Mostrando postagens com marcador pai. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador pai. Mostrar todas as postagens

domingo, 2 de junho de 2019

MEMÓRIAS DO PARKINSON (III)




Resultado de imagem para ilustração para "cara de paisagem"
CARA DE PAISAGEM: GOOGLE
Cumprira rigorosamente o ritual: dera banho no pai, enxugara o pai, colocara a roupa no pai, passara creme hidratante nas pernas do pai e pomada nos ferimentos (o pai caía muito), dera os comprimidos para “administrar” o Parkinson, pingara os colírios etc. Só faltava colocar os sapatos. Mas faltava um sapato. Vasculhou a casa toda. Em vão.

A empregada chegou, fez o café, mimou o pai e disse ao filho que ficasse tranquilo, fosse escrever seus textos, cuidar da vida. Na hora da faxina, ela daria uma geral e encontraria o sapato fujão. Também não encontrou., embora tenha revirado o apartamento.

No dia seguinte, o pai pediu ao filho que fosse até a biblioteca, abrisse a gaveta tal e pegasse alguns reais num envelope pardo para dar à empregada comprar umas miudezas no mercadinho ao lado. O “fujão” estava lá.

-- Pai, o senhor esteve ontem na biblioteca?

-- Acho que estive. Por quê?

-- Seu sapato estava lá, na gaveta. Quem o colocou ali?

-- Não sei. Eu é que não fui.

(OS – 2014, atualizado em maio de 2019)

***


LEIA TAMBÉM MEMÓRIAS DO PARKINSON (I)

Resultado de imagem para ilustração para parkinson

O pai não queria mais o cobertor, queria mudar de lado, queria ficar sentado, queria tomar água, queria o cobertor de novo e mudar de lado também, queria tirar a fralda, não estava na hora do café, não? Por Orlando Silveira
https://orlandosilveira1956.blogspot.com/2019/03/memorias-do-parkinson-i.html#comment-form

E MEMÓRIAS DO PARKINSON (II)

Close Up Of Senior Man Suffering With Parkinsons Diesease : Foto de stock


Naquele final de segunda-feira, pai, mãe, filho, filha e nora, todos, enfim, choramos de alegria. Mesmo sabendo que não haveria cura. Por Orlando Silveira

quarta-feira, 3 de abril de 2019

MEMÓRIAS DO PARKINSON (II)

Close Up Of Senior Man Suffering With Parkinsons Diesease : Foto de stock


Ninguém conseguia entender aquele desassossego diuturno do pai. Justo ele, sempre sereno, quase monge. Não tinha boca para reclamar de nada. Aposentado, passava horas e horas lendo seus inúmeros livros. Quem se irritava era a mãe, que gostava mesmo de conversar. Ela dizia que não tinha companhia, que aquilo não era vida, coisas do tipo.

O pai, para surpresa de todos, foi-se transformando num homem irritadiço. Passou a reclamar de tudo: do sofá da sala, do colchão, das cadeiras da cozinha. No apartamento da praia, era a mesma coisa. Queria trocar todos os móveis, algo descabido. Tudo e creio que todos também lhe aborreciam. Já não tinha a mesma paciência para com os livros.

O médico da família não dera conta do recado. Gastou-se uma fortuna com um geriatra tão famoso quanto picareta. E nada. O terceiro doutor também não resolveu, mas pelo menos teve uma serventia: pediu ao pai que fizesse hidroginástica. Uma fisioterapeuta da clínica foi direto ao ponto: era bom levá-lo a um neurologista. Àquela altura, após vários tratamentos, o pai só fazia piorar. Cada vez mais impaciente e trêmulo, relutou em seguir a sugestão, não acreditava mais nos médicos. Mas acabou indo à médica.

A neurologista lhe pediu uma série de exames, para medir o tamanho do estrago já feito pela doença: Parkinson. Ela lhe receitou alguns medicamentos. Visivelmente aborrecido com o diagnóstico, o pai não queria parar na drogaria naquela noite. Foi voto vencido.

