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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Na Montra

Discos novos em exposição. Se solicitado, empregado de loja disponível para eventuais recomendações.


Leonard Cohen – Old Ideas
Há mais de 20 anos que Leonard Cohen não fazia um álbum tão bom. Embora esta possa parecer uma afirmação retumbante, não estamos a falar de nenhum grande feito se pensarmos na escassez da colheita - apenas três álbuns de originais nas duas décadas anteriores - e na inconsequência da mesma. Se The Future (de 1992) e Ten New Songs (de 2001) são álbuns medianos com algumas grandes canções, Dear Heather (de 2004) é uma mera declaração presencial com 12 músicas a mais.

Dentro da mesma leva, nesta nova vida de Cohen, surge-nos Old Ideias, que de feio só tem a capa. O álbum tem o mesmo tipo de virtudes de I'm Your Man (de 1988), o longo que melhor redefiniu a imagem de Cohen enquanto um gentleman galã, uma espécie de Sinatra da trova, que não renega os luxos de bons hotéis ou de uma banda numerosa bem apetrechada.

O módulo de Old Ideas, com toques de kitsch, é reconhecível mas aberto e exploratório. Um violino chorão embrenha-se com um órgão de qualidade caseira; a bateria parece tocada por um jazzman preguiçoso, lado-a-lado com um piano smooth bem desviado para a Cohenlândia e um saxofone pontual que avista Kenny G só que do outro lado da barricada onde se encontra o bom gosto. O toque de conforto vem da voz sussurrante de Leonard Cohen, o homem de spoken-word que tenta cantar. A alavanca para o supremo vem do incontornável amparo feminino dos coros, quais sereias ao serviço do charmoso trovador numa terra de sonhos que não existe.

Old Ideas faz da terceira idade de Cohen a terceira juventude. Em 2012, as canções novas de Leonard Cohen voltam a ser algo de vital para as pessoas.



Lana del Rey – Born to Die
Raramente, uma artista pop esteve tão exposta a hiperbolismos tão opostos e em tão curto espaço de tempo como Lana del Rey. A forte dupla de canções Blue Jeans/Video Games de antecipação ao álbum Born to Die, aliada a um visual de actriz de Hollywood à antiga fortemente atraente, escancarou-lhe as portas do estrelato pop e a pressa da entrega de um trono qualquer. Na curva seguinte desta montanha russa, uma actuação tosca num célebre programa de TV precipitou a troça e o desdém dos muitos que desconfiavam desta ascensão tão rápida, a que se colaram outras especulações em série e até suspeitas (infundadas) de um plágio a uma artista grega.

Algures entre o oito e o oitenta, a moderar o «manifestamente exagerado», está este álbum Born to Die. Não se encontra neste disco nem a visionária pop, nem, muito menos, um prognosticado conjunto de canções desastroso que destroçasse à partida a nova estrela.

Born to Die vai do hyped pop ao hip pop, variante do hip hop ao modo de del Rey, numa espécie de gangsta-pop que se sabe perfumar por um trip-hop (ou trip-pop) mais cinematográfico. A dúzia de canções do disco, mais as faixas-bónus, são tudo menos previsíveis.

Lana del Rey está a meio de dois pontos distantes e improváveis, entre uma Anna Calvi e uma Britney Spears, como uma cantora de sensibilidade indie que não renega as armas de uma estrela pop. Uma donzela desconcertante que carrega tudo à flor da pele: o olhar perdido e nervoso e no mesmo segundo o dom da sedução, sobretudo quando a música começa.

Para o caso de passarem o testemunho do trono da pop de uma Lady Gaga para Lana del Rey, é a própria pop que é promovida.



Mark Lanegan – Blues Funeral
Entre os múltiplos projectos, o ex-Screaming Trees lá arranjou tempo finalmente para um disco a solo – oito anos depois. A placa giratória de Blues Funeral vai roda entre o rock industrial sombrio, lamentos blues e até, pasme-se, momentos de disco-sound. Há a acrescentar a isto tudo a bênção da sombra de Lanegan (basta a sombra) e o consequente toque de monumentalidade a tudo e mais alguma coisa... O vozeirão ajuda. A alma esmaga.




A Place To Bury Strangers – Onwards to the Wall (EP)

O segredo de um bom disco nem sempre está apenas na sua originalidade, pode residir também no entusiasmo com que é feito. O trio nova-iorquino A Place To Bury Strangers confia tudo no segundo item e não se sai mal. O espírito fervilhante desta mão cheia de canções torna irrelevante o lembrete de que os Ride já tinham feito isto há 20 anos (já para não ir mais longe). Para os amantes de noise, shoegazer e pós-punk, aqui está um sabor ao agrado.



Lila Downs - Pecados y Milagros
"Pecados y Milagros", com a militância política e as referências à religião católica sempre à superfície, é outro caldo cultural, que estica o manifesto de Lila Downs entre a cultura indígena (especialmente da sua região de Oaxaca) e a ocidental (laivos de pop-rock e até de electrónica), entre a disposição intimista das rancheras mexicanas e a festa folclórica das cumbias. Nada que surpreenda, portanto. Downs habituou-nos, e bem, a isto.

