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quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

CRÔNICA: WALCYR CARRASCO

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 AS PERSONALIDADES E AS REDES

As pessoas postam fotos sensuais. Enviam junto
com o primeiro “oi”. Likes viciam tanto quanto o crack

Por Walcyr Carrasco
Época – 12/12/2017

Ando surpreso como as redes sociais transformam as pessoas. Ou revelam outros lados da personalidade. Os nudes, por exemplo. Sou de uma época em que havia prós e contrários à nudez. Uma atriz famosa, ao posar nua, provocava escândalo – e maravilhamento. Algumas se negavam: nua, jamais. Homens, nem pensar. Hoje ficar nu é habitual. As pessoas postam fotos sensuais. Enviam junto com o primeiro “oi, tudo bem”. Eu não caí na tentação do nude devido a minha barriga. Explico. Quando olho para baixo, vejo somente meu umbigo. Não me sinto habilitado a posar para um clique pelado. Já se tornou comum certo tipo de escândalo: um ator famoso é flagrado num vídeo íntimo. Viraliza nas redes. Eu me pergunto: foi mesmo uma câmera oculta? Ou um vídeo transmitido pelo próprio para alguém? Pior: quem sabe o próprio alvo do escândalo seja autor do vazamento?

Likes viciam tanto quanto o crack. Tenho um amigo que posta fotos de si mesmo sem camisa, na academia, na praia etc. É um executivo de mais de 40 anos. Em sua loucura, posta também as viagens de fim de semana, que começam na sexta-feira e terminam na tarde de segunda-feira. Perdeu um emprego, por motivos nebulosos. Fez entrevista para outro. O futuro chefe pediu:

– Não se exponha mais na internet.

Adiantou? Não. Meu amigo segurou duas semanas. Admitido, voltou a publicar fotos sem camisa, com a expressão de quem se acha a suprema beleza neste Universo. Por que acredita que seus seguidores têm interesse em vê-lo na academia praticamente todos os dias? Ou de sunga na praia? Conversei.

– Cuidado ao postar todas as fugidas de fim de semana, inclusive a outros países. Vai causar descontentamento e inveja entre quem trabalha com você.

Ficou duas semanas sem postar. Agora não resiste mais. Exibe os cliques. Não causa só inveja. Evidencia que está matando tempo do trabalho. Não há mais o que dizer. A internet transformou um homem até tímido num exibicionista. Outro amigo já sabe analisar a personalidade de alguém por meio de quem segue. Examina os amigos nas redes sociais. Descobre qual é seu campo de interesse. Recentemente, estávamos falando sobre uma pessoa que se aproximou de mim. Como costuma acontecer, há muita gente que forja uma amizade, garantindo que não tem a menor vontade de ser ator ou atriz... para depois dar o bote e pedir um papel. Faz parte da minha vida. Em geral, são pessoas sem experiência na área artística, para quem o sucesso na mídia é algo instantâneo e milagroso. Não uma profissão. Esse amigo de quem falei abriu o Instagram de alguém que tentava uma nova amizade.  Ela só seguia famosos.

– É óbvio o fascínio pela fama.

“O distanciamento da internet é que permite tal nível
de hostilidade. Se estivéssemos conversando,
discutiríamos e a amizade continuaria”

Conhecem-se as profundezas e até os desvios do caráter analisando as redes sociais de alguém. Essas mesmas pessoas, muitas vezes, na vida cotidiana são tímidas. Têm profissões comuns. Por que postam cada pedaço de pizza no fim de semana? Óbvio. A possibilidade de aparecer estimula o exibicionismo. São poucos os que postam livros. Frases, há muitos. Mas a maioria gosta de mostrar a si mesmo. Ou até de estabelecer uma relação de poder. Recentemente, um amigo de muito tempo separou-se. Pediu a todos os seus amigos que excluíssem seu ex das próprias redes. Argumentou que era uma atitude para deixar claro ao rapaz que já não pertencia a seu mundo. Pessoalmente, sou adepto do velho ditado: “Em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”. Adaptado para os novos tempos, quer dizer simplesmente: quando um casal se separa, melhor não tomar partido. E se depois os dois voltam? Terei feito péssimo papel. Também considerei a questão do ponto de vista ético. Um queria dar uma demonstração de poder sobre o outro. Por que devia participar disso? E não excluí o outro.