Duas horas depois de chegar em sua casa, o filho foi avisado de que o pai ligara, queria falar com ele:

- Filho: já tomei os remédios da noite. E me sinto bem mais tranquilo e desembaraçado, acho que vou dormir bem nesta noite. Milagre.

Naquele final de segunda-feira, pai, mãe, filho, filha e nora, todos, enfim, choramos de alegria. Mesmo sabendo que não haveria cura.

(OS – Atualizado em abril de 2019)

------------------------------------------------------------------

LEIA TAMBÉM

MEMÓRIAS DO PARKINSON (I)


Resultado de imagem para ilustração para parkinson


O pai não queria mais o cobertor, queria mudar de lado, queria ficar sentado, queria tomar água, queria o cobertor de novo e mudar de lado também, queria tirar a fralda, não estava na hora do café, não? Por Orlando Silveira
https://orlandosilveira1956.blogspot.com/2019/03/memorias-do-parkinson-i.html#comment-form

sábado, 23 de março de 2019

MEMÓRIAS DO PARKINSON (I)

Resultado de imagem para ilustração para parkinson



Chegou a pensar que enlouqueceria antes de o dia amanhecer. Pensou, não: teve certeza. O pai o chamava ao quarto de hora em hora, no começo da madrugada. Depois, já no meio da madrugada, o tempo entre uma chamada e outra encurtou para meia hora.

O pai não queria mais o cobertor, queria mudar de lado, queria ficar sentado, queria tomar água, queria o cobertor de novo e mudar de lado também, queria tirar a fralda, não estava na hora do café, não?

Entre uma chamada e outra, o pai se digladiava com seus inúmeros fantasmas, chamava a polícia, chamava o ladrão, dizia palavrões que nunca dissera ao longo da vida, homem educado que sempre foi.

O dia amanheceu.

Após tomar a primeira leva de comprimidos, ainda na cama, o pai lhe perguntou:

-- Dormiu bem esta noite?

Saudade do pai.

(OS - Atualizado em março de 2019)



quinta-feira, 14 de março de 2019

OI, PAI

Resultado de imagem para ilustração para colo de mãe



Tudo bem por aí? E minha mãe? Como anda minha linda? 

Tenho saudade de vocês dois. Muita. Crescente. 

Quanto mais envelheço, mais criança fico. Mais saudade tenho.

É verdade que há céu, inferno e purgatório?

Não mereço céu. Não mereço inferno.

Purgatório está de bom tamanho.

Quando estiver por lá, suborno o guarda e vou dar beijos e abraços em vocês.

Pai: não me venha com reprimendas.

Minha mãe me entende, compreende o suborno.

Em breve. (OS)

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

QUASE HISTÓRIAS: O POVO NÃO QUIS SABER DAS BANANAS RECHEADAS DO PAI

Resultado de imagem para imagens para pastéia de banana
Foto: Arquivo Google
Naquela época, não havia Código de Defesa do Consumidor. Se houvesse, o pai, com certeza, teria problemas. Justo ele, tão correto, desde sempre pregador do bem. O pai jamais pensou em prejudicar quem quer que seja. Enganar o próximo? Nem pensar. Chegava a ser radical. Quando eu garoto, ele me dizia: “Não faça ‘mal’ a nenhuma moça”. E eu torcendo para que uma e outra, para que todas as moças, enfim, me fizessem o “mal” necessário. Escapei da virgindade cedo. Certos conselhos não podem – nem devem – ser seguidos.

Perdão. A ideia era falar de negócios e de propaganda enganosa que, a bem da verdade, não era exatamente propaganda enganosa. Era um equívoco semântico. Enveredei num papo de drive-in, que era para onde íamos, os apaixonados, naqueles tempos de fusca. Claro, me refiro aos prontos, como eu. Motel era coisa para gente bem de vida.

