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segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Melhores Álbuns Nacionais 2: 5º-6º


2011 foi um ano estupidamente bom para a música nacional. E invulgar na quantidade de grandes discos a vir de uma área habitualmente pouco implicada nestas listas - a da música instrumental, feita por gente de background pop/rock. Nem jazz, nem clássica. Tiago Sousa (na foto - autoria Vera Marmelo) é um dos mais brilhantes exemplos desta gente que deixou a palavra no descanso mas nem por isso desinvestiu no cuidado temático da sua obra. Tiago assina um maravilhoso disco para piano, clarinete e percussão, a deambular com uma notável beleza entre Debussy e Sassetti, a partir da obra de Thoreau. Do outro lado do muro, a associação de JP Simões a Afonso Pais gerou um encontro raro entre uma guitarra abastecida de jazz e bossa nova, e uma voz a pensar em Chico Buarque, José Mário Branco e Sérgio Godinho, sobre a qual estão coladas palavras a que apetece voltar todos os dias.


6º – Afonso Pais / JP Simões – Onde Mora o Mundo


5º – Tiago Sousa – Walden Pond’s Monk

GF

domingo, 26 de junho de 2011

Na Montra

Recensão a discos recentes (e decentes)


Tiago Sousa - Walden Pond's Monk

Entra o piano em modo circular, ouvidos à escuta para decidir se é erudito ou popular, uma melancolia fina que não ajuda à categorização e que exige uma audição impoluta, sem que etiquetas de uso corrente criem ruído e distraiam do essencial. E Tiago Sousa vai alimentando estes círculos até se transformarem noutros, trazendo à baila Debussy, mas também Bernardo Sassetti (de Ascent), em temas instrumentais desacelerados, belos e dolentes, e até em hipnóticas evocações indianas. Depois vêm clarinete e percussões, camadas que se vão avolumando sem que a música ganhe peso ou robustez. Permanece delicada e tímida, ao mesmo tempo que exigente e segura. Tiago Sousa faz isto como se não pudesse fazer outra coisa, como se a música não pudesse ser senão esta, como se cada nota tivesse demorado vários anos a procurar o melhor sítio onde se enfiar e daí se recusasse a sair.

(Excerto de artigo publicado no Ípsilon)




Elbow - Build a Rocket Boys!

Build a Rocket Boys!, quinto álbum do quinteto inglês, dá um passo atrás na grandiosidade atingida com o anterior The Seldom Seen Kid, e isto porque os Elbow são mais estimulantes na inversa proporção da macieza das suas composições. Temos os habituais coros entre a alegra bebedeira ao balcão do bar e a prática dominical na direcção do altar da igreja, os tiques do rock progressivo que impedem que uma canção desta gente possa alguma vez soar vulgar e a capacidade rara de tratar cada melodia como se fosse um monumento ao falhanço – que, ao ser glorificado, deixa, no entanto, de constituir um falhanço. Faltam apenas os rasgos em que o disco anterior e o início de carreira foram férteis, e que pareciam impedir Guy Garvey de se apaixonar repetidamente pela sua própria imagem de homem não suficientemente amado pelos outros.

(Excerto de artigo publicado no Ípsilon)




Aldina Duarte - Contos de Fados

É difícil encontrar um fado mais verdadeiro do que este. É um fado nu, totalmente exposto, de luzes baixas, embriagado por poesia maior em que as palavras se encadeiam com sentido e sentir, não precisando sequer de contornar os clichés porque nem sequer os encontra pelo caminho. Há no canto de Aldina Duarte uma qualidade primária notável, radical (da raiz), que só encontramos noutra mulher do fado actual – Carminho. Mas enquanto Carminho é explosão, Aldina é sobriedade e contenção, uma elegância fina e enxuta.

(Excerto de artigo publicado no Ípsilon)




Cass McCombs - Wit's End

Costuma dizer-se que não há uma segunda oportunidade para causa uma boa primeira impressão. O californiano Cass McCombs já deve ter ouvido esta frase algures, porque o arranque de Wit’s End com “County Line” é coisa para baixar a guarda a qualquer Mike Tyson desta vida, é uma coisa de uma delicadeza capaz de nos pôr a levitar sem darmos por isso. É uma canção pequena, tímida – como quase todas as de McCombs –, sem arranjos de cordas grandiosos para nos convencer da sua relevância para o resto do mundo, simplesmente uma canção a puxar-nos para dentro dela, a oferecer colo e consolo. A lembrar o melhor que Kurt Wagner ou Elliott Smith nos deram. Os tímidos são sempre os piores/melhores (conforme a perspectiva).

(Artigo publicado na Time Out Lisboa)




Munch Munch - Double Visions

há aqui um cruzamento bizarro e inimaginável entre os universos dos Animal Collective e dos Mars Volta, entre a pop rarefeita, espacial, com défice de atenção e a imaginar outros mundos para além daquele que habitamos, e uma versão melódica e privada de distorção (mais amiga das canções, portanto) de uma fúria de travo progressivo. Outra forma de descrevê-lo seria pôr Robert Wyatt agarrado a uma chusma de órgãos a tentar compor singles para o elenco de Glee. Aqui era a altura indicada para destacar um par de temas de escuta obrigatória, mas a verdade é que Double Visions avança e cada tema parece mais essencial à nossa vida do que o pagamento de quaisquer juros da dívida externa. Claro que depois a realidade é uma meretriz, mas enquanto houver Munch Munch há esperança.

(Excerto de artigo publicado na Time Out Lisboa)



GF