«Escrever não é agradável. É um trabalho duro e sofre-se muito. Por momentos, sentimo-nos incapazes: a sensação de fracasso é enorme e isso significa que não há sentimento de satisfação ou de triunfo. Porém, o problema é pior se não escrever: sinto-me perdido. Se não escrever, sinto que a minha vida carece de sentido.»
de Paul Auster
"Saber que será má uma obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. […] O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou não me basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida."
de Bernardo Soares

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terça-feira, 5 de março de 2013

Polaroid 55


Estrada nacional 105

alguém lhe tirou as medidas
altura, largura
ombros, pés
provável rosto desfeito, cicatrizes incontáveis

e naquele entroncamento
plantam-se flores de plástico
acendem-se velas todas as semanas
a recordação incessante do que se perdeu

amanhã ou depois
mando gravar o teu nome no passeio
mando apagar a borracha que marca o asfalto
amanhã ou depois: passo sem te ver

mas as flores continuam lá
as velas são substituídas
o tempo teima em não passar
pelo menos para ti

terça-feira, 26 de junho de 2012

Polaroid 54

fêmea 


talvez traga a noite encarcerada no peito,
os pesadelos emaranhados no cabelo
e o vento tenha deixado cicatrizes na pele


mas hoje prometo-te que não beberei
desse meu veneno moroso,
visto o vestido de seda que me ofertaste
disfarço as olheiras, alinho os cabelos
embebedo o corpo de perfume
encho o copo e espero te


talvez esteja condenada
a dias sombrios, gelados e densos,
as trevas como companhia única


quando chegares serei carne, a tua carne
seremos carne arrefecida pela espera
feridas secas que ardem debaixo do teu corpo em chamas


[trespassa-me com a língua, viola as pétalas que existem em mim
canso-me com facilidade de ser um trapo de cor]


 

terça-feira, 19 de junho de 2012

Polaroid 53



devoluto

a última chávena repousa no lava-louça
no fundo um circulo desenhado pelo café
pelo balcão sobejam pedaços do que fomos

nem as formigas se alimentam das migalhas secas
nem os armários abrigam as traças

um último olhar ao longo das paredes esquecidas
o último sentir do frio do balcão de mármore
a réstia da lembrança das manhas perfumadas de verão

quem vier que pinte as paredes, forre as gavetas, encha os armários
quem vier que conte as histórias que lhe ocorram
quem vier que trate do nosso enterro

[estivemos sempre afastados, vivemos sempre sozinhos]

domingo, 27 de maio de 2012

Polaroid 52

Cárcere


[não precisas de procurar a chave]
sou
a carne que pesas nos teus braços
a pele que despes antes de dormir
o suor que escorre pelo teu peito


[não precisas de guardar segredo]
sou a voz que geme ao teu ouvido
a língua que faz arder as tuas cicatrizes
a boca que te sorve sem pensar


[não precisas de fingir]
sou o animal que sonhas,
de pernas abertas à tua espera, domar
a poça no chão do teu quarto

 

domingo, 20 de maio de 2012

Polaroid 51


Rented room

passava os dedos pelo teu corpo
unia os sinais que te cobriam a pele,
que fazes? ria-me sempre das tuas perguntas:
descubro uma nova estrada, furto um avião

encaixava o calcanhar na tua clavícula
a outra perna pendia da cama, à sorte
sentia os teus dedos cravarem-se nas costelas:
mostra-me o mar de onde irás partir

os sinais no teu corpo aumentavam
as tuas cicatrizes eram gigantes ofuscando o olhar
infinita tempestade que em mim encontrava sossego
e a perna a balançar na sua sorte
Fotografia de Man Ray, 1928

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Polaroid 50: estômago

jogávamos nossos corpos ao acaso
navegando em bocas escancaradas,
saboreados por línguas cruzadas sob saliva doce
acariciávamos a pele
arrepiada, fingindo a sua ruína
rebentando os líquidos proibidos que sorvemos sem pudor


todos os frutos perdiam o seu sabor
todos os segundos esqueciam o tempo


fomos oceano sobre chãos imundos
fomos correntes desfeitas em lençóis alugados
fomos acaso roubado na dobra da cidade


somos mancha esquecida sobre paredes surdas
resistentes ao espaço que entre nós se vai esvaziando

