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terça-feira, abril 01, 2025

Parece no mínimo estranho, mas não é...


Somos um país onde as famílias cada vez são mais pequenas. Sim, há cada vez mais casais sem filhos ou com apenas um rebento. E muitos deles, preferem ter um cão a um filho... 

É por isso que parece "incompreensível", ouvirmos notícias sobre a falta de vagas nas creches da rede pública ou sobre fecho de várias urgências de obstetrícia aos fins de semana.

Parece...

Se não fossemos um país que tem tratado tão mal os jovens portugueses, que por não estarem para ter uma vida cheia de obstáculos, emigram para países que lhes oferecem melhores condições de vida.

E isso explica a falta de educadoras de infância e de médicos especialistas no SNS, tal como a de professores e de tantos outros profissionais...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, março 19, 2025

«Vê lá se não sais muito de casa hoje, é que o "diabo" escolheu o dia para abanar tudo à nossa volta»


«Vê lá se não sais muito de casa hoje, é que o "diabo" escolheu o dia para abanar tudo à nossa volta.»

Sorri ao telefone. E não foi com uma anedota, foi com uma coisa parecida dita pela Rita, já em fim de conversa.

Depois de desligar, lembrei-me de uma pessoa especial. A avó dizia nestes dias que "o diabo andava à solta" e por isso havia mil e um cuidado com os animais da "quinta pedagógica" (ainda não as tinham "inventado", mesmo que elas já existissem...), para que não fugissem. Sim eram eles que mais nos faziam sentir que se iria passar algo de estranho, por isso relinchavam, uivavam, piavam e sei lá que mais...

E eu fiquei a pensar que todos os Deuses, grandes e pequenos, têm mil razões para libertarem a sua fúria pelo animal, que consegue a proeza de ser o mais inteligente, e ao mesmo tempo, o mais burro, de todos os que andam por aqui, nesta bola quase redonda que chamamos Terra, mesmo que seja mais mar.

O que posso dizer é que há muito tempo que não assistia a uma coisa assim. Tive de deixar a varanda apenas com a mesa e a sua cobertura, que parecia um balão e prometeu vezes sem conta, voar, mesmo que estive bem presa...

(Fotografia de Luís Eme - Sobreda)


quarta-feira, março 05, 2025

O começo de qualquer coisa...


É giro, mesmo que nem sempre seja uma coisa engraçada. Acontece que agora tenho sempre um tema especial na cabeça, cuja conjugação de palavras, quer ser livro.

Logo agora, numa altura destas em que os livros estão a deixar de ser o que eram...

Os últimos livros que escrevi foi sobre centenários de pessoas especiais. É provável que aconteça o mesmo em 2025... 

Desta vez são crónicas, ou um olhar mais pessoal do que todos os outros, porque misturo mais coisas...

O rascunho de uma delas começa assim:

«A conversa no fim do dia, ao jantar, naquela bela marquise, com o Tejo já a querer ser Mar eram uma coisa…
A televisão tinha pouco interesse lá em casa. E ainda bem.
Falava-se mais, sobre tudo e sobre nada. E também se lia bastante.
Por isso é que falávamos sobre as notícias dos jornais, o mundo estava longe de nos ser indiferente…»

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, março 03, 2025

Uma visão e uma memória, dentro e fora de um bairro antigo...


Estava a passar por uma ruela estreita, com roupas estendidas em quase todas as varandas, quando comecei a ouvir uma voz feminina, que cantava um fado. Ainda olhei para cima para ver se a voz tinha dona, mas não descobri ninguém. 

Por alguns instantes, fiquei deliciado com aquele retrato de uma Lisboa antiga, e pus-me a imaginar uma cidade que já não existe...

Foi quando me cruzei com dois casais de gente de fora, que anda de calções num dia de Março com nuvens. Foi como se me dissessem, "acorda!"

E acordei, mas por pouco tempo.