Voltemos ao que importa. O pai nasceu em Florianópolis, Santa Catarina. Filho único, ele chegou por aqui, em São Paulo, há muitas décadas, com a mãe (viúva), duas maletas, uns trocados no bolso, uma máquina de costura de mão e todos os sonhos do mundo. Estudou, trabalhou, deu aulas particulares. Um mouro, o pai. Casou-se. Menos de um ano depois, eu dei o ar da graça.

Por mais que o pai trabalhasse, não tinha jeito: o dinheiro do mês mal dava para a quinzena. Ele matutou, matutou, resolveu empreender. Precisava, dramaticamente, dar vida melhor para a mãe, assegurar o futuro dos filhos. Certo dia, ante a penúria que toda geladeira vazia denuncia, resolveu abrir o próprio negócio: comprou um triciclo daqueles que se usava para a entrega de pães, contratou um conhecido desocupado, traçou um plano de vendas e sonhou alto: o cara sou eu, deve ter imaginado. Então, anunciou em alto e bom som, cheio de confiança: vamos fazer “bananas recheadas”. Fez mais: delegou às mães – à dele e à minha – a tarefa de fazer as tais das “bananas recheadas”, que nada mais eram que pastéis de bananas, salpicados de açúcar e canela. Deliciosos. Até hoje sinto o cheiro deles (ou delas?). E babo. Cachos de bananas verdes foram dependurados por toda a casa, à espera do amadurecimento, do ponto certo. Pequeninho, eu me lambuzava com as bananas.

Como o dinheiro era curto, o negócio, infelizmente, naufragou em menos de uma semana. Não havia capital de giro. No primeiro dia, após horas de rua, o conhecido desocupado, recém-alçado à condição de vendedor, retornou à sede da empresa: vendera apenas uma das quase duzentas “bananas recheadas” com as quais fora para as portas de fábrica na hora do almoço dos operários. Segundo mãe e avó, comemos “bananas recheadas” até passar mal. Sem se alterar, o pai quis saber do funcionário o que justificaria tal insucesso (o pai jamais usaria o termo fracasso) de vendas do primeiro dia. Varou a madrugada refazendo a estratégia. No dia seguinte, pediu às mães que repetissem a produção da véspera. Dizem que não foi fácil fazê-lo aceitar a ideia de que cem bananas estavam de bom tamanho. E olhe lá! Pela mãe – a minha –, o “empreendimento” teria morrido ali mesmo, evitando, assim, trabalho inútil e novos prejuízos.

O pai sempre pensou grande. Mais: nunca desistiu facilmente de alguma ideia. De tempos em tempos – e durante anos –, voltava ao assunto, ameaçava retomar a iniciativa, para a apreensão de todos nós. Não se conformava com o fato de as “bananas recheadas” não terem encantado a freguesia. “Se fosse hoje, com a internet e tudo mais...” Eu desconversava sinceramente, ele também desconversava, mas só aparentemente. A ideia de retomar a aventura lhe formigava os miolos. O fato é que ele jamais conseguiu me explicar por que um simples, embora delicioso, pastel de banana era chamado de “banana recheada”. A banana não levava recheio algum, ela era o recheio. Que diabos! “Questões culturais, tradição de minha terra”, limitava-se a dizer, sem convencer ninguém. Vai ver que foi por isso que o negócio não deu certo. Sei não. Como, porém, explicar o fracasso da granja montada no quintal de casa? Mas essa prosa fica para outro dia. 


(Orlando Silveira - atualizado em fevereiro de 2019)



quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

DEI NISSO

Resultado de imagem para imagens pais e filhos



Não fui bom pai.

A caçula já me escreveu isso com todas as letras: “Pai, você não foi de todo ruim”.

Só pensava em trabalhar, contas a pagar, sabem como é. 

