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sábado, março 28, 2026

Um dia diferente em Salir de Matos...


Hoje à tarde vou apresentar o meu livro, "Uma viagem no tempo com o Padre Felicidade", na aldeia onde nasci - tal como o meu primo Zé, o protagonista do livro -, Salir de Matos, com a colaboração da Teresa.

Aldeia que hoje é Vila... mesmo que para mim, seja sempre "a minha aldeia", onde passei durante anos parte das "férias grandes"...

Há algumas curiosidades, a maior delas deverá ser a presença de muitos familiares, por todas as razões, e mais algumas, na apresentação. E alguns deles ainda não sabem que este livro também acaba por ser um livro da nossa família, dos Alves, pois aparecem, a espaços, a avó, os tios e os primos, dentro das minhas memórias e da própria história...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, outubro 20, 2024

Somos, mas já não somos...


Hoje foi um dia. quase passado integralmente no Oeste, para estarmos com o nosso tio da América.

Com um almoço da família à antiga, com múltiplas viagens pelo passado, com o regresso dos avós, do pai, e claro, de muitos lugares onde fomos felizes, em quase mil aventuras, tanto em Salir de Matos, como no Bairro da nossa meninice, ou em espaços especiais, como o Parque ou o nosso Mar...

Parque que nos levou a uma revisitação do Museu do nosso Malhoa, um lugar especial na nossa infância (pensava que era só eu que o recordava com um olhar ternurento, mas o meu irmão ao almoço, quando falámos que íamos passar por lá, também nos disse que era um sítio especial, desde sempre...).

E claro, aquele espaço não nos desilude, mesmo que a sua arte tenha pouco de moderna. Talvez até seja por causa dele que sou tão "conservador" nos meus gostos artísticos...

Depois fomos ver o Mar, aquele que tem uma cara séria e uma voz de trovão. Esse mesmo, o da Foz do Arelho. Antes ainda passámos pela Lagoa de Óbidos, que nos sorriu agradada com a visita.

E depois fomos pela estrada Atlântica, até Salir do Porto e depois São Martinho do Porto.

Contei que Salir era a praia da nossa infância. Íamos no "Comboio-Correio", quase sempre lotado de veraneantes, nesses longínquos anos sessenta. Claro que mal crescemos um palmo, tanto eu como o meu irmão e os amigos do bairro, elegemos a Foz do Arelho, como a "praia da nossa vida"...

Já em São Martinho do Porto fui contando à nossa "estreante" no Oeste, que esta praia além de ser a "banheira das duquesas", era o espaço de eleição dos "betinhos", tanto do Oeste como da Capital. Além deste pormenor, eles perceberam que aquele Mar era mais "sujo". Acrescentei que também era mais sonso, não tinha nada a ver com a Foz do Arelho...

E depois foi o regresso a casa.

Quando comecei a escrever estas notas de viagem, pensava que "somos, mas já não somos", destes lugares, mesmo que eles fiquem para sempre, dentro de nós...

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)


quarta-feira, abril 03, 2024

Um Outro País, a 3 de Abril de 1974...


Nem sei por onde começar.

O País que existia a 3 de Abril de 1974, não tem nada a ver com este, em que vivemos, em 2024.

Onde se notavam mais diferenças era nas Aldeias, especialmente as das regiões do interior. Era um mundo vivido "à luz do candeeiro e à água do chafariz". Do saneamento básico nem vale a pena falar, porque só chegou a algumas aldeias, e já no século XXI...