De repente já não estava em Madragoa. Foi quando viajei pela minha meninice e ouvi a minha mãe a cantar, e o pai, com voz de desdém, a dizer que ela estava a adivinhar chuva. Não percebia quase nada da conversa mas gostava de ouvir a minha mãe a cantar, mesmo que ela fosse fiel à sabedoria popular, e acreditasse que "quem canta seus males espanta"...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, fevereiro 21, 2025

Deve acontecer com toda a gente (ou talvez não)...


Estávamos à mesa e como sempre o passado estava ali, junto a nós, mesmo que não existisse nenhuma cadeira vazia.

O meu irmão fala-me sempre dos amigos que perguntam por mim e que não vejo, na maior dos casos, há mais de quarenta anos. 

Apetecia-me estar com eles, acenar-lhes, sorrir-lhes e trocar algumas palavras...

Não sei o que é que a minha filhota pensa disso, não falámos muito na viagem de regresso na companhia da chuva. Ela passou o tempo todo a cantar por cima das canções da sua "lista" de preferências.

Já em casa, depois de ter ficado quase uma hora na fila de carros antes da Ponte (felizmente parara de chover...), decidi ir andar, ir a Cacilhas ver o Tejo e as barcas.

Foi quando voltei a recordar alguns amigos, além do Paulo e do Quim, de quem o meu irmão falou, lembrei-me do Chico, do Rui, do Duarte, do Borga, do Buiça, do Luís, do Lemos, do Nuno... 

Pensei em várias coisas, até no facto de só me aparecerem memórias masculinas da infância e começo da adolescência. Pois, eu cresci num tempo em que o mundo estava muito mais dividido, entre homens e mulheres... as miúdas nem sequer jogavam à bola connosco (a Cristina devia ser a excepção, mas ela era uma "maria-rapaz"...).

Foi quando achei que isto devia acontecer com toda a gente... Mas veio-me logo outra ideia, não, não devia acontecer a toda a gente, só "aos que partiam".

Sim, só quem parte para outra cidade, para estudar ou trabalhar, e nunca mais regressa para ficar (apenas para visitar...), vai perdendo o rasto às pessoas, que o ajudaram a crescer e a pensar que era feliz...

Apenas os lugares ficam, e mesmo esses, vão mudando, não conseguem resistir ao presente e ao futuro...

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)


terça-feira, fevereiro 11, 2025

Pessoas que se acham "gigantes", mesmo que vivam em mundos demasiado pequenos...


Estive ao telefone com a minha mãe. Como de costume, com apenas uma ou duas palavras, juntaram-se uma imensidão de frases, quase todas com sentido.

Mesmo sem ter nada a ver com o assunto, quando passámos o olhar por este mundo que nos cerca, com tantos bandidos com o poder de matar, por esses continentes fora, fiquei a pensar nos "anões" que nos rodeiam, que quando se olham ao espelho fingem olhar para "gigantes".

E depois também passámos os olhos pelas pessoas demasiado vulgares que se acham os maiores de qualquer "cantadeira", mesmo que não consigam sair da mediocridade.

Ela sempre foi o pendulo de equilíbrio da nossa casa. Muitas vezes penso que é a melhor pessoa que conheço, por ser capaz de relativizar o "mal", e continuar a achar, com a proximidade dos 90 anos, que só se pode combater o mal com o bem.

Não adianta eu dizer-lhe que é impossível combater um Trump, um Putin ou um Netanyahu, com bondade... 

Claro que ela tem razão, mesmo que isso conte pouco nos dias que correm, porque todos percebemos que não se combate a guerra com a guerra, todos ficamos a perder, sempre. 

Quem mais deve sentir isso, são os ucranianos, os palestinianos, e os russos e israelitas que têm o coração no sítio...

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)

 

quinta-feira, fevereiro 06, 2025

Uma boa conversa sobre a falta de "planícies" nas cidades...


Estava quase a entrar no quintal, quando vi um homem sentado no degrau do portão, a fumar um cigarro.