Mas há uma diferença, substancial, face ao que recebíamos de Lila Downs. A sua música vinha sendo uma estalada que nos acordava do desmaio da mediania com que nos confrontamos amiúde. Mas "Pecados y Milagros" é Lila Downs em regime light e facilitista, para consumo externo acessível, que amolece não só a força autêntica que lhe conhecíamos como a dos temas nos quais pegou: 'Vámonos' e 'Fallaste Corazón', derivados das mãos de Jimenez e de Sánchez para Downs, passam a banais.
Pedaços de prosa extraídos de artigo assinado para o Cotonete.

GP

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Na Montra

Recensão a discos recentes que nos recusamos a vender.


Bon Iver - Bon Iver
Nunca se deve abusar da palavra génio, só se deve aplicar em casos extremos como o do álbum homónimo de Bon Iver. A obra brutal em menção tem como elementos de hipnose coisas tão maravilhosas como as marchas de bateria arrítmicas (engenho slowcore que conhecíamos dos Red House Painters) ou o permanente falsete de Justin Vernon que eleva a intensidade da experiência auditiva.

Um piano ou um outro teclado delapidam, com destreza de mestre, o diamante que ali está, no brilho contemplativo de 'Hinnom, TX' e de 'Calgary' (o primeiro single de "Bon Iver") que atiram Justin Vernon para a categoria de imortal. Caso a rendição não tenha acontecido antes, a última canção, 'Beth/Rest', é jogada de xeque-mate para qualquer par de ouvidos mais familiarizado com o mundo de folk-rock.

Corte e costura de artigo publicado no site Cotonete ao nível dos melhores alfaiates.




You Can't Win, Charlie Brown - Chromatic
Passam, genuinamente, por americanos. E só outro nome português consegue isso tão bem: Sean Riley & The Slowriders. Podem esconder-se e misturar-se no reportóro de Crosby, Stills, Nash & Young e conseguem inserir-se no melhor da indie-folk actual que vem da América do Norte, com alguns extras valiosos como travessias atmosféricas mais dadas aos gostos de Brian Eno ou acessos eléctrónicos súbitos e mais experimentais de uma nação próxima da dos Radiohead.

“Chromatic” é um álbum coeso que impressiona. Impressiona pela riqueza das músicas. Impressiona porque se trata de um álbum de estreia de um sexteto português que, tão precocemente, revela uma maturidade capaz de merecer uma divulgação nas páginas de uma Uncut ou de um Guardian, lado-a-lado com outros nomes familiares da folk-rock de hoje.

Corte e costura de artigo publicado no site Cotonete ao nível dos melhores alfaiates.




tUnE-yArDs - w h o k i l l
Se o nome do projecto individual do norte-americano Merrill Garbus e os títulos de discos a que dá corpo desobedecem às regras gramaticais de maiúsculas e minúsculas, também a sua música contraria as formas correntes. Este segundo disco encaminha-os para comparações com o rock engasgado, com picante africano, dos Vampire Weekend. O que no caso é um elogio, um ponto comum, e nunca um afunilamento ou uma cópia. Isto trata-se de produto autêntico, caro cliente. E é já uma das boas surpresas de 2011. Pode comprar que não lhe vendo. Daqui é que não sai a cópia.




Neil Young – A Treasure
Se não tiver nada para dizer sobre Neil Young e lhe apetecer mandar um tiro no escuro sobre o dito, sempre pode pegar naquela frase recorrente de que «o tipo não fez nada de jeito nos anos 80». Evite é dizê-lo à frente de pessoas que conheçam pérolas de Young como This Note's for You (1988) e Freedom (1989) ou mesmo este ao vivo A Treasure, gravado nas digressões americanas de 1984-85, que agora toma a forma de rodela. Está aqui o patego de chapéu cowboy no seu melhor, a sintetizar country, folk, blues e rock, harmonizando um imenso mundo instrumental de guitarras eléctricas, pedal steel e acústicas, pianos, bateria e excitados violinos num só palco, num só estilo, quase só ao alcance do canadiano. Quando o falecido colaborador de Neil Young e participante no disco, Ben Keith, ouviu estas canções, disse qualquer coisa como «pá, isto é um tesouro». Estava tão certo que o comentário mereceu o título. Um Jack Daniel’s ao Ben, toma conta dos de lá de cima!



GP

domingo, 26 de junho de 2011

Na Montra

Recensão a discos recentes (e decentes)


Tiago Sousa - Walden Pond's Monk

Entra o piano em modo circular, ouvidos à escuta para decidir se é erudito ou popular, uma melancolia fina que não ajuda à categorização e que exige uma audição impoluta, sem que etiquetas de uso corrente criem ruído e distraiam do essencial. E Tiago Sousa vai alimentando estes círculos até se transformarem noutros, trazendo à baila Debussy, mas também Bernardo Sassetti (de Ascent), em temas instrumentais desacelerados, belos e dolentes, e até em hipnóticas evocações indianas. Depois vêm clarinete e percussões, camadas que se vão avolumando sem que a música ganhe peso ou robustez. Permanece delicada e tímida, ao mesmo tempo que exigente e segura. Tiago Sousa faz isto como se não pudesse fazer outra coisa, como se a música não pudesse ser senão esta, como se cada nota tivesse demorado vários anos a procurar o melhor sítio onde se enfiar e daí se recusasse a sair.

