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sábado, maio 30, 2026

«Como é que podes estar a falar de dignidade num mundo completamente indigno?»


Tenho um ou dois amigos anarquistas, surrealistas nunca tive nenhum.

Um ou dois pintores que se inspiram nas formas, ideias e mundos, que parecem mais saturnianas que terrestres, não contam.

Pensei nisso ao ler o livro, de António Maria Lisboa, "Uma Poesia Extrema", que como todos os "verdadeiros artistas", morreu novo.

No quinto ponto do seu "Aviso a tempo por causa do tempo" ele diz ao que vem: 

«que não somos assim contra a ordem, o trabalho, o progresso, a família, a pátria, o conhecimento estabelecido (religioso, filosófico, científico) mas que na e pela Liberdade, Amor e Conhecimento que lhes preside preferimos estes.»

Falei sobre isto com um dos meus homónimos, que também conhece o bom gosto da colecção dos livros de bolso da Penguin.

Também acabei por pensar e falar em Luiz Pacheco e João de César Monteiro, que só devem ter sido anarquistas ou surrealistas, de apelido.

Lembrei-me deles porque sempre tive alguma dificuldade em os respeitar como gente, devido à sua prática quotidiana. Como artistas, reconheço-lhes talento, coragem (é mais lata...) e individualidade, mas a sua "alma de chupistas", o andar sempre à procura da rua "onde chove dinheiro", não me deixa morrer de amores pela sua forma de vida.

No decorrer da nossa conversa, o Luís desculpou-os. Falou-me de "adaptações", de "escolhas", de "provocações", para se conseguir sobreviver nesta autêntica selva, que é a nossa sociedade, que ainda está mais cheia de "leões e panteras" nas ruas da cultura...

Quando me armei em purista e falei na dignidade do individuo, ele voltou a desarmar-me e quase que me silenciou:

«Como é que podes estar a falar de dignidade num mundo completamente indigno?»

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


quinta-feira, abril 30, 2026

Perder a mão para a escrita e a cabeça para as ideias...


Sei que acontece a quase todos os que escrevem, até mesmo aos chamados "melhores" (talvez até mais a estes, devido ao grau de exigência que os cerca...).

Começa-se por se sentir a falta de ideias, depois vem a falta de imaginação, e até a falta de palavras, para conseguirmos descrever o nosso mundo e o mundo dos outros.

Também sei que na literatura este "sentir" acontece mais aos poetas, que gostam de escrever coisas bonitas e não encontram as palavras certas... descobrindo o que é o vazio, que encolhe ou faz desaparecer os poemas. 

Eles bem olham para o céu, para o rio, para as pessoas, mas...

Tenho um amigo que quase foi obrigado a desistir de olhar o mundo com poesia. Começou a escrever prosa, coisas curtas, mas não é a mesma coisa...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, março 08, 2026

Uma homenagem diferente às mulheres, com um poema de uma grande poeta...

 


sou um homem e pinto
 
acontece-me frequentemente sair de casa
para escolher uma mulher na rua,
uma desconhecida, alguém cujo rosto seja um poema, 
ou simplesmente um rosto.
visto umas calças e uma camisa velha 
e saio na hora de ponta,
envolvo-me na multidão e atravesso ruas sem parar,
até encontrar esta mulher.
 
já trouxe para casa mulheres cegas,
são fáceis de pintar,
tiram a roupa tão depressa como tiram os óculos
e despem-me em igualdade de circunstâncias.
não me fazem perguntas, falam das condições do tempo,
numa espécie de arrefecimento gradual
que vão experimentando com a idade,
e quase sempre me oferecem o corpo.
 
já trouxe mulheres solteiras, muito jovens,
ainda virgens, comportam-se timidamente,
não mexem em nada, fazem gestos de grande ignorância,
encolhem-se sobre a sua própria magreza,
enrolam fios de cabelo nos dedos, à espera das palavras.
 
já tenho recebido mulheres casadas, estupidamente infelizes,
que deixam os filhos na escola e chegam extenuadas,
como se a tarefa da maternidade fosse invencível,
ou estas visitas pudessem aliviá-las.
 
há uma que vem todas as sextas-feiras, descalça, 
com os olhos cheios de perguntas,
as mãos tão brancas e doridas, a pele enrugada,
cada ruga um enigma para o meu complexo ofício de pintor.
 
hoje, quando chegou, pediu-me com gentileza,
ponha algumas flores no meu retrato,
e foi sentar-se na cadeira.
depois, quando viu o retrato disse, 
ficam já estas para as que me faltarem na campa, e saiu.
 
alice macedo campos

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, fevereiro 21, 2026

Claro que há sempre alguma coisa que se pode fazer...