Normalmente encontrava uma ou outra mulher ali sentada, a descansar, a meio da subida, demasiado íngreme e longa, com o saco das compras ao lado. Desviava-me para entrar, dizendo-lhes para continuarem sentadas a descansar, quando se preparavam para seguir viagem.

O fumador fez-me lembrar um tio emprestado, que também esteve ali sentado a fumar um cigarro "às escondidas" (a mulher e o médico diziam que lhe fazia mal, só que como lhe sabia bem, nunca deixou o vício...), a quem fiz companhia. 

Estivemos por ali a conversar, há uns bons vinte anos. O tempo é aquela coisa que todos sabemos...

Ele era uma pessoa divertida e entre outras coisas, depois da passagem de algumas pessoas de idade, por nós, disse-me que todos aqueles que tivessem mais de sessenta anos deviam ser proibidos de passar por aquela rua, a pé, tanto a descer como a subir. E acrescentou, que com o passar dos anos, descer tornava-se mais penoso que subir, por causa dos joelhos. E quem tenha jogado à bola, como ele, ainda pior...

Mas o melhor estava ainda para vir, quando ele quis quase sustentar a tese sobre "proibição" de uma forma alegre: «Esta descida é tão vertiginosa, que ainda aparece aqui alguém com dores nos joelhos que cai na tentação de, em vez de descer a rua, normalmente, começa a rebolar até lá baixo.»

Soltámos ambos uma gargalhada, que fez com as mulheres da casa viessem à janela e ele tivesse de apagar o cigarro à pressa, sem escapar de ouvir boas da esposa, enquanto me piscava o olho, quase a querer dizer-me: "deixa-as falar, ninguém me tira o prazer de uma boa cigarrada"...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


terça-feira, janeiro 28, 2025

Há uma parte rural que não sai dentro de mim...


Estava a ler uma entrevista, que fez com que pensasse, logo naquele momento, nas minhas memórias. Embora fossem muito diferentes das do entrevistado, era sobretudo disso que tratava aquela conversa...

Fiquei a pensar, que, mesmo vivendo sempre na cidade, tinha muito presente dentro de mim, todo o espaço rural. A aldeia, as fazendas e toda aquela outra forma de vida, diferente, artesanal em quase tudo, continuavam vivas, sem que eu conseguisse encontrar uma explicação para isso, até por na época, não gostar nada daquilo (desde o trabalho duro à própria gastronomia, que o meu irmão adorava. Ainda hoje diz que gostava mais da comida da avó que da mãe, ao contrário de mim...). 

Claro que sei que tudo isso se deve à minha vivência, desde a infância, na casa dos avós maternos. Uma boa parte das férias grandes eram passadas lá... Mas também percebo que há coisas que fazem parte de nós (desde sempre, mesmo que não se dê por isso...), que tanto podem já ter nascido connosco, como terem sido adquiridas, sem nos apercebermos. Até porque existem vários estudos no campo da psicologia e da psiquiatria, que explicam que o que se viveu na infância, é essencial para o resto das nossas vidas...

O que sei, é que mesmo sendo, naturalmente, urbano, há uma parte rural muito importante dentro de mim. É ela que determina que goste tanto do contacto com a natureza, que pudesse viver com facilidade sem o conforto das cidades. E claro, tenha tantas memórias dos campos...

Parece contraditório, mas não é. Nós somos sempre mais que uma coisa.

Mesmo que saiba que não é verdade, fico por vezes com a sensação de que aprendi mais coisas, durante estes curtos períodos de férias, que na escola...

(Fotografia de Luís Eme - Monte de Caparica)


domingo, janeiro 12, 2025

A liberdade nunca foi fazermos e dizermos o que nos dá na "real gana" (um)


Acho que os grandes problemas da sociedade actual são a forma como se entende a liberdade, seja em casa, na escola ou na rua.

E devo dizer, desde já, que nesse aspecto as redes sociais não têm grande coisa a ver com o assunto.

