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terça-feira, maio 26, 2026

Algumas palavras para Miles Davis


Estive indeciso se devia escrever algo sobre o genial Miles Davis, que tornou o jazz ainda mais criativo e expontâneo, com o seu trompete, tal como Charlie Parker, John Coltrane ou Sonny Rollins (que nos deixou por estes dias), entre outras dezenas músicos, que deram outra cor musical ao  século XX.

É graças a eles que o Free Jazz se tornou verdadeiramente revolucionário e  nunca mais deixou de inspirar músicos de todas as cores e credos, por este mundo fora.

Não podemos nem devemos desligar este gosto pela liberdade à sua cor de pele, onde quebraram muitas barreiras, fazendo perceber que o seu génio e a sua liberdade artística não tinham cor, ao mesmo tempo que tentavam dar passos em direcção à sociedade onde viviam, demasiado clara e desigual...

Escolhi esta conhecida fotografia de Irving Penn, pela sua força e pelo seu simbolismo, no dia em que Miles faz cem anos. 


sexta-feira, março 27, 2026

O teatro é feito com e sobre pessoas...


Hoje é Dia Mundial de Teatro.

Quando penso em teatro, penso em pessoas.

De certa forma fui um felizardo, porque como jornalista pude conhecer e conversar com algumas das nossas grandes figuras dos palcos.

O mais curioso, é que a primeira entrevista que fiz para o meu "Contraponto" nas páginas do Record de domingo, foi com o grande Rui de Carvalho, que acabou de completar a bonita idade de 99 anos. Ainda me recordo da forma cordial como ele me recebeu,  no seu camarim, do Teatro D. Maria II, todo suado, depois de representar o velho "Minetti" de Thomas Bernhard...

Outra excelente memória que tenho é de Mário Viegas, que era mesmo uma personagem, um gigante nos palcos. Houve também tempo para conversar com Luís Miguel Cintra, Raul Solnado, Diogo Infante, João Perry, Filipe Lá Féria, Eugénio Salvador, João Lourenço, José Viana, Nicolau Breyner, João Mota, Joaquim Benite, António Anjos... E claro, com as excelentes Maria do Céu Guerra, Irene Cruz, Beatriz Costa, Rita Ribeiro, Alexandre Lencastre, Eunice Muñoz e Marina Mota.

Nessa altura o mundo e as pessoas eram mais simples...

E, VIVA O TEATRO!

(Fotografia de Luis Eme - a minha homenagem ao Cénico da Incrível Almadense, o único grupo que encenou e representou uma peça da minha autoria...)



quinta-feira, março 12, 2026

Um livro especial, cheio de pessoas especiais...


No sábado apresento o último livro que escrevi, "Uma viagem no tempo com o Padre Felicidade (cem anos-cem crónicas)".

É um livro diferente, porque além de contar a história de uma pessoa especial da minha família, deu-me a oportunidade de "viajar no tempo" (o título não engana...) e ficar a saber mais coisas sobre o Padre Felicidade e a nossa família. Além dos vários episódios com importância histórica que desconhecia e que abordei (sem nunca me esquecer duma palavra demasiado importante, "rigor", fundamental para quem escreve sobre os outros, seja na história seja no jornalismo...), foi possível oferecer um olhar mais pessoal e escrever sobre  as pessoas de quem muito raramente se fala (as personagens secundárias da vida do Padre Felicidade para o mundo exterior, como foram os seus pais ou de uma forma ainda mais "sumida", a minha avó e a minha mãe, por exemplo...).

Ainda não me dei ao trabalho de contar as crónicas de que falo de Salir Matos, a aldeia onde nasci. Sei que são mais de uma dúzia... Claro que não falei de Salir de Matos por ser a Terra da minha família materna e onde passei parte das minhas férias (até quase à adolescência...), mas sim por fazer parte desta história.

É por isso que além da apresentação de dia 14 de Março (16 horas), haverá outra, no dia 28 de Março (16 horas), em Salir de Matos, que está longe de ser menos importante que a que se realiza no Centro Nacional de Cultura...