Mesmo na aldeia dos meus avós maternos, que ficava a apenas a cinco quilómetros das Caldas da Rainha, já existia electricidade antes da Revolução, mas não em todos os lares. Como o meu tio Zé, estudava electricidade, na escola técnica, assim que esta apareceu em Salir de Matos, ele fez logo a instalação e passámos a ter "luz" (deve ter sido alguns anos antes do 25 de Abril, porque eu não me lembro da casa dos avós sem lâmpadas...), Mas recordo-me de visitar algumas casas de outros familiares (afastadas do centro da Aldeia) e de não existir luz eléctrica. Adorava o espectáculo proporcionado pelos candeiros a petróleo, com verdadeiros jogos de sombras  refletidos nas paredes, graças aos nossos movimentos. Sei que andava sempre de um lado para o outro com o meu irmão a ver a nossa sombra a crescer e a diminuir nas paredes (quando somos crianças brincamos com tudo...).

A água canalizada só deverá ter chegado a todas as casas, já nos anos noventa do século passado. Isso até se percebe, por o Oeste ser uma zona muito rica em água e quase toda a gente ter um poço. 

É curioso, que o chafariz onde se ia buscar a água para beber, da bica, com cântaros, hoje tenha um aviso, de que aquela água não e tratada e recomenda-se que não seja bebida,,,

Em relação ao saneamento, também deverá ter chegado nos anos noventa à aldeia, mas uma boa parte das casas, ainda mantêm o velho sistema da "fossa" (uma espécie de poço...).

Mas se falar da aldeia dos meus avós paternos, na Beira Baixa (Zebras), as coisas mudam de figura, para pior. Lembro-me, já depois do 25 de Abril, de a electricidade ainda não ter chegado. Havia uma única televisão na aldeia,  no também único café existente, que tinha um gerador para lhe fornecer energia... 

(Fotografia de Luís Eme - Salir de Matos)


domingo, julho 30, 2023

O nosso quase "largo da liberdade"...


Durante a minha passagem pelas Caldas resolvi visitar um lugar onde não ia há muitos anos.

Recordava todo aquele vale, todos os montes que era possível avistar...

Tudo me pareceu mais pequeno, como acontece sempre nestas revisitações do passado. Até a proximidade da aldeia onde apenas fui nascer...

Imagino que fosse este o pinheiro, que tinha um baloiço que fazia as delicias da pequenada (nossas e dos primos)...

Ao contrário de hoje, naquele tempo estava tudo cultivado à sua volta. Eram poucos os espaços por onde podíamos caminhar, sem correr o risco de pisar isto ou aquilo. Felizmente ao redor daquele pinheiro não havia qualquer horta, quase que lhe podíamos chamar o nosso "largo da liberdade"...

E como eu e o meu irmão andávamos sempre a correr atrás um do outro (éramos conhecidos pelo "cão e pelo gato"), o avô e os tios, que estavam sempre à coca, a ver quando é que fazíamos disparate, descansavam a vista, quando estávamos a brincar no "largo da liberdade"...

(Fotografia de Luís Eme - Salir de Matos)


sábado, agosto 08, 2020

As Coisas Boas que Ficam...


Houve muita coisa que ficou, do bom tempo que passámos na casa dos avós,  em Salir de Matos, especialmente nas férias grandes.

E não falo da presença, desde sempre, dos animais (uma autêntica "quinta pedagógica"..). Além dos dois bois, da burra, que eram animais de trabalho, havia os outros que faziam parte do que se poderá chamar, ciclo alimentar: as galinhas, os porcos, o perú - para o ano novo -, e por vezes também cabritos e patos. Animais mais exóticos, a única coisa que me lembro era de porquinhos da Índia, que também andavam à solta e quase não se deixavam ver...

Se o avô nos contava histórias, que tanto nos podiam encantar como assustar, a avó tenho um sentido muito mais prático da vida. Por exemplo, em relação ao pão, gostava de nos oferecer a imagem de algo sagrado, como parte do corpo de Cristo, e que o devíamos beijar quando caía no chão, dando o exemplo de que havia muita gente no mundo que queria um bocadinho de pão e não o tinha...

Se a parte sagrada se perdeu no tempo, a factual mantém-se. Hoje, tal como ontem, continua a haver muita fome no mundo, muita gente a querer um bocado de pão, mesmo duro, e a não o ter. E foi essa parte que nunca esqueci...