A ideia quase inocente - e poética - de que tornar o mundo melhor só depende de nós, às vezes faz-me sorrir, outras dá-me cócegas.

Nem tudo é mau, até porque além de me fazer sorrir e coçar, também me faz pensar, e até escrever...

Ter dezoito ou dezanove anos é bom, entre outras coisas, por nos dar uma capacidade de sonhar, quase até ao infinito. 

E continua a ser boa ideia continuarmos a acreditar no poeta, que nos diz que "sonhar é uma constante da vida". Basta olhar para trás para perceber que muitas coisas boas que nos aconteceram, nasceram de sonhos...

Ao contrário do que os espertalhaços deste tempo pensam, ser inocente, nunca foi sinónimo de parvo.

E claro que sim, há sempre alguma coisa que se pode fazer, para tornar esta quase bola onde habitamos, numa coisa melhor, mesmo quando já se tem oitenta anos...

Talvez a mais importante seja olharmos para trás com olhos de ver, não termos medo do passado. É ele que nos ajuda a "ver melhor" e a não cometer o mesmo erro, mais que duas vezes... 

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


sexta-feira, janeiro 23, 2026

A "Alma do Povo", a pequena e a (quase) grande burguesia...


Nos meios pequenos a cultura parece funcionar, quase em circuito fechado, por uma pequena elite que normalmente faz o dois em um, é produtora e espectadora. 

É assim na cidade onde nasci (Caldas da Rainha), como será em tantos outros lugares em que são quase sempre os mesmos a aparecer, a escrever, a pintar ou a tocar...

Fui espectador em duas ou três inaugurações de exposições artísticas e também em um ou dois lançamentos de livros. E lá estavam os mesmos "doutores", cheios de sorrisos e salamaleques, com um sentido crítico enviesado, logo à partida, porque a amizade é o que é... (continuo a pensar da mesma forma que o Miguel Esteves Cardoso, só conseguimos escrever uma crítica honesta, quando não conhecemos o escritor ou o artista cuja obra avaliamos...). 

Sabia que aquele não era o meu mundo...

O mais curioso, é que não era sobre isso que queria escrever. Aconteceu-me mais uma vez, entrar no "comboio" errado e ser obrigado a sair na próxima paragem...

Estou a  acabar de ler um livro datado de 1949, "Alma do Povo", da autoria de Leonel Cardoso (só pode ser o dono da rua onde mora a minha mãe, nas Caldas...), de "glosas de cantigas". Embora os poemas sigam todos o mesmo caminho, prontos a entrar em qualquer casa de fados onde ainda se valorize a "desgraçadinha", têm muita musicalidade. A espaços fui capaz de ouvir tanto o Marceneiro como a Aldina, a cantar aquelas coisas onde António pode rimar com demónio ou ciúme com lume.

Não tenho dúvidas que Leonel Cardoso fazia parte da tal elite de que falo, nesses anos quarenta e cinquenta, ainda mais reduzida...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


segunda-feira, dezembro 29, 2025

Regresso com a poesia e os livros do Sidónio...


Os primeiros contactos que tive com Sidónio Muralha foi através de uma amiga, que aproveitava todos os momentos de poesia, para o declamar (sim, declamava, não lia...), a Ofélia.

Pela força das suas palavras, percebia-se que era um poeta da resistência.

Acabei por ler dois livros de poesia da sua autoria e fiquei com a certeza de que ele teria sido um "homem político" (um resistente, perseguido e preso,  provavelmente ligado ao PCP...) dos tempos do neo-realismo, mas sem nunca ter tido a curiosidade de saber quem foi realmente o Sidónio.

Foi a leitura de "Caminhada - livro de vivências", que fez com que percebesse que o Sidónio Muralha foi um cidadão do mundo. Esta obra é uma espécie de diário com múltiplas entradas escritas em São Paulo, Rio de Janeiro, Lages, Londrina, Curitiba, Bruxelas, Farim (Guiné), Stanleyville (Congo), Dakar, e claro, Lisboa, entre outros lugares. Fala de tudo menos de poesia. Isso fez-me perceber que havia uma outra vida, para lá da poesia...