 

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Polaroid 46

quatro mulheres vestidas de negro

quatro mulheres vestidas de negro
quatro mulheres vestidas de negro, caminham nos trilhos sinuosos da montanha, agasalham-se com seus negros xailes, espreitam entre a bruma da manhã, bebem o frio da noite e chamam os seus antepassados

quatro mulheres vestidas de negro
quatro mulheres vestidas de negro, de rostos marcados pelos dias, rugas ásperas, testemunho das horas longas, das horas frias, das longas horas frias e solitárias, arrastam-se pelo tempo que lhes resta

quatro mulheres vestidas de negro
quatro mulheres vestidas de negro, de rostos apagados, de nome que já não se ouve
carregam troncos de eucalipto, carregam galhos de árvores

quarto mulheres de negro
caminham, sem força, sem destino, sem amanhã
quatro mulheres de negro
sobrevivem em círculos fechados

Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.com/

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Polaroid 45

Fotografias

observam-me do outro lado do quarto, na outra parede
sempre oposta, sempre presente, a outra parede
rostos parados no tempo, numa qualquer folha que poderia ter sido outra ou outra
marcam o tempo que vai correndo, escorrendo lento pelos dias que sobejam
testemunham o vento que não pára e todo o ar encarcerado em fitas de pó
podiam ter sido um rio, podiam ter sido um oceano
e são apenas pedaços
pedaços de um passado escrito
pedaços de um instante esquecido

estranhas, miram na esguelha do olho
assombram na penumbra da noite quando o silêncio sussurra o fim anunciado
e são apenas fotografias, à deriva

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Polaroid 44

a mesa

descansa, agora que a noite cerra as suas pálpebras
sobre os nossos ossos exaustos, descansa
deixa o relógio contar os segundos, os minutos, as horas
e permanece aqui, agora, em silêncio, imóvel
mesmo que chegue o vento e arranque as raízes dos nossos dedos
descansa, enquanto cobrimos a luz com a sombra dos passos

terça-feira, 19 de julho de 2011

Polaroid 43

nocturno

receio que a manhã acorde e a escuridão seja o manto que cobre a terra
uma luz negra desenhando o contorno das arvores, das fragas, dos desfiladeiros
e no ar pó, pó e mais pó

toda a vida apagada por um denso nevoeiro,
espesso, como o sangue coagulado nos moribundos

todo o calor bebido pelas entranhas da terra
sofregamente até se tornar uma memória, distante e esquecida

temo que a manhã invada os olhos errantes
com a sua escuridão, fria e negra escuridão
um dedo pousado sobre os lábios. silêncio

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Polaroid 42

as tardes à beira-mar

a tarde pousou a sua cortina nos nossos olhos. abafado
nos nossos olhos fechados, sob o sol impiedoso
descubro o teu peito, move-se lentamente para deixar o ar ser
apenas uma réstia de vento que náufraga na tua pele

fechamos os olhos perante a tarde que se estende. abafado
pela areia suja, pelos gigantes dos rochedos que escondem o mar salobro
os primeiros passos de uma criança, os seus pés delicados no cimento rude:
pára, imóvel, silenciosa e aponta

a tarde cai aos nossos pés e um dedo de criança aponta o céu azul
o primeiro odor do sargaço a secar provoca-me náuseas
e um dedo de criança aponta o céu azul
digo. não, penso: descobriu a linha que nos separa


Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.com/

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Polaroid 41

degrau

as escadas são os pés que as pisam: todas as horas, todos os dias, todas as noites
e as folhas caem dos calendários suspensos nas paredes
os pés pisam os degraus, um a um, dois a dois, um saltinho e chega o fim, o fim no início
e o pó vai-se acumulando nos cantos de onde o gigante sorri

em silêncio, cruzamos as pedras de granito
enquanto os ombros se tocam e os olhos se fecham
enquanto os pés, cansados na sua passada, arrastam os corpos mirrados

as escadas são os pés que as pisam: todas as horas, todos os dias, todas as noites
e o lixo acumula-se, mas:
não são papeis
não são beatas de cigarros
não são pratas
não são pedras, areia e cinza

e o lixo vai-se acumulando


Fotografia de Pedro Polónio, http://club-silencio.blogspot.com/

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Polaroid 40

naufrágio

um dia, mando as estrelas procurar o teu corpo
e sigo o rasto de pó pintado ao leme do navio de pedra
nesse dia, ouvirei a tua voz gritar do fundo do oceano como um farol guia
e a escuridão será o lastro da minha viagem
nesse dia então, descobrirei que as vagas guardam as tuas mãos
e o frio é memória fresca dos teus lábios

