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quinta-feira, maio 28, 2026

Portas que se fecham e uma porta que se abriu...


Ia escrever, parece, mas não há nenhum parece na afirmação. As pessoas vão mesmo cada vez menos ao cinema (eu faço parte do lote...). Os números não enganam.

Até as salas de projecção dos centros comerciais estão a fechar, por míngua de espectadores... Embora aqui se perceba o encerramento, porque estas salas são "lojas", onde se vendem imagens com pipocas, o seu grande objectivo é ganhar dinheiro.

Tem acontecido o mesmo tem pelo interior fora (parece que já chegou ao litoral...), onde já existem várias cidades, com alguma importância social e cultural, sem um único auditório aberto para se verem filmes.

Curiosamente, cada vez há mais fitas portuguesas (sei disso porque ainda leio jornais...). Sei que isso se explica pela facilidade com que hoje qualquer pessoa pode fazer um filme, graças à evolução tecnológica e aos seus baixos custos).

Não sei qual é o verdadeiro objectivo desta "febre" de filmes que falam português. Pode ser a visita a festivais internacionais, ou então, a projecção para os amigos...

Não deixa de ser curioso, que se tenha criado em Almada no último mês um "cine-clube" municipal, no velho Salão das Carochas (esta sala já foi muita coisa e curiosamente foi "sala de cinema" logo depois do 25 de Abril, com a projecção de filmes infanto-juvenis). 

Ainda não me bem informei sobre o assunto, se tem público, embora perceba que o objectivo principal do "Cine-Carochas" é ser um espaço alternativo ao "comércio de filmes", ser uma casa aberta às fitas independentes (talvez as tais dos muitos realizadores portugueses...).

Como de costume não era para escrever nada disto, era para falar de história com cinema. Fica para amanhã...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quarta-feira, abril 15, 2026

Isto de gostar de olhar para aquilo que se mexe nas ruas, com olhos de ver, acaba por ter uma ou outra coisa que se lhe diga...


A minha filha assim que entrou em casa avisou-me logo para ter cuidado, porque houve um "passeador de cães" que deixou o seu "mais que tudo" a "libertar o prisioneiro" mesmo à nossa porta (ainda apanhou a grade-tapete da entrada...).

Como a minha Sofia sabe que olho para todo o lado menos para o chão, e que sou um tipo "cheio de sorte" (houve alguém que inventou esta patranha, de que pisar "merda" dá sorte...), fez com que pensasse logo que: "isto de gostar de olhar para  aquilo que se mexe nas ruas, com olhos de ver, acaba por ter uma ou outra coisa que se lhe diga..."

O mais curioso, é que nem me apetece catalogar a personagem que "educa" o seu "bebé" a preferir a pedra da calçada do passeio ao espaço verde meio abandonado que fica a menos vinte metros...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, março 16, 2026

A memória boa que aparece misturada com o bacalhau com grão...


Reparo que nós - os que temos uma capacidade especial de dar voltas para trás como o caranguejo e conseguir tirar sempre algo de positivo, mesmo das partes menos boas das nossas vidas - acabamos por relativizar as coisas, quase todas.

Pensei nisto depois de ter almoçado com os meus queridos amigos, Carlos e Chico, que ajudam a perpetuar no tempo a nossa "tertúlia do bacalhau com grão" e a recordar com saudade os nossos companheiros de aventura, que foram partindo, mas que mesmo assim, gostam de aparecer no meio de qualquer conversa sobre o quotidiano.

Há sempre um ou outro pormenor, que convoca um ou outro amigo... 

O Orlando continua a ser o mais requisitado, porque tinha a capacidade de "encher a mesa", com coisas sérias e coisas a brincar. Mas aparece logo de seguida o Carlos Guilherme, com a sua brutalidade meiga ou o Jaiminho, com as palavras certas (lembrava-nos muitas vezes que quem fala muito pouco acerta....). Mas depois surjem também o Viriato, o Carlos Alberto ou o António, nem que seja apenas com um sorriso ou uma provocação...

Pois era, falávamos muito... e sorriamos ainda mais... 

Sei que também bebíamos bastante vinho tinto "da casa". Mas estou convencido, que mesmo que só bebêssemos água, a conversa continuaria animada pela tarde fora dessas nossas memoráveis segundas-feiras...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, fevereiro 12, 2026

O mundo agora é outra coisa...