Resultado: recebi de meu ex-amigo, pela internet, uma mensagem que até me chamava de “alma trevosa”. Francamente, alguém falaria isso ao vivo? O distanciamento da internet é que permite tal nível de hostilidade. Se estivéssemos conversando, discutiríamos e a amizade continuaria. Mas, diante de tal mensagem, reagi. Excluí meu antigo amigo de todas as minhas redes, bloqueei etc. Mas me assustei com a maneira como as redes sociais evidenciam aspectos de alguém, que não conheceríamos de outra maneira. Mais. Estimulam esses aspectos a emergir.

Continuo a ser um admirador da internet e de tudo que ela proporciona. Mas não me engano mais. É perigosa até para minha própria personalidade. Ainda bem, já me dei conta. É um vício.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

CRÔNICA: WALCYR CARRASCO

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 ERA ESSENCIAL, MAS SUMIU

Há um mundo de objetos desaparecendo.
Em algum tempo,
o carro vai para a mesma categoria

Por Walcyr Carrasco
Época – 19/12/2017

Não há pior caso de marketing que o dos fabricantes de chapéu. No passado, nenhum sujeito elegante saía de casa sem o seu. Havia vários estilos: coco, palheta, panamá. Mulheres também tinham os seus, chiquérrimos.  Mas o chapéu sumiu do vestuário cotidiano. Entre os vários motivos, há um de profundo preconceito estético. Valorizada era a pele branca, de quem não tomava sol. Só há algumas décadas a cútis morena recebeu o status de bela. O chapéu aposentou-se. É usado ainda, mas por charme. Eu tenho alguns. Só ponho quando quero aparecer. Ainda se usa o boné, esse sim, em dias de sol inclemente. Junto com o chapéu, foi-se a bengala. Não se usava bengala por necessidade, como hoje. Era item essencial à elegância. Havia lindas, com castão de prata. Cadê as bengalas?

Objetos, coisas, desaparecem do cotidiano numa velocidade surpreendente. Alguns ainda resistem a esse processo. O relógio de bolso era chique, mas tornou-se raro. O de pulso sobrevive. Mas a cada vez conheço menos pessoas que usam. Para saber as horas, basta olhar no celular. Relógios digitais, com funções variadas, tomaram conta do mercado. Os grandes fabricantes de relógios tradicionais reagiram. “O relógio é a joia masculina”, já li em vários lugares. Relógios de grife custam fortunas. Eu tenho lindos relógios, que acumulei ao longo da vida. Todos guardados. Vários amigos também já aposentaram os seus. É questão de tempo para sumirem. Junto com as abotoaduras. Outro dia ganhei uma linda, de grife. Uma verdadeira joia. Levei um susto.

– Onde vou usar isso? – surpreendi-me.

O amigo que me ofereceu enumerou várias ocasiões possíveis. Às pressas procurei. No fundo do armário havia uma camisa, na qual evetualmente seria possível botar as ditas-cujas. Educadamente, garanti que usaria sempre. Onde, quando? Quem me deu o presente só usa bermuda e tênis. Boto smoking e gravata-borboleta ainda, muito eventualmente. Mas dá uma preguiça! É traje de museu.

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Outro item desaparece: lenço de pano. Como sou alérgico, do tipo capaz de espirrar 40 vezes seguidas, sempre tenho um. É cada vez mais difícil encontrar. Usa-se lenço de papel. Existir, existem, mas estão indo rapidamente para a prateleira do desuso. Junto com aparelhos de CD, vencidos pelo streaming. Dá uma tristeza quando me lembro do videocassete. De símbolo da modernidade, transformou-se num tijolo. Para não falar do super-8, que contagiou toda uma geração. Também sumiu, pelo menos do dia a dia, assim como máquinas fotográficas são cada vez mais restritas a profissionais. Em meus áureos tempos fiz até curso de revelação de fotografia. Mergulhava o filme em uma mistureba de produtos, no escuro total. Aos poucos a imagem ia aparecendo. Era impressa em papel, com os contornos de um rosto retomando a vida. Hoje eu faço tchan no celular e, tchun, olho a foto. Se não saiu boa, outra. Máquina fotográfica existe, mas restrita somente a apaixonados por elas ou profissionais.

