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domingo, 1 de fevereiro de 2015

A LISTA DE VALDOMIRO

Valdomiro era uma espécie de carpideira às avessas. Fazia o que fazia, sem remuneração, porque se achava engraçado, engraçado demais – uma fantasia alimentada pelos familiares e conhecidos, a maioria de humor abaixo de qualquer suspeita. É provável que muitos rissem de suas besteiras na esperança vã de serem poupados. 

A lista de Valdomiro
Valdomiro adorava velórios. Era dos primeiros a chegar, e dos últimos a sair. Gostava de contar piadas. Mas seu esporte predileto mesmo era ir de roda em roda mostrando uma lista que trazia de casa, com os nomes dos futuros defuntos da família.

Nunca entendi como alguém, em sã consciência, podia achar graça daquilo.

Valdomiro, no entanto, não marcou presença no velório de um parente muito próximo. O que deu margem a especulações várias, inclusive sobre sua eventual morte. Os que defendiam tal possibilidade, em especial os que frequentavam a lista de Valdomiro, no íntimo, torciam para estarem certos.  

Minutos antes do sepultamento, chegaram sua filha e genro. E nada do Valdomiro. 

Sua filha foi logo avisando:

-- Não se preocupem, está tudo bem. Papai foi ao Nordeste, a passeio.  Lamentou muito não poder vir ao velório. Não havia passagens de avião. Mas pediu que lhes avisasse que estará presente na missa de Sétimo Dia. Com a lista atualizada.

(Publicada em 15/07/2014)

  


terça-feira, 21 de outubro de 2014

APESAR DOS PESARES...

ATÉ QUE HORAS DEVEREM OS CHORAR?
O COMBINADO NÃO É CARO

O mundo melhorou, como não? Minha mulher, por exemplo, me jurou que jamais vai se debruçar sobre meu caixão e uivar, como nos velhos tempos: “Pai, me leva junto com ele!” No começo, me choquei. Não nego. Vaidade é fogo. Mas, pensando bem, é atitude sábia, a dela. Por sincera. Se mais não fosse, carpideiras (jamais morrerão), flores e lenços custam os olhos da cara. Ninguém merece. Muito menos eu, que nada fiz por merecer tamanha burrice e gastança.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

QUE DEUS NOS TENHA

VELÓRIO

Tudo de que a família precisa é paz.
O falecido não precisa de mais nada.
Em nome da lógica, a brevidade se impõe.

VELÓRIO (II)

Fora homem de posses, de muitos conhecidos, poucos amigos – a começar dos seus, mais interesseiros que queridos. Por via das dúvidas, deixou claro em testamento:

-- Quero três carpideiras das boas. Das que choram a noite toda. Não quero passar vexame.

VELÓRIO (III)


Depois de hora e meia vira circo, palco de piadas infames.

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