Foi por isso que acabei por pesquisar mais algumas coisas e descobrir que Sidónio tinha partido para o exílio em 1943 (estava a ser perseguido politicamente...) e que foi um quadro superior da Unilever, o que o levou a trabalhar em vários países africanos, acabando por se radicar nos anos 1960 no Brasil, onde viria a falecer em 1982.

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


domingo, novembro 23, 2025

Só conhecemos os livros depois de os abrirmos e lermos...


Sei que este meu título parece mais uma "lapalissada", que outra coisa, mas é a única forma de chegar ao lugar que quero.

E esse lugar é uma livraria, onde fui à procura de um livro, que não encontrei.

Depois desloquei-me para a estante da poesia - faço quase sempre isso... - e peguei no primeiro livro que estava à minha frente. Abri-o quase a meio e comecei a ler um dos poemas. Agradado, li mais dois. Convencido, trouxe o livro para casa.

O mais curioso, é que apesar de gostar das palavras da poeta (Maria do Rosário Pedreira...), o título dizia-me pouco, levava-me mais para um tratado de anatomia ("O Meu Corpo Humano") que para uma viagem poética.

Ainda bem que estava enganado.

Soube-me muito bem ler todos aqueles poemas, que usavam o corpo humano, quase como um disfarce, para falar de todos nós (sim, andamos todos por ali, no "braço", nos "olhos", no "nariz" ou nos "lábios"...).

Tanta mensagem escondida por debaixo das "unhas" ou do "cabelo"... É preciso ter "cabeça" e "estômago", para escrever coisas tão profundas, bonitas e sérias, num livro de poemas que só é pequeno no tamanho...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


domingo, outubro 26, 2025

As palavras bonitas (e compreensíveis) da Sophia...


Continuo a ler muita poesia.

Foi um hábito que ficou da pandemia, em que finalmente fiz uso do cartão de leitor da Biblioteca Municipal de Almada.

Já tinha os meus poetas preferidos (todos temos...). Pouco ou nada mudou, dezenas de poetas lidos depois.

A Sophia de Melo Breyner Andresen e o José Gomes Ferreira, continuam a ser grandes, nas palavras bonitas que escolhem para nos transmitirem as suas emoções, os seus encantos e desencantos, sem fugirem do mundo concreto, de tudo aquilo que nos cerca.

Poderia falar também de Alexandre O'Neill, de Ruy Belo, e de pelo menos, mais meia dúzia de poetas, que são de uma linha poética mais compreensível (pelo menos para mim...). Sim, eu gosto de ler, sentir e perceber a mensagem poética que está a ser transmitida.

Lá estou eu a fugir... Só queria transcrever por aqui, as palavras escritas, a lápis, que me ficaram depois da leitura de mais um dos livros da Sophia (Obra Poética II):

«Ao ler a poesia da Sophia, sinto-me maravilhado. A forma como ela consegue dar beleza e sentido poético às palavras, é única. Palavras que nunca se perdem no espaço, nunca querem ser estrelas, querem ser apenas poemas. Poemas que conseguem ser sentidos e maravilhar qualquer pessoa que seja sensível e goste de poesia.»

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sábado, setembro 06, 2025

«Não te canses muito à procura da lógica das coisas...»


Há poetas que são mais de dizer e outros mais de escrever.

Conheço uns e outros, normalmente não moram em ruas parecidas nem vestem roupas feitas no mesmo alfaiate.

Os que dizem, misturam os seus poemas com os que mais gostam, dos outros, quase sempre gente com mais de dois metros de poesia.

Os que só escrevem, gostam de falar de outras coisas, ou então de permanecer em silêncio.

Já me devem ter dito mais de cinco vezes a frase que escolhi para dar título a estas palavras. Recordei-a dita pela boca de uma amiga que na passagem dos anos 80 para os 90, morava numa das casas mais pequeninas que conheci (se bem que na China ou no Japão pudesse passar por um apartamento familiar...).

Era uma mulher cheia de particularidades, que também gostava de me ler poesia. 

Curiosamente, a singularidade que mais recordo é o facto de termos dormido juntos também mais que cinco vezes e nunca a ter visto completamente nua. Só descobria a sua nudez através do tacto, era como se a luz tivesse algo de errado. Nunca levei isso para o seu corpo, que sabia que era bonito com e seu roupa...

Como costuma acontecer com os amores antigos, nunca mais nos encontrámos. O mais curioso, é que só penso nela por coisas muito singulares, diria mesmo, muito particulares.