Inferno, vida de pai e mãe. Gostoso é ser avô de Dudu, primeiro e único, por enquanto. Gabriel vem aí, final de março. Mais um amor para amar. Quando Dudu me abraça, piro. Filhos nem sempre obedeçam aos pais. Peço a eles: façam filhos, preciso de netos.Eles vão me redimir, dar sentido à velhice. Melhor idade é a puta que o pariu.

Fui o possível. Ser possível é pouco, quase nada. Foi o que deu para ser: quase nada.

Meus filhos, por benção de Deus, deram certo.

Gosto da minha mesa de computador quase caindo. Fora dela não escrevo. Gosto de meu teclado antigo, que maltrato feito uma velha Olivetti. Sou velho. Minhas mãos descascaram de tanto limpar livros, muitos herança do maior homem que eu conheci: meu pai.

Aos poucos, minha casa toma corpo, toma rumo. Já não posso dizer o mesmo do novo inquilino, eu. Falta uma planta aqui, um pé de rosa acolá. Mas tenho tudo de que preciso. Continuo apaixonado por minha vizinha. Nunca passeamos tanto. Ela mora na casa nove; eu, na casa cinco; Dudu, na vinte e quatro. Nunca fomos tão amigos e felizes. Minha vizinha é ela, amor de quarenta anos. E tantos.

Querer mais para quê? (OS)


quinta-feira, 22 de novembro de 2018

QUASE HISTÓRIAS: A NAVALHA DE GIGGIO

INTERNET

O pai sempre foi especial, educado demais, jamais colocou os palavrões que sabia da boca para fora. Generoso, inverteu a lógica do mercado: o prestador de serviços não precisava lhe fazer mesuras, cumprir com suas obrigações. Sempre foi grato a todos, homem bom. Quase tolo, de tão bom. Por conta disso, o pai não perdeu o pescoço por pouco. 

Desde sempre, a família de Giggio viveu da nobre arte de cortar cabelos, fazer barbas. (As mulheres da família partiram para o caminho da depilação.) O salão mudava de lugar... O pai ia atrás. 

O pai de Giggio morreu. Os tios também não comeram castanhas naquele Natal do fatídico ano de 1973. Giggio partiu para o negócio próprio, sem pai, sem tios. Alugou novo espaço, abriu novo salão. O pai virou freguês. 

O problema é que Giggio tomava todas – e mais algumas. Mas o pai ia atrás dos velhos prestadores de serviço, fiel aos costumes, às tradições. Um dia o pai foi cortar o cabelo que lhe restava e aparar a barba rala. Giggio pegou a navalha. Ela fremia mais que arma de Lampião da Vila Invernada. E Giggio falou:

-- Vou tomar uma, para equilibrar a marcha lenta, volto logo, fique aí.

A sabedoria silenciosa falou mais alto. O pai deixou o dinheiro da barba e do cabelo, mais um tanto de caixinha, sob a navalha. Nunca mais voltou ao Giggio. 

Salvou o pescoço. 

(Orlando Silveira - Atualizado em novembro de 2018)



terça-feira, 29 de maio de 2018

QUASE HISTÓRIAS: O DAN ERA MENINO


Resultado de imagem para FOTOS LARANJAS NO PÉ


E o velho sábio, meu pai, descascava laranjas sem quebrar a casca. Contava histórias, tirava a pele sem ferir o gomo, aguçava o apetite, fazia por puro prazer. Com a calma de monge. O pequeno Dan se deliciava. E nós também. Aquilo tinha gosto de pomar. (OS)

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

PARKINSON

Resultado de imagem para ILUSTRAÇÃO PARA PARKINSON


Chegou a pensar que enlouqueceria antes de o dia amanhecer.

Pensou, não: teve certeza.

O pai o chamava ao quarto de hora em hora, no começo da madrugada. 

Depois, já no meio da madrugada, o tempo entre uma chamada e outra encurtou para meia hora. 