(Fotografia de Luís Eme - é uma imagem especial, porque estou ao lado da Elisete - esposa do Padre Felicidade -, que ninguém diz que já tem 102 anos, e que nos proporciona momentos muito bons, como este  registado na segunda-feira e que também está muito presente neste livro...)


segunda-feira, março 09, 2026

Coisas de um país injusto...



Nem é preciso andar muito atento, para tropeçarmos neste país que faz questão de continuar injusto, para quase toda a gente.

Quando o Rui disse que só a morte é que nos salva. Ficámos todos a olhar para ele.

Depois percebemos...

Falou de todas as honrarias que António Lobo Antunes recebeu, assim que nos deixou.

Um ano antes, quase ninguém falava dele. Uma ou outra pessoa dizia que já não dizia coisa com coisa, mas muito às escondidas.

E continuou a falar de outras pessoas que nos deixaram, que nunca mereceram duas ou três linhas de jornal ou um rodapé na televisão. Até irem desta para melhor...

Para acabar a sua prosa da melhor maneira, disse que somos bons a contrariar o ditado, que nos diz para não deixarmos para amanhã o que pudemos fazer hoje. 

É por isso que somos tão bons a esquivarmo-nos de homenagear uma boa parte das pessoas de valor, quando estão vivas...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


domingo, março 08, 2026

Uma homenagem diferente às mulheres, com um poema de uma grande poeta...

 


sou um homem e pinto
 
acontece-me frequentemente sair de casa
para escolher uma mulher na rua,
uma desconhecida, alguém cujo rosto seja um poema, 
ou simplesmente um rosto.
visto umas calças e uma camisa velha 
e saio na hora de ponta,
envolvo-me na multidão e atravesso ruas sem parar,
até encontrar esta mulher.
 
já trouxe para casa mulheres cegas,
são fáceis de pintar,
tiram a roupa tão depressa como tiram os óculos
e despem-me em igualdade de circunstâncias.
não me fazem perguntas, falam das condições do tempo,
numa espécie de arrefecimento gradual
que vão experimentando com a idade,
e quase sempre me oferecem o corpo.
 
já trouxe mulheres solteiras, muito jovens,
ainda virgens, comportam-se timidamente,
não mexem em nada, fazem gestos de grande ignorância,
encolhem-se sobre a sua própria magreza,
enrolam fios de cabelo nos dedos, à espera das palavras.
 
já tenho recebido mulheres casadas, estupidamente infelizes,
que deixam os filhos na escola e chegam extenuadas,
como se a tarefa da maternidade fosse invencível,
ou estas visitas pudessem aliviá-las.
 
há uma que vem todas as sextas-feiras, descalça, 
com os olhos cheios de perguntas,
as mãos tão brancas e doridas, a pele enrugada,
cada ruga um enigma para o meu complexo ofício de pintor.
 
hoje, quando chegou, pediu-me com gentileza,
ponha algumas flores no meu retrato,
e foi sentar-se na cadeira.
depois, quando viu o retrato disse, 
ficam já estas para as que me faltarem na campa, e saiu.
 
alice macedo campos

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, fevereiro 06, 2026

O adeus da Joana...


Há blogues que visitamos diariamente, porque além de serem informativos,  nos transmitem conhecimento, sem precisarem de andar por aí a "inventar rodas".

Acaba por ser normal que estas visitas diárias criem empatia, mesmo sem conhecermos pessoalmente quem está do outro lado. 

É curioso percebermos que isso acontece porque nos revemos nas suas palavras e nos pensamentos que exprime (às vezes até podem ser diferentes dos nossos...).

Foi o que aconteceu nos últimos dezoito anos com "Entre as Brumas da Memória", de Joana Lopes, que nos deixou ontem e que interrompera as suas publicações a 17 de Janeiro, por doença...

Vou sentir falta da Mulher que oferecia provas, dia sim dia sim, de que a esquerda continuava viva, e que apesar dos avanços de uma direita agressiva e mentirosa, continua a ser o que faz mais sentido, pelo menos para quem acredita na Liberdade, na Igualdade e na Fraternidade.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, novembro 17, 2025

Descobrir diferenças entre o trabalhar para o bem comum e o trabalhar para o "nosso bolso"...