(Excerto de artigo publicado no Ípsilon)




Elbow - Build a Rocket Boys!

Build a Rocket Boys!, quinto álbum do quinteto inglês, dá um passo atrás na grandiosidade atingida com o anterior The Seldom Seen Kid, e isto porque os Elbow são mais estimulantes na inversa proporção da macieza das suas composições. Temos os habituais coros entre a alegra bebedeira ao balcão do bar e a prática dominical na direcção do altar da igreja, os tiques do rock progressivo que impedem que uma canção desta gente possa alguma vez soar vulgar e a capacidade rara de tratar cada melodia como se fosse um monumento ao falhanço – que, ao ser glorificado, deixa, no entanto, de constituir um falhanço. Faltam apenas os rasgos em que o disco anterior e o início de carreira foram férteis, e que pareciam impedir Guy Garvey de se apaixonar repetidamente pela sua própria imagem de homem não suficientemente amado pelos outros.

(Excerto de artigo publicado no Ípsilon)




Aldina Duarte - Contos de Fados

É difícil encontrar um fado mais verdadeiro do que este. É um fado nu, totalmente exposto, de luzes baixas, embriagado por poesia maior em que as palavras se encadeiam com sentido e sentir, não precisando sequer de contornar os clichés porque nem sequer os encontra pelo caminho. Há no canto de Aldina Duarte uma qualidade primária notável, radical (da raiz), que só encontramos noutra mulher do fado actual – Carminho. Mas enquanto Carminho é explosão, Aldina é sobriedade e contenção, uma elegância fina e enxuta.

(Excerto de artigo publicado no Ípsilon)




Cass McCombs - Wit's End

Costuma dizer-se que não há uma segunda oportunidade para causa uma boa primeira impressão. O californiano Cass McCombs já deve ter ouvido esta frase algures, porque o arranque de Wit’s End com “County Line” é coisa para baixar a guarda a qualquer Mike Tyson desta vida, é uma coisa de uma delicadeza capaz de nos pôr a levitar sem darmos por isso. É uma canção pequena, tímida – como quase todas as de McCombs –, sem arranjos de cordas grandiosos para nos convencer da sua relevância para o resto do mundo, simplesmente uma canção a puxar-nos para dentro dela, a oferecer colo e consolo. A lembrar o melhor que Kurt Wagner ou Elliott Smith nos deram. Os tímidos são sempre os piores/melhores (conforme a perspectiva).

(Artigo publicado na Time Out Lisboa)




Munch Munch - Double Visions

há aqui um cruzamento bizarro e inimaginável entre os universos dos Animal Collective e dos Mars Volta, entre a pop rarefeita, espacial, com défice de atenção e a imaginar outros mundos para além daquele que habitamos, e uma versão melódica e privada de distorção (mais amiga das canções, portanto) de uma fúria de travo progressivo. Outra forma de descrevê-lo seria pôr Robert Wyatt agarrado a uma chusma de órgãos a tentar compor singles para o elenco de Glee. Aqui era a altura indicada para destacar um par de temas de escuta obrigatória, mas a verdade é que Double Visions avança e cada tema parece mais essencial à nossa vida do que o pagamento de quaisquer juros da dívida externa. Claro que depois a realidade é uma meretriz, mas enquanto houver Munch Munch há esperança.

(Excerto de artigo publicado na Time Out Lisboa)



GF

terça-feira, 14 de junho de 2011

Na Montra

Recensão a discos recentes.

Smix Smox Smux - Os Gloriosos Smix Smox Smux Derrotarão os Exércitos Capitalistas
Se mexe Smix Smox Smux! Este é já o segundo disco do trio bracarense que preserva como intacto aquele dom de iniciados, com uma imunidade de aço face à domesticação das convenções pop-rockeiras.

Esta segunda nortada, bem fresca e tão bem-vinda, é rock alternativo com sotaque, que os institui de vez uns filhos dos Trabalhadores do Comércio mais sofisticados. Claro que essa sofisticação ocorre sem esforço, genuina e involuntariamente, graças às actualizações das fontes indie deste mundo já sem fronteiras que a internet esbateu.

Talvez passem pelo radar do grupo discos voadores identificáveis de gente com alma à solta como os Feelies, os Minutemen, os Pavement, ou até os dEUS. Também os SSS sabem encontrar a melodia gira e desprendê-la para uma bandalheira que, qual contraste, faz todo o sentido.

Simplicidade, irreverência, algazarra e inteligência parecem ser os quatro mandamentos do grupo à medida que progredimos neste disco ligado à corrente, sempre à mesma corrente, sem descanso entre faixas, fazendo de cada uma das dez músicas uma só.

Vai havendo excepções, e excepções a excepções. Em 'Sangue', os Smix Smox Smux passam de trio a quarteto, com a aparição de um vulto de peso, o vocalista dos Mão Morta. O tema é feito à medida vampiresca do convidado Adolfo Lúxuria Canibal, o histórico padroeiro da festança indie bracarense. Mas os coros, numa espécie de reencarnação garageira dos cantos gregorianos, selam no final o devido enquadramento smixsmoxiano.