Sapatos, ninguém vai dizer que não há. Só que a maioria das pessoas, homens e mulheres, no cotidiano, no metrô, no trabalho, usa tênis. Cada vez mais o sapato fica restrito a uma função social. Surgiu até o sapatênis, uma junção dos dois que vale para qualquer ocasião. Mulheres ainda amam sapatos de saltos finíssimos, onde se equilibram harmoniosamente. Hum...até há homens que gostam de ser pisados por esses saltos! A galera masculina optou por tênis. Eu, como todos os meus amigos, odeio sapatos de sola de couro. Escorregam. Muitos de meus amigos já usam somente chinelos e bermudas. Mais que isso: as empresas aceitam com tranquilidade esse traje no trabalho.

Há um mundo inteiro de objetos desaparecendo. Farei uma previsão. Em algum tempo, o carro vai para a mesma categoria. Já conheço várias pessoas (pioneiras) que, diante da praticidade dos aplicativos, venderam seus próprios veículos. É mais barato usar, não exigem manutenção nem pagamento de imposto. A próxima geração, em ritmo veloz, abdicará de carros pelas bicicletas, meios de transporte coletivos e aplicativos.

Só há um detalhe. Qualquer um desses objetos ainda tem função, como charme. Garota ou rapaz de chapéu, tênis, jeans e camiseta ficam mais interessantes. Uma gravata-borboleta num traje informal também. Já que está na hora de pensar nisso, todos são ótimos presentes. Inclusive de Natal. Fica a dica. Ah, sim. Já que toquei no assunto, se Papai Noel me der um carro, aceito humildemente.

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terça-feira, 16 de janeiro de 2018

CRÔNICA: WALCYR CARRASCO

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AMARILDO

UMA QUESTÃO DE MORAL

Políticos corruptos não estão em condições de falar
de moral e bons costumes para a infância e a família

Por Walcyr Carrasco
Época – 05/12/2017 - 08h01

Vivemos tempos escuros. Todos os dias, alguém me fala sobre o papel da televisão na construção da família e do caráter das crianças. A internet sempre repleta de notícias falsas. (Vale um alerta: sites que não são feitos por empresas de comunicação, com notícias verificadas, mentem. Inventam.) Logo no início da minha novela, O outro lado do paraíso, um pastor evangélico conhecido da mídia fez um artigo dizendo que, entre outras coisas, um homossexual transaria com um bode. Seria para rir, se tanta gente não levasse a sério. Mesmo que eu, em um momento de absoluta loucura, escrevesse uma cena dessas, ela nunca iria ao ar na TV aberta. A própria emissora tem uma responsabilidade social. Mas em torno de uma novela, de programas de televisão, há sempre uma gritaria. Não é novidade. O livro O amante de lady Chatterley, de D.H. Lawrence, esteve proibido por anos devido ao conteúdo erótico. Ulisses, de James Joyce, uma obra-prima da literatura, sofreu processo. A literatura é atacada, o cinema é atacado, a TV é atacada. Agora, exposições de arte também são, acusadas inclusive de deformar os valores da criança.

Nossos políticos acreditam realmente que exposições ou novelas são o pior? Ou é falatório para ganhar espaço na mídia?  As crianças veem televisão, sim. Todos os dias assistem a telejornais com políticos acusados de corrupção. Homens que, até recentemente, seus pais admiravam. Que pareciam estar fazendo tanto para o país. Algumas histórias se tornam folclóricas, como as malas de dinheiro dentro do apartamento de Geddel. Outras, patéticas, como a do político de Brasília em regime semiaberto que tentou voltar, à noite, para a cela com um queijo provolone na cueca. Compare comportamentos tão elevados com frequentar uma exposição de arte mais ousada. Ou com uma cena mais forte na TV. Quando eu era menino, houve o governo militar e seus opositores – gente com ideais, propostas, que falava em liberdade. O conceito de liberdade foi trocado por lucros. Francamente, o que é pior para uma criança? Uma cena de nudez ou descobrir que os homens que comandam o país só pensam em benefícios próprios? Certas ou erradas, contra ou a favor, até as reformas do governo Temer, para conseguir o apoio do Congresso, dependem de verbas, cargos. Chamam a isso de governabilidade. Eu chamo de fisiologismo e corrupção explícita. O político deveria votar no que acredita ser melhor para a sociedade. Não no que lhe dá vantagens imediatas.