Fui um dos convidados para participar num convívio familiar onde se comemorava o nonagésimo de um homem, que sempre pautou a sua vida pela discrição, embora estivesse presente, nos momentos mais importantes da vida da sua colectividade, dos anos sessenta até ao começo do século XXI.

Sabia quem o António era, mas só o conheci, verdadeiramente, nos últimos dez anos. O facto de ser extremamente culto nunca foi o melhor cartão de visita no meio onde estava inserido. Num tempo em que já não se liam livros como na sua juventude, ele continuava com vontade de descobrir e ler autores novos. Foi o Romeu Correia que nos aproximou, com os seus livros e as suas histórias de vida. Mas falámos de muito mais livros e autores, de Almada e do Mundo.

Curiosamente, quem falou mais naquela tarde longa, foi um companheiro, dois anos mais novo. Ele foi desfiando algumas das memórias vividas em conjunto, especialmente como bibliotecários. Embora não estivéssemos a ver nenhum álbum de fotografias, a sensação era quase a mesma, à medida que a história ia passando pelos dois homens.

A meu lado, estava uma terceira pessoa, também da mesma geração, que nunca foi um associativista. Enquanto os outros andaram dentro das colectividades ele ia fazendo pela vida, comprando lojas aqui e ali (chegou a ter três estabelecimentos comerciais no centro de Almada...). Em apenas duas ou três frases que disse, percebi que se tinha em grande conta. Achava que tinha sido mais importante para a comunidade que os dois amigos, mesmo assim, como se via, passara ao lado da história (pelo menos daquela)...

Não tive tempo nem vontade de lhe explicar que eram coisas diferentes, trabalhar para o bem comum e trabalhar para o "nosso bolso". Fiquei sim, a pensar, que ele nascera no tempo errado. O tempo dele era hoje, em que o "eu" é quem mais ordena...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


terça-feira, setembro 23, 2025

Um dos sorrisos mais bonitos do cinema


Claudia Cardinale deixou-nos hoje.

Foi uma das actrizes que mais encheu as telas com o seu sorriso bonito, num tempo em que a beleza era fundamental na sétima arte.

O curioso, é nunca ter sentido qualquer ameaça de uma Marylin Monroe, de uma Ava Gardner, ou de geografias mais próximas, de uma Sophia Loren...

Sim, nunca lhe faltaram filmes, bons, maus ou assim assim. Em qualquer deles, a Claudia dava nas vistas, muito graças ao seu sorriso, que fazia com que qualquer assassino do Oeste baixasse as armas...

(Fotografia de autor desconhecido)


sexta-feira, setembro 19, 2025

Um grande jornalista desmonta, num excelente livro, o maior embuste da nossa democracia: o Chega


Embora algumas personagens fabricadas pela televisão, acreditem que é no "espelho", que está o segredo do sucesso, que basta dizer muitas vezes à imagem que aparece à nossa frente, quase, quase, igual a nós, que somos os melhores, que nos tornamos uns "gigantes", elas sabem que não é suficiente. Por muitos disfarces que usem falta sempre qualquer coisa...

O que nos torna realmente grandes, é o nosso trabalho, aquilo que fala por nós, sem ter à frente e atrás o nosso retrato.

Eu já sabia que o Miguel Carvalho era um grande jornalista. E fiquei a saber que também era um grande ensaísta e investigador, quando escreveu um livro único sobre o Verão Quente. Livro que deve ser amaldiçoado por todos aqueles que agora tentam agarrar com as duas mãos o 25 de Novembro de 1975, mesmo que nesses tempos andassem mais entusiasmados em queimar sedes do PCP na região Norte, que em participar em golpes revolucionários (a participação do PPD no 25 de Novembro é residual e a do CDS praticamente nula...). Estão lá os nomes todos...

Falo de Quando Portugal Ardeu - Histórias e Segredos da violência Política no pós-25 de Abril.

E agora voltou a oferecer-nos outro grande livro, cheio de peripécias. Falo de Por Dentro do Chega - a Face Oculta da Extrema-direita em Portugal.

Falo em "grande", não pelo tamanho (mesmo que ultrapasse as setecentas páginas...), mas pela qualidade, pelo excelente trabalho de investigação realizado. 