O sonoro zapping do grupo torna-se mais zappesco (sim, fala-se de Frank Zappa) quando tentam o 'Kuduro'. A dança de pé pesado e de cabeça leve continua a 'Gaguejar' na(s) faixa(s) seguinte(s) . E 'Pinochet Guevara' é, tal como a capa e o design maoistas e o título hiperbolicamente socialista, uma declaração de abstração política, muito contracrática. A parte política sobressai então na segunda metade do disco, em forma de paródia, numa forma feliz de mal-estar, em boa forma.

"Os Gloriosos Smix Smox Smux Derrotarão os Exércitos Capitalistas" é um berro contra a normalidade, mostrando-nos um rock do mais inventivo que se tem ouvido neste rectângulo à beira-mar.

Artigo publicado no Cotonete.




Thurston Moore – Demolished Thoughts
Thurston Moore habituou-nos a excitar com uma ideia focada de rock & roll (porventura, uma das melhores de sempre e que tão bem tem sobrevivido), situada nos Sonic Youth e nos seus tsunamis sónicos. Quando a vertente a solo parecia mais um interessante arredondamento da metodologia dos Sonic Youth, Moore mostra-nos agora uma outra faceta, a do homem acústico, mais próximo que nunca do registo de Nico em Chelsea Girl. O violino marca o passo e já não os pedais das guitarras Jaguar, num carrossel de vários planos sonoros que chama para o seu círculo a guitarra acústica (sempre em trabalhos), uma fugidia harpa e, claro, a sua voz anasalada. Sabia-se que Moore vinha serenando, mas não tanto. O disco é uma boa surpresa.



The Cars – Move Like This
Contrariando aquilo que já deve ser consagrado como uma lei da física, o facto dos regressos de bandas históricas serem sujos por muita ferrugem, os Cars saltaram os 24 anos de hiato e uma iminente vergonha com uma dezena de canções fresca e de formato radiofónico, desafiando com convicção a idade e os antecedentes de correligionários de new wave - como os Blondie e os Devo que caíram na armadilha de voltarem. Há em Move Like This baladas a fazer razias à atmosfera de Drive (talvez o tema mais reconhecido pelo grande público) e muito synth-rock de moral alta. Tudo em qualidade.



Austra – Feel It Break
De um canto erudito a outro gótico, surge alguma fumarada shoegazer que enche a pista electrónica dos canadianos Austra e a encaminha, qual magia criativa, para uma paisagem ao ar livre deslumbrante. Feel It Break está umas horas mais à frente das sonoridades mais sombrias Zola Jesus ou Fever Ray, nos céus, já à procura da Aurora, a deusa romana da alvorada. E talvez o consiga.



Norberto Lobo – Fala Mansa
Norberto Lobo é um guitarrista folk. Muito português. Mas também muito do western. De muitos lados do mundo da guitarra. E até é de um protótipo de canção se for preciso, num jazz artesanal e maneirinho (o do tema-título do disco) com que nos acena um charmoso adeus. Já nos tínhamos surpreendido com as duas obras anteriores. Mas, pelos vistos, não o suficiente.


GP

sábado, 28 de maio de 2011

Na Montra

Recensão semanal a discos recentes.


Ben Harper – Give Till It’s Gone
Admitia vir a plantar couves, tornar-me num jogador de poker ou fazer uma grande travessia de vela. Mas nunca me passou pela cabeça vir a prestar vassalagem a um disco de Ben Harper.

"Give Till It’s Gone" mudou tudo. Ao longo destes muitos anos, Ben Harper tem-se mostrado como um músico culto, talentoso, multifacetado, mas também aborrecido, abafado por uma estranha banalidade... Era, em potência, um Marvin Gaye rockeiro que na prática dava tão pouco entusiasmo quanto um Eagle Eye Cherry. E esse vinha sendo um enigma difícil de entender.

Reflexo assumido de uma temporada turbulenta marcado pelo divórcio litigioso com a actriz Laura Dern, "Give Till It's Gone" é para Ben Harper o disco que mais se assemelha a um cronograma. Para nós, esta é uma obra de um soulman recomendável aos fãs do indie rock de bandas como os Soundgarden.

Também se NeilYounguizou e deu alma soul a um cenário instrumental armadilhado de blues-rock. O rock é agora temperamental, feito à flor da pele, mas com gritos de desabafo que, lirica e filosificamente, evocam o gospel - na esperança que o Senhor acorra em prol do músico atormentado.

Noutras canções, Ben Harper repousa na soul contemplativa, num registo mais folk e em breves jazzísticos aquando da soltura instrumental… No final, chegamos à conclusão que estamos perante um dos grandes álbuns do ano. Big Ben fez bang, finalmente.

Partes do texto são retirados de artigo assinado para o Cotonete.


Wild Beasts - Smother
Do magistral "Two Dancers" (já um clássico do indie rock britânico do século XXI), transitou muita coisa, sobretudo a atmosfera perturbadora assente num cocktail de várias fontes do pop-rock milagreiro – de Smiths a Radiohead a Jeff Buckley. Menos acutilante é o acompanhamento do carisma que reconhecíamos em cada canção de "Two Dancers". Bom esforço, ainda assim.



