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quarta-feira, 26 de abril de 2017

A Dendrolatria

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Para ser grande, sê inteiro: nada
          Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
          No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda
          Brilha, porque alta vive 


Ricardo Reis, in "Odes" 
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Descobri a palavra há poucos dias, através de António Amaro das Neves, no “Memórias de Araduca”, magnífico blogue sobre a sua cidade, Guimarães (também na barra lateral, em ligação permanente). Neves, por sua vez, aprendeu-a do grande Ruben Fonseca, outro dendrólatra confesso, e escreveu sobre isso a propósito de mais um projecto de atentado ambiental na sua cidade.
Enquanto isto, na Figueira discute-se (pouco, mal e porcamente, como sempre) a proposta do novo PDM do presidente Ataíde - uma espécie de nova jihad dos novos patos bravos à cidade - ainda que com as mesmas habituais cedências a interesses instalados e os mesmos concomitantes atentados ao ambiente, ao bom-senso e ao bom-gosto. Eu tenho-me dedicado à pintura. Encontrei um novo motivo. Decidi pintar uma árvore; não há muitas no meu trabalho e não quero merecer o reparo terrível que alguém apontou a Camilo, ”não existe uma única árvore em toda a sua obra”. Klimt, no início do século vinte, fez maravilhas com motivo tão prosaico. E Hockney, recentemente, também. A foto acima documenta o quadro numa fase ainda incipiente (o meu trabalho é muito lento, por vezes penoso e absorvente, o que explica o relativo abandono do blogue, pelo qual desde já peço desculpa aos seus seguidores mais fiéis).
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Confesso que sempre gostei de árvores. No princípio, na infância, com uma muda fascinação e, com os anos, com profundo respeito e por fim com uma autêntica e sincera devoção. É verdade, sou um dendrólatra. Não o escrevo porém, agora que conheço a palavra, com particular orgulho. Não me orgulho aliás por ser como sou, limito-me a sê-lo. Como as árvores.
O segredo, e o mistério, das árvores é o tempo – e o silêncio. Como da vida, e da pintura. Esse mistério, ou segredo, é uma longa paciência da qual só se retira algum exemplo vivendo, observando, reflectindo, fazendo.
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O quadro que tenho vindo a compôr – é disso que se trata, de uma composição – é pois sobre esse objecto da minha idolatria: uma única árvore (na verdade, uma das minhas nespereiras) com todas as suas folhas, as vivas e as mortas. Num rectângulo em pé, o tronco cresce-lhe desde a base e a copa ocupa-lhe dois terços da superfície superior tomando a forma vaga de um quadrado, deitado, do qual pende um baloiço. O todo quase só numa cor, ainda que em todas as suas declinações tonais, com breves e pacientes pinceladas em sucessivas e diáfanas velaturas.
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Mas não é apenas isso. Tal como a imagem que uma árvore deixa ver de si própria é apenas metade (a outra está subentendida na paisagem, subterrânea), nesta pintura também estou eu, inteiro, a minha vida, a minha casa, enfim o meu caso - ainda que também não à superfície.
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E este quadro, além de ter sido o feliz achado de um novo motivo, é também um lamento - um triste e desalentado lamento - por viver num tempo, numa cidade e entre uma gente que convive tão alegre e tão pacificamente, em alarve harmonia, com uma classe política tão velhaca e tão medíocre. E também um protesto - contra a estupidez de um poder autárquico comandado por um capitão Ataúde com o freio nos dentes para aterrar toda a várzea da cidade em grandes superfícies comerciais; um poder local cuja visão de pugresso se permite - pla voz inefável de Ana Carvalho, a vereadora do urbanismo, a propósito da alienação dos terrenos do horto municipal a um empório de mercearias - esta abóbrinha de auto-satisfação imbecil e desmiolada que não ficava mal a um especulador imobiliário: “Quanto mais se valorizarem os terrenos, melhor para a câmara”.
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Lamento que é apenas um suspiro, ou murmúrio, como os das árvores, e sobre cujos possíveis efeitos, ou repercussões, confesso, não tenho ilusões. Num concelho cujo município tem cada vez menos funções (o abastecimento de água potável, a recolha do lixo e agora até já o tratamento dos espaços públicos e do património ambiental, são negócio de privados) a sua única atribuição parece ser a recolha de fundos (a venda de património, como uma agência imobiliária) para pagar os serviços.
A verdade é que o povo não lê. O povo nem sequer - diverte-se na lama, como referiu Cesário Verde – refocila no futebol e, entre bjecas, tramossos e minuíns, na vida íntima das celebridades, na sordidez dos casos de polícia, nas gordas do Correio da Manhã, nos milagres dos pastorinhos, no Face-Book, passeia a família no xópingue ao Domingo, apoia a selecção e festeja o 25dAbril com corridas de carretas.
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Quanto a mim, ainda que não tenha atingido ainda a sua sabedoria, tento fazer como as árvores. Elas dão as suas folhas, flores e frutos sem pensar a quem ou para que possam servir. Sem ambição nem esperança, sem religião nem moral - até ao apodrecimento, esse fim, ou princípio, inexorável de tudo.
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terça-feira, 20 de outubro de 2015