Chovia e eu estava na paragem do metro.

Uma mãe com a idade da minha filha estava com o chapéu aberto, com a filhota ao colo. Cheguei-me para uma ponta e convidei-a a vir para o abrigo da paragem.

Ela veio e agradeceu.

Depois chegou o metro, sentei-me e ela sentou-se a meu lado. Como ainda havia lugares sentados perguntei-lhe se queria sentar a filha. Disse-me que não.

Quando se levantaram para sair a pequenita virou-se para mim a sorrir e ofereceu-me um "Tchau".

Surpreendido deu-lhe um "adeus linda".

Tudo isto seria normal, se não se desse o caso da mãe e da filha, serem de cor... E por isso mesmo, não estarem habituadas a serem tratadas e olhadas pelos outros, com normalidade, desde que existe um partido político, que faz questão de colocar as pessoas dentro de catálogos de cores e de nacionalidades...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


terça-feira, fevereiro 03, 2026

«Ó pai vai chover o ano inteiro?»


Vinha a subir a Emília Pomar e cruzei-me com um pai e uma filha que vinham da Escola dos Cata Ventos e entretanto começaram a cair uns pingos a convidarem-me a acelerar a marcha até casa.

Ainda tive tempo de ouvir a miúda de cinco ou seis anos perguntar ao pai: «Ó pai vai chover o ano inteiro?»

Ele não disse nada. Estava entretido a abrir o chapéu e farto de chuva, como todos nós...

Pensei que a minha filha era mais de fazer perguntas que o meu filho. E sempre foi assim pela vida fora. Talvez seja essa a norma, as mulheres são mais curiosas e gostam mais de perguntar...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


segunda-feira, novembro 17, 2025

Descobrir diferenças entre o trabalhar para o bem comum e o trabalhar para o "nosso bolso"...


Fui um dos convidados para participar num convívio familiar onde se comemorava o nonagésimo de um homem, que sempre pautou a sua vida pela discrição, embora estivesse presente, nos momentos mais importantes da vida da sua colectividade, dos anos sessenta até ao começo do século XXI.

Sabia quem o António era, mas só o conheci, verdadeiramente, nos últimos dez anos. O facto de ser extremamente culto nunca foi o melhor cartão de visita no meio onde estava inserido. Num tempo em que já não se liam livros como na sua juventude, ele continuava com vontade de descobrir e ler autores novos. Foi o Romeu Correia que nos aproximou, com os seus livros e as suas histórias de vida. Mas falámos de muito mais livros e autores, de Almada e do Mundo.

Curiosamente, quem falou mais naquela tarde longa, foi um companheiro, dois anos mais novo. Ele foi desfiando algumas das memórias vividas em conjunto, especialmente como bibliotecários. Embora não estivéssemos a ver nenhum álbum de fotografias, a sensação era quase a mesma, à medida que a história ia passando pelos dois homens.

A meu lado, estava uma terceira pessoa, também da mesma geração, que nunca foi um associativista. Enquanto os outros andaram dentro das colectividades ele ia fazendo pela vida, comprando lojas aqui e ali (chegou a ter três estabelecimentos comerciais no centro de Almada...). Em apenas duas ou três frases que disse, percebi que se tinha em grande conta. Achava que tinha sido mais importante para a comunidade que os dois amigos, mesmo assim, como se via, passara ao lado da história (pelo menos daquela)...

Não tive tempo nem vontade de lhe explicar que eram coisas diferentes, trabalhar para o bem comum e trabalhar para o "nosso bolso". Fiquei sim, a pensar, que ele nascera no tempo errado. O tempo dele era hoje, em que o "eu" é quem mais ordena...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


segunda-feira, julho 07, 2025

«Já não posso ter a minha opinião?»


O meu corte de cabelo hoje foi um pouco mais agitado que o costume.

Assim que o meu barbeiro começou com o já habitual "discurso anti-emigrantes", comecei a desmontar uma boa parte das suas teses populistas com a realidade, com as aldeias e os campos que quase só albergam gente idosa, pelo que a mão de obra tem de ser obrigatoriamente estrangeira. Acrescentei que esta também era a escolha preferida dos exploradores da agricultura intensiva, porque assim têm sempre a possibilidade de ter metade dos seus trabalhadores em situação ilegal, o que lhes poupa uns cobres no pagamento para a segurança social e para as finanças.