O pai não queria mais o cobertor, queria mudar de lado, queria ficar sentado, queria tomar água, queria o cobertor de novo e mudar de lado também, queria tirar a fralda, não estava na hora do café, não?

Entre uma chamada e outra, o pai se digladiava com seus inúmeros fantasmas, chamava a polícia, chamava o ladrão, dizia palavrões que nunca dissera ao longo da vida, homem educado que sempre foi.

O dia amanheceu. 

Após tomar a primeira leva de comprimidos, ainda na cama, o pai  lhe perguntou:

-- Dormiu bem esta noite?


***

O pai via fantasmas, conversava com fantasmas, indicava livros para os fantasmas, fazia planos com os fantasmas. 

Era o filho, porém, quem vivia assombrado.


(OS - ATUALIZADO EM FEVEREIRO DE 2018)

domingo, 13 de agosto de 2017

PAI. O CARA

Resultado de imagem para imagens velho segurando livro
IMAGEM: ARQUIVO GOOGLE

Homem incapaz de degenerar, o pai. Gostava de de ditar uma regra ou outra, mas sempre em busca da alegria alheia. O pai foi exuberante na simplicidade. Santo, segundo minha avó, mãe dele. Nada disso, segundo o próprio. Grande sujeito, o pai. Queria comprar livros. E mais livros. Para ler, distribuir, orientar. Mãe contrariada, claro. Embirrações. Salário pequeno, gastança besta. O pai os comprou – os livros –, os recomendou e os emprestou a quem lhe parecia necessitado. Poucos – quase ninguém – lhe devolveram os livros. Quem toma livro alheio se mete à besta e não devolve o que não lhe pertence. Nem lê o adjutório. O pai sabia disso. O pai dava de ombros, o pai não ligava, o pai dizia não assim, quase assim: “Se leu o título ao menos, valeu: está menos besta”. Não sei se o pai salvou alma, mas tentou bom bocado. (OS – março 2017)

***

TALVEZ VOCÊ GOSTE DE LER

Resultado de imagem para ilustração velhos sábios


Está esperando o que, cidadão? Tire a bunda da cadeira, vá beijar o velho. (OS)
https://orlandosilveira1956.blogspot.com.br/2017/08/santa-chatice-ou-so-os-defuntos-sao.html#comment-form



sábado, 12 de agosto de 2017

SANTA CHATICE. OU: SÓ OS DEFUNTOS SÃO SÁBIOS


Resultado de imagem para ilustração velhos sábios
ILUSTRAÇÃO: RENATO STEGUN

Todo pai é chato. Se não for chato, não é pai.

Pai é aquela água. Quer que os filhos estudem, sejam respeitadores... 

Sou do tempo em que a gente beijava a mão de tios, tias e de todo mundo com alguma idade. Devo ter beijado a mão de quem não precisava beijar. Coisa de pai, coisa de mãe. Nem o lampião de gás (que não conheci) me traz tanta saudade como a que sinto deles: de minha mãe, de meu pai.

Todo pai é chato. Se não for chato, não é pai.

Meu pai não fugiu à regra: foi chato, muito chato, sonhou demais para minha irmã e eu, demos o que deu para ser. Mas dele sinto, todas as horas, todos os dias, falta danada.  

E você aí, basbaque, está esperando o quê? Teu velho morrer, para lhe dizer “eu te amo”, “obrigado”, “você é o cara”?

Defuntos, por defuntos, dispensam arrependimentos, choros, velas e flores.

Defuntos são sábios.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

MEMÓRIAS DO PARKINSON

Resultado de imagem para imagens parkinson
ILUSTRAÇÃO: ARQUIVO GOOGLE

Ninguém conseguia entender aquele desassossego diuturno do pai. Justo ele, sempre sereno, quase monge. Não tinha boca para reclamar de nada. Qualquer comidinha por mais trivial que fosse - ovo frito, picadinho etc. -, encarava com satisfação sincera. Aposentado, passava horas e horas lendo seus muitos livros  , uns cinco mil, algo em torno disso. Quem se irritava era a mãe, que gostava mesmo de conversar, dizia que não tinha companhia, que aquilo não era vida, coisas do tipo.