GP

sábado, 7 de maio de 2011

Na Montra

Recensão semanal a discos recentes.


Beastie Boys - Hot Sauce Committee Part Two
A telepatia única entre os três bros dos Beasties está para durar. Continuam uns garotos. E nem sequer precisaram de mudar muito os seus procedimentos naquele hip hop contagiante e funky. Está lá o mesmo rap a velocidade de foguetão; a habitual intervenção do homem-robot naquele triângulo vocal; a carregada artilharia de samples; o pontual número de putos garageiros a fazer punk-hardcore; aqueles instrumentais que sugerem aquilo que deveria ser a música de elevador; a arte de converter o assunto mundano e a competição de narcisismos num rap contagiante; e o frenesim de Nova Iorque como cenário.

O grandioso património musical dos Beastie Boys impede que a metodologia recorrente se transforme numa insipidez rotineira, a que acresce o picante diferenciador das intervenções convidadas: Nas mete a colherada em 'Too Many Rappers'; Santigold contracena com os Beasties na frequência afrobeat de 'Don't Play No Game That I Can't Win'.

A poderosa festa de "Hot Sauce Committee Part Two" faz esquecer o drama que tem envolvido Adam Yauch que, ainda a tratar de um cancro nas glândulas salivares, obrigou os Beasties a uma troca de planos e a um adiamento sucessivo da edição do sétimo álbum de estúdio. Mas nada pára o grupo.

Texto baseado em artigo assinado para o Cotonete.


Os Lábios - Morde-Me a Alma
Não é muito comum no indie rock nacional aparecer uma banda de sensibilidade pop tão apurada, e de coros tão orelhudos como estes debutantes Lábios. Produzidos por Miguel Ângelo e herdeiros da mesma formação dos Profilers (de orientação mais bluesy, e de língua inglesa de escolha), têm um optimismo e uma sofreguidão rockeira que os torna nos mais directos representantes em Portugal da sonoridade new waver dos Blondie e dos Altered Images. Eis um bom caso de uma banda pop-rock que sabe o que quer das canções e o que as canções querem dela. Tudo escorreito, sem quaisquer rodriguinhos ou delongas, directo ao ponto.




Low - C'mon
Começaram como fundamentalistas do slow-core em "I Could Live in Hope" (de 1994): radicalmente vagarosos, minimalistas, claustrofóbicos, perturbadores. Depois, foram superando a idade média de uma banda rock com o alargamento moderado de outras opções: mais instrumentos, e até aventura conceituais diferentes como no mais eléctrico e veloz "The Great Destroyer" (de 2005). Actualmente, acusam algum desgaste com atributos (como as bela harmonias vocais entre o casal fundador Alan Sparhawk e Mimi Parker) que começam a descolorar, sobressaindo agora uma sensação de redundância. Terá que ser a queda irreversível?




Fleet Foxes – Helplessness Blues
Fascinaram meio-mundo indie como uma espécie de Beach Boys do bosque, através do fascinante álbum de estreia homónimo. Mas ao segundo álbum, o grupo liderado por Robin Pecknold apresenta sintomas avançados de Eaglite: um vírus que vulgariza bandas de folk-rock até ao nível do aborrecimento e que está a disseminar, por exemplo, os Band of Horses (abençoados igualmente por uma estreia de arromba antes da contaminação). Há aqui uns quantos 'Hotel California', mesmo que actualizados num cenário mais indie.

O curioso é que quando o grupo se afasta das guitarras eléctricas e se foca em harmonias vocais folk mais ancestrais, uma magia deslumbrante se instala, quase nos levando a perder a cabeça por um disco que é tudo menos grande.



GP

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Na Montra

Recensão semanal a discos recentes (e inteligentes)


The Naked and Famous – Passive Me, Agressive You
Espécie de Dirty Projectors mais comerciais, este estreante quinteto neo-zelandês também contesta a matemática dos teclados como uma ciência exacta, enquanto vai descobrindo intermitentemente o encaixe com formatos mais orelhudos. Com harmonias vocais poderosas no núcleo central (a teclista Alisa Xayalith e o guitarrista Thom Powers), um frenesim electro pujante e, por vezes, uma poesia synth auroral digna da limpidez das Au Revoir Simone, há por aqui sumo a causar sede de os ver no Palco Super Bock do Optimus Alive.
Artigo baseado naquele escrito para o site Cotonete.




The Unthanks – Last
O sereno projecto das manas Unthank, renomeado como The Unthanks ao terceiro álbum "Here's The Tender Coming", pertence justamente à corte da folk britânica. E ao quarto álbum, "Last", não dá sinais de desarmar, com um sentido de rebuscamento melancólico nivelado por cima, ao lado de uma Shelagh McDonald ou de um Nick Drake, e sempre com um fio de jazz oculto ali ao virar da esquina. "Last" é outonal mas não tem tempo. É de todos.




Panda Bear – Tomboy
Sabia-se que o nosso compatriota Panda Bear (sim, porque é casado com uma designer portuguesa e reside em Lisboa) pertencia ao clube do pessoal fixe com bom gosto, mas não se sabia que tinha bom gosto clubístico (pede-se neste momento fair-play aos partidários de outras cores). O aguardado quarto álbum "Tomboy" é rematado com o tema 'Benfica', dedicado ao clube da Luz, e inclui alguns sons de estádios de futebol. Mas é pouco provável que o tema passe nas colunas do Estádio Luz, lado-a-lado com a canção rockeira de António Manuel Ribeiro e o hino "Ser Benfiquista" de Luís Piçarra. Cremos nós.

