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quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

PARKINSON

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Chegou a pensar que enlouqueceria antes de o dia amanhecer.

Pensou, não: teve certeza.

O pai o chamava ao quarto de hora em hora, no começo da madrugada. 

Depois, já no meio da madrugada, o tempo entre uma chamada e outra encurtou para meia hora. 

O pai não queria mais o cobertor, queria mudar de lado, queria ficar sentado, queria tomar água, queria o cobertor de novo e mudar de lado também, queria tirar a fralda, não estava na hora do café, não?

Entre uma chamada e outra, o pai se digladiava com seus inúmeros fantasmas, chamava a polícia, chamava o ladrão, dizia palavrões que nunca dissera ao longo da vida, homem educado que sempre foi.

O dia amanheceu. 

Após tomar a primeira leva de comprimidos, ainda na cama, o pai  lhe perguntou:

-- Dormiu bem esta noite?


***

O pai via fantasmas, conversava com fantasmas, indicava livros para os fantasmas, fazia planos com os fantasmas. 

Era o filho, porém, quem vivia assombrado.


(OS - ATUALIZADO EM FEVEREIRO DE 2018)

quinta-feira, 27 de julho de 2017

MEMÓRIAS DO PARKINSON

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ILUSTRAÇÃO: ARQUIVO GOOGLE

Ninguém conseguia entender aquele desassossego diuturno do pai. Justo ele, sempre sereno, quase monge. Não tinha boca para reclamar de nada. Qualquer comidinha por mais trivial que fosse - ovo frito, picadinho etc. -, encarava com satisfação sincera. Aposentado, passava horas e horas lendo seus muitos livros  , uns cinco mil, algo em torno disso. Quem se irritava era a mãe, que gostava mesmo de conversar, dizia que não tinha companhia, que aquilo não era vida, coisas do tipo.

O pai, para surpresa de todos, foi-se transformando num homem irritadiço. Passou a reclamar de tudo: do sofá da sala, do colchão, das cadeiras da cozinha. No apartamento da praia, era a mesma coisa. Queria trocar todos os móveis, algo descabido. Tudo (e creio que todos) lhe aborrecia. Já não tinha a mesma paciência para com os livros. 

O médico da família não dera conta do recado. Gastou-se uma fortuna com um geriatra tão famoso quanto picareta. E nada. O terceiro doutor também não resolveu, mas pelo menos teve uma serventia: pediu ao pai que fizesse hidroginástica. Uma fisioterapeuta da clínica foi direto ao ponto: era bom levá-lo a um neurologista. Àquela altura, após vários tratamentos, o pai só fazia piorar. Cada vez mais impaciente e trêmulo, relutou em seguir a sugestão, não acreditava mais nos médicos. Mas foi. A pulso.

A neurologista lhe pediu uma série de exames, para medir o tamanho do estrago já feito pela doença: Parkinson. Receitou alguns medicamentos. Visivelmente aborrecido com o diagnóstico, o pai não queria parar na drogaria. Voto vencido. 

Quando o filho chegou em casa, duas horas depois, foi avisado de que o pai ligara, queria falar com ele:

- Filho, já tomei os dois remédios da noite. Me sinto tranquilo e desembaraçado. Milagre.

Naquela noite, pai, mãe, filho, filha e nora chorara. De alegria. Mesmo sabendo que não haveria cura.

 LEIA TAMBÉM

Entre uma chamada e outra, o pai se digladiava com seus fantasmas, chamava a polícia, chamava o ladrão, dizia palavrões que nunca disse acordado...

http://orlandosilveira1956.blogspot.com.br/2016/02/parkinson.html#comment-form

terça-feira, 1 de novembro de 2016

QUASE HISTÓRIAS



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TELA DE CHARLES SPENCELAYH


FIM DA LINHA

E nada mais foi dito, após a sentença inevitável.

Os filhos se entreolharam comovidos, sob o olhar aflito, mas firme, da mãe.

O velho também não disse palavra.

Olhava o nada, sem lágrimas.

Sabia que aquilo – sua interdição – não era maldade.

Era inevitável.


REMORSO

Não adianta rogar, pedir para que ele não se levante sozinho, para que evite quedas. Tudo é feito para que ele não caia. Mas ele faz de tudo para cair. Não adianta dizer ao pai: por favor, não caia, cada queda sua dói mais na gente que em você.  

O esgotamento de anos já não consegue distinguir o que os médicos, também eles, não conseguem distinguir: onde termina a demência, onde começa a teimosia.

A paciência, por esgotada, às vezes perde o prumo, dispara impropérios. E vai dormir cheia de culpa.


VISITAS

Naquela sala vazia, havia umas quinze ou mais pessoas. Mas só o pai conseguia vê-las, ninguém mais. (OS – Atualizado em novembro de 2016)



sexta-feira, 22 de julho de 2016

QUASE HISTÓRIAS

INTERNET


MEMÓRIAS DO PARKINSON

Liga, não liga? Ligou. Com o coração na mão.

-- E aí, pai, tudo bem com o senhor? Quero lhe dar uma boa notícia: Ruth, aquela amiga querida, que trabalhou com a gente no escritório, lhe fez muitos elogios hoje. Ela lhe quer muito bem. Eu me encontrei com ela por acaso. Pela internet.

(Silêncio)

-- Lembra da Ruth, pai?

-- Lembro, sim. Eu também gosto dela. Mas Ruth não é a única pessoa a me elogiar, a me querer bem.