“Esses políticos corruptos, cujo número se amplia
a cada dia, dão exemplos horríveis para a infância,
são péssimos para a formação do caráter das novas gerações”

Pior. Se o conceito de direita e esquerda está embaralhado, que dizer das religiões? O país sempre conviveu com as diversas formas de cultuar o Criador. Mas uma coisa era certa, mesmo entre católicos. Contratar, por exemplo, uma funcionária evangélica era certeza de honestidade. Evangélicos são conhecidos por frequentar a igreja e seguir preceitos rígidos. Novamente, não falo contra ou a favor. Religião é questão de fé pessoal, que eu respeito. Mas agora, de repente, o próprio Eduardo Cunha, da Assembleia de Deus, está mergulhado em acusações. A Assembleia de Deus é conhecida pelos fortes princípios espirituais e morais, inclusive o da honestidade. Outros alegadamente evangélicos também se veem num vendaval de acusações, assim como católicos. Para essa gente, os princípios religiosos foram embaralhados, assim como os políticos. Francamente, para as crianças, adolescentes, é um bom exemplo de conduta moral, seja em que religião for?

Essa mesma gente adora falar em nome da infância e da família. Ora, sinceramente. Soube (e ninguém vai me deixar provar) que o Shopping Village Mall, de grifes, no Rio de Janeiro, sofreu uma queda nas vendas. Por quê? A maior parte dos compradores foi atingida pela Lava Jato. Poucos dias antes da prisão de Eduardo Cunha, sua esposa foi vista numa das butiques experimentando um sapato que custava em torno de R$ 3 mil. Acusam a televisão, a literatura, as artes. Lutam contra a ampliação dos direitos humanos. Atacam uma defensora dos direitos LGBT. Não estão, a meu ver, autorizados a dizer uma palavra a respeito. O exemplo que dão às crianças é muito pior. É assustador.


terça-feira, 9 de janeiro de 2018

CRÔNICA/POLÍTICA: CARLOS HEITOR CONY

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Cony por Sponholz

A GRANDE FLÓRIDA

Fiz um esboço do que seria esse AI-2, cujo artigo
primeiro rezava: "A partir da publicação deste Ato,
os Estados Unidos do Brasil passam a denominar-se
Brasil dos Estados Unidos"

Por Carlos Heitor Cony
Folha de S. Paulo
24/06/2002

Pensava em escrever a crônica de hoje sobre a noite de São João, que antigamente era "a mais fria do ano". Hoje não mais. Além disso, a coluna de Clóvis Rossi no sábado foi magistral, como sempre: ele dá a solução que poderia ser "a solução final" de todos os problemas que nos afligem.

Malan seria candidato presidencial por uma coligação de todos os partidos nacionais, Fraga seria vitalício no Banco Central com direito de indicar o sucessor em testamento, como se o banco fosse coisa do grupo do qual faz parte.

Lembrei, modestamente, uma crônica que escrevi em 1965, no "Correio da Manhã", e que criou uma crise que me obrigou a pedir demissão ao Callado e ir embora. O jornal foi informado que se publicasse mais uma crônica minha, seria fechado, como de fato o foi, mas já em outro contexto.

Falava-se num tal Ato Institucional nº 2, que seria assinado naqueles dias, fechando todos os partidos e radicalizando o regime de exceção até que, em 1968, com o AI-5, a radicalização chegou ao ponto considerado ótimo pelos militares.

Fiz um esboço do que seria esse AI-2, cujo artigo primeiro rezava: "A partir da publicação deste Ato, os Estados Unidos do Brasil passam a denominar-se Brasil dos Estados Unidos".

Nos demais parágrafos, previa que o dólar seria a moeda oficial do país e que teríamos o direito de eleger um governador, pois seríamos mais um estado da federação norte-americana.

***

Carlos Heitor Cony, que morreu na última sexta-feira (05), aos 91 anos, foi um grande jornalista, escritor e intelectual. Morreu o homem, mas seu talento está registrado em suas publicações. Para quem ainda não leu o romance, recomendo a leitura a leitura de “Quase Memória”. (OS)   

sábado, 16 de setembro de 2017

QUASE HISTÓRIAS: O RECADO DE FILOMENA



Filomena, 9.5, estava mais arruinada que DKV rodado. Não dava o passo. Não falava coisa com coisa. Engasgava antes de chegar à esquina. Inútil abastecê-la com gasolina aditivada. Filomena: DKV.