a Luaty Beirão

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Há quem ache estranho o silêncio dos “intelectuais”, sobretudo dos artistas angolanos, a propósito do suplício “voluntário” de Luaty Beirão - o activista angolano em greve de fome numa prisão de Luanda há 30 dias. Está detido preventivamente desde Junho com outras quatorze pessoas acusadas de ”actos preparatórios de rebelião e atentado contra o Presidente.
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Eu, como tenho opinião e não me importo de a usar, também acho. 
O silêncio das elites intelectuais é, de facto, estranho. Não apenas sobre o causo específico de Luaty, e de cada um dos seus quatorze companheiros, mas sobre a sua causa: a de um estado cujo regime político que, suportado por uma elite inepta e venal, em quarenta anos de independência já possui o exército e a polícia mais bem equipados de toda a África mas não foi sequer capaz de tentar implantar o mais tímido esboço de um sistema de saúde ou de ensino universais, ou uma simples estratégia de distribuição de correio em todo o seu território. Um estado de um país estupidamente rico de recursos tornado refém de uma elite cujo transformismo cínico passou, em poucos anos e sem pruridos nem sobressaltos de alma, de um marxismo esquemático à mais pertinaz e sôfrega apropriação primitiva de riqueza - sonegando-a a todo um povo que definha inerme na mais infame miséria e degradação.
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Claro que nada disto seria possível sem a caução internacional dos santos mercados e sobretudo sem a colaboração interessada da elite portuguesa dos negócios, cuja corrupção moral e cupidez sem escrúpulos a leva, aceitando proveitosos dividendos e comissões, a acolher no seu seio os investimentos de figurinhas mais ou menos obscenas ou sinistras como Isabel dos Santos, Álvaro Sobrinho, seus consortes e generais.

Neste contexto, o silêncio de certos artistas não é tão estranho como isso. Colaboracionista ou apenas pusilânime, trata-se afinal da posição natural dos que também prosperam - como jacarés na água turva deste rio podre de escravatura. 

É contra o sórdido festim de fusões, aquisições, kuduro, fadinho e concursos de misses e contra o glamour de celofane desta nova high-society luso-tropical que se insurge a gesta patética e desesperada de Luaty e dos seus companheiros. E esta pequena obra, improvisada, que lhes dedico. 
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sexta-feira, 28 de junho de 2013

Retrato de homem sentado com cachorrinho preto e quadrado branco

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O meu amigo Carlos Figueiredo é, talvez, o mais antigo e sincero admirador do meu trabalho. Desde cedo o demonstrou enfaticamente - o que muito me honra, sensibiliza e desvanece. Num meio cultural e comercial (o dos apreciadores de arte na Figueira da Foz) adverso – composto em partes quase iguais por ineptos pretensiosos  imbecis pedantes, saloios cínicos, chico-espertos e bimbos armados aos cágados, enfim pela fina-flor da mediocridade - Carlos é um caso raro, único, um verdadeiro connoisseur (ele reconhece um bom quadro até pelas costas e um bom desenho só pelo cheiro).