As ameaças, os boatos e as perseguições feitas ao Miguel, promovidas por este grupo de malfeitores que anda por aí disfarçado de partido político, com o sucesso que todos conhecemos, não conseguiu vencer a realidade nem a história. 

Sim, neste livro não se poupa qualquer palavra sobre o antes e o durante de uma quase "seita", que nunca escondeu ao que vinha, nem por quem era patrocinada, embora ande por aí demasiada gente distraída. Gente que além de adorar mentiras, parece estar saudosa dos regimes autocráticos...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


terça-feira, setembro 16, 2025

Robert Redford: um dos raros actores que era tão, ou mais importante, que os filmes onde brilhava...


Embora este "Largo" tenha "Memória", ultimamente não tem feito homenagens às pessoas com mais de "dois metros", que nos vão deixando, como aconteceu agora com Robert Redford.

Redford foi muito mais que um actor bonito, conseguiu acrescentar sempre algo, aos seus papeis no cinema. Foi um dos raros actores que conseguia ser tão ou mais importante, que os filmes que protagonizava. São muito poucos os que têm este talento. Os primeiros nomes que me ocorrem são os de Robert De Niro e Meryll Streep, mas há também um Tom Hanks ou um Al Pacino, e pouco mais... 

Não esqueço Os Homens do Presidente, um filme de culto do jornalismo e da política (foi exibido, estudado e criticado no Curso de Jornalismo que fiz no Cenjor...). Embora ele tenha deixado a sua marca em todos os filmes que entrou (largas dezenas), mesmo os mais banais.

Além de actor também dirigiu alguns filmes, tendo mesmo ganho o óscar de melhor realizador com Gente Vulgar (que também foi melhor filme).

Mas Robert Redford não se ficou por Hollywood, nem viveu à sombra dos seus louros ou da sua imagem, foi o principal responsável pela criação do melhor festival de filmes independentes dos Estados Unidos da América, o Sundance Film Festival.

(Fotografia de autor desconhecido - uma cena de Os Homens do Presidente, onde contracenou com Dustin Hoffman)


quinta-feira, agosto 21, 2025

Uma boa notícia para Almada e para a Margem Sul


A notícia sobre a continuidade da exposição de fotografia, "Venham mais Cinco", até 23 de Novembro, nas instalações da Lisnave, é muito boa para Almada e para a Margem Sul, tantas vezes subalternizada.

Tenho poucas dúvidas de que esta continuidade se deve também ao pouco interesse desta mostra de fotografia memorável (não conheço nenhuma com tanta capacidade para contar apenas com imagens a história da Revolução e do PREC...), provavelmente por encher demasiadas paredes.

Sérgio Tréfaut já falou, mais que uma vez, na dificuldade que tiveram em fazer com que esta exposição passasse do papel para a parede, dos sonhadores para o público. Até o Presidente da República, normalmente tão solicito, lhes deu "sopa"...


Visitei a exposição três vezes, com a sua continuidade, é possível passar por lá, pelo menos mais uma vez. Desta última vez, gostei de me cruzar com dezenas de pessoas a olharem os bonitos retratos a preto e branco (a cor aparece para ser a excepção que confirma a regra).

Estou grato a Sérgio Trefaut e à Margarida Medeiros (que já não teve a possibilidade de assistir a este sonho que se tornou realidade...), pelo seu amor à história, pelo bom gosto e pela sua teimosia. 

Sim, tanta coisa que não se fazia neste país, se não existisse uma dúzia de teimosos, que quando mais os contrariam, mais eles lutam pelos seus objectivos (eu também já fui assim...).

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


segunda-feira, junho 16, 2025

Ficamos sempre mais pobres, mesmo sem nos apercebermos...


Embora Almada seja uma cidade grande, é quase uma "aldeia" no campo cultural.

É por isso que quando nos deixam duas pessoas num curto espaço de tempo (uma semana...), ligadas ao mundo dos livros, perguntamos, por onde andámos, que nunca tivemos "tempo" para ter uma simples conversa (ao telefone não conta...) com elas...

Falo de Armindo Reis e Teresa Rita Lopes, professores, escritores e poetas... O homem esguio que gostava de escrever para crianças e a mulher de olhos cor de mar, que viveu sempre apaixonada por Pessoa.