E a frase que mais me aparece, misturada com o seu sorriso trocista e quase sem som, é esta: «Não te canses muito à procura da lógica das coisas...»

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


sábado, julho 19, 2025

Poesia com (várias) guerras lá por dentro


Dois dos meus autores preferidos são a Maria Judite de Carvalho e o José Gomes Ferreira. Sempre que me vêm parar às mãos livros das suas autorias, viajo agradado dentro das suas páginas.

Hoje acabei de ler a "Poesia II" do Zé Gomes, com poemas escritos de 1938 a 1943, alguns muito sofridos, devido à Guerra que estava a destruir a Europa.

Transcrevo um dos poemas pela mistura de sentimentos, num tempo estranho, quase como aquele que estamos a viver. Embora ainda não estejamos em ditadura, como acontecia nesses anos sombrios...

                                                                                    (Subo lentamente a rua para casa...)

No céu, a lua e as estrelas...
Na terra, silêncio e gatos...

E, eu às três de madrugada
com passos de rasgar o chão
a ouvir ranger nos sapatos
o violoncelo da minha solidão...

(esta triste solidão de deus do avesso
onde até a Morte apodreço.)


(Fotografia de Luís Eme - Foz do Arelho)


sexta-feira, junho 27, 2025

Não tenho a certeza que para se ser poeta, dos bons, tenha que se ser, marginal, mas...


Há muito tempo que não estava com um rapaz que escreve poemas e que diz falar com toda a gente, menos com poetas.

Outra coisa curiosa (pelo menos para quem não é do meio...), também não lê poemas, de ninguém. Nem mesmo do seu mestre, esse mesmo, o Herberto Helder, de quem acabou de ler a biografia escrita pelo "polícia dos costumes da nossa literatura".

O grande motor da sua poesia é a imaginação. Depois vêm, quase em fila, os filmes, os romances, as suas viagens solitárias, de preferência por ruas vazias, onde seja possível enfiar as personagens que lhe saltitam de neurónio em neurónio.

O mais curioso, é que ele, a "olho nu", é um cidadão completamente normalizado, com um emprego de funcionário público, daqueles bons, em que pode passar o dia a ver as barcas a passar no Tejo (num dos poucos lugares do Estado que ainda não foi obrigado a virar as costas ao rio...), enquanto arquiva os papeis que lhe vêm parar à mão nos lugares certos (é bom nisso, sempre foi muito arrumadinho...).

Nunca casou. Sempre teve dificuldade em viver com outras pessoas no mesmo espaço. Precisa e gosta da sua solidão, de não ser importunado, muito menos que mexam nas suas coisas. É por isso que nunca teve empregada em casa, é ele que é o "fado do lar".

Apesar de todas estas coisas estranhas, quando está comigo, fala pelos cotovelos. Diz mal de tudo e mais alguma coisa. Como adora sublinhar os livros que lê e mostra-me partes que normalmente me passam ao lado (sei que se fosse crítico, seria um mau crítico...) e que são realmente alarvidades literárias.

O mais curioso é sentir, que além de sorrir, também aprendo uma ou outra coisa a seu lado. Sinto que ele é demasiado inteligente para se sentir confortável neste mundo que nos cerca.

A minha companheira conhece-o de vista e chama-lhe "o meu amigo estranho", sem fazer ideia das coisas que ele diz, seja dos poetas que passam a vida a rimar "cão com cagalhão", dos vizinhos a quem diz bom dia e boa tarde, que fazem um esforço do caraças para fingirem que são felizes, ou ainda, das mulheres que passam o tempo a mandar nos homens e no mundo, mesmo que finjam que isso é mentira...

Ele diz que não precisa nada disso. Não precisa de rimar com as palavras, muito menos de sorrir à vida ou agradar aos outros, com as mulheres incluídas...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, junho 10, 2025

Lá estamos nós, no dia que é muitos dias...


Este dia que podia ser só de Portugal e das Comunidades, também é de Camões, o nosso poeta Luís, que foi capaz de escrever sonetos há mais quinhentos anos, que ainda fazem sentido e têm beleza... e até são cantados...

Pensar que quando a Amália resolveu trazer Camões para o fado, foi quase um escândalo nacional. Nem o meu querido Zé Gomes Ferreira achou graça, apesar de ser bastante avançado para o seu tempo. E depois vieram outros poetas até às vielas, numa clara demonstração do bom gosto da "Rainha do Fado".