Aqui há tempos, cerca de dois anos, propus-lhe um negócio - uma troca de serviços (Carlos também é um artista, um vitralista de mérito e um moldureiro exigente e competente) e imediatamente ele cumpriu a sua parte. A minha, a execução de dois retratos, cumpri-a apenas pela metade. A parte que faltava é o quadro acima reproduzido, que concluí há poucos dias, um retrato do próprio Carlos com o seu melhor amigo, como ele me pediu. Trata-se de uma pintura minimalista, quase um desenho, a preto e branco, sem lambidinhos nem baboseiras – o cão, num glacis de preto (sucessivas velaturas de tinta muito diluída); o homem, na mesma técnica mas às avessas, em sucessivas e espessas camadas de branco sobre o fundo neutro, aos quais acrescentei apenas, no canto inferior direito, um pequeno quadrado, branco - um pormenor que muitos acharão anedótico ou simplesmente decorativo mas de que o Carlos saberá decerto tirar algum deleite estético e óbvio proveito intelectual, interpretando- lhe as implicações.

As razões da minha infame e imperdoável procrastinação devem-se contudo a questões existenciais, que em mim são recorrentes, sobre a utilidade da arte e da prática da pintura num meio tão hostil a manifestações do espírito: pintar para quê? - para quem?
Porém, ao retomar os pincéis e pondo-me ao cavalete, aproveitando uma avaria no computador que me distanciou da bloga e das caricaturas, depressa essas dúvidas se dissiparam e descobri, quiçá, uma das mais belas utilidades da pintura: a expressão da gratidão.


Continuo no entanto a pensar que é uma lástima que uma arte tão útil seja cada vez mais selecta. Mas a verdade é que são bem poucos os que, como Carlos, lhe conhecem os códigos e lhe tentam compreender os mistérios.
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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

O gato e as máscaras sarcásticas


“Tenho horror às pessoas que falam do “belo”. O que é o belo?
Na pintura deve falar-se de problemas. Quadros não são mais que pesquisa e experimentação. Nunca pinto um quadro como obra de arte. Todos são pesquisas. Pesquiso incessantemente e em toda esta procura contínua está um desenvolvimento lógico. Por isso numero e dato os quadros. Talvez alguém um dia se sinta grato por isso. Pintar é uma questão de inteligência.”
Pablo Picasso

Este quadro é um “desenvolvimento lógico” de uma série de pinturas em que trabalhei entre 2004 e 2006 (esta é uma delas, sigam os links).
Esteve virado contra a parede do meu atelier, desde então por concluir. As soluções que eu ia achando pareciam-me sempre insatisfatórias para os problemas que a sua concepção havia suscitado. - Até que, na semana passada, “o resolvi” (como diz o meu amigo Filinto Viana).
A composição representa um gato sobre uma manta, entre dois grupos de máscaras.
O motivo geométrico da manta escocesa é representado linearmente (a duas dimensões) e é, voluntária e maliciosamente, uma reminiscência do padrão das composições de Mondrian, mas em negativo; Isto é, a manta não é aqui seguramente um refúgio de conforto e de harmonia para o desconcerto do mundo.
O padrão assim “invertido”, desenhado numa ligeira diagonal, instila na composição um desequilíbrio, uma falha que potencia uma pulsão inquietante e contamina todo o conjunto: - os dois grupos de máscaras, (vagamente ameaçadores ou trocistas, numa amálgama indistinta de brancos, cinzas e azuis quase neutros); o fundo (premonitório, na sua gradação de azuis violáceos) e a mancha vermelha (violenta e afirmativa, que desenha o gato como um grito).
O contraste entre a pintura plana (da reprodução da manta) e resto da composição, ilustra o meu conceito da pintura como um lugar onde a imaginação sublima os fantasmas da realidade.
Penso que esta pequena tela testemunha também - com alguma (auto) ironia, três ou quatro tons surdos e um acorde estridente - duas das minhas afinidades com o artista belga James Ensor: o mesmo fascínio pelas máscaras e um (no meu caso, crescente) horror às multidões.
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Ao alto, O gato e as máscaras sarcásticas, acrílico s/ tela, 60x60 - 2004-2009
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segunda-feira, 23 de junho de 2008