Quanto ao disco, segue, sem grandes surpresas, o laboratório de pop electrónica dos seus Animal Collective, com momentos de Beach Boys neo-milenares até deslumbrantes (o tema-título Tomboy eleva as expectativas bem altas sobre o disco). Mas naquela cruzada de ideias, não se dá a Eureka, apesar das ameaças.




The Mountain Goats - All Eternals Deck
Serve o presente parágrafo para saudar o regresso à boa forma de John Darnielle (o dono dos Mountain Goats), que depois da obra-prima "The Sunset Tree" (de 2005) se apagou um pouco. Comandando actualmente um trio (ele mesmo, um baterista e um baixista), Darnielle recupera o dom da graça com malabarismos que tornam o pop-rock em algo bem menos previsível, numa linha muito semelhante à de Jonathan Richman. Como é normal, foca-se num tema em cada álbum. E desta vez, as cartas de Tarot são o centro da sua colheita cancioneira. Mas o Ás de trunfo é o próprio John Darnielle. Quem ficar com ele, tem tudo para ganhar.



GP

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Na Montra

Recensão semanal a discos recentes (e decentes também)



Adriana Calcanhotto - O Micróbio do Samba

O Micróbio do Samba é exactamente aquilo que se esperaria de um disco de samba de Adriana Calcanhotto. Como já se adivinhou, isto é «uma faca de dois legumes» (citando Jaime Pacheco). Ora se Adriana continua a - e por mais que pudesse esforçar-se nunca deixaria de - ser uma das mais entusiasmantes vozes da MPB dos dias que correm e nada neste disco se acerca da ideia de um disco falhado, por outro lado surpreende tão pouco que rapidamente o leitor cospe o CD e não o exige de volta. É como um daqueles bolos que sabemos que vai cair bem no estômago mas que vamos espreitando no forno e concluindo que, infelizmente, não cresce. Micróbio do Samba, audição após audição, também não.




Britney Spears - Femme Fatale

É o grande disco da diva pop. Ao contrário das suas concorrentes, Britney nunca teve uma voz elástica, capaz de a transformar numa contorcionista melódica empenhada em provar que numa só palavra consegue empregar três oitavas. E essa é a sua grande vantagem. Britney canta menos, mas por isso canta mais: Femme Fatale é o argumento derradeiro nessa discussão. São 12 canções tremendas, equilibradas numa pop electrónica de proveniência mais europeia do que norte-americana (não se trata de funk/r&b, nem tão pouco de bases de hip-hop), e "How I Roll" e "Gasoline" (mesmo que não venham a chegar a single) serão sempre dois dos maiores monumentos pop deste ano. Afinal, há vida depois de Paris Hilton.




Delicate Steve - Wondervisions

É história com qualidade de lenda: Will Glasspiegel, A&R da Luaka Bop, contratou Steve Marion e a sua trupe delicada antes sequer de lhes ouvir uma nota. Falaram sobre música, levou-os a jantar a um restaurante chinês e no dia seguinte as assinaturas estavam no papel. Da música conhecia apenas um vago plano de intenções. Até porque, convenhamos, descrever aquilo que aqui vai é tarefa para tirar alguém do desemprego. Faz tanto sentido que capa e título homenageiem Stevie Wonder como falar de Animal Collective tocados por Marc Ribot, John Lee Hooker produzido pelos Vampire Weekend, os White Stripes nascidos no Senegal, Prince no Aqui Há Talento a tocar Radiohead. A voz aqui pertence apenas à guitarra. Só que sem ser chato, boa?
texto publicado na Time Out Lisboa)




The Dø – Both Ways Open Jaws

Segundo álbum para este duo Ele & Ela. Ele é um compositor francês vindo do jazz, ela é uma cantora franco-finlandesa. E a música que assinam em conjunto é uma pop de amizade fácil: dá-se bem com o rock, com o hip-hop, com o jazz (pois claro), com a folk, com tudo o que sejam notas prontas a serem usadas sem qualquer condicionante estilística ou obrigação de vistos de trabalho. Embora não esteja ao nível do arrebatamento que foi A Mouthful, Both Ways Open Jaws continua a ter uma mão-cheia de boas canções e mais ideias por canção quadrada do que a maior parte das gentes apresenta num álbum inteiro.




Maylee Todd - Choose Your Own Adventure

Maylee Todd lembra, assim de repente, algum do desacerto em currículos universitários: é tão incrivelmente específico que custa a crer que sirva para alguma coisa. Mas a verdade é que a bossa nova haviana (ainda que a moça seja canadiana) de Maylee se afirma como um primor de frescura na enxurrada de novas edições que nos chegam a toda a hora. A sua valente dose de loucura psicadélica ajuda a fazer o resto da festa. Possivelmente nem se vai dar por chegar ao segundo álbum, mas o primeiro é perfeito para viagens de carro sem destino certo. Porta, chaves, ignição.