Claro que ele não gostou de ser contrariado. Ninguém gosta. Foi por isso que se escudou na frase: «Já não posso ter a minha opinião?»

Claro que pode. Em democracia pode-se quase tudo, até navegar no erro e mostrar a nossa "costela revolucionária", quase a par com a nossa "costela reaccionária"...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quinta-feira, junho 19, 2025

Talvez sim, talvez não...


Foi a terceira pessoa que se referiu ao senhor António como um antigo informador da PIDE.

Nunca levei esta informação a sério, mas à terceira, quase que foi de vez. Quem me relatou este facto foi um amigo, que trabalhou no mesmo lugar que o meu vizinho do prédio da frente.

Fiquei a pensar, até na sua excessiva simpatia. Não se podia falar de uma coisa normal, pelo menos nestes tempos. Mas porque não? Há pessoas assim, no mundo delas não há "gregos nem troianos", apenas pessoas...

E há pessoas que gostam de saber coisas dos outros, são curiosas por natureza.

De repente estava a desculpá-lo. Mesmo se fosse verdade, podia ter sido alguém da PIDE que lhe "dera a volta" e ele podia pensar que ser informador da polícia secreta era um "desígnio nacional".

Mas depois analisei mais cuidadosamente o seu perfil, quase "de mulher". Sim, embora possa existir aqui algum resquício do velho machismo, são normalmente as mulheres que falam com as outras mulheres, a partilharem novidades, para serem as pessoas mais bem informadas da rua e do bairro. Havia ali curiosidade a mais...

Mesmo assim acabei por banalizar a questão, por a "ignorância sempre ter sido atrevida".

Felizmente continuamos a viver em liberdade, sem "secretas". E por outro lado, esta sua imagem de "boa pessoa", pode ser ele a querer redimir-se dos erros do passado, se foi mesmo "bufo"...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


terça-feira, junho 17, 2025

O cumprimento diário que não custa nada e sabe bem...


A maior parte das pessoas que cumprimento com um bom dia ou uma boa tarde, são vizinhos e vizinhas, já com alguma idade.

Faço-o com satisfação, por notar que ficam agradados, apenas com este simples cumprimento diário. É algo que não custa nada e que também torna o nosso dia mais solar...

Pensei nisto depois de ler uma notícia sobre o óbvio, que onde se morre mais de solidão, é nas grandes cidades. 

Sim, o barulho dos outros, mesmo nos nossos prédios, não passa de ilusão, é quase igual às buzinas e aos motores dos carros das ruas...

Nas aldeias pode-se viver em silêncio, mas conhece-se toda a gente, sabe-se onde está o outro. E quando se dá pela sua falta, corre-se à sua procura...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


segunda-feira, junho 16, 2025

Ficamos sempre mais pobres, mesmo sem nos apercebermos...


Embora Almada seja uma cidade grande, é quase uma "aldeia" no campo cultural.

É por isso que quando nos deixam duas pessoas num curto espaço de tempo (uma semana...), ligadas ao mundo dos livros, perguntamos, por onde andámos, que nunca tivemos "tempo" para ter uma simples conversa (ao telefone não conta...) com elas...

Falo de Armindo Reis e Teresa Rita Lopes, professores, escritores e poetas... O homem esguio que gostava de escrever para crianças e a mulher de olhos cor de mar, que viveu sempre apaixonada por Pessoa.

Se com a Teresa Rita só falei, uma vez, ao telefone, com o Armindo, começámo-nos a cumprimentar há menos de um ano, de uma forma simpática, por almoçarmos às segundas no mesmo restaurante e termos um ou outro amigo em comum...

Não foi por nos deixarem que passaram a ser boas pessoas ou melhores escritores. Até porque nos deixaram os seus livros para os revisitarmos... Mas não deixa de ser estranho, que tenhamos vivido na mesma cidade e tenhamos passado a vida a percorrer ruas diferentes...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quinta-feira, maio 08, 2025

Quase toda a vida dentro de uma mala...


Há pessoas que nos habituamos a cumprimentar, diariamente, apenas porque nos cruzamos quase todos os dias nos nossos bairros. Não sabemos nada delas, nem temos grande curiosidade em saber mais coisas...