O pai, para surpresa de todos, foi-se transformando num homem irritadiço. Passou a reclamar de tudo: do sofá da sala, do colchão, das cadeiras da cozinha. No apartamento da praia, era a mesma coisa. Queria trocar todos os móveis, algo descabido. Tudo (e creio que todos) lhe aborrecia. Já não tinha a mesma paciência para com os livros. 

O médico da família não dera conta do recado. Gastou-se uma fortuna com um geriatra tão famoso quanto picareta. E nada. O terceiro doutor também não resolveu, mas pelo menos teve uma serventia: pediu ao pai que fizesse hidroginástica. Uma fisioterapeuta da clínica foi direto ao ponto: era bom levá-lo a um neurologista. Àquela altura, após vários tratamentos, o pai só fazia piorar. Cada vez mais impaciente e trêmulo, relutou em seguir a sugestão, não acreditava mais nos médicos. Mas foi. A pulso.

A neurologista lhe pediu uma série de exames, para medir o tamanho do estrago já feito pela doença: Parkinson. Receitou alguns medicamentos. Visivelmente aborrecido com o diagnóstico, o pai não queria parar na drogaria. Voto vencido. 

Quando o filho chegou em casa, duas horas depois, foi avisado de que o pai ligara, queria falar com ele:

- Filho, já tomei os dois remédios da noite. Me sinto tranquilo e desembaraçado. Milagre.

Naquela noite, pai, mãe, filho, filha e nora chorara. De alegria. Mesmo sabendo que não haveria cura.

 LEIA TAMBÉM

Entre uma chamada e outra, o pai se digladiava com seus fantasmas, chamava a polícia, chamava o ladrão, dizia palavrões que nunca disse acordado...

http://orlandosilveira1956.blogspot.com.br/2016/02/parkinson.html#comment-form

quarta-feira, 1 de março de 2017

LEMBRANÇAS

Resultado de imagem para IMAGENS IDOSO LENDO
O PAI ADORAVA LER (FOTO: GOOGLE)


Papi, meu sogro, foi gente da melhor qualidade. Sua principal característica era falar, falar, falar. Adorava falar. E falava alto. O assunto sempre era detalhe menor. Bastava lhe dizer “bom dia”, e o papo estava garantido. Os mais escolados puxavam uma cadeira.

Para que incorporasse o “comandante” Fidel, não eram necessários mais que segundos. Em dia de garganta arruinada, coisa que nunca vi, a preleção era mais curta: de duas horas, em média. Quando lhe dava na telha, pedia licença e colocava ponto final na prosa. 

O pai, ao contrário, sempre foi quieto, recatado. Raramente, elevava o tom de voz. Mas não havia chance de lhe dizer “bom dia” e não receber algum incentivo, um conselho, um livro emprestado.

Dois estilos, dois mestres.

***

O pai nunca foi homem de farra, nunca teve muitos amigos. Gostava mesmo era de ler e reler seus muitos livros. E de fazer planos, ainda que já não tivesse mais condições de colocá-los em prática. Sempre foi um homem afável, mas sem tempo para, como se diz, jogar conversa fora. 

-- Por que o senhor não desce e vai conversar com outras pessoas lá embaixo, no jardim? Fica tão só...

Era o que sempre lhe perguntavam, a começar por minha irmã e eu.

E ele nos dizia:

-- Não tenho nada contra ninguém, não. Tenho uma relação cordial com todos os que moram no prédio. Também não me sinto melhor ou pior que os outros. Mas o que tenho para lhes falar não é do interesse deles. A recíproca é verdadeira. E a vida é curta, filho. Nunca dá tempo para a gente ler tudo o que precisava ler.

