um Machado de Assis ultra-moderno, nos faz especular sobre as fronteiras entre o real e o ficcional.
____
Ian McEwan. Reparação. Tradução de Paulo Henriques Britto. São Paulo: Cia das Letras, 2002.
O homem escreve que é um escândalo, e acho que ele realmente toma a Virginia Woolf como fonte e modelo de seu estilo, e o diz explicitamente ao longo da narrativa em dois momentos: por ocasião de uma reflexão de Briony acerca do novo texto que havia escrito e quando ela recebe uma longa carta da editora justificando por que seu texto estava sendo rejeitado:
"Ah, se ela pudesse reproduzir a luz límpida de uma manhã de verão, as sensações de uma criança olhando por uma janela, a curva e a descida do vôo de uma andorinha sobre a lagoa! O romance do futuro seria totalmente diferente dos que existiram no passado. Briony tinha lido As ondas de Virginia Woof três vezes, e achava que uma grande transformação estava ocorrendo na própria natureza humana; apenas a ficção, um novo tipo de ficção, poderia captar a essência dessa mudança." (p. 336);
"Algo de singular e inexplicado é apreendido. No entanto, por vezes nos pareceu haver uma presença um pouco excessiva das técnicas de Virginia Woolf. O momento presente cristalino em si é, sem dúvida, um tema merecedor, especialmente no caso da poesia; ele permite que o escritor exiba seu talento, mergulhe nos mistérios da percepção, apresente uma versão estilizada dos processos de pensamento, permite a exploração das circunstâncias imprevisíveis do seu íntimo etc. Quem haverá de questionar a validade dessa experimentação? Porém esse tipo de prosa pode resvalar no preciosismo quando falta um movimento para frente. Em outras palavras, nossa atenção teria sido cativada ainda mais se houvesse uma correnteza subjacente de simples narrativa. É preciso haver um desenvolvimento." (p. 373).
Com fina ironia, McEwan rende o tributo incontornável a Woolf, mas diz também onde ancorar seu traço pessoal e particular: na narrativa, no plot, na história a ser contada, porque é preciso contar uma história e isso o autor faz de forma magistral, além de criar personagens inesquecíveis. Quando Briony comete afinal seu crime, eu me alinhei imediatamente ao lado dos que jamais a perdoarão, como Cecilia e Robbie, mesmo conhecendo que a ignomínia é um traço humano, demasiado humano, ao longo da vida de qualquer um, e mesmo tendo compreendido todas as nuanças de seu temperamento: a difícil passagem da infância à puberdade; a inveja (mesmo que intangível) do amor da irmã; a exacerbação da vaidade daquele que cria, sobretudo daquele que escreve; a extrema sensibilidade, aguçada pelos excessos permitidos à filha caçula, enfim, Briony é uma personagem complexa e rica em sutilezas, o que impede que sua ação seja lida maniqueisticamente, ou as ações de quaisquer outros personagens, mas nem por isso a reparação me parece possível, ou a cooptação do leitor. Acho que nem mesmo ela pede isso, e o romance se escreve face a essa impossibilidade.
Quanto às engrenagens do "movimento para frente" mencionado acima, uma das mais contundentes é a da guerra, de que se ocupa Robbie por longo tempo na segunda parte. É interessante que o tributo à ação no romance se dê exatamente por aquilo que algumas vertentes da crítica feminista consideram o mundo male por excelência - a guerra, se se pensa que Woolf também é uma das grandes autoras da teoria crítica feminista, sobretudo com Um teto todo seu. Confesso, por outro lado, que pulei algumas passagens mais candentes dessa parte, não por serem ruins, mas por serem excessivas em sua força (descritiva e narrativa), compondo figuras dignas de Jeronimus Bosch. Na verdade, o mundo da guerra não me interessa em nada, sob nenhum de seus aspectos.
Por fim, considero o final do livro um achado extremamente sofisticado, porque recoloca em foco a questão visceral do fato literário per se e, à maneira de um Machado de Assis ultra-moderno, nos faz especular sobre as fronteiras entre o real e o ficcional.
____
Ian McEwan. Reparação. Tradução de Paulo Henriques Britto. São Paulo: Cia das Letras, 2002.
quarta-feira, 14 de novembro de 2007
Sem medo de saber
Ontem passei a noite lendo Sem medo de saber - a importância do diagnóstico precoce do câncer, do Ilan Gorin (Ed. Sextante, 2007), 40 depoimentos de pessoas, a maior parte públicas, que tiveram câncer. Achei muito bom, me encontrei em muitas histórias e acho que o livro dá ânimo e coragem, sim, a quem passa ou passou por situações semelhantes. O depoimento que mais me tocou foi o do Carlos Lessa, que fala do medo com muita coragem. Animador.
quinta-feira, 1 de novembro de 2007
Duras etc
Tendo trabalhado boa parte de minha vida acadêmica com crítica literária feminista, questões de gênero et caterva, li sempre por dever de ofício e prioritariamente as escritoras mulheres, daqui e abroad. Assim, dos escritores devo uma montanha de leituras e agora, sem obrigações de trabalho ou de leitura, busco dar conta dos livros interessantes (nem tantos assim) que ainda não li. Mas eis que de repente, rodando na cadeira de trabalho na direção da estante, dou de cara com um livrinho da Marguerite Duras chamado Escrever, que estava lá perdido no meio dos outros. Peguei-o, abri-o e comecei a ler, reconhecendo as frases e, mais que isso, reconhecendo ali o meu mundo, a minha interlocutora, a minha sensibilidade.
Mesmo os defeitos do livro me agradam, é como se eu reconhecesse naturalmente quem eu sou no universo mental dessa escritora, na sua frase, na sua escrita. Então o livro do Ian McEwan (um dos autores homens que valem realmente a pena), Reparação, que comecei, terá de esperar um pouquinho porque alguém já muito amigo furou a fila e veio me dar um abraço.
Mesmo os defeitos do livro me agradam, é como se eu reconhecesse naturalmente quem eu sou no universo mental dessa escritora, na sua frase, na sua escrita. Então o livro do Ian McEwan (um dos autores homens que valem realmente a pena), Reparação, que comecei, terá de esperar um pouquinho porque alguém já muito amigo furou a fila e veio me dar um abraço.
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