GF

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Na Montra

Recensão semanal a discos recentes


TV on the Radio - Nine Types of Light

O rock industrial dos TV on the Radio está neste quarto álbum menos ostensivo e mais desacelerado. Esta finta às expectactivas do que muitos dos seus fãs gostariam de ouvir está longe de ser uma má notícia. A pertinência do grupo mantém-se de pedra e cal, tal como a sua identidade, reconhecível em todas as condições desvantajosas hipotéticas: por poucos segundos que se oiça, por mais baixo que esteja o volume de som, "Nine Types of Light" tem o cheiro exclusivo dos TV on the Radio. Ainda não é desta que vem a obra-prima do grupo que lhes vai mudar a vida para sempre; mas o filme de suspense que tem sido o seu percurso prossegue com interesse.




Link – Longplay

O produtor Rui Vieira, através do seu pseudónimo Link, não consegue sair da retaguarda mesmo quando é ele finalmente a tomar o comando autoral de um projecto discográfico, neste álbum de estreia.

E o que fez ele neste disco? Um belo híbrido afroamericano de funk, soul e hip hop, com o apadrinhamento de New Max (dos Expensive Soul) nas qualidades de co-produtor, e um casting interessante de vocalistas e MCs, dos quais se destaca o velho conhecido de Link, NBC, que dá voz ao primeiro single, 'Dá-Me Uma Chance'.

O recheio assíduo do som de metais, o bom groove e, porque não dizer?, uma certa coolness dão crédito àquela que é uma das melhores estreias discográficas em solo nacional dos últimos meses. Portugal está a ficar mais funky.




The Dears – Degeneration Street

A maior banda brit do momento habita no Canadá, em Montreal, e chama-se The Dears. Mas a proclamação tem apenas a efemeridade das primeiras canções de "Degeneration Street", quando já aparecem nas notas de rodapé dos nossos cérebros expressões como «que disco de outro mundo!», «os Kaiser Chiefs ao pé disto parecem bobos da corte junto dos verdadeiros reis, os Dears», «olá Blur e Pulp, eles também estão aqui». Enquanto põe toda a carne toda no assador, são até a maior banda indie do planeta.

Mas depois do deslumbramento e do sonho, de que é responsável a cadeia em série inicial das melhores canções pop do ano (da nº 1, 'Omega Dog', à nº 4, 'Thrones', que chegaram a ter por alguns minutos), a realidade lá apareceu, pelo menos a dos Dears: não necessariamente desmotivante, apenas um bocadinho menos fogosa, mais banal, mortal e descendente em tudo o depois vão fazendo. Excepção, claro, a outro pico alto, de milhares de metros sobre o nível do mar: a nº 9, 'Stick With Me Kid', ou o ouro escancarado para qualquer radialista de bom gosto.




Bill Callahan – Apocalypse

Música de planos fixos; perspectivas de natureza morta; o ar tenso, fechado, austero e também charmoso do ex-Smog como se o rosto de Callahan se conseguisse colar às suas canções; um burburinho velvetiano com chapéu de cowboy e um conformismo poético do country de Townes Van Zandt. Toda esta caravana de méritos volta a instalar-se noutro álbum, mesmo que a cartilha pareça já estar a esvaziar-se perante a grandeza de outras passagens - "Woke on a Whaleheart" (de 2007) é o caso.


GP

sábado, 26 de março de 2011

Na Montra

Recensão semanal a discos recentes

The Strokes - Angles

O quarto álbum da banda do vocalista Julian Casablancas, que quebra um longo jejum de cinco anos, deveria ser mais especial do que é. A nova dezena de canções expõe uma banda numa encruzilhada de vontades diferentes, meramente a picar o ponto, sem aquele ânimo e aquela autenticidade que os coroou nos dois primeiros álbuns ("Is This It" e "Room on Fire"). E esta falta de júbilo acontece logo no disco de maior pluviosidade de ideias refrescantes após "Is This It", vinda tanto do synth-pop que transitou da investida a solo de Julian Casablancas, como de outras estruturas indie-rockeiras subitamente desmontadas.

Basicamente, "Angles" é um amontoado de quases – quase-grandes-canções – e de sons surpreendentes mas descontinuados, e também de cedências e de fretes: o primeiro single 'Under Cover of Darkness', que abusa do mais-do-mesmo, é uma escolha de um conservadorismo chocante atendendo à vizinhança bem mais inovadora.

Sem grande esforço, a banda lá se vai desenrascando. A pinta do grupo, as famosas tabelinhas entre as guitarras eléctricas de Nick Valensi e Albert Hammond Jr e aquele jeito intacto para a simplicidade vão safando o disco, mas a um nível tangencial.

"Angles" soa demasiado a álbum de serviços mínimos. E a despedida.


Kurt Vile - Smoke Ring For My Halo

Estamos perante um dos melhores álbuns deste primeiros meses do ano: chama-se "Smoke Ring For My Halo" e é o quarto longo de Kurt Vile.

O jovem músico de Filadélfia vem da melhor escola inde rock, Sonic Youth - Dinosaur Jr, como bem se nota naquela forma docemente preguiçosa de cantar (vide Thurston Moore ou J Mascis) ou nos trilhos sónicos da guitarra elécrica.