Natureza morta com quadrado preto e luz eléctrica



Na Primavera de 1990 executei uma série de pequenas pinturas que acabei por expor, em Agosto e Setembro desse mesmo ano, na então Galeria do posto de Turismo da Figueira da Foz.
Tratava-se de exercícios, não de estilo mas de esforço, com os quais pela primeira vez me confrontei com os mistérios da natureza morta. Uma disciplina que permite a sublimação das subjectividades resultante da carga equívoca, de certo modo transcendente, que certos objectos carregam consigo quando encenados.
Estas naturezas mortas permitiram-me uma abordagem reflexiva sobre os sentidos da imagem. E também me permitiram usar uma bagagem de citações, alusões, ironias e pequenos sarcasmos no sentido da arte pela arte, sem pretensões decorativas e, muito menos, programáticas. Infelizmente, dessa série de 14 ou 15 pequenas aguarelas sobre platex, esta é a única que me resta. As outras foram vendidas, destruídas ou perdidas em mudanças de atelier. Delas não guardei sequer memória fotográfica.
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terça-feira, 27 de novembro de 2007

Nocturno, maternidade com gatos/ 2004

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Esta tela de 2004 pertence a uma série de pinturas, de que já vos falei, e que dediquei a uma reflexão sobre o pintor e a pintura. O artista e a sua obra, não a mundana e algo frívola temática do artista e o seu modelo.
Começou aqui, continuou por aqui, e culminou aqui.
Tratam-se de exercícios de manipulação de imagens, cujas sombras ou reflexos se transferem e se cruzam de plano em plano e sucessivamente se transfiguram numa representação ilusionista. Com todos os seus sentidos, duplos (e dúbios).
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segunda-feira, 12 de novembro de 2007

O nu e a máscara, 2006

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(acrílico s/tela, 80x100)

“a pintura é a arte de escavar superfícies”
Paul Claudel
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Nesta pintura, de 2006, embora ao nu e à máscara esteja atribuído todo o protagonismo do primeiro plano, é mesmo do fundo que vem (talvez) a revelação.
Do fundo, de muito para lá de uma superfície escavada de acordes de vermelhos intensos, laranjas, terras, rosas e ouro – há, num outro fundo, azul e negro, outro personagem, que parece observar.
O recorte, a contra-luz, da figura do artista que à porta observa a obra, será apenas um fundo literal, ou – como num jogo de espelhos, apenas uma imagem reflectida do pintor ou do espectador (vouyeur) que, assim, num ilusionismo perverso e manipulador é absorvido pela pintura? – verdade seja dita que, se um nu revela, uma máscara oculta ou, pelo menos, disfarça; dissimula.
Confesso que esta perversidade algo intelectual da “arte pela arte” já a perpetrei aqui, e aqui, e em outras ocasiões que vos mostrarei.
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Reconheço que o meu fascínio pelos enigmáticos, ocultos ou dúbios sentidos da imagem é uma questão de temperamento e também da minha devoção por artistas como Velásquez, ou de Chirico ou Picasso, cujas obras são exemplos manifestos contra a banalidade de todos os sentidos óbvios e literais.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Nu deitado, 1992

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(acrílico s/cartão)
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Um apontamento rápido, “para limpar pincéis”. Pinceladas grossas e tonalidades algo saturadas. Da mesma época deste, deste e deste.
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terça-feira, 11 de setembro de 2007

os pombos verdes

“A pintura compreende três partes principais - desenho, proporção e cor.”
Piero della Francesca