Se com a Teresa Rita só falei, uma vez, ao telefone, com o Armindo, começámo-nos a cumprimentar há menos de um ano, de uma forma simpática, por almoçarmos às segundas no mesmo restaurante e termos um ou outro amigo em comum...

Não foi por nos deixarem que passaram a ser boas pessoas ou melhores escritores. Até porque nos deixaram os seus livros para os revisitarmos... Mas não deixa de ser estranho, que tenhamos vivido na mesma cidade e tenhamos passado a vida a percorrer ruas diferentes...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


terça-feira, junho 10, 2025

Lá estamos nós, no dia que é muitos dias...


Este dia que podia ser só de Portugal e das Comunidades, também é de Camões, o nosso poeta Luís, que foi capaz de escrever sonetos há mais quinhentos anos, que ainda fazem sentido e têm beleza... e até são cantados...

Pensar que quando a Amália resolveu trazer Camões para o fado, foi quase um escândalo nacional. Nem o meu querido Zé Gomes Ferreira achou graça, apesar de ser bastante avançado para o seu tempo. E depois vieram outros poetas até às vielas, numa clara demonstração do bom gosto da "Rainha do Fado".

Felizmente o Luís também era um homem do futuro, sabia que "Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades".

Foi por isso que compreendeu, como poucos, que  "todo o mundo é composto de mudança".

São estas pequenas grandes coisas que fazem com que Luís de Camões continua a ser o nosso "poeta maior".

(Fotografia de Luís Eme - Constância)


quarta-feira, junho 04, 2025

O Adeus a um excelente fotógrafo, a um Mestre...


Escolhi esta fotografia tirada à nossa poeta maior, Sophia de Mello Breyner Andresen, na sua casa (sei que não é a mais conhecida, foi por isso que a escolhi...) para homenagear o seu autor, um dos nossos grandes mestres da fotografia: Eduardo Gageiro.

(Fotografia de Eduardo Gageiro - Lisboa)


sábado, maio 24, 2025

Quando a fotografia se torna bela e complexa em simultâneo...


O desaparecimento de Sebastião Salgado é um bom motivo para falar de fotografia, como arte, mas também como objecto de denúncia, de clarificação, porque o que ele mais gostava de retratar era um mundo desigual e devastador, graças à acção do homem, mas sempre a perseguir a diferença, a encontrar beleza mesmo no "inferno".

Penso que ele chegou onde mais ninguém foi (muitos nunca quiseram ir por aí, até por uma questão de filosofia de vida e do entendimento que tinham da imagem). Onde havia exploração, escravidão, devastação, miséria, ele foi lá, e tirou retratos a tudo e mais alguma coisa, sem estar preso a questões éticas e morais.

No meu caso pessoal, devo dizer que a partir de certa altura, comecei a desinteressar-me pela sua fotografia. Senti que aquilo era tudo muito igual, ou seja, ele já não me surpreendia com a beleza das suas imagens. 

Acho que isso aconteceu quando entrei mais dentro da fotografia. Fui educando o meu olhar, através da prática da fotografia e também de conversas com amigos fotógrafos (as conversas influenciam-nos muito, mesmo sem darmos por isso...), comecei a achar que as imagens de Sebastião eram demasiado encenadas. Até mesmo a miséria humana, não me parecia real, entre outras coisas, mesmo que o fotógrafo brasileiro tivesse sempre a arte como prioridade, no seu olhar...

É por isso que eu digo que a fotografia com Sebastião Salgado, ganha uma beleza única (os seus cinzentos são uma marca...), mas também se torna complexa, enquanto objecto social...

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


domingo, fevereiro 16, 2025

Carlos Paredes, entre o Génio e o Improviso


Um dos grandes génios da nossa música faz hoje 100 anos.

Curiosamente escolheu um instrumento, que antes dele, estava quase limitado ao fado. Sei que estou a exagerar, mas apetece-me dizer que a guitarra funcionava muitas vezes, apenas como "dama de companhia", dos cantadores e cantadeiras de fado.

Com Carlos Paredes chegou ao cinema, à dança e a outros géneros musicais, com improvisações até no jazz...

