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quinta-feira, março 05, 2026

Um escritor, a televisão, os romances e as crónicas...


É curiosa a relação que tenho com a televisão.

Umas vezes passo a manhã toda a trabalhar em silêncio, outras, como a de hoje, a primeira coisa que faço, mal chego à sala, ainda antes de tomar o pequeno almoço, é ligar a televisão.

Estava sintonizada na RTP1 e a primeira notícia que li foi a nota de rodapé que nos informava do desaparecimento de António Lobo Antunes.

Fiquei na dúvida se devia escrever sobre ele no blogue, por não o olhar como o grande escritor que ele achava que era. E sei do que falo, porque li mais de meia dúzia de livros da sua autoria...

Lembrei-me da entrevista que lhe fiz, talvez em 1991. Encontrámo-nos numa das salas do já desaparecido Hospital Miguel Bombarda, onde ainda trabalhava. Esteve longe de ser um encontro memorável, achei-o sempre demasiado distante...

Gostei dos seus primeiros livros, mas a partir de certa altura começou a escrever para ele próprio, sem pensar muito nos leitores. Foi mais ou menos nessa altura que desisti de o ler  (as crónicas não contam, essas sempre foram lidas com interesse, mesmo que ele as desvalorizasse...). Ainda deve ter sido no final do século vinte, com o seu "Manual dos Inquisitores" (o último livro que li até ao fim)...

Sei que ele se tinha em grande conta, achava que devia ter sido "nobelizado" e não Saramago, com que manteve sempre alguma rivalidade e nem sempre foi agradável com o José. 

Penso que será um escritor sem futuro, por ser  um autor muito difícil (obriga-nos a andar para a frente e para trás porque está a falar de uma coisa e depois começa a falar de outra e nós sentimo-nos quase perdidos...). Mas perdurará na história da literatura como um dos nossos melhores ficcionistas, porque parece - coisa rara entre nós - que era lido no mundo inteiro...

(Fotografia de autor desconhecido)


quarta-feira, agosto 13, 2025

Todos sabíamos que havia mais que uma definição de silêncio...


Às vezes acontece, a crítica a um livro "dá corda" a conversas que não precisam nem querem um termo. O livro, História do Silêncio, de Alain Corbel, prestou-se a isso, mesmo sem o termos lido, com apenas a leitura das palavras da Cláudia Carvalho Silva (Público).

Houve logo uma frase que deu tecido mais que suficiente para as mangas, que não fazem falta nenhuma neste Verão excessivo: "A língua da alma é o silêncio". Ninguém a conseguiu contrariar.

Entre outras variações, houve uma que não trouxe consensos, eu sorri, por gostar de me reencontrar de uma maneira e de outra. Mas claro que a possibilidade de escutar o mar, as árvores quando abraçam o vento, o piar de uma ave ou até os passos de alguém na rua (à noite há sempre mais coisas para escutar...). A frase foi "o silêncio é uma forma do individuo se ouvir, de se reencontrar". Pois é, nós urbanos além de vermos sempre poucas estrelas no céu, também não conhecemos muitos sons que invadem os campos e suplantam as vozes humanas...

E é por isso que ganhamos a capacidade de nos "reencontramos" no meio da multidão.

Vinha para casa a pensar que há demasiadas pessoas dentro das cidades a precisarem de passar um mês, numa das muitas aldeias, quase desertas do país (não é dessas de "brincar ao turismo"...), porque o silêncio não é quando o mundo fica sem som, é quando o que está à nossa volta ganha vida...

(Fotografia de Luís Eme - Algarve)


sábado, julho 05, 2025

As "duas vidas" do cinema português, uma para o povo e outra para intelectuais...


Desde que me interesso por cinema, que assisto a discussões intermináveis sobre as fitas portuguesas e os nossos realizadores.

O Mestre Manoel de Oliveira foi sempre uma das figuras mais contestadas, até pelos seus pares, porque a inveja sempre foi, e será, aquela coisa pequenina e quase "terrorista". Embora lhe reconheça alguma lentidão e fixação exagerada nos planos (o que para os seus admiradores mais pacientes é poesia...), ele sempre teve uma ideia  do que é cinema. Ou seja, o seu passado e presente, mereceram todo o apoio que teve, e não apenas para que Oliveira ficasse no "guiness" como o realizador com mais idade e experiência da Sétima Arte. Quem tem um mínimo de conhecimento do que é Arte, sabe que o Mestre Manoel foi um dos nossos melhores artistas.

O que normalmente se discute é o "cinema de autor" e o "filme comercial", como se estes fossem inimigos e não pudessem conviver uns com os outros. E como em tudo na vida, as posições de quem faz estes filmes, em vez de se irem aproximando, vão ficando cada vez mais distantes. O ideal era que não se fizesse cinema apenas para o nosso imaginário (umbigo talvez ficasse melhor...), nem se explorasse tanto o que existe de mais popularucho (a graçola manhosa a querer imitar os senhores Santana e Silva, mas muito longe da sua qualidade...). Ou seja, que se pensasse a sério nos espectadores. Mas o mundo é o que é...

Estou a escrever sobre cinema, porque há dois filmes portugueses em exibição que têm sido olhados de forma diferente pelos críticos. Falo de Portugueses de Vicente do Ó e de A Vida Luminosa de João Rosas. Se o primeiro tem sido "deitado abaixo", o segundo tem sido apreciado pela maioria das pessoas que escrevem nos jornais sobre cinema.

Embora compreenda a "defesa" do filme feita por Vicente (também nos jornais), não acho que ele ganhe alguma coisa em se preocupar mais com terceiros que em explicar as coisas menos compreensíveis do seu filme. 

E pelo que tenho lido, se há fita que seja capaz de me levar de regresso às salas, será A Vida Luminosa do João, porque se aproxima mais do que gosto de ver e sentir no cinema.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, julho 02, 2025

«A verdadeira crítica não tem de ser feliz ou infeliz, tem de ser honesta.»


O mais curioso na conversa, foi aquele que continua a ser um dos nossos "escribas de eleição", o MEC (Miguel Esteves Cardoso), que mantém uma coluna diária no "Público", ser alvo de algum escárnio e mal dizer, por duas ou três pessoas.

Todos sabíamos que «a verdadeira crítica não tem de ser feliz ou infeliz, tem de ser honesta», como a Carla afirmou. Mas quando se escreve nos jornais há quase 50 anos (é o caso do MEC, que passou pelo "O Jornal", "Sete", "Expresso", "O Independente" e agora o "Público"), é difícil escrever de uma "forma azeda", ainda por cima quando se gosta das palavras, das pessoas e das coisas.

Acabei por ficar a pensar no assunto, entre as viagens de metro e cacilheiro, para a minha margem. Até me recordei das palavras do Miguel, numa entrevista, já com alguns anos, em que ele admitia que a melhor maneira de criticar alguém, era não o conhecer, nunca ter falado com ele. Porque depois descobre-se que as pessoas até são simpáticas e torna-se tudo mais difícil...

Fiquei em silêncio durante a conversa. Poderia ter dito que o Miguel conquistou o direito a escrever sobre coisas que lhe agradam, mas que deixara de ser "crítico" (pelo menos como se entende a função).

E há ainda outra coisa. Mesmo sem nunca ter falado com o Miguel, nem tão pouco o conhecer, apenas de vista, não tenho grandes dúvidas de que ele é boa pessoa. É o que mais se destaca das suas palavras diárias.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)