A pintura compreende três partes principais - desenho, proporção e cor
Piero della Francesca
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Eis, como prometido, a outra parte do teste que a mim próprio fiz, em 2000: executar duas pinturas distintas utilizando exactamente a mesma paleta. Queria provar ser capaz de uma pintura leve e ligeira, quase pueril. Queria fazê-lo com os mesmos azuis, verdes, violetas, rosas e brancos com que faria um dos meus difíceis, carregados, inquietantes e habituais quadros.
Enquanto neste, o motivo é a infância, reencontrada através da emoção da paternidade e a petite sensacion é redonda, suave, calma e cálida, em os pombos verdes, o motivo é também, de certo modo, a infância, mas procurada e reminiscente. E aqui a sensação é fria e ânguloso e estridente o desconforto.
Penso que a resposta à questão da temperatura, intensidade e qualidade da emoção numa pintura, se pode sempre encontrar no exemplo e ensinamentos dos antigos, como a frase em epígrafe tão bem ilustra.
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quinta-feira, 30 de agosto de 2007

máscara, 1981

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(acrílico e carvão s/aglomerado 40x60)
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Esta pintura é a mais antiga que eu conservo. Trata-se da minha primeira máscara, “pintada”. Data de muito antes de as máscaras se terem tornado motivos recorrentes. Tenho um grande carinho por ela, apesar de todas as (visíveis) fraquezas, como um pai por um filho mais frágil.
Como comemorei um destes dias o meu 45º aniversário, deu-me para o sentimento. Sempre são vinte e seis de pintura.
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sábado, 25 de agosto de 2007

retrato de mulher enquanto espera, 2000

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(acrílico s/tela - 60x80)
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Este quadro é um de uma série de estudos que fiz por esta altura, cujo motivo era a figura contra o fundo, neutro. Este é outro exemplo. Embora, também neste caso, a qualidade da foto deixe a desejar, ainda assim permite ver o que me interessava nesta série de pinturas: a máxima expressividade com o menor número de meios. Neste caso a figura destaca-se da superfície, não através de agudos contrastes cromáticos mas apenas pela gravidade do desenho.
O jogo de contrastes entre uma trama suave de tons (que vai do branco a tonalidades glaucas e cinzas passando pelo amarelo pálido e o rosado) e o desenho, algo ríspido e vigoroso - atinge o clímax no regaço, no centro visual da pintura, onde a suavidade e leveza dos tons aplicados se encontram com o escorço das mãos (como uma chave de ouro) a carvão, numa execução quase expressionista.
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Creio que existe nesta pintura uma tensão surda, não muito óbvia, mas latente.
Esta tensão que persiste, inquieta e subterrânea, justifica bem o título que escolhi para ele. E também testemunha a minha completa incompetência para a pintura ligeira, e como são sempre vãs e frustradas as minhas tentativas mais amáveis.

sábado, 18 de agosto de 2007

mulher sentada com máscara negra e cachorrinho branco

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(acrílico s/tela, 50x70)

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António Menano, que já por diversas vezes se debruçou sobre o meu trabalho, é ele próprio, além de poeta, também um pintor e tem uma magnífica exposição da sua pintura (até ao dia 31 de Agosto) na Casa Museu Bissaya Barreto, em Coimbra.
Foi com António Menano à frente dos Serviços Culturais da Câmara Municipal da Figueira da Foz (no final do consulado de Aguiar de Carvalho), que o Museu Santos Rocha conheceu os seus melhores tempos, no que diz respeito à atenção às artes (e a artistas vivos).

É dele o texto que se segue, sobre o meu trabalho e, um pouco, sobre esta pintura. Foi publicado no semanário “O Figueirense”, em 2001

