Numa tarde de Dezembro muito fria, enevoada no meio duma cidade barulhenta e apressada pouca gente reparou o que estava a suceder num pinheiro muito alto. Era um soberbo pinheiro mais velho que os altos prédios ruas, praças e avenidas mais velho que toda a gente que ali passava apressada a correr para o autocarro para o buraco do metro para as linhas do comboio para as luzes do hipermercado. Na sua copa imensa feita de mil abraços abrigo de muitos mendigos encosto de muitos velhos cama de muitos pássaros sombra de namorados uma pomba encarnada que ali estava aninhada pôs-se a arrulhar de mansinho. Nessa tarde de Dezembro pouca gente reparou que um pombo aflito sobre o pinheiro voou e deu um beijo na pomba que arrulhava de mansinho olhando embevecida o seu filho pequenino: um pequeno coração batemdo muito apressado dentro de um pequeno ninho. poema de António Mota ilustração de Kim Malek
Passa uma borboleta por diante de mim e pela primeira vez no Universo eu reparo que as borboletas não têm cor nem movimento, assim como as flores não têm perfume nem cor. A cor é que tem cor nas asas da borboleta, no movimento da borboleta o movimento é que se move, o perfume é que tem perfume no perfume da flor. A borboleta é apenas borboleta e a flor é apenas flor. Alberto Caeiro