Ela perdera quase tudo: os passos, o tino, a força física. Mas Filomena não perdera duas coisas: a audição e o gênio malsão. Tinha ouvidos de tuberculoso. E a têmpera do pai: mistura de espanhol com italiano. Não mandava recado. Nem grudava na parede.

Filomena, da sala, acompanhava com especial atenção, a conversa dos filhos na cozinha. Todos com saco cheio de mamãe. Filomena pediu para que um dos bisnetos levasse a cadeira de rodas até eles. E foi direto ao ponto:

-- Estão com o saco cheio de mim? Então, não peguem mais meu dinheiro. Carlota, você é de uma incompetência ímpar. Deu pra todo mundo, de graça. Não tem um homem pra chamar de seu. Osvaldo, se você bebesse menos, talvez entendesse o que escreve. Paula: deixe de ser besta. Seu diploma foi comprado por mim e por seu pai. Todo mundo sabe. Nessa cabeça não entra coisa que preste. A maconha lhe arruinou os neurônios. Estou a morrer. Quando me for, vão atribuir o fracasso de vocês a quem? A mim é que não pode ser. Que cada um pague por seus equívocos. 

O bisneto levou a cadeira de rodas, com Filomena a bordo, de volta para a sala.

Os filhos encomendaram pizzas. Com a grana de Filomena, claro. 


(OS - Atualizado em setembro de 2017)


***

LEIA TAMBÉM


Nunca nos encontramos no Parque Shangai. Nem na afamada Pirani, loja de grande sucesso, entre pobres e remediados. Mas foi ali que o amor teceu suas teias. Fotos comprovam que estivemos por lá, posando para o lambe-lambe: tocando sanfona, dois sanfoneiros, Sabiá e eu. (OS)

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

CRÔNICA: CARLOS HEITOR CONY

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ILUSTRAÇÃO: ISTOCK

A BANALIZAÇÃO DO ERRO

Por Carlos Heitor Cony
Pensata – UOL
24/01/2006

Não estou por dentro do assunto, mas leio nos jornais que há algum embaraço entre autoridades norte-americanas e o Google, questões não sei se técnicas, legais ou morais, mas há algum desconforto entre o quebra-galho eletrônico mais utilizado pelos internautas e os responsáveis pelo setor nos Estados Unidos.

Não tenho elementos --nem me interessa tê-los-- para dar opinião a respeito. Como qualquer usuário, recorro ao Google em determinados casos, mas confesso que com receio, mais do que receio, com remorso. Sei como é falho em suas informações, misturando nomes, datas, situações, fatos. Outro dia fiz uma consulta sobre mim mesmo, digitei meu nome por completo e recebi, entre várias informações corretas, uma centena de Carlos Heitor que nada tinham a ver comigo, inclusive um pai-de-santo no Maranhão e um dono de laboratrório acho que aqui mesmo no Rio.

Se me atrevo a dar uma opinião sobre o Google, diria que, tal como nas boas enciclopédias, cada texto (ou verbete) deveria trazer o nome do autor que o escreveu, abonadas com a citação das fontes. Do jeito que está, simplesmente veiculado por uma sigla (Google), deixa de ser confiável. Torna-se até leviano.

Um colégio aqui do Rio fez uma espécie de concurso sobre os escritores cariocas e meu nome apareceu em diversos deles. Noventa e oito por cento dos alunos consultaram o Google e sem darem crédito à fonte, repetiram o mesmo erro que consta de uma de suas as páginas: atribuíram-me um livro de estréia que nunca publiquei nem escrevi.

A massificação das informações facilita este tipo de trabalho escolar, mas os erros são tantos e tamanhos que prejudica o aluno e a verdade.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

CRÔNICA: CARLOS HEITOR CONY

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IMAGEM: ARQUIVO GOOGLE

RISOS E VAIAS

Por Carlos Heitor Cony
Pensata – UOL
04/10/2005

Uma das curiosidades dos textos que leio, na mídia impressa, é a rubrica que se tornou generalizada, não sei se ensinada nas faculdades de comunicação, ou adotada pela necessidade de chamar atenção para um detalhe considerado irônico ou engraçado.