Sobre Fernando Campos

Há alguns anos, Fernando Campos ofereceu ao Museu Municipal um trabalho intitulado “A Batalha do Huambo”. Pintado a acrílico sobre tela, de grande formato, a tela foi juntar-se a outras também oferta de pintores, cujas mostras eu “patrocinara”. Forma de divulgar valores locais, ou radicados na nossa cidade, de retrospectivas de Mário Silva a Michael Barrett, e de tantos outros.
Serão, pois, sobre Fernando Campos, radicado na Figueira da Foz após a descolonização de Angola, também do grupo “resistente” do atelier do Bairro Novo, as palavras deste texto. Não estamos perante um autor de compromissos ou cedências. Diz não ao fácil, ao imediato, ao vulgar, mesmo ao comercial. Não pactua com o “gosto” aquisitivo mais interessado em decorar as paredes da casa, da empresa, ou do comércio, do que em compreender, ser a arte mais do que cópia do real, ou o “bonito”, de que Picasso tanto fugia a sete pés.
Na pintura de Fernando Campos encontraremos o gosto pelo clássico. Miguel Ângelo e Rembrandt influenciaram alguns dos seus trabalhos. Recentemente no Art à La Carte II, do Kiwanis Clube da Figueira, expôs um quadro que fazia recordar “Leda e o Cisne” de Miguel Ângelo (1529-1530), que, posteriormente, Augusto Hesse desenhou, e Lemercier litografou, em meados do século XIX. Aparecia na obra de Fernando Campos, mais realista, no sentido “baconeano” do termo (Bacon será outro dos autores “fetiche” de Fernando Campos), uma sensualidade ilustrada pela justaposição do cisne (ou pato), ao corpo feminino.
Não se saberá hoje, precisamente, o que é a arte. Mais do que tudo será libertação, mas será uma produção solitária a cuja acção poderemos “aplicar” as palavras de Lukacs: “o homem só age realmente se imagina, pelo menos subjectivamente, um significado para a sua actividade”. Outro quadro de F. Campos, intitulado “Retrato de mulher sentada com máscara negra e um cachorrinho branco”, dá-nos pistas para entendermos a sua arte. Nele há o mistério (a máscara), a cor negra (as raízes africanas do autor), a mulher (presença constante nos seus trabalhos) e um cachorrinho (que poderá simbolizar a pureza, a busca da simplicidade).
A unidade dos trabalhos do artista, sejam eles colagens, naturezas mortas, figuras femininas, será a metamorfose de quem, ao mesmo tempo, oculta e desvenda.
Não estamos perante uma pintura de fácil adesão. Não encontraremos nos trabalhos de Fernando Campos artifícios, ou a fácil “cópia”. A sua posição é feita da harmonia entre a experiência e a técnica, ambas procurando transgredir, mas sem deixar de estabelecer a relação entre a emoção, e a mais fria racionalidade.
Nikias Skapinakis disse: “Pode considerar-se que o acto criador é egoísta, desinteressado da comunicação e da acessibilidade da obra”. Nada mais verdadeiro, em relação aos trabalhos de Fernando Campos. Neles, o amor, a dor, a solidão, e até a morte, são momentos representados no impulso criador.
Mas não nos admiremos. O autor está em boa companhia, de Durer a Ribera, de Rembrandt a Goya, em cujas obras a morte inspirou alguns dos trabalhos.
A beleza não reside só no cor-de-rosa, ou no azul, ou no verde. Considerados, isoladamente terão a sua dinâmica.
O “extravasar de emoção” de que Ricardo Reis acusa Álvaro de Campos, pertence à obra de Fernando Campos. Talvez para alguns fria e cerebral, mas, principalmente uma “viagem” sem paisagens que não sejam (quase) as interiores.

António A. Menano in "O Figueirense", de 2001/10/12

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terça-feira, 14 de agosto de 2007

menina com pomba, 2000

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(acrílico s/tela 40x60)
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Ao meu trabalho, desde sempre, malgré moi, tem sido atribuída uma aura de “difícil” ou “pesado” e à minha paleta conotada uma pulsão “inquietante” ou “carregada”. E outros mimos, que se colam aos artistas como etiquetas.
Embora sinta uma certa incomodidade com pinturas leves e muito decorativas e sempre tenha manifestado total inaptidão para a pintura ligeira, por esta altura (2000) quis fazer-me um teste: executar duas pinturas distintas utilizando exactamente a mesma paleta. Queria provar ser capaz de uma pintura leve e ligeira, quase pueril. Queria fazê-lo com os mesmos azuis, verdes, violetas, rosas e brancos com que faria um dos meus difíceis, carregados, inquietantes e habituais quadros.

