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segunda-feira, novembro 27, 2023

A vez do teatro (e do associativismo)...


Já falei mais que uma vez da "tertúlia" (a "Tertúlia do bacalhau com grão") que tínhamos às segundas-feiras no restaurante "Olivença", no centro de Almada. Tertúlia essa que passou a um almoço quase sempre a dois - de longe a longe passa a quatro, quando o Mário e o Marinho aparecem. Mas nem por isso é menos rica em episódios marcantes. Para que isso aconteça, basta que eu dê "corda" ao Chico...

Desta vez o Teatro voltou a ser Rei... 

O Chico não me falou apenas das peças marcantes, do olhar diferente dos encenadores em relação ao palco, desde o "certinho" Malaquias de Lemos ao "desconcertante" Rogério de Carvalho. Falou-me sobretudo da alegria que sentia em representar e do ambiente de grande cumplicidade e camaradagem que sentia, aqui e ali. Embora a Incrível fosse a sua principal casa, adorou representar na Trafaria, onde se vivia e amava o teatro de uma forma especial...

Também voltou a "idolatrar" Fernando Gil, que foi uma das figuras mais marcantes da história da Incrível Almadense, onde foi um "faz tudo". Além de ter sido Presidente da Direcção durante vários mandatos também adorava o teatro e foi um bom actor amador. Reviveu vários episódios hilariantes, vividos em peças dramáticas, como "Duas Causas" ou "Amanhã há Récita" mas também em peças carnavalescas, onde Gil se transvestia, ano após ano, com uma graça única.

E para terminarmos o almoço da melhor maneira, o Chico recordou, mais uma vez, o sentido de comunidade e de pertença que existia  na relação de muitos almadenses com a Incrível. Deu o exemplo das muitas famílias que cresceram por ali (deu um destaque especial aos Tavares, pelo desaparecimento do José Luís...) sem esquecer os muitos casamentos que tiveram a bênção da "Rainha do Associativismo Almadense"...

(Fotografia de Luís Eme - Almada, com o Chico em grande plano na exposição "50 anos 50 retratos")


segunda-feira, setembro 18, 2023

«Tinha pernas para andar... e não andou...»


Mais um pedaço de toalha de papel guardado para a minha já rica colecção, após o almoço de hoje com o Chico.

É giro, "basta dar corda" ao Chico e ele conta-me o que quero e não quero saber...

Hoje falámos muito do espectáculo memorável, "Almada Antes e Depois de Abril", idealizado, e transformado num momento teatral de grande qualidade, e valor histórico, pelo nosso querido amigo Orlando Laranjeiro, que fingimos muitas vezes ainda estar ali junto de nós, na mesa.

A frase que retive das muitas do Chico diz bastante da vida. Depois de me falar de dezenas de pessoas (umas que conheço ou conheci e outras que não tive esse grato prazer) que participaram neste espectáculo que visitou os palcos das principais colectividades almadenses (e que também foi uma grande homenagem ao Associativismo Popular), disse: «Tinha pernas para andar... e não andou...»

E isso aconteceu apenas por essa coisa humana, que se chama inveja, e é capaz de minar muito do trabalho válido, que se faz um pouco por todo o lado...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


sexta-feira, agosto 11, 2023

Ainda existem alguns "milagres humanos", aqui e ali (cheios de teimosia...)


Hoje no meu "Casario" tento fazer alguma justiça a três associativistas, que foram do melhor que conheci nesta Almada, tão fecunda em verdadeiros "operários da cultura".

Foi quando me lembrei das parecenças que existem entre o Associativismo e o Circo, na batalha pela sua sobrevivência. Dos homens que são uns "faz-tudo", porque a necessidade assim os obriga, já que o dinheiro por mais bem gerido que seja, nunca chega...

Sim, por exemplo, o Fernando Gil ou o Francisco Gonçalves, além de serem os protagonistas de qualquer peça de teatro da Incrível Almadense, também montavam e carregavam os cenários, vendiam entradas na bilheteira, entre outras coisas que fossem emergentes para que o espectáculo acontecesse.