Houve mudanças enormes nos últimos cinquenta anos no nosso país, mas nem todas foram bem definidas, reguladas e aceites pelo comum dos mortais. 

A necessidade de mudança foi tal, que levantou logo outras questões (ainda durante o PREC...), que foram agravadas pela falta de cultura democrática, normal, para quem tinha vivido quase meio século em ditadura. Além do poder repressivo, abusava-se do "respeitinho", imposto pela generalidade das autoridades e das instituições.

Infelizmente, tanto no seio da família, como na escola ou na vida em comunidade, nunca se conseguiu encontrar o caminho certo para a tal liberdade, que se alimenta tanto de direitos como de deveres. Foi bom abolirmos o "respeitinho", mas foi muito mau deixarmos de respeitar o outro, como alguém igual a nós, nos tais direitos e deveres, que quando cumpridos, são a grande marca das sociedades mais bem sucedidas, social e economicamente.

Facilitou-se demasiado o caminho e chegámos a um tempo em que tudo parece "estar em crise". Mas é uma crise que parece interminável e dura há praticamente duas décadas e se tem agudizado (aí sim, com o apoio das redes sociais, onde tudo parece ser permitido...)...

Mas eu continuo a pensar que tudo começa e acaba no uso que damos à boa da Liberdade.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)



sexta-feira, dezembro 20, 2024

Um Natal com cada vez mais dificuldades em esconder as "misérias humanas"...


Não sei se lhe chame uma coisa curiosa, até porque pode ser mais comum do que aquilo que eu possa imaginar.

À medida que os anos vão passando,  tenho cada vez menos paciência para o Natal.

Sei que em parte isso deve-se a este mundo que nos rodeia, ter cada vez menos ares natalícios (as luzes e as montras não contam...). Gaza, Beirute, Damasco ou Kiev, são os maiores exemplos...

Por outro lado, como tenho os filhos já adultos (ainda não há netos...), perdeu-se um pouco o encanto e a sua alegria contagiante (mesmo que passageira...) em receber presentes...

Tenho vários defeitos, mas a hipocrisia, o cinismo e a inveja, não estão no "pacote" (e ainda bem, são das coisas mais miseráveis e vulgares dos seres humanos...). E esta época traz todas essas coisas - em "tamanho xl" - para as casas, para as ruas, para as igrejas e sobretudo para as lojas.

E se há coisa que nós vamos perdendo com os anos, é a paciência para fazermos fretes.

Claro que isto não tem nada a ver, por exemplo, com a reunião natalícias das famílias. Numa época em que este núcleo especial tem sido tão desvalorizado, é bom que as pessoas que se encontrem, nem que seja, na tal "uma vez por ano"...

É com gosto que janto a 24 com a minha sogra, passo ceia com os meus cunhados e mais família (onde até costuma aparecer o "pai natal"...). Ou almoço a 25 com a minha mãe e o meu irmão...

Mas não consigo suportar este regresso ao passado, ao tempo dos "coitadinhos", com os ricos a voltarem a "escolher" o seu pobrezinho, para a sua ceia (voltou-se a isto, com mais visibilidade, porque os ricos estão mais ricos e os pobres mais pobres...) ou a ver o presidente da república a servir refeições aos sem abrigo (ele bem podia fazer com que o natal para esta gente não fosse apenas um dia. Até lhe dou a ideia de, quando sair do cargo, fomentar estes encontros, mensalmente...).

Nota: Este texto começou por ser publicado no "Casario", depois passou para as "Viagens" e agora fica aqui no "Largo"...

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)


domingo, dezembro 01, 2024

«Toda a gente quer receber e ninguém quer dar»


«Toda a gente quer receber e ninguém quer dar.»

Esta é uma das frase que não devem ser ditas, pelo menos nesta época do Natal.

Ligas a televisão, vês as notícias sobre toda a gente que doou toneladas alimentos ao Banco Alimentar, e pensas de imediato que quem diz uma frase destas, anda "a brincar com a malta".

