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segunda-feira, 20 de julho de 2015

O HOMEM BARSA



INTERNET

O Velho Marinheiro, nosso Lobo do Mar, deu uma passada no bar do Carneiro. Queria saber como andava o amigo, sempre às voltas com suas catorze doenças e com o vício da mulher, que gastava o dinheiro miúdo da família numa máquina caça-níqueis escondida no fundo da espelunca. Ficou perplexo com o que viu e ouviu. 

Romualdo Bastos – o cruzadista –, alçado à categoria de intelectual da Vila Invernada, por conta de seus sólidos conhecimentos sobre os mais variados e inusitados temas, improvisava uma palestra sobre seu “método de trabalho”. O que mais impressionava nosso Lobo do Mar, no entanto, era a atenção que lhe dedicavam os presentes, uma gente avessa à leitura. Tacos de bilhar repousavam sobre o pano verde, ninguém ousava interromper o homem. O silêncio só era quebrado pela tosse renitente de Toninho Moleza. Os malditos cigarros lhe arruinaram os pulmões.

-- Meu método é simples: não acumulo dúvidas e me deixo – tal qual um pai de santo – ser tomado pela curiosidade. Se o desafio é responder qual o continente mais populoso do mundo – e a resposta eu já sei, claro! –, vou além: quero saber quais são os países que dele fazem parte, qual a população de cada um deles, quem os preside etc. Não paro por aí: vou pesquisar também como são formados os outros continentes. Anoto, decoro, passo semanas fazendo isso. Agora mesmo, estou memorizando os nomes de todos os países que compõem a ONU, os nomes de seus respectivos presidentes e capitais, a área geográfica e a população de cada um deles – gabava-se Romualdo Bastos.

Toninho Moleza acendeu mais um cigarro, tossiu a valer e disparou:

-- Doutor Romualdo: o senhor ainda vai entrar naquela academia e virar imortal! Para orgulho de Vila Invernada!

Palmas se confundiam com gritos de “bravo”. Alguém ameaçou puxar o refrão “Romualdo é coisa nossa”. O cruzadista sorvia aos golinhos o aperitivo, afetando falsa modéstia. Até que o Velho Marinheiro interveio:

-- Qual é a mesmo sua graça?

-- Romualdo. Romualdo Bastos. A seu dispor.

-- Eu também sou curioso, seu Romualdo: que serventia pode ter uma cultura inútil dessas? 


OUTUBRO/2013



quinta-feira, 28 de maio de 2015

O HOMEM BARSA

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O Velho Marinheiro, nosso Lobo do Mar, deu uma passada no bar do Carneiro. Queria saber como andava o amigo, sempre às voltas com suas catorze doenças e com o vício da mulher, que gastava o dinheiro miúdo da família numa máquina caça-níqueis escondida no fundo da espelunca. Ficou perplexo com o que viu e ouviu. 

Romualdo Bastos – o cruzadista –, alçado à categoria de intelectual da Vila Invernada, por conta de seus sólidos conhecimentos sobre os mais variados e inusitados temas, improvisava uma palestra sobre seu “método de trabalho”. O que mais impressionava nosso Lobo do Mar, no entanto, era a atenção que lhe dedicavam os presentes, uma gente avessa à leitura. Tacos de bilhar repousavam sobre o pano verde, ninguém ousava interromper o homem. O silêncio só era quebrado pela tosse renitente de Toninho Moleza. Os malditos cigarros lhe arruinaram os pulmões.

-- Meu método é simples: não acumulo dúvidas e me deixo – tal qual um pai de santo – ser tomado pela curiosidade. Se o desafio é responder qual o continente mais populoso do mundo – e a resposta eu já sei, claro! –, vou além: quero saber quais são os países que dele fazem parte, qual a população de cada um deles, quem os preside etc. Não paro por aí: vou pesquisar também como são formados os outros continentes. Anoto, decoro, passo semanas fazendo isso. Agora mesmo, estou memorizando os nomes de todos os países que compõem a ONU, os nomes de seus respectivos presidentes e capitais, a área geográfica e a população de cada um deles – gabava-se Romualdo Bastos.

