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terça-feira, 8 de março de 2016

TOMARA QUE (NÃO) CAIA

Orla. Sol forte. Brisa oportuna. Delícia. O Velho Marinheiro de regata azul e bermuda. Mafalda vestidinha como convém a uma senhora recatada, mulher de um verdadeiro Lobo do Mar. Coisa para poucas. 

Quase paz.

Lá vinha ela toda faceira, com seus quase 7.0, 120 Kg, varizes a dar com pau, mil e duas tatuagens coloridas (por recentes), cabelos azuis, biquíni branco cobrindo as partes baixas (as de cima, em queda mais que livre, contavam com a proteção de um tomara-que-caia, nada mais).

Virou atenção do calçadão, com o perdão da rima involuntária e vagabunda. Impossível passar batida, mas não passava batida pelos piores motivos. Homens lhe dirigiam olhares sem gula. Mulheres balançavam as cabeças, em sinal de reprovação. Um travesti, saído ninguém sabe de onde, bradava: “É isso aí, vovó. É preciso escandalizar os moralistas!”  



-- Pela primeira vez na vida, Mafalda, minha velha, amor de uma vida inteira, peço aos céus para que um tomara-que-caia não caia. Ninguém merece. Nem mesmo esse velho Lobo do Mar, pecador por pensamentos e ações, mas sempre por boa causa: T.

E o Velho Marinheiro mais não disse. Entornou o aperitivo e o chope. Pediu mais uma rodada e um cascão com três bolas para Mafalda. Agradecido aos santos, que os pouparam de quadro dantesco: o tomara-que-caia não caiu. Ao menos na frente deles.

Mas Mafalda não deixou por menos:

-- Você é um canalha. Não pode ver um rabo de saia, por piores que sejam os dois: o rabo e a saia. Vá catar seu bicho de pé, velho esclerosado.

O Velho Marinheiro deu de ombros, após dizer a Mafalda que só tinha olhos para ela. Pediu uma porção de porquinho. E mais um cascão, agora de uma bola só, para Mafalda, amor de uma vida inteira etc.

Ganhou um selinho. (OS - 2014)

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

ADOLFO & GUIOMAR

ONDE ESTÃO OS GORDOS? NA COZINHA DO QUIOSQUE, ORA


Ele pediu uca, cerveja estupidamente gelada, porção de torresmo e dois pãezinhos; ela, o de sempre: cascão com três bolas de sabores distintos e coberturas variadas. Antes que o pedido chegasse à mesa, Guiomar disparou:

-- Você está gordo que só, não pára de beber e comer. Vai explodir. Seu fim será triste.

Adolfo devolveu de “prima”:

-- Você não terá final menos glorioso, acalme-se.

Mesa posta, entre goles, mastigadas e lambidas, Adolfo e Guiomar observavam com especial atenção o vai-vem dos banhistas. Nada escapava aos olhos míopes do casal, em especial as barrigas medonhas, peitos caídos, varizes e celulites que desfilavam pela orla.

Antes de dar fim ao cascão gigantesco, Guiomar não deixou por menos:

-- Já notou como o povo está gordo, imenso mesmo? Que absurdo!

Adolfo balançou a cabeça afirmativamente. Pensou em dizer a Guiomar: “Somos um deles.” Preferiu pedir nova rodada. Comprar briga para quê?