Para este escolhi como motivo uma menina brincando com uma pomba (na época eu gozava das delícias da paternidade, ainda recente).
Para o outro, os pombos verdes, que vos mostrarei em breve, o motivo é também, de certo modo, a infância. Ou pelo menos a sua memória.
Será a subjectividade uma questão unicamente da cor? Ou também da modulação, da intensidade, da intenção, da proporção e do desenho?
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domingo, 12 de agosto de 2007

disparate, 1987

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(acrílico s/tela 45x53)
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Possuo desta pintura apenas o registo fotográfico, dado que já não existe. Na mesma tela já pintei um outro.
Embora seja um trabalho algo atípico, tem as mesmas características do meu trabalho nesta época: fundos escuros e uma paleta muito contrastada. Trata-se do testemunho de um devaneio, um sonho de improviso, um disparate. No sentido dos de Goya: a materialização da visão de um pesadelo.
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quarta-feira, 8 de agosto de 2007

para Duchamp, Marcel /2006

Isto não é uma imagem.
É uma reflexão irónica sobre a imagem (eh, eh, eh!).


(acrílico s/tela, 42x63)

Isto não é uma imagem.
É uma reflexão irónica sobre a imagem.
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Em 1911, o célebre quadro de Leonardo havia sido roubado do Louvre, produzindo um grande burburinho e projectando para o grande público o prestígio “intocável da obra-prima de Leonardo.

Em 1919 Marcel Duchamp acrescentava uns bigodes à reprodução, em postal de 19,7x12,4cm, da Mona Lisa, e a lápis escreveria por baixo: L.H.O.O.Q., o que, lido depressa e em francês, é o equivalente fonético da frase: “Elle a chaud au cul”, produzindo uma graçola obscura e algo grosseira à obra de Leonardo e também “uma das obras de arte mais influentes do século XX”.

Ah! E leiam isto, sobre a crise da arte actual.

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segunda-feira, 6 de agosto de 2007

interior e enigma com chave de ouro, 2004

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(acrílico s/tela, 60x60)
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Da série que dediquei, em 2004, a uma espécie de reflexão sobre os reflexos, sombras e efeitos subjectivos da imagem e da pintura.
Este é talvez o mais ilusionista, com os seus diversos planos que se sucedem apelando o olhar “para dentro” e acabando por devolvê-lo ao espectador.
As imagens vão-se penetrando, respondendo a um apelo ilusionista, de certos efeitos simples, compondo um labiríntico estudo que mais não é do que uma reflexão da pintura sobre si própria e o seu poder de “manipular” os olhares… E talvez também sobre o absurdo e o não-sentido da vida (de que falava de Chirico), cuja consciência activa nos predispõe a sensibilidade para o sonho e para… a poesia e a arte.
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sexta-feira, 3 de agosto de 2007

retrato de personagem setecentista, 2007

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(acrílico/tela 40x60)
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No passado dia 29 de Julho estive em Cantanhede, na Expo/FACIC.
A Magenta, associação de artistas da qual faço parte, teve por lá um stand. Durante os dias da feira, a Magenta fez questão de ter dois artistas por dia pintando “ao vivo”. No Domingo, calhou-me a vez a mim e a Filinto Viana. Embora não aprecie grandemente estas sessões, de um certo exibicionismo vazio, aceitei participar.

Talvez por estar em terras do Marquês (não o divino, apenas o de Marialva) eu quis fazer algo completamente diferente...
Está bem, o homónimo vinho da cooperativa local deve ter tido alguma influência.
Tinha levado de casa um saco com materiais de pintura, entre os quais uma velha espátula que nunca tinha usado, e embora estivesse uma crua luz solar e uma canícula de ananases, o que me saiu foi algo sombrio e barroco, mais tenebrista que flamejante.

No dia seguinte, já em casa, é que eu me apercebi do alcance da coisa: às vezes, muitas vezes, o que realizamos é apenas um reflexo difuso do que vimos. E o que eu vejo quando olho para este personagem setecentista, é um reflexo difuso (pela luz quente de Cantanhede ou talvez pelos vapores do Marquês de Marialva, que acompanhou a refeição) da magnífica pintura de Frans Hals. É dele o retrato mais conhecido de Descartes. E não só. O mestre holandês para quem o gesto e os seus vestígios tinham uma importância que só foi reconhecida muito mais tarde.
A sua técnica, de numerosas pinceladas justapostas e aparentemente apressadas permitiu-lhe captar instantâneos muito antes da invenção da fotografia e muito mais palpitantes de vida e de emoção do que esta. E ainda ser um dos percursores do impressionismo, ao aliar a esta precisão a subjectividade. Hals foi dos primeiros a não disfarçar a pincelada usando lambidinhos e vernissages. Estes vestígios do gesto criativo permitem adivinhar, ou ver, não apenas a emoção do artista (na versão dos românticos) mas sobretudo o seu raciocínio.
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quarta-feira, 1 de agosto de 2007