Era o que acontecia com o homem que costumava estar à janela a fumar, com quem compartilhava o vulgar bom dia e boa tarde, sem qualquer sinal de fardo.

Um dia vi os bombeiros à volta da casa... E claro, na mercearia do bairro vim a saber que o senhor era um "acumulador" e que fora levado para um lugar qualquer, enquanto despejavam e limpavam a sua habitação. Depois fizeram obras e hoje tem novos inquilinos...

Meses depois vi-o, na paragem do metro, cumprimentámo-nos, como de costume, apenas com um boa tarde. Estava mais magro e vestia de negro. Fiquei a pensar que podia ter trocado duas ou três palavras com ele, mas. Pois, há sempre um mas...

Há uns tempos comecei a ver um homem, que anda sempre com boné e barba crescida, com bengala e uma mala de viagem, sentado em bancos públicos ou nos da estação do metro da Gil Vicente, onde pernoitava. Não o achei familiar (está ainda mais magro e a barba crescida também o transfigura...).

Foi a minha companheira que me disse quem era o senhor. A princípio não acreditei, mas uma amiga comum, que trabalha numa pastelaria, oferece-lhe diariamente o pequeno-almoço. Hoje olhei-o com mais atenção, e sim, é ele...

As nossas vidas estão longe de serem lineares. Por isto ou por aquilo, há quem escolha "não ter família", apagando todos os laços que existem. É possível que não ande assim tão longe da realidade deste homem, que agora, guarda quase toda a vida dentro de uma mala, que nunca larga...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sábado, abril 12, 2025

Pensamentos em volta do encontro de três homens na mercearia de bairro...


Ao sábado de manhã, uma das coisas que cá em casa se faz, é o primeiro que se levanta ir à mercearia comprar um pão alentejano do Cercal para comermos ao pequeno-almoço.

Mas não é sobre a delícia deste pão que quero falar, é com o facto de à hora que cheguei (deviam ser umas nove e um quarto, mais minuto menos minuto) estar lá e senhor e logo a seguir a mim, apareceu outro.

Se eu acabei por levar apenas o pão, o fiambre e um pouco de presunto espanhol (para experimentar, o bom do moço da mercearia tem estas coisas, consegue que se leve sempre mais qualquer coisita...), os outros dois companheiros de aventuras tinham uma lista extensa de compras.

Fiquei a pensar que, mesmo que se finja que não, muita coisa mudou. Este quadro era impossível há trinta anos (não vou recuar meio século...), a mercearia era um espaço de mulheres, os homens só lá apareciam para comprar alguma urgência de última hora, que faltava para o jantar (e nem todos...), nunca com uma lista nas mãos.

É por isso que me faz confusão a volta que estão a querer dar ao mundo, muitas vezes com a cumplicidade das próprias mulheres (os espectáculos mais horríveis do Parlamento têm como intérpretes, as mulheres do Chega contra as outras mulheres dos outros partidos, ao mesmo tempo que se deixam manietar por aquele grupo manhoso de falsos "marialvas").

Se não estivéssemos a viver tempos de perdas de direitos, em que se coloca quase tudo em causa, talvez não pensasse desta forma, a partir de uma coisa tão simples, como foi o encontro de três homens na mercearia de bairro...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, março 30, 2025

O "comércio justo" é bom, mas o "comércio simpático" ainda é melhor...


Fala-se aqui e ali do "comércio justo", mas do que eu gosto mesmo, é do "comércio simpático".

Nem sei por onde comece. Não é que sejam muitos, eu diria até que, são do clube dos "poucos e bons".

Apesar do Manel da mercearia do bairro se esticar um pouco com os preços, é de uma simpatia a toda a prova. Não é por acaso que há algumas avós que vão lá só para "namorar" com o jeitoso do moço, que nasceu para atender pessoas. Também é bastante culto (formado em gestão, ficou com a loja dos pais, no período complicado do pós-troika), ou seja, tem conversa para toda a gente.

Depois desço à Gil Vicente, onde tenho pelo menos quatro cafés à minha disposição. Curiosamente, nem sempre vou ao que tem melhor atendimento, graças à Soraia, porque tenho de atravessar a rua e nem sempre o faço (o piloto automático leva-me vezes demais na direcção do "Repuxo", mais pelo peso histórico da primeira tertúlia cultural que frequentei, que pelo "atendimento", que deixa muito a desejar, porque  há quem esteja sempre a fazer um "frete ao cliente" e deixe o sorriso em casa.