Talvez seja necessário colocar os "pobrezinhos" de lado, e olhar para a sociedade com alguma frieza. E até para a nossa casa...

Perceber a indiferença crescente em relação ao outro. Pior que este esquecimento do outro, é o egoísmo, também crescente. Talvez ele até se note mais nas famílias, como me disse a Rita, com quem não me encontrava à meses.

Falou-me das dificuldades que tem em compreender a filha, de dezoito anos. Sabe que o problema é da miúda sempre ter tido tudo, não sonha sequer o que é viver com dificuldades. Se soubesse o que é querer comprar uma peça de roupa, um creme ou um perfume (só para falar dos "pequenos luxos"), e não ter dinheiro para isso... Talvez pensasse duas vezes em vez de dizer coisas parvas.

Por muito que se ande por aí a tentar fugir da realidade (os governos de propaganda, tanto do Costa como de Montenegro, ajudam mais do que parece...), não consigo deixar de dar razão à Rita...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, novembro 18, 2024

«O que é hoje a Arte? O que é hoje um artista plástico?»


Cada vez gosto menos de ser demasiado afirmativo (a idade oferece-nos a dúvida e a incerteza, que nos tornam mais humanos...).

Tantas vezes que me limito a sorrir, por não saber que palavras usar, para responder a isto e aquilo.

Dois amigos tinham visitado uma exposição estranhíssima e tinham muitas dúvidas  de que aquilo fosse arte. Não "embarcavam" nas novas formas de expressão artística, que pelo simples facto de nos surpreenderem, mesmo que fosse pela negativa, já transportavam arte dentro de si...

Quando o Rui nos questionou: «O que é hoje a Arte? O que é hoje um artista plástico?»

Ninguém respondeu. Aliás, houve alguém que soltou uma palavra, mas mais a gozar com tudo aquilo que de que falávamos, que a explicar o que quer que fosse. E sim, ele estava certo muitos artistas são isso mesmo, uns "pantomineiros".

Eu viajei no tempo, fui até às "instalações artísticas" e às pinturas dos portões do nosso casal, criadas pelo meu pai, que mesmo sem ter qualquer formação, tinha dentro de si a alma de artista. Talvez todas aquelas coisas estranhas, que ele montava com o que já não prestava, hoje fossem Arte...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, novembro 15, 2024

Conversas com memórias (das curiosas e boas)...


Por motivos profissionais, por vezes cruzamo-nos com figuras públicas, e por razões óbvias, tratamos-as como qualquer outra pessoa. Até somos capazes de fingir que não vemos telenovelas ou programas de "novidades artísticas", apenas porque sim...

Conversámos sobre isso ao jantar, porque a minha filha, que dá os primeiros passos na sua vida profissional, confrontou-se com uma situação destas e disse-nos que se sentiu confortável, por ser capaz de tratar a "vedeta" como qualquer outro paciente.

Acabei por viajar no tempo e ver alguns "filmes" a passarem por mim. 

Primeiro passaram estes artistas da televisão. Nunca esqueci a cena patética de um actor que passou por mim, três ou quatro vezes no corredor de um supermercado, e em vez de ser eu a olhar para ele, era ele que não parava de olhar para mim. Não se tratou de uma cena de "assédio sexual" (duas palavras que andam na moda...), mas sim de busca de reconhecimento. Não só fingi que não o conhecia, como deixei o meu olhar ficar preso nas prateleiras deste espaço comercial.

E depois apareceu-me um outro "filme" e passaram por mim as pessoas que só são conhecidas por uma minoria, os leitores. Claro que falo de escritores. Normalmente preferem observar em vez de ser observados, pelo que têm uma postura antagónica em relação à gente da televisão, que já sai de casa com a preocupação de ser vista. 