O entrevistado ou declarante está divagando sobre um tema qualquer, com a seriedade que se espera de alguém que mereça ser entrevistado ou declarante. Lá pelas tantas, diz ou lembra alguma coisa, algum episódio que ele próprio considera irônico ou engraçado. E ri.

Ao fazer o texto, o entrevistador coloca entre parêntesis: "riso". Ou "risos", no plural quando, além do entrevistado, o entrevistador também ri. Dou um exemplo banal: "Todo mundo morre, eu sei que morrerei um dia (risos). Mas confio em Deus que este dia esteja bem longe (risos)."

O recurso da rubrica é natural e até necessário para os textos de teatro, embora os diretores não obedeçam às marcações dos autores, por conta da criatividade pessoal. Há sempre a indicação para os personagens idosos: tosse, pigarro, sobretudo tosse. Todos os velhos tossem em cena e, eventualmente, na vida real. Também nos parlamentos há a indicação dos aplausos e, no final do discurso, a informação suplementar: "Palmas. O orador é vivamente cumprimentado".

Paro por aqui. Fico a merecer uma rubrica para o que acabei de escrever: "O cronista é intensamente vaiado" (risos).

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

QUASE HISTÓRIAS: DESCANSA LOGO, ADELINO

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FOTO: YOUTUBE
Antes de promover a reunião com seus filhos, todos já crescidos e em idade de andar com as próprias pernas, a futura viúva gastou dias e mais dias fazendo e refazendo contas e projeções financeiras. Tinha pleno conhecimento das receitas e despesas de casa. Tudo na ponta do lápis, tudo anotadinho com o rigor de contador profissional.

Filhos reunidos, foi direto ao assunto, nunca foi mulher de rodeios:

-- O pai de vocês não vai longe, segundo o médico. É questão de dias.

-- Mamãe, não diga uma coisa dessas. O que será de nós sem o papai? – choramingava a mais fingida da prole.

A futura viúva abortou o fado improvisado:

-- Vai ser melhor pra ele. Está sofrendo. Não leva mais vida de gente: vegeta. E, pra nós, vai ser melhor ainda. As despesas vão diminuir muito. Vocês não têm ideia do que gastamos com os remédios que o governo não dá, farmacêutico para aplicar injeção, inalação, emplasto Sabiá. O pai de vocês sempre foi trabalhador, mas também deu muitas despesas. Antes de ficar doente, gastava o tempo livre atirando conversa fora no bar do Carneiro, fumando sem descontinuar, tomando cerveja, jogando bilhar...

-- E comendo torresmo! – emendou a empregada de anos, também fã do gerúndio. Adorava torresmo. Estava sempre mascando...

-- A morte de Adelino – retomou a futura viúva, após fuzilar com os olhos a intrometida – nos dará uma folga financeira significativa. Pelas minhas contas, a gente consegue financiar outro carro pra família, além de reformar a casa.

A mais fingida da prole arregalou os olhos e tomou a palavra:

-- Quanto tempo mesmo, mamãe, o médico disse que ele tem de vida?

(OS - novembro de 2013)

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

DA COSTA, O PENTELHO

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Da Costa não viveu e não deixou ninguém viver. Passou a vida em busca da condição ideal. Pra viver. Pra fazer isso e aquilo. Da Costa não fez nada (ou quase nada) que lhe desse um pingo de prazer. É unanimidade na Vila Invernada. Unanimidade dupla, não lhe bastasse uma – a lhe assegurar a burrice. Ah, Nelson Rodrigues... 

No bar do Carneiro, não há quem lhe negue o mérito de ter sido e ser bom pai, marido prestimoso, trabalhador incansável, pagador de contas. Mas também não há ser vivente que não lhe atribua o título devido: pé no saco. Dá Costa é um chato. Sem cura! Da Costa gosta de dar conselhos que ninguém lhe pediu. E de distribuir livros que ninguém quer ler. Da Costa é assim: incansável.

Passa no bar do Carneiro só pra ver quem bebe. Balança a cabeça – e pergunta: “Por que bebem?” Implica com Romualdo Bastos, nosso cruzadista: “Não basta, senhor Bastos, saber quais foram os times e jogadores que ganharam todas as Copas do Mundo. Quem eram os reservas?”