Lembrei-me disso porque fiz ao pequeno-almoço, algo que não fazia há anos: "sopas de café com leite" (pão partido em bocados, embebido no leite e no café). E sempre que deito fora pão duro, penso nos animais da "quinta pedagógica" dos avós, que faziam com que nenhum resto de comida fosse deitado fora... E claro, nas muitas pessoas que querem um bocado de pão e não o têm.

(Fotografia de Luís Eme - Salir de Matos)

segunda-feira, agosto 03, 2020

Memórias Festivas de Agosto


Ontem, quando estava a escrever sobre Agosto, vieram-me algumas memórias de infância.

Sei que a maior parte das férias grandes eram passadas em Salir de Matos, na casa dos meus avós maternos. Fazíamos alguma praia (ainda me lembro de apanhar o "comboio-correio", que ia sempre cheio e sairmos em Salir do Porto e depois irmos a pé até à praia com mais rio que mar...), mas era sobretudo campo, muito campo.

No começo de Agosto realizava-se a festa da aldeia, com os bailaricos, que tanto animavam as pessoas... E antes do meio do mês os meus pais deviam vir buscar-nos, porque realizava-se a Feira do 15 de Agosto (que ainda se realiza hoje, mas sem o brilho de outrora e noutro lugar...). 

Na minha infância a feira ocupava as ruas principais da Mata Rainha D. Leonor e recebia milhares de pessoas. Recordo que o circo e os outros divertimentos, eram montados no campo de futebol do Caldas. Muitas vezes tínhamos visitas de tios (irmãos do meu pai, que viviam nos arredores da Capital ou na Beira Baixa...), que também aproveitavam para vir à feira...

Íamos quase sempre ao circo, e era uma animação... Especialmente os palhaços e os animais da selva (hoje está na moda ser contra os animais em cativeiro, mas tanta gente que viu pela primeira vez um leão, um tigre ou um elefante, graças aos circos...). 

Lembro-me também do fascínio que exercia sobre mim  e o meu irmão o famoso "Poço da Morte", que nos estava vedado (não era para crianças...). Limitávamos-nos a ouvir o ruído ensurdecedor das "motas voadoras" e a imaginar as acrobacias dos "ases do volante"...

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)

quinta-feira, maio 09, 2019

A Ficção Dentro dos Sonhos...


Normalmente os meus sonhos não têm grande nexo, nem são muito fáceis de "colar" à realidade.

Curiosamente esta última noite aconteceu-me uma coisa inédita. Sonhei uma ficção, com uma nitidez que até me forçou a acordar, para a deixar registada em papel (não a queria perder por nada...).

Vou contar: vejo-me a entrar no portão da velha casa dos meus avós maternos e depois continuei a andar, pela casa dentro. Sou surpreendido por um homem, a quem me desculpo pela "invasão", dizendo que aquela era a casa dos meus avós... Foi quando resolvi acabar com o sonho.

O curioso é tratar-se de uma impossibilidade, pois a casa nunca foi habitada por ninguém, depois de a avó ter ido viver para a casa de um dos meus tios... E posteriormente foi destruída pelos novos proprietários (centro paroquial...) e hoje é um campo aberto.

(Fotografia de Luís Eme - Salir de Matos - a última vez que entrei na casa dos meus avós, em 2010. Já não nos pertencia e estava em ruínas. Mesmo assim acabei por entrar  para tirar as suas últimas fotografias...)

quarta-feira, março 06, 2019

A Descoberta das Linhas do Horizonte...


Devia ter uns cinco, ou seis anos, quando consegui agarrar uma das minhas primeiras memórias do encantamento, graças às linhas do horizonte, que era possível descobrir na parte superior da Ambrósia, a maior, e melhor, fazenda do meu avó materno.