Penso que a primeira pessoa do "mundo dos livros" que cruzou o seu olhar comigo, foi o grande José Gomes Ferreira, no Chiado, no começo da década de 80 (tinha acabado de chegar à "cidade grande"...). A sua farta cabeleira branca que o vento levantava, não enganava. Durante uns segundos olhámos um para um outro com espanto e também com vontade sorrir, como se fossemos apanhados em qualquer situação imprevista. Depois perdemo-nos na multidão, sem sequer trocarmos um bom dia ou boa tarde. Fiquei sempre com pena de não lhe dizer: "Olá "Poeta Gigante".

Acabei por recordar outros encontros. O mais curioso aconteceu com a Maria Gabriela Llansol, que estava à porta de uma livraria (também no Chiado...) e me ofereceu um sorriso, daqueles bonitos, também sem palavras. Sem fugir da zona, na escadaria do metro, na estação Baixa-Chiado, cruzei-me, recentemente, com o Mário de Carvalho, ele descia e eu subia. Também ficámos uns segundos a olhar um para o outro, mais uma vez sem dizermos uma palavra, com a tal vontade de sorrir, fruto da cumplicidade que existe entre leitor e autor.

Também podia falar do encontro na Praça Gil Vicente com Luísa Costa Gomes, onde experimentámos o mesmo espanto. Mas tenho uma história ainda mais curiosa e diferente, de todas estas, que teve como protagonista a minha poeta preferida, a Sophia. Nos anos 90 cruzámo-nos na Graça (nessa altura não sabia que ela vivia por ali...), ela vinha com um saco de compras e falava sozinha. Por ter óculos escuros, só a reconheci depois de nos cruzarmos. Desta vez não houve troca de olhares. Ela estava tão entretida a "falar com os seus botões", dentro do seu mundo, que o resto devia ser apenas paisagem. Mas pela elegância e altivez, só podia ser ela, a minha Poeta...

Só por estas "viagens dentro da minha memória", valeu a pena a conversa durante o jantar...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, novembro 03, 2024

Quando não falamos, pensamos...


De vez enquanto olhava para ela, parecia satisfeita, apesar de perceber que não sentia muito confortável na cadeira. 

As dores de costas eram cada vez era maiores, a pior posição para estar era sentada. Deitada, a vida tornava-se menos dolorosa, mas mais lenta. De pé, e a andar, não era mau de todo. Sentia-se mais viva, mesmo que as pernas fraquejassem, pois cada vez queriam menos andar...

Não se metia nas conversas, como noutros tempos, limitava-se a escutar  e a olhar para os netos, tão crescidos, um deles já com a namorada ali presente. Todos eles andaram ao seu colo, todos eles foram apaparicados por ela, como devem ser pelas avós. 

E ali estava ela, a pensar. 

Sim, pensar. Pensar na vida, andar para trás e para a frente no tempo, trazer para o lado de cá aqueles que teimavam em ficar no lado de lá....

Quando não falamos, pensamos...

(Fotografia de Luís Eme - Sobreda)


sábado, novembro 02, 2024

Autoridade é tão diferente de autoritarismo...


Há gente que vive duas ou três vidas sem conseguir distinguir a autoridade de autoritarismo, normalmente por duas razões: preguiça ou interesse.

E nem estou a pensar naquele senhor com pele cor de laranja, que quer ser o "deus todo poderoso" das américas. Muito menos nas polícias. Estes são daqueles, que não têm grande interesse em fazer esta distinção, quanto mais confusão melhor...

Se nós em casa, e depois os professores na escola, fizessemos sentir a diferença prática que existe entre estas palavras, talvez todos gostássemos mais das democracias e menos nos autoritarismos...

De uma forma simplista, entendo a autoridade, como algo que é aceite e necessário, para que se possa viver com regras. Já o autoritarismo, olho para ele como algo que nos é imposto, e por isso mesmo "obrigatório" e muitas vezes também "injusto".

Mas nem precisamos de sair da família, onde se confunde e mistura, tanto estes dois termos, pais que querem ser os "melhores amigos dos filhos" e "polícias", quase em simultâneo. Claro que nunca dá bom resultado. Ser pai não é ser uma coisa nem outra...

