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Cumprira rigorosamente o ritual: dera banho no pai, enxugara o pai, colocara a roupa no pai, passara creme hidratante nas pernas do pai e pomada nos ferimentos (o pai caía muito), dera os comprimidos para “administrar” o Parkinson, pingara os colírios etc. Só faltava colocar os sapatos. Mas faltava um sapato. Vasculhou a casa toda. Em vão.
A empregada chegou, fez o café, mimou o pai e disse ao filho que ficasse tranquilo, fosse escrever seus textos, cuidar da vida. Na hora da faxina, ela daria uma
geral e encontraria o sapato fujão. Também não encontrou.
No dia seguinte, o pai pediu ao filho que fosse até a biblioteca,
abrisse a gaveta tal e pegasse alguns reais num envelope pardo para comprar
umas miudezas. O fujão estava lá.
-- Pai, o senhor esteve ontem na biblioteca?
-- Acho que estive. Por quê?
-- Seu sapato estava lá, na gaveta. Quem o colocou ali?
-- Não sei. Eu é que não fui. (OS - 2014)