Para Da Costa, que viu a vida pela janela, nunca ninguém está pronto pra tomar banho de mar, atravessar a rua, fazer sexo... Da Costa busca a condição ideal. E quer seguidores. Todo louco precisa de loucos, multidão de loucos a lhe fazer loas.

Da Costa acabou com o livro de Ananias, nosso repórter em fim de carreira. “Cem páginas, se tanto! Ananias: crie vergonha na cara, homem. Livro que presta tem que ter, no mínimo, no mínimo, quatrocentas páginas” – defecou o autor de nada.

Da Costa tentou engatar prosa com o Velho Marinheiro, não deu certo:

-- Da Costa, sossegue o facho.  Quando você se for, espero que não tarde, mando fazer uma placa para colocar na sua campa: “Aqui jaz um pentelho!" 

(ORLANDO SILVEIRA - 2014)


sexta-feira, 1 de abril de 2016

31 DE MARÇO: ONDE ESTARÁ CARLOS?



www.tribunadosertao.com.br


O que foi feito de Carlos ninguém sabe.

Naquele ano de 1969 (ou seria de 1970?), Carlos – menino de tudo, como as irmãs, meus primos e eu – só queria brincar.

O pai de Carlos era esquisito, jamais saía de casa. Se tanto, ia até o portão, sempre de cabeça baixa, e ordenava:

-- Carlos, hora de entrar.

Um dia levaram o pai de Carlos. Pra onde? Ninguém sabe.  

Carlos se foi, junto com o pai, a mãe, os irmãos. 

Nunca mais se teve notícia de Carlos e família. Para onde os levaram é uma incógnita.

Depois, disseram aos meus tios que eles eram, todos eles, “terroristas”.

Ufa. A vizinhança passou a respirar aliviada.

Guri de tudo, eu procurava Carlos naqueles cartazes com fotos (que o governo punha nos bancos, lojas e sei lá mais onde) com um sonoro “Procura-se”. Nunca encontrei a foto de Carlos. Nem a de seu pai.

Por onde andará Carlos? (publicado em 31/03/2014)

terça-feira, 1 de março de 2016

BEIÇOLA


Noite gelada. O homem parou para comprar cigarros na padaria. E ele, como sempre, estava lá, com seu cachorro, companheiro inseparável de todos os segundos, enrolado por uma manta tão suja e puída quanto suas roupas, sentado no degrau do sobrado vizinho. Todos o conheciam, e dele gostavam. Raramente, ele pedia algo a alguém, mesmo para os conhecidos. Naquela noite, pediu um cigarro ao homem.

O homem entrou na padaria, tomou um trago, pediu ao rapaz da chapa que fizesse um bauru caprichado para viagem, comprou cigarros e fósforos. Voltou para o balcão, tomou mais um trago, noite fria demais, de trincar ossos.

Na saída, o homem disse a ele:

-- Comprei um maço de cigarros e fósforos para você. Este lanche também é seu, coma, está quentinho, vai-lhe fazer bem. Você precisa comer, não pode só beber.

Agradecido, ele enfiou o maço de cigarros e a caixa de fósforos no bolso do casaco. Deu uma mordida no lanche, mastigou, mastigou, engoliu a pulso:

-- Está muito gostoso, mas não consigo comer. Posso dar o restante para o cachorro, o senhor não me leva a mal? Ele tem mais fome que eu.

-- Claro que não.

-- Muito obrigado. Vá com Deus. (OS - 2014)



sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

PARKINSON



Chegou a pensar que enlouqueceria antes de o dia amanhecer. Pensou, não: teve certeza.

O pai o chamava ao quarto de hora em hora, no começo da madrugada. Depois, já no meio da madrugada, o tempo entre uma chamada e outra encurtou para meia hora. Não queria mais o cobertor, queria mudar de lado, queria ficar sentado, queria tomar água, queria o cobertor de novo e mudar de lado também, queria tirar a fralda, não estava na hora do café?