Não é por acaso que se utiliza a autoridade moral e  ética, como exemplos da prática humana. Já em relação aos autoritarismos, eles o que querem menos saber, de morais ou éticas...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, outubro 29, 2024

O passado, além de nos começar a perseguir, a partir de uma certa altura das nossas vidas, também pode ser motivo de orgulho...


Estava com as mãos na terra castanha, a apanhar as ervas que cercavam os pés das videiras, antes de as podar, e a pensar no prazer que tenho em mexer e remexer nesta areia diferente, que me pinta as mãos de castanho, por deixar as luvas arrumadas na prateleira da garagem, voluntariamente...

Sou o único que faz isso. Todos os restantes elementos da família, antes de fazerem qualquer coisa, no terreno com cada vez menos uso, enfiam as luvas nas mãos, como se este mundo lhes fosse estranho. E é...

Nenhum deles teve um Avô, agricultor a tempo inteiro, numa aldeia que era o espaço privilegiado das férias grandes, minhas e do meu irmão, que tinham muito mais campo que mar, na infância... 

Penso sempre nele, quando olho para as minhas mãos castanhas enquanto mexo na terra estranha, que produz muito mais ervas daninhas que plantas para consumo interno. Se tivesse escutado os seus conselhos em vez de andar a brincar com o meu irmão, muitas vezes em "terrenos proibidos", onde deixávamos sempre a marca do nosso calçado, quase como "impressão digital", talvez o hoje fosse diferente... Mas aqueles eram tempos de brincar, e eu estava longe de sonhar ser agricultor, até por saber e ver a roda viva do avó, que saltava quase diariamente de fazenda em fazenda, porque era ali que estava o seu sustento...

E gosto de pensar no Avô, não só por ser um tempo feliz, este da infância, mas por sentir um grande orgulho neste homem, excessivamente sério, incapaz de apanhar uma peça de fruta, mesmo da que cai no chão, de uma fazenda que não fosse sua...

(Fotografia de Luís Eme - Óbidos)


segunda-feira, outubro 21, 2024

«Sabes, o mundo hoje fugiu da minha janela»


Há semanas que começam sem que tenhamos algo para dizer ou escrever, outras é ao contrário.

E esta segunda começou logo com um encontro delicioso na descida (e subida, para a dona Maria é sempre a subir...) da minha casa, que nos leva para a Gil Vicente, para quebrar o nevoeiro matinal.

A Catarina vinha de mão dada com a mãe, que a ia deixar na pré-primária do meu bairro e antes que eu dissesse alguma coisa deu-me a novidade da manhã: «Sabes, o mundo hoje fugiu da minha janela.»

Sorrimos todos. Depois disse-lhe para não se preocupar, que antes do almoço ele devia voltar, com o Sol.

Ela concordou e desejámos um dia bom para todos.

Esta menina bastante expressiva fez com que recuasse no tempo e voltasse a sentir a mão pequenina da minha filha quase apegada à minha, quando me dizia coisas giras e curiosas, nestas belas idades da nossa vida...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


domingo, outubro 20, 2024

Somos, mas já não somos...


Hoje foi um dia. quase passado integralmente no Oeste, para estarmos com o nosso tio da América.

Com um almoço da família à antiga, com múltiplas viagens pelo passado, com o regresso dos avós, do pai, e claro, de muitos lugares onde fomos felizes, em quase mil aventuras, tanto em Salir de Matos, como no Bairro da nossa meninice, ou em espaços especiais, como o Parque ou o nosso Mar...

Parque que nos levou a uma revisitação do Museu do nosso Malhoa, um lugar especial na nossa infância (pensava que era só eu que o recordava com um olhar ternurento, mas o meu irmão ao almoço, quando falámos que íamos passar por lá, também nos disse que era um sítio especial, desde sempre...).