Continuo na direcção de Cacilhas e entro na "melhor farmácia do mundo". Sim, são quatro os funcionários (três "elas" e um "ele"...), além do sorriso e das palavras agradáveis que oferecem a quem chega, tentam resolver todos os problemas, nunca nos mandam para a concorrência. Penso que acabam por ser vítimas da simpatia, deve haver quem lá vá, só para se sentir bem atendido e ter "uma prosa", sobre um dor qualquer.

Sobre Cacilhas, estamos conversados. 

Depois subo a Almada e entro no "Olivença", que mesmo sem ter nada de especial como restaurante, tornou-se quase familiar, muito graças ao Carlos, que recebeu de braços abertos a nossa cada vez menos expressiva, "Tertúlia do Bacalhau com Grão", no primeiro dia da semana.

Falta falar da loja de fotocópias que frequento, no centro de Almada, há mais de vinte anos. Falo de um casal daqueles que já não há (o Carlos e a Maria José). Além da simpatia e do serviço de excelência, são de uma honestidade que também já se usa pouco nestes tempos estranhos.

Antes de acabar esta pequena crónica, escrita por ser adepto do "comércio simpático", ainda fiquei a pensar se esquecera alguém. Acho que não. Claro que há mais pessoas que sabem receber, com a Carla dos "óculos" ou o casal simpático da tabacaria mais pequena de Cacilhas, mas não sou um cliente tão assíduo como nos outros lugares.

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


sábado, março 22, 2025

Encontro na cidade quase deserta...


As mesas e as cadeiras mantiveram-se em cima umas das outras, mais um dia, nas duas esplanadas que fazem concorrência ao vazio, na Gil Vicente.

Compreende-se: faz sol, depois frio, chove, o vento está por aí, algures, atrás de uma nuvem, dá um sopro ou dois e depois esgueira-se, para outra rua. 

As pessoas ficam por casa, mesmo que seja sábado à tarde. Hoje não é dia do "chá das velhas"...

Foi por isso que gostei de ver o Carlos Alberto, com os seus quase noventa anos, a caminhar em direcção a casa, depois de beber a bica no café que fica ao lado do meu. Gosto do serviço mas a bebida escura é fraquita pelo que vou à concorrência.

Não foi difícil apanhar o Carlos, com o seu andar lento, apoiado com uma canadiana. Disse-lhe que gostei de o ver, sem medo de ser levado pelo vento. Ele sorriu e disse que, tem de ser, tem de sair de casa, todos os dias, nem que seja apenas para beber café...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


quinta-feira, março 13, 2025

Uma manhã bem passada na escola...


Hoje passei parte da manhã numa escola do primeiro ciclo, na companhia de duas turmas do quarto ano.

Fui convidado para falar sobre a Liberdade de Expressão e de Informação, ainda no âmbito da comemoração dos 50 anos da Revolução de Abril (pelas professoras Ângela e Edite).

Acabou por ser uma sessão bastante gira e viva, com largas dezenas de perguntas feitas por aquelas crianças curiosas (a maior parte das perguntas foram feitas por miúdas...).

Falámos de muitas coisas, do antes, e do depois de Abril. Começámos pelos jornais com censura, trazendo quase colados, o Salazar, o Marcelo e a PIDE. E depois veio a liberdade, o PREC - com os usos e abusos próprios das revoluções - o 25 de Novembro. E também falámos de coisas destes nossos tempos, no mínimo estranhos...

Graças às perguntas foi possível aprofundar mais algumas coisas, como a "arte de driblar" a censura, escrevendo pelas entrelinhas. Também falámos dos livros proibidos e apreendidos. O grande Zeca e a sua "Grândola"  e os "Vampiros" apanharam boleia, também quiseram estar presentes, para "animar (ainda mais) a malta".

Quiseram saber como tinha sido o meu 25 de Abril... E eu disse que foi um dia sem escola, a brincar no quintal da minha casa, com a minha mãe presa à rádio, a querer saber as últimas novidades da Revolução. Foi quase um dia normal, tirando a parte de não haver escola, não fosse eu um rapaz de apenas onze anos...