Felizmente o Luís também era um homem do futuro, sabia que "Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades".

Foi por isso que compreendeu, como poucos, que  "todo o mundo é composto de mudança".

São estas pequenas grandes coisas que fazem com que Luís de Camões continua a ser o nosso "poeta maior".

(Fotografia de Luís Eme - Constância)


sexta-feira, março 21, 2025

«Sou Poeta!»


Ser poeta continua a ter muito que se lhe diga, no nosso país e nos países outros. Foi por saber isso que um dia qualquer escrevi estas palavras:


«Sou Poeta!»
  
Quando lhe perguntam a profissão,
responde sempre:
- Sou poeta!
Gosta de ser olhado de alto abaixo,
como se os outros andassem a ver
de onde lhe faltava um parafuso.
 
Que satisfação boa e secreta…


Luís [Alves] Milheiro


(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)

 

quinta-feira, março 20, 2025

A poesia, entre "pastores e cientistas"...


Sei que há definições para todos os gostos, de algo que não é tão complexo como alguns "poetas", nos querem fazer querer.

Deve ser por isso que gosto tanto do Alberto Caeiro, que deve ter sido criado pelo "Pai", para desmistificar a tal "ciência poética"...

Tal como não gosto dos romances em que os seus autores não conseguem contar uma história, com princípio, meio e fim, também não gosto da poesia, que quase que nos pede que emigremos para Marte, para a conseguirmos entender.

Não é só nos restaurantes duvidosos, que podemos comer "gato por lebre", na literatura, há por ai muitas coisas estranhas, curiosamente, aplaudidas por alguns críticos, que gostam de vestir os tais fatos verdes com antenas, que alguém inventou, com mais graça que outra coisa.

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


segunda-feira, março 17, 2025

A poesia dos livros e da vida...


Esta semana vou tentar falar mais de poesia e menos de outras coisas, mais desagradáveis e feias.

Sou leitor de poesia. Normalmente, são estes os livros que me acompanham em viagens ou em lugares que sei, que tenho de ficar à espera no mínimo alguns minutos...

E é por isso que sei que quase todas as editoras fazem questão em ter boas colecções de poesia (além de serem edições bonitas, as escolhas de autores também revelam qualidade), mesmo que digam que são livros que não vendem e que têm tiragens sempre curtas.

E isso é o mais curioso. Se não vendem, porquê esta aposta em edições memoráveis e de dimensões que tentam escapar à vulgaridade?

Talvez gostem muito de poesia. E provavelmente, até são capazes de vender alguma coisa...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, fevereiro 27, 2025

Gostar da chuva é coisa de poetas e de cronistas do quotidiano...


Temos poucos dias como o de hoje, quase de chuva ininterrupta, mesmo nos piores dias de Inverno.

Sim, hoje é quase impossível andar na rua, sem molhar os pés...

Nem sequer podemos beber o café nas esplanadas, temos de olhar para quem passa do lado de dentro dos cafés...

Foi ao balcão, a saborear este liquido que faz elevar a tensão, que pensei que gostar de chuva é coisa de poetas...

Acrescento um quase a esta coisa da chuva ser inspiradora para os poetas e os cronistas do quotidiano. Sei que o grande José Gomes Ferreira e a minha querida Maria Judite (de Carvalho) devem ter escrito coisas bonitas sobre essa coisa pouco agradável de andar de chapéu de chuva aberto pelas ruas. Mas como sabemos, especialmente nestes tempos estranhos, há "malucos" para tudo...

Felizmente, o Inverno do nosso país até permite que deixemos o chapéu de chuva em casa e aproveitemos as várias abertas, tal como a protecção das muitas varandas das avenidas, para conseguirmos ir andando até ao nosso destino, passando quase pelos intervalos dos pingos da chuva.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, dezembro 19, 2024

O poeta O' Neill faz hoje cem anos


O poeta O' Neill faz hoje cem anos.

Mesmo num país de grandes poetas, o Alexandre não conseguiu passar despercebido. E ainda bem.

O curioso, foi ele, depois de andar pelos cafés, com um casaco vestido do avesso, à boa maneira surrealista, ter conseguido mudar de rua, e retratar tão bem a nossa vidinha nos seus poemas.

