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segunda-feira, 6 de março de 2023 0 comentários

'Ars domestica'


Sol que vaza por persianas,
um calor senegalesco.
É inútil
dissimular essa melancolia
que invade a tarde.
Crusoé das ilhas de concreto,
tenho a trégua dos livros,
as dobras de sombras nas paredes,
o tempo que isso leva.

Citando Pound,
“a beleza é lenta”.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2023 0 comentários

Ode (mínima) à inércia


Estático,
                  extático.


terça-feira, 2 de novembro de 2021 0 comentários

Euforia asfáltica

 


A estrada se estende,
quilômetro após quilômetro,
chegando a lugar algum.

sexta-feira, 13 de novembro de 2020 0 comentários

Jardim pênsil


Na teia de aranha,
animação suspensa
: uma folha seca.

segunda-feira, 7 de setembro de 2020 4 comentários

O silêncio das sereias


O horizonte sujeito
à perspectiva,

o longe que está
talvez logo ali.

E no cais do porto,
um barco

à espera da mudança
das marés.

sábado, 15 de agosto de 2020 4 comentários

Flavescente


Caprichosamente,
o elenco da tarde
polvilha de mínimos sons
um trinado, um sopro,
um rumor ao longe

céus fartos de amarelo
quase pálido e embaçado
daqueles que só se veem
em obras gastas e por pouco
totalmente preteridas em baús

esmorecendo
vagarosamente
o fluxo dos minutos até
a teia de aranha
cessar de se agitar
e, tanto o inseto condenado
e eu nos darmos como aceito
que nada há mais o que fazer.

domingo, 26 de abril de 2020 0 comentários

Fosco


)
do Diário do Confinamento
(

Tiro meus óculos e o mundo
abranda prontamente:
as quinas dos móveis,
o rosto cansado no espelho,
as notícias ruins no jornal.

domingo, 19 de abril de 2020 4 comentários

Dos copos


)
do Diário do Confinamento
(


Admiro a amnésia dos copos.
Lavados, enxugados, reusados.
Deslembram de sua água,
                              seu suco,
                              seu café.
Recebem e devolvem
quase tudo
que lhes foi dado,
sem rancor e sem remorso.
Guardam para si
só o ínfimo do sucedido,
que desaparece
antes
do próximo gole.


domingo, 4 de fevereiro de 2018 4 comentários

Quintessência


Amo a mera existência
da palavra fim.
Complexíssima ideia
em mínimo termo:
uma sílaba.

quarta-feira, 9 de julho de 2014 12 comentários

Ocorrência


A tristeza crônica de um fim de tarde.
Nuvens criando rugas no céu lilás,
o ar frouxamente obstruído por teias.
Atravesso a hora final do crepúsculo
com a tácita consciência da grave presença do mundo,
com a compacta serenidade de uma árvore. 

Satisfeito comigo, como um hibisco.

sábado, 22 de fevereiro de 2014 10 comentários

Ampulheta

)
Esperando Godot?
(

O tempo se desdobrando
feito um origami às avessas,
num esforço de se fazer
tabula rasa gotejando pelo colo
de uma clepsidra, enquanto
o coração lateja paralelo
às batidas do relógio, deixando
tudo o mais como que contaminado
por analgésicos, sob o extenuante
desânimo do sábado à tarde,
(desincomodado) com o sol
a queimar os móveis da sala de estar.


sábado, 20 de julho de 2013 12 comentários

A estrutura do dia




A tarde ensaia um sol,
enquanto
se despede de um distante
refrão de chuva.
Uma festa
de terra molhada me flui
pelos dedos.
Viajo pelos novos aromas
como ave migratória.

... Decifrando as cicatrizes
deixadas pela correnteza.

quinta-feira, 7 de março de 2013 14 comentários

Mandrágora


Quedo e quedo
                           no dédalo
                           do sono.

A descosedura
                           do dia.

Meu cansaço
                           que me traga
                           até a manhã.


quinta-feira, 17 de janeiro de 2013 14 comentários

Joias litorâneas


Nas praias vivem os arautos do tesouro
: meninos descalços, sem camisa, sem escola,
deuses da beira-mar.
No açoite das ondas nos rochedos,
a oblação do oceano
: estrelas-do-mar, caurins, conchas –
inteiras, infractas, resplandecentes.
 

A possibilidade polida               em turquesas marítimas,                                                           esmeraldas oceânicas,                                                           safiras pelágicas,                                                           variegadas gemas mágicas.

Transubstanciação, sortilégio antigo,

na solidão dos promontórios
eles fazem do que encontram
artesanato, colares e pulseiras.
Abrolham repentinos,
como se surgidos da própria viração.
No comércio convicto de seu engenho,
não regateiam talento, mas o preço,
durando apenas o enquanto
do negócio para, logo em seguida,
deixar apenas rastros difusos
a serem comidos pela próxima vaga faminta.


domingo, 7 de outubro de 2012 12 comentários

Um outro ruído


Sob o silêncio a pino,
caio no regaço da palavra,
que o resto é ressonância.


domingo, 2 de setembro de 2012 10 comentários

Setembro


Domingo de sol
na cidade vazia:
só eu nas ruas.
quinta-feira, 19 de julho de 2012 16 comentários

Nirvana de celofane


)
Nemo saltat sobrius.
Homens sóbrios não dançam.
(

O que eu queria, é claro,
era o ímpeto e o alcance do épico,
música pomposa, o sentido da vida
mesmo que perfumada
pela vastidão da morte.

Queria tudo isso
em três minutos e meio,
na abrangência de um poente.

Deixei-me ficar,
num favor de aragem,
no vermelho da tarde que se recolhia
no céu e me embriaguei
aquém das letras,
além deste idioma
feito de todos os poemas
que já li sobre o crepúsculo.

O que foi escrito
é insuficiente, precário e falto:
a feição do entardecer era
de páginas vazias em antecipação,
o branco incólume.

Sei que a linguagem é uma ameaça
que se abriga no que foi
empenhado nos textos
e que uma névoa de palavras, provocadas
pelos inconstantes ventos do sentido,
nunca fará jus ao que vi.

Mas que era bonito, isso era.

quarta-feira, 4 de julho de 2012 14 comentários

Liturgia


Um fulgor prematuro hesita lá fora,
na noite que esvazia suas estrelas
num borrão de alvorada.
A fina pele de vidro
deixa entrar um gris inegável
às 5 da manhã, que vem
à queima-roupa contra
o guardado escuro em que durmo.
Ganha uma escrivaninha, uma cadeira,
o quarto como que um
excêntrico experimento de desordem,
alvorecendo em pequenas somas
: uma casa, uma data,
um cortinado de clarão do dia.
Talvez seja isso a comunhão legítima,
essa vida que nos permite
a cada manhã
nova hóstia de sol.
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012 22 comentários

Direção



sábado, 4 de fevereiro de 2012 22 comentários

Da litocronia


As pedras escorregadiças, 
lustradas por anos de conflito. 
Aguerridas, iludem o tempo 
enfrentando-o de frente, 
minério contra o vento, 
contra a chuva, 
expondo todos os achaques 
e tormentas que esfolam 
cada aresta com um toque 
não muito distinto do de um Michelangelo. 

Ainda assim, o ar 
é teimoso em sua insistência: 
quer assinalar as pedras 
com a rubrica do envelhecimento, 
como um encarcerado 
que decompõe a idade que lhe resta 
em linhas e traços. Quando o sol 
começa sua descida lenta, 
ornando o ar de ouro e cinabre, 
as pedras recortam a paisagem, 
severas e estoicas, sem saber 
que somos nós 
os interinos no crepúsculo.

 
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