Entre uma chamada e outra, ele se digladiava com seus fantasmas, chamava a polícia, chamava o ladrão, dizia palavrões que nunca disse acordado. O dia chegou. E o pai, após tomar os comprimidos matinais, perguntou ao filho:

-- Nesta noite, eu não dormi muito bem. E você? (OS – outubro/2013)


terça-feira, 29 de setembro de 2015

MAL INCURÁVEL

falamorganinha.blogspot.com

O Velho Marinheiro acompanhava com falso desinteresse a conversa entre Ananias, nosso jornalista em fim de carreira, e Romualdo Bastos, o maior fazedor de palavras cruzadas de Vila Invernada e região. Falso desinteresse porque, no fundo, queria saber também que fim tiveram Toninho Mula e sua teimosia.

Toninho faz jus ao "sobrenome". Sempre foi de uma teimosia invencível. Inútil argumentar que isso ou aquilo não tem a menor chance de dar certo. Toninho rema contra a maré, esmurra ponta de faca, só se dá por vencido quando um muro atropela sua cara e o leva a nocaute. Sempre foi assim – na vida privada, na profissão, nos negócios falidos.

O Velho Marinheiro rompeu o silêncio sepulcral, quando Romualdo Bastos disse, com a solenidade que caracteriza suas falas, que o médico descobrira o problema do Mula:

-- Ele é obcecado. Carece de terapia prolongada, de cuidados contínuos...

-- Obcecado coisa nenhuma. A família vai gastar uma fortuna à toa. Toninho é burro. E burrice não tem cura – colocou ponto final na conversa o Velho Marinheiro.  (2014)


quarta-feira, 27 de maio de 2015

TRAGÉDIA CARIOCA

pleito2012.blogspot.com


Foi assim durante quase duas décadas. Logo cedo, alguém punha a velha no sol. Logo depois, às vezes nem tão logo assim, outro alguém tirava a velha do sol. Diariamente, o ritual se repetia – exceto, obviamente, nos dias de chuva.

No começo, era quase farra, tarefa dividida pela família. Filho, nora e netos se revezavam. O cachorro de estimação se divertia a valer com a turma empurrando a cadeira de rodas da velha até o quintal.

As crianças cresceram, foram cuidar da vida. O cachorro de estimação morreu. Seu substituto – ninguém sabe por que – odiava a velha e sua cadeira de rodas. Rosnava. 

Pôr e tirar a velha do sol virou tarefa da empregada. A situação apertou. Sabem como é? Viver de aposentadoria é uma porcaria, o dinheiro não dá para nada. A empregada se foi com os salários atrasados. Com ódio de todos, especialmente da velha.

Alquebrados, filho e nora passaram, então, a dividir a tarefa de pôr a velha no sol e tirar a velha do sol.

Naquele dia, filho e nora cumpriram apenas a parte inicial da tarefa: colocaram a velha no sol.

Rio, 45 graus.

No dia seguinte, a velha, tão branquinha, meio rosada, foi enterrada mais escura que Clementina de Jesus. Virou carvão.

Nenhuma lágrima foi vertida pela família.

(JANEIRO/2014)




sábado, 2 de maio de 2015

MINHA QUERIDA VOVÓ

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Os óculos de lentes grossas, tipo fundo de garrafa, como se dizia naqueles tempos, tinham pouca (ou nenhuma) serventia. A avó era praticamente cega – cega teimosa, cega irrequieta. Inútil lhe pedir para que não andasse sozinha pela casa. Tanto fez, até que caiu, quebrou o fêmur, ficou internada por bom tempo. Mas era dura na queda, ainda bem. Voltou pra casa, mais teimosa que nunca.

Um dia, ela se levantou e saiu perambulando pelo corredor. Deixou pelo caminho um rastro de destruição. Dizimou com seus pés igualmente cegos e pesados os dois times de futebol de mesa do neto. A mãe prometeu ao filho que, assim que pudesse, compraria outros botões. Que por ora brincasse com as bolinhas de gude. Quem mandou deixar os botões no chão? Inútil argumentar que a mesa da cozinha estava sempre ocupada. Onde colocar o campinho?

Sabedor que comprar times de botões não era prioridade da mãe – o dinheiro sempre curto –, começou a brincar com as bolinhas de gude. Toda vez que ele via o campinho vazio, sem jogadores, tinha vontade de chorar. Toda vez que ele via a avô zanzando pela casa, olhava para as bolinhas de gude. E lamentava não ter estilingue. (abril/2014)