(OS – Atualizado em fevereiro de 2017)

sábado, 23 de abril de 2016

CADÊ O SAPATO DO PAI?

tvjagaui.com.br


Cumprira rigorosamente o ritual: dera banho no pai, enxugara o pai, colocara a roupa no pai, passara creme hidratante nas pernas do pai e pomada nos ferimentos (o pai caía muito), dera os comprimidos para “administrar” o Parkinson, pingara os colírios etc. Só faltava colocar os sapatos. Mas faltava um sapato. Vasculhou a casa toda. Em vão.

A empregada chegou, fez o café, mimou o pai e disse ao filho que ficasse tranquilo, fosse escrever seus textos, cuidar da vida. Na hora da faxina, ela daria uma geral e encontraria o sapato fujão. Também não encontrou.

No dia seguinte, o pai pediu ao filho que fosse até a biblioteca, abrisse a gaveta  tal e pegasse alguns reais num envelope pardo para comprar umas miudezas. O fujão estava lá.

-- Pai, o senhor esteve ontem na biblioteca?

-- Acho que estive. Por quê?

-- Seu sapato estava lá, na gaveta. Quem o colocou ali?

-- Não sei. Eu é que não fui. (OS - 2014)





segunda-feira, 25 de maio de 2015

ESSA É PARA VOCÊ, PAI



NAQUELA MESA
De Sérgio Bittencourt
Na interpretação de Zélia Duncan, Hamilton de Holanda e Nilze Carvalho

NAQUELA MESA ELE SENTAVA SEMPRE
E ME DIZIA SEMPRE O QUE É VIVER MELHOR
NAQUELA MESA ELE CONTAVA HISTÓRIAS
QUE HOJE NA MEMÓRIA EU GUARDO E SEI DE COR

NAQUELA MESA ELE JUNTAVA A GENTE
E CONTAVA CONTENTE O QUE FEZ DE MANHÃ
E NOS SEUS OLHOS ERA TANTO BRILHO
QUE MAIS QUE SEU FILHO EU FIQUEI SEU FÃ

EU NÃO SABIA QUE DOÍA TANTO
UMA MESA NUM CANTO UMA CASA E UM JARDIM
SE EU SOUBESSE QUANTO DÓI A VIDA
ESSA DOR TÃO DOÍDA NÃO DOÍA ASSIM

AGORA RESTA UMA MESA NA SALA E HOJE NINGUÉM MAIS FALA NO SEU BANDOLIM
NAQUELA MESA TÁ FALTANDO ELE,
E SAUDADE DELE TÁ DOENDO EM MIM
NAQUELA MESA TÁ FALTANDO ELE,
E SAUDADE DELE TÁ DOENDO EM MIM

AGORA RESTA UMA MESA NA SALA E HOJE NINGUÉM MAIS FALA NO SEU BANDOLIM
NAQUELA MESA TÁ FALTANDO ELE,
E SAUDADE DELE TÁ DOENDO EM MIM
NAQUELA MESA TÁ FALTANDO ELE,
E SAUDADE DELE TÁ DOENDO EM MIM

EU NÃO SABIA QUE DOÍA TANTO UMA MESA NUM CANTO
UMA CASA E UM JARDIM
SE EU SOUBESSE QUANTO DÓI A VIDA ESSA DOR TÃO DOÍDA NÃO DOÍA ASSIM
AGORA RESTA UMA MESA NA SALA E HOJE NINGUÉM MAIS FALA NO SEU BANDOLIM
NAQUELA MESA TÁ FALTANDO ELE,
E SAUDADE DELE TÁ DOENDO EM MIM
NAQUELA MESA TÁ FALTANDO ELE,
E SAUDADE DELE TÁ DOENDO EM MIM

TÁ DOENDO EM MIM...

(Meu pai faria hoje, 25 de maio, 86 anos. 
Mas, há exatos 21 dias, ele se encantou. 
Ô bichinho para machucar, essa tal de saudade.)