-- Sei disso, pai, sei disso. É bom ser querido, não é?

-- É. Ser querido é muito bom.

-- Quem mais tem elogiado o senhor?


-- Toda noite, em casa, recebo de quinze a vinte pessoas. São novos amigos. Eles ainda não falam comigo. Mas sei que gostam de mim. (julho – 2013)


SOBRE O ASSUNTO LEIA TAMBÉM:

PARKINSON

CADÊ OS SAPATOS DO PAI?

sábado, 23 de abril de 2016

CADÊ O SAPATO DO PAI?

tvjagaui.com.br


Cumprira rigorosamente o ritual: dera banho no pai, enxugara o pai, colocara a roupa no pai, passara creme hidratante nas pernas do pai e pomada nos ferimentos (o pai caía muito), dera os comprimidos para “administrar” o Parkinson, pingara os colírios etc. Só faltava colocar os sapatos. Mas faltava um sapato. Vasculhou a casa toda. Em vão.

A empregada chegou, fez o café, mimou o pai e disse ao filho que ficasse tranquilo, fosse escrever seus textos, cuidar da vida. Na hora da faxina, ela daria uma geral e encontraria o sapato fujão. Também não encontrou.

No dia seguinte, o pai pediu ao filho que fosse até a biblioteca, abrisse a gaveta  tal e pegasse alguns reais num envelope pardo para comprar umas miudezas. O fujão estava lá.

-- Pai, o senhor esteve ontem na biblioteca?

-- Acho que estive. Por quê?

-- Seu sapato estava lá, na gaveta. Quem o colocou ali?

-- Não sei. Eu é que não fui. (OS - 2014)





sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

PARKINSON



Chegou a pensar que enlouqueceria antes de o dia amanhecer. Pensou, não: teve certeza.

O pai o chamava ao quarto de hora em hora, no começo da madrugada. Depois, já no meio da madrugada, o tempo entre uma chamada e outra encurtou para meia hora. Não queria mais o cobertor, queria mudar de lado, queria ficar sentado, queria tomar água, queria o cobertor de novo e mudar de lado também, queria tirar a fralda, não estava na hora do café?

Entre uma chamada e outra, ele se digladiava com seus fantasmas, chamava a polícia, chamava o ladrão, dizia palavrões que nunca disse acordado. O dia chegou. E o pai, após tomar os comprimidos matinais, perguntou ao filho:

-- Nesta noite, eu não dormi muito bem. E você? (OS – outubro/2013)


sexta-feira, 17 de abril de 2015

FIM DA LINHA

www.estadao.com.br 



E nada mais foi dito, após a sentença inevitável. 

Os filhos se entreolharam comovidos que só, sob o olhar aflito, mas firme, da mãe. 

O velho também não disse palavra. 

Olhava o nada, sem lágrimas. 

Sabia que aquilo – sua interdição – não era maldade. 

Era inevitável.


FEVEREIRO/2014

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

HOMEM DE FÉ


 Portava inúmeros males, mal dava o passo, pouco enxergava, nem sempre falava coisa com coisa, não saia mais de casa, passava o dia dormindo na cama ou se debatendo no sofá. Ingeria 26 comprimidos diariamente. Sobrevivia. Não reclamava de nada. Ao contrário, nutria um orgulho e uma gratidão:

-- Tenho estômago de aço. Quantos conseguiriam tomar tanto remédio como eu tomo? Deus é pai, filho.


sábado, 5 de abril de 2014

SERINGA OU XIRINGA?

produto.mercadolivre.com.br


O pai saiu do nada, do fim do mundo. Comprou livros e livros. Tem biblioteca razoável. O pai foi longe demais, rompeu padrões. Um louco numa família de analfabetos, que se orgulhava de seu desinteresse absoluto pela leitura. 

Pai.

O pai era tido como besta – louco, quem sabe? Homem que lê... Ler pra quê?

As leituras do pai jamais agradaram o filho. E vive-versa. Detalhe besta.

O pai acredita no homem. O filho bota mais fé na jaguatirica.

Hoje, por circunstâncias medonhas, a conversa entre eles – filho e pai, pai e filho – está difícil, quase impossível.

Certas doenças machucam demais, impedem o diálogo. Parkinson.

O filho chegou a odiar o pai, quando menino - coisa de menino, coisa de filho.

 No carnaval, as crianças se divertiam com suas “xiringas”. O filho tinha que chamar sua “xiringa” de “seringa”.

Pai que estuda é uma droga.

Depois de velho, o filho descobriu que a “seringa” molha tanto quanto a “xiringa”. 

E não machuca a inculta e bela.




sábado, 1 de fevereiro de 2014

REMORSO

Não adianta rogar, pedir para que ele não se levante sozinho, para que evite quedas, mais quedas, quedas brutais. Tudo é feito para que ele não caia. Mas ele faz de tudo para cair. Não adianta dizer ao pai: somos humanos também, cada queda sua é uma semana de tortura, de sobressalto. 

Não dá para esperar dois minutos? Vou ao banheiro. Não, não dá. Virou as costas... Ele levanta pra cair.

O esgotamento de tantos anos já não consegue distinguir o que os médicos, também eles, não conseguem distinguir: onde termina a demência, onde começa a teimosia.

A paciência, por esgotada, perde o prumo, dispara impropérios. E vai dormir cheia de culpa.