Gostei da manhã passada na escola, e penso que a miudagem também gostou de ficar a saber mais coisas (curiosidade foi coisa que não lhe faltou...) de Abril.

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quarta-feira, fevereiro 19, 2025

Nem sempre temos noção "do que é sofrer"...


Ainda não me tinha acontecido uma coisa parecida, nas ruas, uma senhora chamar-me e pedir-me o braço.

Voltei atrás, sem perceber muito bem o que ela queria. 

A senhora só queria chegar a casa e devia estar com alguma dificuldade, embora morasse apenas a setenta, oitenta metros daquela esquina. 

Dei-lhe o braço de uma forma desajeitada, ela disse-me para deixar o braço normal e depois agarrou a manga do meu casaco e seguimos na direcção da sua casa. Para me descansar e perceber que não morava no fim da avenida, disse que ficava ao lado dos "Pinto's (barbearia)".

E depois nunca mais parou de falar. Fiquei a saber que estava cega de uma vista e da outra tinha um glaucoma e outro problema qualquer, ou seja devia ver pouco mais que sombras... Também me falou de um tratamento inovador, que usava o seu próprio sangue. Fiz-lhe poucas perguntas, uma delas foi se vivia sozinha. Disse-me que vivia com uma senhora de 93 anos. Quase que me silenciou...

E depois chegámos à sua porta. Tinha um carrinho de compras, tentei ajudá-la, foi quando percebi que estava carregado. Ela disse-me que não era preciso, acrescentando que o carro era a sua "bengala".

Deixei-a e fiquei a pensar que nos queixamos de mais, e que nem sempre temos noção "do que é sofrer"...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quarta-feira, dezembro 04, 2024

Eles não sabem, mas o teatro é o exagero da realidade...


A maior parte da gente que o conhece, não percebe nem olha com bons olhos para a sua paixão pelo palco.

As conversas quase de ouvido, têm quase sempre apenas um sentido, a sua vaidade pessoal, o querer exibir-se, o querer mostrar-se, em qualquer palco.

Esquecem a sua vontade de ajudar, o querer estar, o querer fazer, a aceitação de qualquer papel mesmo que seja de um simples figurante, como o de um actor amador menor, que ficou no "anedotário local", por causa da mulher. Falo do Tó da Mutela, que também gostava de tudo aquilo, de estar ali ao lado de todos aqueles homens e mulheres com muito mais jeito que ele para a arte de talma.

Quando me contaram a história da "queda em palco", sorri e lembrei-me logo do Tó...

Sim, é histórica a frase da sua mulher após a estreia. Depois de lhe fazer o jantar mais cedo, vê-lo sair de casa e passar os serões a ensaiar a nova peça do grupo cénico, meses seguidos, disse: «Tanta merda para isto? Para atravessares o palco, três vezes, de um lado ao outro, e dizeres apenas boa noite?», insistindo, irritada, «para dizeres uma merda de um boa noite, não era preciso ensaio nenhum.»

Claro que era preciso ensaio. Mas eles não sabem, nem sonham... 

O Tó tinha de conhecer a deixa, tinha de saber o caminho que iria percorrer, de um lado para o outro, no palco. Bastava um precalço para tornar o drama numa comédia...

O que ela nunca percebeu, foi a paixão do seu homem pelo palco, o querer estar ali, participar, nem que fosse apenas para ver os outros. 

Talvez preferisse que ele passasse os serões na taberna (lá não havia mulheres) e não no ensaio...

Foi por isso que percebi a frase do encenador, quando dois ou três elementos do grupo, o criticavam: «Dêem-lhe espaço, deixem-no ter o seu momento, deixem-no cair, sozinho...» 

O papel que fazia, era de um amante, que acabava assassinado em palco. Achavam que ele não caia com naturalidade, fazia um espectáculo dentro de um espectáculo. 

Eles fingiam não perceber que o teatro é isso, é o exagero da realidade...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quinta-feira, outubro 17, 2024

As pessoas que dizem graças (e têm graça) com o ar mais sério do mundo...


Eu até aquela tarde, apenas o conhecia de vista, e estava longe de ter a melhor opinião do mundo de alguém, que ainda pertencia à família do "Má Língua" (Este senhor fazia as delicias da malta quando aparecia nas assembleias gerais da Incrível e tentava virar as coisas de "pernas para o ar").