Numa das últimas entrevistas que Carlos deu ao "Público" (18 de Março de 1992), explica muito bem as diferenças entre ele e os guitarristas de fado, falando inclusive de Amália:

«O Charlie Haden é um homem do jazz, do contrabaixo, e fez-me umas propostas interessantes. Eu limitava-me a introduzir também a guitarra, improvisando. Se eu hoje quisesse acompanhar a Amália não conseguia. Os guitarristas que a acompanham são especialistas que, à sua maneira, criam coisas novas. Eu já não seria uma pessoa para isso. O mais certo era ter de desistir logo. É como se tocássemos instrumentos diferentes.»

É verdade, o "instrumento" de Carlos Paredes, foi-se tornando, com o tempo, cada vez mais diferente do dos outros guitarristas, para felicidade de todos nós.

(Fotografia de Luís Eme - Barreiro)


quarta-feira, janeiro 29, 2025

Os oitenta anos da "Bíblia do futebol"


Podia falar do "calimero" que começa a andar em negação, quando se fala de violência em Lisboa, ao ponto de até colocar em causa os números apresentados pela polícia, mas isso era dar atenção a quem não a merece.

É por isso que prefiro festejar os oitenta anos de vida que a "Bíblia" do futebol comemora hoje.

"A Bola" foi o jornal que mais li no começo da adolescência até à idade adulta, porque tinha jornalistas extraordinários, como foram o Alfredo Farinha, o Carlos Miranda, o Aurélio Márcio, o Vitor Santos, e sobretudo, o Carlos Pinhão. Adorava ler as suas crónicas, especialmente quando "largavam a bola", e davam largas à imaginação e ao espírito de cronistas, com os populares "Hoje Jogo eu"...

Não tenho grandes dúvidas, que foi graças a eles, que quis ser jornalista desde muito cedo. Ainda tive o prazer de conhecer Alfredo Farinha, Carlos Miranda e o Carlos Pinhão. Acabei por ter uma maior proximidade com  este último, por gostarmos ambos das coisas da cultura. Conversámos bastantes vezes, sobre livros, mas também sobre cinema ou teatro, apesar da concorrência quase doentia desse tempo entre o "Record", - onde eu já trabalhava - e "A Bola". Era uma daquelas coisas em que fingíamos passar-nos ao lado...

E não posso esquecer Cândido de Oliveira, jogador, treinador, seleccionador nacional e democrata (esteve preso no Tarrafal...), o principal responsável por este projecto jornalístico de grande sucesso, que dura há oitenta anos...

A propósito da capa, eu é que agradeço!


quinta-feira, dezembro 19, 2024

O poeta O' Neill faz hoje cem anos


O poeta O' Neill faz hoje cem anos.

Mesmo num país de grandes poetas, o Alexandre não conseguiu passar despercebido. E ainda bem.

O curioso, foi ele, depois de andar pelos cafés, com um casaco vestido do avesso, à boa maneira surrealista, ter conseguido mudar de rua, e retratar tão bem a nossa vidinha nos seus poemas.

A 17 de Agosto de 2022 escrevi sobre ele aqui no "Largo", porque estava a ler - e a gostar - da biografia da Maria Antónia Oliveira. E agora volto a esse texto, com um sorriso e um aplauso a um poeta, com visões poéticas geniais:

«Normalmente não tenho grande simpatia pelos nossos "génios meio chanfrados" (como são os casos de Luiz Pacheco ou de João César Monteiro, por exemplo), mas o Xana era bastante diferente deste "dueto chupista", embora também tivesse uma vida bastante irregular, não costumava "cuspir na sopa" nem deixar os amigos "descalços".

Mas vamos lá ao livro e ao poeta O'Neill...

A Maria Antónia escreveu esta biografia por aproximações, servindo-se com mestria dos testemunhos de pessoas que o conheceram bastante bem e também de alguns textos autobiográficos (embora a memória do poeta não fosse muito fiável...). A sua primeira esposa, Noémia Delgado, tem um papel importante nesta obra. Percebe-se que ele foi o amor da sua vida, mas não guardou qualquer ressentimento com a separação, nem nunca deixou de o achar um dos nossos grandes poetas.