Toninho Moleza acendeu mais um cigarro, tossiu a valer e disparou:

-- Doutor Romualdo: o senhor ainda vai entrar naquela academia e virar imortal! Para orgulho de Vila Invernada!

Palmas se confundiam com gritos de “bravo”. Alguém ameaçou puxar o refrão “Romualdo é coisa nossa”. O cruzadista sorvia aos golinhos o aperitivo, afetando falsa modéstia. Até que o Velho Marinheiro interveio:

-- Qual é a mesmo sua graça?

-- Romualdo. Romualdo Bastos. A seu dispor.

-- Eu também sou curioso, seu Romualdo: que serventia pode ter uma cultura inútil dessas?  

(outubro 2013)


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

ROMUALDO BASTOS



Onze horas. Um homem bem vestido (para os padrões locais, evidentemente) entra no bar, deseja (em tom solene) que “todos os senhores tenham um excelente dia”, dirige-se até o balcão, cumprimenta o dono da espelunca, pede um aperitivo e uma lata de cerveja, vai até a mesa mais retirada, senta-se, abre o jornal em determinada página, saca a caneta do bolso, dá um gole no aperitivo e outro na cerveja, escreve algo que ninguém ali imagina o que seja, olha para o alto como se pedisse ajuda divina, baixa a cabeça de novo, escreve mais alguma coisa, dá um gole no aperitivo e outro na cerveja, volta a olhar para o alto etc.

Esse ritual leva cerca de uma hora, período em que, por nenhuma vez, virou a página do jornal. Levanta-se, vai até o balcão, pede um novo aperitivo (que entorna de uma vez, ao contrário do que fizera com o primeiro, sorvido aos golinhos), paga a conta, despede-se do dono do bar, deseja (sempre em tom solene) que “todos os senhores tenham uma excelente tarde”.

Mal atravessou a rua, começaram as especulações: quem seria a figura, de onde viera, era morador novo no bairro, que fazia da vida, já tinha aparecido por ali antes, por que olhava tanto para o alto antes de escrever, por que não virava a página do jornal? As indagações eram muitas, do tamanho da curiosidade humana.

Infelizmente, Carneiro, o dono do boteco, também não tinha maiores informações sobre aquele homem bem vestido (para os padrões locais, evidentemente). Sabia apenas que era a segunda vez que aparecia ali, que hoje repetiu o ritual de ontem, que se mudara para a casa do falecido J. Pinto (na rua debaixo), que ele se chamava Romualdo Bastos e que, salvo engano, ele viria todos os dias, aposentado que era. Nada mais que isso.

O pessoal do bilhar deixou os tacos de lado, para se concentrar nas especulações. Para fulano, o homem era investigador e estava de campana, atrás de informações sobre o paradeiro de Chiquinho da Maconha, o principal traficante da área. Para beltrano, não era nada disso, não. Logo se via, pela grossura dos óculos, que não era polícia coisa nenhuma. Nunca tinha visto investigador de óculos com lentes tipo fundo de garrafa, coisa para intelectual, gente que lê muito. Sicrano observou que os óculos poderiam ser um disfarce, investigadores e detetives adoram disfarces, era bom não se fiar no homem. Alguém sugeriu que a turma lhe desse uma prensa, para que revelasse quem era. Carneiro achou a operação arriscada, melhor todo mundo ficar quieto, não dizer palavra enquanto ele estiver no bar.

 O mal-estar só se dissipou quando Toninho Moleza chegou e disse:

-- Seu Romualdo gostou muito do ambiente daqui, Carneiro. Disse que virá todos os dias.

-- E você conhece Romualdo Bastos, Toninho Moleza? – quiseram saber todos.

-- Claro! Minha mãe faz faxina na casa dele há uns dez anos ou mais, desde o tempo em que ele morava na Penha. É gente boa. Só tem um vício: palavras cruzadas.


OUTUBRO DE 2013