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terça-feira, 21 de novembro de 2017

CARONA SOLIDÁRIA? TÔ FORA

FOTO: Claudia Campos - ensaiodepalavras.blogspot.com
Nas grandes metrópoles – e nas cidades de médio porte também –, o trânsito é o que se sabe: um caos. Dar jeito numa encrenca dessas exige investimentos vultosos, coragem política para tomar medidas impopulares (como rodízio e cobrança de pedágio urbano, por exemplo) e tudo mais que todo mundo sabe, inclusive nós, os leigos. Mas não faltam “especialistas” que pretendem resolver problema tão complexo com soluções simples. São os que fazem parte da tribo dos politicamente corretos. Seu discurso é bonitinho, mas inútil.

Há dias ouvi no rádio, uma “especialista” defendendo (de novo!) a carona solidária. Segundo ela, a moda não pega por aqui por razões “culturais”. De vez em quando, a cantilena ressurge, com a força que caracteriza as inutilidades. Mesmo que quisesse, teria muitas dificuldades para oferecer transporte aos meus queridos vizinhos. E por várias razões:

PRIMEIRA RAZÃO – Meu automóvel está longe de atrair atenções, de ser um objeto de desejo de quem quer que seja. Melhor dizendo: atenções o calhambeque atrai – e muitas –, mas, infelizmente, pelos piores motivos. É o mais chinfrim do condomínio. Não raro, só pega no tranco, quando pega. O sistema de freios não inspira muita confiança; os pneus, idem.

SEGUNDA RAZÃO – Não sou mais um ás no volante. Meus reflexos não acompanham os fatos. A visão e a audição também. Sabem como é? A turma do prédio fica de olho, comenta, ri pelas costas. Para manobrar na garagem, não dispenso o auxílio dos familiares. O sensor de ré não me serve para quase nada. Quando ouço o apito, a batida já foi dada. É uma lástima que nossos arquitetos e engenheiros não sejam adeptos do vão livre. Para que tantos pilares?

TERCEIRA RAZÃO – Como vou saber para aonde (e a que horas) vão meus queridos vizinhos, se a maioria não me diz ao menos “bom-dia”? Estive a ponto de desenvolver profundo complexo de rejeição por conta disso. A família me tranquilizou: “Bom-dia”, “com licença” e “obrigado” são termos fora de moda. Ora, se é assim, como, então, vou chegar para uma vizinha que não me olha na cara e perguntar: “Para aonde vamos”? Corro o risco de levar uma sova do marido. Já não tenho braços para revidar. Nem pernas para fugir.

Então, ficamos assim: cada qual que vá para o trabalho com suas próprias rodas. E os muito incomodados com o trânsito que se mudem. Para a Índia. (março de 2013)

terça-feira, 22 de outubro de 2013

POVINHO ORDINÁRIO

Foto: Agência CNT


No trânsito, é impossível saber quem é mais bronco: motoristas ou pedestres. Não ignoro que almas justiceiras, amigas dos pobres e indefesos, ante uma dúvida dessas, ficam assanhadas. “Absurdo! Ninguém respeita os pedestres!” Que se assanhem à vontade. Estou convencido de que uns e outros – motoristas e pedestres – são igualmente indecentes, para usar um termo leve como uma salada de alface. Outros e uns se merecem. Sei que há exceções, claro. Mas os politicamente corretos que façam sua defesa.

Hoje, estacionei o carro junto ao meio-fio numa praça bastante movimentada. Fiquei cerca de cinco minutos ali. Foi tempo mais que suficiente pra me convencer de que estamos na idade da pedra lascada. O sinal verde para veículos não intimidou os valentes, que atravessavam sem qualquer cerimônia a rua movimentada. Sobre a faixa de pedestres, com o sinal vermelho para eles. Entre os incautos, velhos que mal podiam dar o passo, gente de meia idade, crianças puxadas pela mãe, jovens e até babá (deduzi pela roupa branca) empurrando cadeira de rodas com um acidentado a bordo.

Dez minutos depois, a caminho de casa, me deparo com legião de estudantes, molecada de 13/14 anos, atravessando, em bando, fora da faixa e com o sinal aberto para os veículos uma avenida muito mais movimentada que a rua em que há pouco me encontrava. Com um agravante: ali, carros, motos, caminhões e ônibus trafegam nos dois sentidos.

Para educar essa gente – motoristas, motoqueiros, ciclistas e pedestres –, quantos séculos serão necessários? (março de 2013)