"É preciso muita arte para se blindar de tantas coisas ruins acontecendo pelo mundo.
Os últimos relatos são estarrecedores, mas a gente vai teimar em esperar um mundo melhor". Toninho
A partir do comentário, que transcrevi acima, deixado na minha última postagem, foi que me inspirei a encontrar arte para trazer, um pouco que seja, de leveza aos dias pesarosos.
Fotografia é uma arte que transmite tanto e escolhi uma fotografia que a mim, evoca a paz. Aliás o nome da planta é lírio da paz.
Achei-o tão lindo, delicado, a arte em palavras que tem o poder de nos nutrir!
Abençoando
Nas tardes de sexta-feira, depois da escola, quando eu chegava à casa de meu avô, o chá já estava servido sobre a mesa da cozinha. Meu avô não bebia o chá da mesma maneira que os pais de meus amigos. Ele colocava um cubo de açúcar entre os dentes e tomava o líquido quente direto do copo. Eu fazia o mesmo. Preferia assim à maneira como me ensinaram em casa.
Depois do chá, vovô colocava duas velas sobre a mesa e as acendia. Então, conversava um pouco com Deus, em hebraico. Algumas vezes falava alto, mas em geral fechava os olhos e ficava em silêncio. Eu sabia que ele estava falando com Deus pelo coração. Ficava sentada e esperava pacientemente, pois a melhor parte da semana estava para começar.
Quando terminava de falar com Deus, ele olhava para mim e dizia:
- Venha cá, Neshumele.
Eu ficava de frente para ele, e vovô apoiava as mãos suavemente sobre minha cabeça. Começava agradecendo a Deus pela minha existência e por fazer dele o meu avô. Mencionava especificamente os meus progressos naquela semana e contava a Deus alguma informação a meu respeito. A cada semana eu esperava para ver qual seria. Se eu tivesse cometido erros, ele falava da minha honestidade em dizer a verdade. Se houvesse algum fracasso, ele valorizava o quanto eu tinha me esforçado para acertar. Se até tivesse tirado uma soneca com a luz do quarto apagada, ele festejava a minha coragem por dormir no escuro. Então, vovô me abençoava e pedia às mulheres do passado, que eu conhecia de tantas histórias - Sara, Raquel, Lia e Rebeca -, que tomassem conta de mim.
Aqueles eram os únicos instantes da semana em que eu me sentia totalmente segura e em paz. Os membros da minha família, quase todos médicos e profissionais da saúde, lutavam para aprender e progredir cada vez mais. Nada era suficiente, havia sempre um novo nível de exigência. Se eu tirava 98 numa prova, o comentário de meu pai era:
- O que aconteceu com os dois pontos que estão faltando?
Corri atrás daqueles dois pontos, sem descanso, durante toda a infância. Mas meu avô não se preocupava com isso. Para ele, eu já era o suficiente. E de alguma maneira, quando eu estava com ele, tinha a mais absoluta certeza de que isso era verdade.
Meu avô morreu quando eu tinha 7 anos. Foi muito difícil para mim, pois nunca vivera num mundo sem ele. Ele me chamava por um nome especial, "Neshumele", que quer dizer "querida alma pequenina". Mais ninguém me chamava assim.
No começo, fiquei com medo de que, sem ele para olhar por mim e contar a Deus quem eu era, eu desaparecesse. Mas, com o passar do tempo, comecei a entender que, de alguma forma misteriosa, eu tinha aprendido a me ver através dos olhos do meu avô. E que, uma vez abençoados, estamos abençoados para sempre.
Muitos anos mais tarde, quando, já bem velha, minha mãe começou a acender velas e a conversar com Deus, contei sobre aquelas bênçãos e quanto elas significaram para mim. Ela sorriu e disse:
- Eu abençoei você durante toda a minha vida, Rachel. Só não tive a sabedoria de fazer isso em voz alta.
Rachel Naomi Remen