A 17 de Agosto de 2022 escrevi sobre ele aqui no "Largo", porque estava a ler - e a gostar - da biografia da Maria Antónia Oliveira. E agora volto a esse texto, com um sorriso e um aplauso a um poeta, com visões poéticas geniais:

«Normalmente não tenho grande simpatia pelos nossos "génios meio chanfrados" (como são os casos de Luiz Pacheco ou de João César Monteiro, por exemplo), mas o Xana era bastante diferente deste "dueto chupista", embora também tivesse uma vida bastante irregular, não costumava "cuspir na sopa" nem deixar os amigos "descalços".

Mas vamos lá ao livro e ao poeta O'Neill...

A Maria Antónia escreveu esta biografia por aproximações, servindo-se com mestria dos testemunhos de pessoas que o conheceram bastante bem e também de alguns textos autobiográficos (embora a memória do poeta não fosse muito fiável...). A sua primeira esposa, Noémia Delgado, tem um papel importante nesta obra. Percebe-se que ele foi o amor da sua vida, mas não guardou qualquer ressentimento com a separação, nem nunca deixou de o achar um dos nossos grandes poetas.

Gostei de saber que ele além da paixão pela poesia da vida, também gostava bastante das pessoas, de preferência gente humilde, com quem gostava de conversar e acamaradar, de igual para igual. E eram muitas vezes as fontes de inspiração para os poemas e também para a publicidade, que foi o seu melhor "ganha-pão"....

Embora estivesse longe de ser um homem bonito, viveu muitos amores pela vida fora. Era um excelente conversador, levava as mulheres à certa, com o seu humor, a sua poesia e a sua simpatia natural (e também da outra, sedutora...).»

Graças a este livro-retrato, percorri, mais que uma vez, a sua Lisboa, que tinha como "capital", o Príncipe Real...

Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, julho 25, 2024

(acabei de ler um livro de poesia que não é de poesia)


Acabei de ler um livro de poesia que não é de poesia.

A poesia é outra coisa, pertence a um universo bem distante da prosa, entre outras coisas, por ser mais sentida e menos vivida.

Sei que há muito boa gente que não percebe - nem nunca irá perceber... -, esta diferença, por mais poemas que escreva.

Por escreverem com métrica e de forma rimada, não quer dizer que se tenham afastado dos "mundos" da prosa e estejam a caminhar nos "jardins" da poesia.

Não estou a dizer que o livro é mau. Estou apenas a dizer que o livro não é de poesia...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


segunda-feira, junho 10, 2024

Camões do Tamanho de Portugal


Luís de Camões é, sem qualquer dúvida, o nosso grande poeta da história. 

Sei que há Fernando Pessoa, mas não nos devemos esquecer que Camões é do século XVI...

Por hoje ser aquele dia que é muitas coisas, até Dia de Portugal, a melhor combinação continua a ser o Dia de Camões.

E nada melhor que esta fotografia tirada na Feira do Livro, para homenagear o nosso Poeta, que além de excepcional vate, via melhor com um só olho que muito boa gente com dois...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, março 23, 2024

"Um Amor Fora de Tempo", entre outras coisas, como o café...


Levanto-me da cama, faço a higiene pessoal minimalista, bebo um copo de água. Depois aqueço água para fazer café. 

A minha companheira passa pela cozinha e faz um "humm", de agrado, pelo cheiro desta bebida que me acompanha desde a infância, desde a casa da avó que tenho a sensação de que tinha uma cafeteira permanente ao lume (ou próximo...). Sim havia muito espaço em volta da lenha que ia queimando e aquecia a casa na metade do ano, que era mais fresca.

A minha mãe, provavelmente, também refém deste cheiro de infância, também fazia muito café, a nossa casa também abraçava este perfume tão especial.

Ligo a televisão e escolho a RTP3 e fico por aí. Falam de livros. Primeiro sobre livros com fotografias e com Abril, organizado pela Emília Tavares (vi que era um "calhamaço" mas não consegui saber o título), uma almadense que tenho o grato prazer de conhecer e é uma das pessoas que mais sabe de fotografia no nosso país.

Logo de seguida surgiu-me no ecrã, Carmen Yanez, poetisa e viúva de Luís Sepúlveda, um dos meus autores de culto, que nos fez uma síntese da sua história de vida e de amor, no Chile e no Mundo (reencontrara-se na Suécia, casados com pessoas diferentes...). Estava ali para falar do livro que escreveu sobre a sua história com Lucho, que tem como título, "Um Amor Fora de Tempo".

Fiquei logo com a sensação de que ganhara a manhã, com estes minutos de cultura televisiva (também existe, em dois ou três canais...).

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)