Mas, para além do rebuliço eléctrico dos seus mestres, Kurt Vile sabe assentar na serenidade contemplativa típica do sadcore dos Red House Painters, com uma poupança de meios mais típica da editora K Records (encabeçada pelo mítico Calvin Johnson) do que da Matador, de que é já um dos grandes nomes.

Canções magistrais como 'Puppet To The Man', 'Society Is My Friend' ou o tema-título 'Smoke Ring For My Halo' reclamam culto urgente para este cantautor da garagem rock.


Gregg Allman – Low Country Blues

Gregg Allman acaba de dar umas reviravoltas ao normal guião da vida. O recente transplante de fígado, a hepatite C que o aflige, os 63 anos que tem e uma carreira a solo deficitária em constância não impediram este histórico dos Allman Brothers Band de fazer aquele que está a ser visto como o seu melhor álbum em nome individual.

Com outro monstro do blues-rock sulista na produção, falamos de T-Bone Burnett, o organista Gregg Allman prova em "Low Country Blues" porque é defendido como uma das maiores vozes brancas da soul, mesmo que num álbum que é acima de tudo de blues.


Cut Copy - Zonoscope

Em 2008 e por causa do single 'Lights and Music', os australianos Cut Copy assinam um compromisso vitalício com o orelhudo. Deles esperamos sempre outro 'Lights and Music, um tema synth-pop quentinho para a alma que se encaixe no imaginário de memórias que temos dos anos 80.

Mas "Zonoscope", o terceiro álbum do projecto de Dan Whitford, não nos dá bem a banda de singles que imaginamos. O disco de 11 temas revela antes um colectivo com uma visão artística do todo, que prefere o aventureirismo naquele submundo de sintetizadores e de cargas e recargas de beats à oferenda de vários 'Lights and Music' ao virar da esquina.


GP

sexta-feira, 11 de março de 2011

Na Montra

Recensão semanal a vários discos recentes

R.E.M. – Collapse Into Now

Um punhado de boas canções abrilhantadas por uma voz poderosa, por um guitarrista (e bandolinista) com passe para as mais variadas zona musicais e por um baixista/teclista de coros afinados e sensibilidade pop, e uma maleabilidade fácil de toda a nau entre a neura eléctrica e a meditação baladeira, deveriam ser factores suficientes para o convencimento geral... caso não estivéssemos a falar dos R.E.M.

Tal como ao FC Barcelona não basta uma vitória tangencial no relvado, é imperativa uma goleada; ao R.E.M não basta um bom disco, pede-se-lhes que arrasem. No meio de um discogafia tão esplendorosa e numerosa como é a da banda de Michael Stipe, "Collapse Into Now" arrisca o destino ingrato de sombra. À escala de R.E.M., este 15º álbum tem um sabor rotineiro. Mesmo que seja bom.




Lykke Li – Wounded Rhymes

Desde "Youth Novels", passaram três anos, mudou-se o cenário, mas Lykke Li não mudou assim tanto. Foi a Los Angeles, diz a própria, à procura de um encontro furtuito com David Lynch, ou para sentir os deslumbramentos e fantasmas dalguma Mullholland Drive. Não encontrou Lynch. Mas reencontrou-se a si mesma, de volta ao sítio onde estava, entre os sonhos rosados de Björk e os pesados de Fever Ray dos Knife, continuando a ser aquela viking guerreira do tambor, de voz ameninada e som glaciar. O forte conjunto de 10 canções alonga o estado de graça iniciado com o disco estreante "Youth Novels".
Artigo baseado em texto assinado para o Cotonete.


Arbouretum - The Gathering

No território sombrio e infernal dos Arbouretum, a voz colossal do guitarrista David Heumann parece cair directamente do paraíso, imprimindo uma musicalidade ternurenta a um arrastamento que é cavernoso e que tem parentesco com os Black Sabbath e o doom. Nesta espécie de grunge em câmara lenta, 'Destroying to Save' merecia devolver a rádio às apostas de risco no rock. Apenas ficam a perder na versão do tema clássico do country 'Highwayman'. Merecem ser seguidos.



PJ Harvey – Let England Shake

A mutante PJ Harvey é desta vista num inesperado triângulo entre Cocteau Twins, Shirley & Dolly Collins e o general Loureiro dos Santos, mas a milhas de distância de cada um deles. Etérea mas de dimensão demasiado grande para caber num expositor da 4AD; com rock encorpado a mais para se ficar na folk de um cenário bucólico de Jane Austen; e mergulhando na história militar britânica mas com a cabeça de uma recriadora.

Polly Jean volta ao seu conselho de colaboradores intermitentes (os velhos conhecidos Mick Harvey e John Parish, e o menos habitual baterista Jean-Marc Butty) para mais uma vez mudar, espalhando surpresas como o contraponto com uma voz masculina com quem trava os diálogos das 12 novas canções, ou samples de sons étnicos e militares.

Aquela margem indefinida entre rock e folk, com cheiro a scones e a maresia da costa sul britânica, foi palmilhando caminho há alguns anos. E talvez a metade final de "Uh Huh Her" tivesse sido o grande prenúncio para "Let England Shake", a obra maior de sempre de PJ Harvey.



GP