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domingo, 17 de agosto de 2025 6 comentários

Fluvial


 )
Às margens do São Francisco, vinte e cinco anos depois
(

A surpresa, o engasgo do instante. 
Eu simplesmente não estava preparado 
para tanto azul, assim tão caudaloso, 
nem para a majestade de tanta água. 
Meus ribeirões sempre foram cheios de lodo, 
estanques e sóbrios, 
nauseabundos pelo esgotamento 
paulatino e axiomático. 
E agora, esse rio prestes nos olhos 
vem me percorrer com uma força zen 
tornada manifesta, um deleite 
de dilatar as pupilas. 
Agosto estua e tudo 
imprime enredos na torrente
: conluio de fluxos que me fizeram 
desaguar no desenfado destas margens.

domingo, 6 de julho de 2025 10 comentários

Avatar


O papel faz a súmula
do meu segredo
de vida: não
passo de uma
cópia não
autenticada
de mim mesmo.


sexta-feira, 7 de junho de 2024 10 comentários

Bolero


Eu sou depois, 
                       quase quando.
Ela é demais,
                       onde pleno.

                       Estou ainda,
versículo vinte.
                       Ela permanece,
século vinte e um.


domingo, 12 de setembro de 2021 1 comentários

Afora



Respeito, antes de tudo:
gentileza em meio à raiva,
polidez, ainda que irritado
– pois a paixão é mesmo
esse fogo e o amor fica pouco
mais além, entremeado
de paciência e esforço.

Para lá das quimeras
de se estar sempre
certo ou errado,
há um campo
(como já disse Rumi)
e é só aí
que a relação floresce.

domingo, 30 de maio de 2021 0 comentários

Episódio



Deve ter sido
escrita a cinzel
em algum lugar em meus pergaminhos,
num mais fundo em mim,
que estava reservado para outra caligrafia,
após tentames falidos e, apesar disso,
foi se refazendo devagar à sua imagem,
com carinho e simpatia e encanto,
com toda a surpresa que faz a vida valer à pena,
demorando-se nas reentrâncias de um sorriso desbragado
e num olhar que me fita distante e tão aqui.

E então, subitamente, você é
– linda harmonia ainda
que cacofônica –
para todo mundo ouvir
musicada em meu coração.

sábado, 24 de outubro de 2020 0 comentários

Estampa

 


)Feche as cortinas. 
Só a penumbra 
vai dar sentido 
ao que eu disser.(

Eis as notícias:
tanta coisa aconteceu
e as novidades são poucas.

O amor se despersiana
e recolhe,
no espaço escasso de uma tarde,
uma ilíada,
um lapso,
um milagre drástico.

Você,
que se achava não-escrita,
agora é quase
marca d’água, indelével,
e isso é o que fica.

segunda-feira, 21 de setembro de 2020 0 comentários

Amor posto


Você me beija
e em mim se instala,
sem cerimônia.

domingo, 30 de agosto de 2020 2 comentários

Este lado do paraíso


Não o beijo,
mas o calor dos seus lábios em minha pele.
Não o físsil de suas pernas,
mas o compromisso de mais estros arraigados.
Não a cópula,
só o cio que vaga lasso pelo corpo.
Cintila na íris o flerte,
dança de subentendidos.
No duelo com o desejo,
saco antes da dúvida:
com a língua em riste,
mergulho minhas papilas
numa galeria de obscurantismo
e viscidez, provo do sabor da fruta
à véspera do próprio açúcar.

De tal modo amo,
que faço o próprio Eros
abrir com faca
o esplendor de outra manhã.

domingo, 28 de junho de 2020 0 comentários

Intervalo


Eurritmia:
seus seios,
e minha mão
no entremeio.

domingo, 18 de agosto de 2019 2 comentários

Análogas



)
Para Indi,
admirável em qualquer idade
(

A menina agrilhoada
na mulher despontada:
eis a luta travada.
A menina é arteira, sagaz,
dribla a mulher sem deixar-se tocar.
Mas a mulher é astuta,
troça da menina,
deixa pensar que se engana.
A menina apronta. A mulher se revela.
Peleja em vão, luta desconexa, sem fáceis triunfos.
Mulher, menina, ambas a mesma...
Subversivas? Desejantes!



segunda-feira, 22 de julho de 2019 2 comentários

Cerco



Pervicacíssimo,
seu perfume
ao derredor.
Confinamento,
que é só fuga
por todos

os lados.


sábado, 9 de dezembro de 2017 11 comentários

Procura-se



Procura-se um amigo. Não precisa ser tremendamente especial, basta ser humano. Precisa saber falar e calar – sobretudo, ouvir. Tem que gostar de poesia, da madrugada, do sol, da lua, do canto dos ventos. Deve ter ressonâncias e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar. Não é preciso que seja puro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo, e no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Deve gostar de ruas desertas, de poças d’água, de beira de estrada.

Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos e dos diferentes, e que saiba conversar sobre qualquer coisa. Um amigo para não enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, anseios e realizações, sonhos e realidade. Um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque nos chama de amigo e se comove quando chamado assim. Alguém que nos dê a consciência de que ainda estamos vivos.

Será que essa pessoa é você?

quarta-feira, 17 de maio de 2017 4 comentários

Epifania

                                                          
)
Uma meia-noite de outono junto às janelas
(
 
A vida dentro
dos fones de ouvido
: o som
moldando-se
às profundezas
dos meus labirintos,
as pernas fluindo
pelo quarto,
o mover-me
para lugar
nenhum –
paisagem sem dúvida
alguma.

 
domingo, 18 de setembro de 2016 10 comentários

Girassol


Havia o escuro,
mas eu não sabia onde:
seu rosto era o sol.


sábado, 1 de agosto de 2015 14 comentários

Da ordem do imprevisível


Trilha sonora ao fundo: 
                                      
                                      a cadência dissilábica do coração, 

um abuso de entrelinhas. 
                                      
                                      O monjolo dentro do peito, 

minha taquicardia, 
                                      
                                      não quer dizer nada? 

Aqui, 
                                      
                                      dentro do lado de fora, 

entregue à asfixia, 
                                      
                                      a relação é outro idioma.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015 12 comentários

Tangível


Seus dedos fazem
odisseia pela topografia
de meus poros, minha tez
de pergaminho. Vagueiam,
em romaria, pelas subidas
e depressões das cordilheiras
em minhas costelas, cumes de ossos,
decodificando os inchaços
e ondulações da epiderme
como se fossem Braille.

Estes entalhes na textura
de dobras e vincos
são as chancelas que o tempo me deu,
breviário cunhado
em escrituras de cicatrizes.

Seu afago cigano palmilha
o adobe exausto da minha pele,
carta geográfica despida de invólucros,
e me torna um frêmito de expectativas,
Kundalini
a percorrer a espinha.


domingo, 23 de novembro de 2014 16 comentários

Moratória


Não me importa
se você vai demorar
: não tenho pressa.


quarta-feira, 11 de junho de 2014 12 comentários

Trama



Desatados os nós
o que nos resta
é a beleza dos laços.


quarta-feira, 21 de maio de 2014 16 comentários

Despenhadeiro


“Escolher alguém é desvendar uma vida inteira.
E convidar a pessoa a desvendar a sua”
(Hanif Kureishi)


O vento põe calafrios
na alma das vidraças,
faz a ecometria do silêncio.
A pupila exercita a orgia
do ver olho no olho.
Você está mais linda do que de costume.

 
(Não há limite à beleza,
apenas proporções de olhares).

Seu colo é
berço e manjedoura
no desabrigo desta noite,
a diferença entre estar
presente e fazer companhia.

Quem nos dera fosse sempre assim,
essa quietude e contento. Há dias de liça,
rusgas nos pormenores da rotina,
azinhavre na ternura.
Já vivi isso antes e sei de toda a dor,
como tudo acaba.
Seus olhos craseados
ainda me fitam e contam-me
do contrário: toda a perfeição
de me saber adequado
e inequívoco aqui, ao seu lado.

Apesar dos avisos,
esqueço o que sei,
arrisco-me às consequências,
quebro os preceitos.

Minha cremnofobia que se dane,
quero é mais me atirar
nos braços desse precipício.


sexta-feira, 14 de março de 2014 14 comentários

Poética


As falácias do poema
sob o laço da palavra.

Os cimélios da palavra
sob a seda do poema.

As delícias do poema
sob o foro da palavra.

Os negócios da palavra
sob a luta do poema.

As penúrias do poema
sob o jugo da palavra.



 
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