interior com mesa e 4 máscaras, 2000

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(acrílico s/tela 81x60)
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Desta tela, que vendi ao meu amigo Armando Loureiro, guardo uma satisfação e um remorso. Trata-se de mais uma variação com máscaras que fiz por esta altura.
Embora a composição seja equilibrada, gosto mais dos fundos que da frente. Isto é: embora a concepção do desenho desta obra seja uma curiosa sinfonia de diagonais e o contraste com as verticais e horizontais cruzadas, em brancos, cinzas e negros do fundo seja conseguido – acho demasiado convencional o tratamento pictórico (os objectos demasiado delimitados e o acabamento lambidinho) que reservei à figura do primeiro plano, a mesa e os objectos (como um actor com os seus adereços à boca de cena).
Penso que o jogo dramático entre os planos sairia mais reforçado se o primeiro plano (o actor) tivesse a mesma qualidade contrastada e expressiva que o fundo (o cenário).
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sábado, 21 de julho de 2007

Vanitas com dama de ouros, 2003

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(acrílico e colagem s/tela - 40x40)
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Mais uma variação de um tema recorrente.
Esta versão é da mesma época da Vanitas com quadrado azul.
Partilham, embora aqui mais acentuado, o mesmo registo livre e improvisado. O seu ar inacabado e a utilização descomplexada da colagem, contribuem para acrescentar à triste ironia que emana do tema a veemência de um sarcasmo que julgo bastante evidente.
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quarta-feira, 18 de julho de 2007

2 bêbedos e 4 pássaros de Braque

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(acrílico e colagem s/tela 81x100)
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O registo fotográfico que possuo desta pintura é de péssima qualidade. Fica contudo como um testemunho de um sério divertimento, de certo modo em homenagem a Georges Braque. Ele foi o príncipe do cubismo, a mais radical de todas as vanguardas do século vinte. A que mais irremediavelmente influiu a nossa forma de olhar.

Braque foi toda a vida fiel à maneira cubista de fragmentar o espaço.
Foi o único dos cubistas que nunca cedeu ao apelo de Derain de "regresso à ordem", após os extremos do cubismo.
Nas suas composições ele conseguiu, seduzido pelas inovações de Picasso (a integração da forma no fundo) e fascinado pela materialização de um espaço novo, através da inversão da perspectiva, “empurrar” os objectos de encontro aos espectadores.
Para lutar contra a profundidade, misturou à tinta outros materiais (serradura, areia, etc.) que têm a faculdade de criar relevo.

Inventou em 1912, o papel colado, com o que opôs ao espaço côncavo da perspectiva um espaço deliberadamente liso, em que o objecto parece sair da superfície plana. Operada esta síntese de espaços e objectos, concretizou a destruição do espaço que contém a perspectiva.
Ao destruir a pintura de cavalete, a colagem faz parte do modo como os cubistas concebem as suas obras, isto é, como objectos autónomos, e legitima a existência da pintura, menosprezada desde o aparecimento da fotografia. De facto, a pintura abandona o seu estatuto de espaço estético capaz de nos devolver uma complacente imagem de nós próprios, para adoptar o de espaço reflexivo, passando a ser capaz de nos levar a reflectir sobre o mundo.
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Foi o eu pretendi ao acrescentar uma fita (dessas que circundam os estaleiros de obras) a este despretensioso estudo de dois bêbedos e quatro pássaros. Este dado tridimensional como que isola e devolve esta composição em perspectiva, de novo à condição de superfície plana, isto é, de objecto, incluindo os pássaros de Braque, empurrando-os de encontro ao espectador.
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