Gostei de saber que ele além da paixão pela poesia da vida, também gostava bastante das pessoas, de preferência gente humilde, com quem gostava de conversar e acamaradar, de igual para igual. E eram muitas vezes as fontes de inspiração para os poemas e também para a publicidade, que foi o seu melhor "ganha-pão"....

Embora estivesse longe de ser um homem bonito, viveu muitos amores pela vida fora. Era um excelente conversador, levava as mulheres à certa, com o seu humor, a sua poesia e a sua simpatia natural (e também da outra, sedutora...).»

Graças a este livro-retrato, percorri, mais que uma vez, a sua Lisboa, que tinha como "capital", o Príncipe Real...

Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, dezembro 07, 2024

Mário Soares: um político de corpo inteiro


Mário Soares nunca foi um dos meus políticos preferidos. Sempre achei que ele era capaz de fazer tudo pelo poder. E de certa forma era...

Mas com o tempo fui percebendo que ele tinha uma intuição política única, o que fazia com que tivesse muitas vezes razão,  antes do tempo.

Embora fosse amigo do seu amigo, não evitava desafios, nem desistia daquilo que achava ser melhor para todos (mesmo que estivesse errado...). Isso explica, em parte, as "zangas" com Salgado Zenha e com Manuel Alegre, que lhe eram muito próximos. O mais curioso foi ambas terem sido provocadas por duas eleições presidenciais, distintas, em que experimentou o sabor da vitória e o sabor da derrota.

Com um olhar quase de historiador, não tenho qualquer dúvida, de que Mário Soares foi a grande figura política do nosso país dos últimos cinquenta anos. 

Os dois pontos pela qual é mais criticado pelos extremistas, são aqueles é que teve um papel decisivo para a nossa democracia (só não foi para a democracia dos outros, porque eles não quiseram...). 

Refiro-me ao processo da descolonização, que nas circunstâncias em que se realizou, dificilmente poderia ter outro resultado. As guerras pelo poder, protagonizadas entre o MPLA e a UNITA em Angola e pela FRELINO e RENAMO em Moçambique, ultrapassaram as nossas fronteiras e acabaram por dar razão aos nossos políticos, por muito que isso faça doer a todos aqueles que viveram por lá e tiveram de partir de um dia para o outro, abandonando os seus lares e os seus bens.

Sobre o 25 de Novembro já se disse praticamente tudo. Foi ele quem enfrentou os extremismos, da esquerda e da direita, foi ele quem se uniu aos militares democratas e devolveu o rumo certo ao nosso país.

Não tenho qualquer dúvida de que, sem a influência de Mário Soares, seríamos um país pior, em todos os sentidos.

Na actualidade, faz-nos muita falta um político com a sua intuição, para combater o populismo e a mentira, crescentes, desta extrema direita, cada vez mais difícil de classificar.

(Óleo de Júlio Pomar)


quarta-feira, novembro 06, 2024

E esta? Afinal correu tudo bem...


Como devem calcular não estou a falar das eleições nos EUA (é um problema sobretudo dos norte-americanos, das maiorias - mulheres - e das minorias - latinos e pretos - que votaram no "homem cor de laranja". Além disso sei que ele não vai fazer todas aquelas coisas estúpidas que prometeu fazer na campanha...).

Estou a falar, sim, de Ruben Amorim, que já é o melhor treinador português da actualidade. E será, com toda a certeza, dentro de dois ou três anos, o nosso melhor de sempre.

Sei que só alguém muito, muito especial, serias capaz de dar a "volta por cima", perante um cenário desportivo, que tinha tudo para correr mal (ser "obrigado a ficar" e dirigir a equipa em três jogos, depois de assinar por outro clube...).

Mesmo não sendo "lagarto", estou grato a Ruben Amorim, por ser diferente, para melhor, da maior parte dos treinadores, e mesmo assim ganhar. 

Basta pensar que é o único treinador português do lote dos nossos cinco melhores, que nunca se desculpa ou fala de arbitragens, quando perde jogos, ao contrário de José Mourinho, Jorge Jesus, Abel Ferreira ou Sérgio Conceição.

Embora seja difícil, tenho a esperança de que um dia o Ruben volte ao Benfica...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)