No circo passa-se a mesma coisa. Durante a montagem das tendas gigantes é fácil descobrirmos o trapezista ao lado do palhaço ou do equilibrista, a levantar do chão, aquela "casa de sonhos". Tal como durante o espectáculo poderemos ver alguém muito parecido com eles, vestido com uma bata (para disfarçar), a ajudar a tirar as coisas da arena circular, para que não se perca muito tempo entre números, ou ainda a levar as pessoas para os respectivos lugares das bancadas antes do começo do "maior espectáculo do mundo".

Infelizmente o futuro não se compadece com estes "amadorismos" e estas duas actividades vivem grandes dificuldades. Muitas vezes só subsistem quase por "milagre".

Milagres humanos, claro (cheios de teimosia...).

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


segunda-feira, maio 29, 2023

O almoço à segunda-feira continua povoado de gente...


Somos só dois, na mesa que já foi de uma dúzia.

Não é por teimosia que continuamos a almoçar todas as segundas, o nosso "bacalhau com grão". É por gosto. Gostamos de conversar e de viajar pela história de Almada e da nossa Incrível. 

É normal convocarmos alguns dos nossos amigos ausentes, normalmente os mais opiniosos, como era o Orlando e os dois Carlos. Lembramos a "memória de elefante" do nosso Jaiminho, que devia gostar de aparecer para matar saudades, ao mesmo tempo que tirava algumas dúvidas ao Chico (era ele que costumava "desempatar" quando o Orlando e o Chico andavam pelas ruas e portas erradas da nossa Rua Direita).

Normalmente é depois do café que a conversa se torna mais interessante e enchemos a toalha de papel de rabiscos (disse ao Chico que já devia ter mais de cinquenta pedaços de toalhas...), povoados de "personagens" e de "lugares" de Almada.

Desta vez andámos pelo teatro. Eu já sabia o porquê de muitos amadores não aceitarem algumas propostas de companhias profissionais, A nossa conversa acabou por reforçar o que pensava, com dois ou três exemplos dados pelo Chico. A sua geração preferiu levar o "teatro a brincar", porque tinham bons empregos e não queria apostar no risco. Se hoje esta profissão continua a ser precária, há sessenta e setenta anos, não era melhor. E havia ainda outro problema, era uma actividade "mal vista" socialmente... 

Era comum ouvir-se dizer, que as pessoas sérias e decentes não escolhiam a vida dos palcos...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, novembro 21, 2022

A Memória do Chico Fixada nas Toalhas de Papel...


Chegámos a ser uma dúzia à mesa, às segundas feiras, na nossa "Tertúlia do Bacalhau com Grão", agora somos apenas dois, invariavelmente (quando o Mário, o Marinho ou o Luís aparecem é uma festa...).

O curioso, é que nunca nos falta assunto à mesa. O Chico repete-se muitas vezes, quando fala da nossa Incrível e da sua rua José de Mascarenhas ou das imediações (a Capitão Leitão, a Heliodoro Salgado ou a travessa Henriques Nogueira...), mas há sempre algo de novo que fica.

Por causa da sua "memória de elefante" (e também das do Orlando e do Jaiminho...). tenho bem muito mais que duas de dezenas de pedaços de toalhas de papel, dobradas no interior do meu caderno de capa verde (que está cada vez mais gordo...). 

Embora não tenha voltado a abrir grande parte destes registos avulsos, não resisto em pegar na esferográfica e fixar nas folhas de papel simples - que conta quase sempre a companhia de uma ou outra nódoa, de azeite ou de vinho tinto -, os nomes e acontecimentos que me ficam na retina, durante as nossas conversas. 

Foi o que voltou a acontecer hoje, quando viajámos pelos teatros da vida do Chico (até passámos pelo desaparecido "Clube José Avelino"...). Desta vez não ficámos por Almada, atravessámos o rio, para visitar de fugida o Paiva, que tinha um armazém (talvez ateliê seja mais apropriado...) no interior do Parque Mayer, onde era possível alugar todo o género de vestidos e outras roupagens, sem esquecer ou ou outro acessório indispensável, para oferecer um outro brilho às revistas e peças de teatro Incríveis...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)