Mudar de opinião foi apenas uma questão de minutos...

E eu nem achei piada a forma como ele se sentou junto a nós, ocupando a cadeira vaga como se já fizesse parte do "mobiliário"...

Deve ter percebido o meu incómodo e foi por isso que me obrigou a baixar "a guarda", ao começar a falar de um amigo comum, sem se esquecer de demonstrar, aqui e ali, que sabia mais coisas de mim que eu dele...

Só não sabia que o melhor estava para vir...

Não estávamos tristes, mas com a chegada deste sujeito, que eu achava estranho (e não é das pessoas mais normais do mundo...), a alegria nunca mais nos desamparou. Quase tudo o que ele dizia tinha piada, ainda por cima ditas com o ar mais sério do mundo.

Ele não se limitava a procurar o lado cómico das coisas, como o bom do Dinis chegou a escrever, usava-o, para proveito de todos nós...

Quando regressava a casa, senti-me feliz por ter mudado de opinião sobre uma daquelas pessoas, que pensava ser mais "cinzenta que azul", sobretudo pelo que ouvia dizer por aí.

Ainda bem que o que o que os outros dizem, nem sempre corresponde à nossa verdade...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


segunda-feira, setembro 23, 2024

«É a primeira?»


Talvez ele me quisesse fazer aquela pergunta há mais tempo. Talvez.

Mas naquela tarde, perguntou mesmo, chamou-me e quis saber se aquela mulher era a minha esposa. Disse que sim. E ele, ainda curioso, foi mais longe: «É a primeira?»

E eu respondi com um sorriso: «É a primeira, e única. Faço parte do "clube" dos homens que só casam uma vez na vida.»

Ele devolveu-me o sorriso e despedimo-nos com um até já.

Os nossos cafés ficavam separados por menos de uma vintena de metros. Quando me sentei na esplanada, ao lado da minha companheira, fiquei a pensar na questão, colocada por aquele homem que conhecia há mais de trinta anos. Talvez eu soubesse mais coisas da vida dele que ele da minha. Talvez.  

Curiosamente, ou não, ele pertencia a um "clube" ainda mais restrito que o meu, o dos homens que nunca casaram. 

Havia várias explicações. Mas a única, com alguma lógica, era ele ser demasiado livre para se deixar prender por uma instituição, que fingia fazer as pessoas felizes. 

Quando o conheci, andava sempre bem vestido (ainda anda, continua a usar calça e casaco, mesmo que hoje apenas faça o caminho de casa até ao café...) e sei que tinha duas ou três namoradas, mulheres separadas ou viúvas. Não tinha problemas em afirmar que nunca se metia no meio de casamentos, quando o tentavam colar a algumas senhoras casadas, em algumas brincadeiras de mau gosto. Como homem livre que era, só procurava mulheres livres...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, setembro 20, 2024

«Sou anarquista mas não sou parvo»


Estávamos a falar de comércios, da gente que além de passar o tempo a explorar os outros, ainda se dirige aos clientes como se lhes estivesse a fazer um favor. Normalmente acabam mal. Só conseguem subsistir se não existir concorrência nas proximidades. 

Estava a ouvir e a pensar, Foi o que se passou durante mais de vinte anos na aldeia dos meus avós, até aparecer o vivaço do Tio Zé David, quando abriu o seu "tasco"(naquele tempo estes espaços estavam divididos em duas partes, a mercearia de um lado e a taberna do outro...). Ele além de vender as coisas mais baratas, estava sempre de cara alegre, pronto para animar a festa. 

Eu adorava fazer recados à avó, só para ouvir as suas "graçolas"... 

O outro senhor não fechou a "loja" , apenas por orgulho, mas  foi tendo cada vez menos clientes...

Entretanto o Carlos trouxe para a mesa o exemplo do Fernando, que tinha um café, cuja esplanada abraçou várias tertúlias ao longo dos anos. Houve uma vez um cliente que, depois de mais um aumento da bica, chateado, disse-lhe que se ele fosse um verdadeiro anarquista, não vendia as coisas ao mesmo preço dos outros.

Fernando não era homem para perder tempo com discussões estéreis, por isso limitou-se a dizer-lhe: «Sou anarquista mas não sou parvo.»

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)