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domingo, 18 de dezembro de 2011

Cesária foi lá ter com elas

Não foi preciso morrer para pertencer ao plano de divas incomparáveis, Cesária Évora já por lá cantava quando cá estava. Tal como as poucas outras. Mas vale a pena recordar um plano igual de incomparáveis. Pode ser este.

Cesária Évora


Amália Rodrigues


Elis Regina


Nina Simone


Bessie Smith


GP

Breve interrupção da contagem dos melhores do ano.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Césaria


Cesária Évora não é mulher de gastar palavras. Prefere guardá-las para o palco, quando tem de cantá-las. Por isso, quando é entrevistada, responde tudo curto e grosso, muitas vezes com um humor tão desarmante quanto sincero, reagindo contra os ‘ralhetes’ que a tradutora e amiga lhe vai fazendo a propósito da sua saúde. Aos 67 anos, Cesária diz que se acostumou a andar em digressão e estar longe do país do seu coração. «Estou tão habituada que é como beber um copo de água», compara.
Mas agora que está a lançar Nha Sentimento, a ‘diva dos pés descalços’ admite que está a reduzir o número de concertos, «para aproveitar melhor a casa». Mas também porque há um ano teve um AVC em palco, na Austrália, embora tenha terminado o concerto sem que ninguém reparasse em qualquer anomalia. Cesária desvaloriza: «O braço morreu. Mas depois o braço voltou à vida». E quando a tradutora lembra que o problema não era exactamente do braço, Cesária arruma a questão: «Eu só senti no braço, não senti nada no coração e se tivesse mal na cabeça não tinha metido estas músicas novas todas na cabeça».
Ainda são lembradas as palavras do médico que a observou, proibindo-a de fumar e beber, dizendo-lhe que teve muita sorte. Cesária puxa de um cigarro e graceja: «Sim, podia ter ficado com a boca à banda a cantar ‘sodade’». Mas não se fica por aí e acrescenta: «Deus deu-me um sinal e eu não vi». E o cigarro lá se acende.
Como facilmente se percebe, a morte não mete medo à cantora. Se lhe bater à porta antes do esperado, garante que abrirá os braços para a receber condignamente. «Não tenho medo nem das coisas ruins, dos maus espíritos ou dos fantasmas. Só das pessoas vivas. Tenho medo que uma pessoa chegue perto de mim e me leve as minhas jóias», confessa.
Desde os 19 anos que da voz de Cesária se ouvem os lamentos de amores desfeitos e da melancolia das ilhas de Cabo Verde, pela mão de mornas cantadas com notável elegância. Desde esse início de carreira, diz que pouco mudou na sua vida. A diferença é que antes «morava com a mãe, ela é que pagava as rendas» e depois de muito ter cantado por todo o mundo comprou uma casa e um carro para dar as suas voltas à noite pelo Mindelo.
Agora, sempre que regressa a casa depois de uma digressão que a afasta por vezes meses a fio de Cabo Verde, diz que assim que põe o pé na porta lhe saem as mesmas palavras: «Aleluia, já fui fazer o que tinha a fazer e já voltei, graças a Deus».

(publicado no semanário Sol em Outubro de 2009)

GF