E claro, aquele espaço não nos desilude, mesmo que a sua arte tenha pouco de moderna. Talvez até seja por causa dele que sou tão "conservador" nos meus gostos artísticos...

Depois fomos ver o Mar, aquele que tem uma cara séria e uma voz de trovão. Esse mesmo, o da Foz do Arelho. Antes ainda passámos pela Lagoa de Óbidos, que nos sorriu agradada com a visita.

E depois fomos pela estrada Atlântica, até Salir do Porto e depois São Martinho do Porto.

Contei que Salir era a praia da nossa infância. Íamos no "Comboio-Correio", quase sempre lotado de veraneantes, nesses longínquos anos sessenta. Claro que mal crescemos um palmo, tanto eu como o meu irmão e os amigos do bairro, elegemos a Foz do Arelho, como a "praia da nossa vida"...

Já em São Martinho do Porto fui contando à nossa "estreante" no Oeste, que esta praia além de ser a "banheira das duquesas", era o espaço de eleição dos "betinhos", tanto do Oeste como da Capital. Além deste pormenor, eles perceberam que aquele Mar era mais "sujo". Acrescentei que também era mais sonso, não tinha nada a ver com a Foz do Arelho...

E depois foi o regresso a casa.

Quando comecei a escrever estas notas de viagem, pensava que "somos, mas já não somos", destes lugares, mesmo que eles fiquem para sempre, dentro de nós...

(Fotografia de Luís Eme - Caldas da Rainha)


terça-feira, outubro 15, 2024

O melhor do mundo continuam a ser as pessoas (as boas, claro)


Apesar de sentir que existem aqui e ali, algumas mudanças, gente que gosta de meter o humanismo no bolso, continuo a acreditar que o melhor do mundo, continuam a ser as pessoas...

Pode haver aqui alguma poesia, e claro, um olhar sobre a melhor da nossa natureza. Continuo a ser do clube dos optimistas, mesmo que os ventos soprem cada vez mais forte, no sentido contrário.

Tudo isto porque a minha filhota está na fase estágios, que a preparam para a profissão. A mãe insistia que havia um lugar mais moderno, com melhores condições. Ela, muito bem, disse que era ela que escolhia onde queria estar. Nestas escolhas, o que ela dava mais importância era às pessoas que ia encontrar e não à modernidade dos espaços.

Normalmente não me meto nestas discussões, até por saber que ela vai crescer com o "bom" e o "mau", que apanhar à frente.

Não lhe disse, mas eu também continuo a dar preferência às pessoas, em detrimento dos lugares...

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


domingo, outubro 13, 2024

Um domingo à tarde na Capital...


Raramente saímos de casa, num domingo à tarde, depois do almoço, para passearmos pela Baixa da Capital.

Hoje foi um desses dias...

Mal entrámos no cacilheiro, ficámos logo com a sensação que éramos nós que estávamos num país estrangeiro. Nada que não soubéssemos muito menos nos incomodasse, nesta nossa "viagem (também) turística". 

Quase que só nós e os "barqueiros" é que falávamos a língua lusitana...

Em Lisboa as coisas ainda se tornaram mais "internacionalistas", com um amontoar de gente em quase todos os lados. 

Nem é de todo desagradável, se formos também "turistas", a ver as vistas num domingo à tarde.

Mas é impossível não termos um olhar crítico. Até por vermos filas em todo o lado, seja para o "pastel de nata" ou para o "sorvete"...

A minha companheira acha que já perdemos a Cidade grande. E pensa que só uma "grande crise" ou um "gigante fartar colectivo" de quem nos visita é que pode esvaziar as ruas e esplanadas. Até porque este país está longe de ser o paraíso que vende lá para fora.

Sabemos que é uma possibilidade. Até porque quem viaja gostar de variar, gosta de conhecer sítios diferentes.

Só os governantes das "taxas" e das "taxinhas" é que  esfregam as mãos, à medida que os cofres se vão enchendo, evitando cruzarem-se com o futuro por aí, em qualquer esquina...

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)