Naquele dia olhei pela primeira vez com olhos de ver os montes, que se sobrepunham, quase como se fossem escadas, ao longe. Nas suas cotas era possível descobrir vários moinhos de vento, que eu me entretinha a contar, de uma ponta a outra (sei que eram mais de meia-dúzia e segundo o avô ficavam na Serra do Bouro...).

Mas havia ainda outro pormenor, quase nos limites do horizonte, que descobri mais tarde, com a ajuda do meu irmão. Se o dia estivesse inteiro e limpo, havia um lugar (tínhamos de descobrir o sítio certo...) que nos permitia ver o azul do mar, quase por uma nesga, da bela baía de São Martinho do Porto.

Lembrei-me deste episódio, quando estava a escrever ontem, sobre a quase "incapacidade" de olhar para o que nos rodeia, com encantamento...

(Fotografia de Luís Eme - Côto)

sábado, março 22, 2014

As Árvores e a Poesia


Ontem não escrevi nada por aqui sobre as árvores e sobre a poesia, de propósito.

Não me apeteceu deixar um poema, muito menos meter-me com a natureza, com as plantas, tão maltratadas por muitos de nós, apesar de serem essenciais à vida...

Tinha pensado em escrever sobre a minha relação com elas, por terem entrado em tempos diferentes na minha vida, por razões absolutamente naturais. 

Por ser descendente de agricultores, desde muito cedo me habituei a conviver com a natureza. Excluindo os quinze dias passados na praia, eu e o meu irmão passávamos os mais de dois meses das férias grandes em Salir de Matos, na casa dos meus avós.

À distância de mais de quarenta anos, sinto que o tempo não era barreira para nada, ou seja, tínhamos tempo para tudo...

Além das mil e uma brincadeiras com amigos, visitávamos as fazendas do avó (a Ambrósia, o Arneiro, a Várzea, o Vale da Moira...), onde eu e o meu irmão éramos mais "pisadores" que ajudantes...

O avô era um mestre das coisas da natureza, estava sempre pronto a ensinar-nos e a explicar-nos o ciclo da vida das plantas. E também gostava de nos contar histórias (uma boa parte eram lendas populares que vinham de gerações). Ainda o consigo ver, ele sentado na cadeira da cozinha e nós sentados nas escadas de pedra que davam para a "casa de fora", muito atentos e em silêncio.

Da poesia não encontro um rasto... Camões deve ter sido o primeiro poeta que me foi oferecido, já na escola primária (o Bocage era espalhado de boca em boca, nas anedotas em que era sempre mais esperto que os espanhóis, franceses ou ingleses, mas nesses tempos não fazia ideia que fosse poeta...).

Na secundária conheci mais poetas. Gostava sobretudo da Sophia...

Pessoa descubro-o já no fim da adolescência. Era impossível não ficar deslumbrado com tanto talento "circense". Sim, ele era palhaço, domava leões, fazia malabarismo e também muito ilusionismo. E fazia tudo bem...

Os seja, a natureza foi-me imposta pelas raízes familiares. A poesia não, foi (e continua a ser) descoberta por mim.

Nesta imagem apareço eu e o meu irmão, disfarçados de agricultores, nos finais dos anos 1960, na Ambrósia...

terça-feira, dezembro 13, 2011

As Cavacas e os Cheiros da Mercearia dos Primos


Quando era pequenote devia abusar da familiaridade dos primos que tinham uma mercearia e um café em Salir de Matos. Acho que o café do primo Zé foi mesmo o primeiro das redondezas. Enchia-se de gente aos domingos à tarde, que chegavam das aldeias vizinhas, montados em motorizadas ruidosas, as famosas "zundapps", "famels", "sachs V5" e "casais".


Mas havia dois sitios ainda melhores, um era a fábrica de cavacas das Caldas deles, onde eu e o meu irmão nos enchiamos de açúcar, quando nos autorizavam a "rapar" os tachos. O outro era a mercearia da prima Ermelinda, onde se podia sentir o cheiro do café e das bolachas maria e de baunilha, vendidas avulsas...


O óleo é de Bernard Safran.