Fotografia de Gerard Castello Lopes

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Polaroid 38

Objectos inanimados

amanhã abraço as ondas salgadas e navego nos braços da corrente
do asfalto quente, pintado de traços, de linhas, de abismos, de montes de lixo guardo:

as folhas derrotadas que voam sobre o pó
a areia que enterra as ruínas das cidades
a água serpenteando entre fragas esquecidas
os restos de plástico acenando quando é o vento que corto

amanhã, à deriva num qualquer oceano,
procuro o farol de Alexandria e durmo de olhos abertos

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Polaroid 37

O homem que não ri

o homem que não ri abafa os risos dos pássaros debaixo do seu casaco negro, arrasta os pés no alcatrão fresco enquanto a noite se aproxima ao fundo, pela cortina do horizonte.
o homem que não ri abre os olhos na escuridão, bebe de copos vazios o medo dos procurados, sacode a chuva dos ombros nos dias afogados
o homem que não ri dorme de pé, de olhos abertos, guarda o silêncio, a noite no seu peito
o homem que não ri, um dia riu.
o homem que não ri, nunca ri, assalta as noites frias com os seus braços esguios,
e mudo ri, na bruma onde se esconde

domingo, 15 de maio de 2011

Polaroid 36

Porto

trago-te sempre comigo
mesmo que seja imenso o alcatrão que nos separa,
aquele onde a água deixa marcas brancas
ou o sol seca os sonhos em farrapos velhos

conheço cada uma das tuas calçadas
as pedras, conto-as todos os dias em sonhos
as pedras, onde sei do sangue dos que foram esquecidos
e as lágrimas derramadas por nomes não mais chamados

sei das tuas casas, dos teus quintais,
dos teus becos, dos teus bairros
sei onde repousa o dia e a noite o cobre os passeios povoados de lixo

tu e eu, estamos sempre mergulhados em silêncio
enquanto os outros passam, cegos e apressados
e tu eu esboçamos sempre um sorriso à navalha afiada

Fotografia de Laura Alberto, Avenida dos Aliados

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Polaroid 35

O corredor

entre as paredes de cal e mais cal e cal
perdemo-nos no encontro fugaz

entre tu e eu
todo o oceano brando
os navios partem sem rasto nas ondas prateadas

entre eu e tu
o ar que se inspira, que se expira
amanhã o capitão engraxa as botas pela última vez

entre nós
a cidade construída rasgando o céu
e o sangue que corre nas sarjetas

entre nós: o corredor
entre nós: o vazio

terça-feira, 3 de maio de 2011

Polaroid 34

Manequim

o sorriso dilui-se no tempo
entre todas as horas que iluminaram
os olhos mortiços
entre todas as horas que cegaram
os ouvidos surdos

ninguém disse que os cadáveres ficam sempre nos armários
escondem-se em silêncio, gelados
arreganham os dentes quando as portas se abrem
e assustam aqueles que deles se esqueceram

e nós:
dormimos com os olhos abertos
caminhamos com as luzes apagadas
esperamos com os braços cruzados sobre o peito

é:
as cores caem
pelos caminhos de terra
entre as memórias baças, distantes
[o coração guarda-se no frigorifico]

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Polaroid 33

Tanque

deverá ser usada uma lâmina bastante afiada
poderá ser ou não passada por álcool
o corte deve ser: decidido, rápido, silencioso e bem profundo

cabe depois ao senhor de luvas brancas
mexer, mexer e remexer
tirar tudo cá para fora e esfregar energicamente

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Polaroid 32

Casa de banho

não consigo perceber grande parte das coisas
mas lá que escreve bem, escreve

um carreiro de formigas passa
inabalável diante dos meus pés

lá fora, regressou a chuva
aqui, o ar é abafado, quente

um segundo apenas
sinto todas as entranhas revolverem-se
precipitam-se sobre o chão, fugidio
um segundo apenas e todos os barulhos são estranhos

Fotografia de Laura Alberto