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sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

COMPORTAMENTO/OPINIÃO: NELSON MOTTA

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NELSON MOTTA

A DESONRA DO MÉRITO

Nada justifica que nas estatais os méritos profissionais 
e o desempenho sejam atropelados 
pelo apadrinhamento e indicações políticas

Por Nelson Motta
O Globo - 23/02/2018

Desde criança me acostumei a ver sobre a mesa de professores, funcionários, juízes, advogados, uma plaquinha de madeira com “Honra ao Mérito” escrito em letras douradas, prateadas ou pintadas à mão. Bem na frente da mesa, era como uma legenda sobre quem estava atrás, um ícone de cafonice, equivalente ao pinguim de geladeira e ao quadro da Santa Ceia na sala.

Cafona, sim, mas 50 anos depois, verdadeiro e urgente. Honrar o mérito é do que mais precisamos, para enfrentar o empreguismo, o aparelhamento partidário, as indicações políticas e todas as formas de favorecimento que degradaram a administração pública, as estatais e quebraram seus fundos de pensão. Esquerda, direita e centro não podem negar: sem meritocracia, não há democracia plena.

Mas como falar de uma competição equilibrada, por méritos, entre pessoas que tiveram oportunidade, dinheiro, tempo para estudar em boas escolas, e os pobres, pretos e malformados pela maioria das péssimas escolas públicas brasileiras? Assim, as Ferraris sempre chegarão antes das bicicletas e dos jegues, embora alguns deles se transformem em Ferraris. Só a educação equilibra a competição.

Enquanto isso, nada justifica que nas administrações públicas brasileiras e nas estatais os méritos do preparo profissional e desempenho sejam atropelados pelo apadrinhamento e as indicações políticas. Não foram poucos os funcionários concursados e eficientes que aderiram a um partido político como forma de crescer na carreira.

A cultura da boquinha, da sinecura, da troca de favores, é de esquerda, direita ou centro? Seria parte integrante do DNA do brasileiro, professor DaMatta? Ou algo que se exacerbou e transbordou nos últimos anos?

Os milhões de funcionários honestos, competentes e trabalhadores são os principais interessados na reinstituição da meritocracia no serviço público e, principalmente, nas 120 estatais que sofreram prejuízos colossais com essa cultura nefasta e corrosiva. Não tem que manter isso aí, não.

Nenhum candidato pode evitar esse debate. Como sanear o desperdício e o roubo do dinheiro público provocado pela desonra do mérito?

 ***

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HONRA AO MÉRITO

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Entre os colegas de trabalho, no entanto, Jovelino não era muito benquisto: 
“Você trabalha demais, cria problemas para a gente”. Por Orlando Silveira
https://orlandosilveira1956.blogspot.com.br/2018/02/quase-historias-honra-ao-merito.html#comment-form


quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

COMPORTAMENTO/OPINIÃO: ZUENIR VENTURA

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Alerta aos turistas
Foto: G17

FONTES DO DESASSOSSEGO

Jovens bandidos não se contentam mais em roubar.
O prazer maior é proporcionado pelo sadismo
com que agridem e até matam sem qualquer motivação

Por Zuenir Ventura
O Globo – 21/02/2018

A intervenção federal ainda requer muita explicação, mas já se pode afirmar que uma das maiores dificuldades que a medida vai enfrentar é a existência no Rio dos dois principais agentes da desordem: o crime organizado e o crime desorganizado, o que age no atacado e o que atua no varejo. O primeiro se dedica preferencialmente a grandes ações, como tráfico de drogas, contrabando, assaltos a caminhões de carga, explosão de caixas eletrônicos e rebelião nos presídios.

Tão ou mais bem armados do que a polícia, os traficantes são os donos das favelas, exercendo sobre elas domínio absoluto — territorial, político, econômico e militar. Antes, ainda tinham que disputar a hegemonia com a milícia, mas hoje são parceiros, e a força do terror duplicou.

Eles formaram um Estado paralelo tirânico, que impõe suas leis seja por meio da extorsão — pedágios e tributos sobre serviços como luz e gás —, seja por meio da execução dos que desobedecem ou transgridem. Seus “tribunais” julgam, condenam e aplicam sentenças de morte.

Tudo isso é sabido, mas, como ocorre do “outro lado” da cidade, não chega a assustar tanto quanto o crime desorganizado, que neste verão, principalmente no carnaval, aterrorizou os moradores do asfalto, com grupos de menores agindo em conjunto e praticando pequenos furtos e roubos a pé ou de bicicleta, às vezes usando facas. Eles têm promovido arrastões não só na praia, mas também em lojas, onde entram em bandos, saqueiam rapidamente e saem, como fizeram no supermercado Pão de Açúcar no Leblon.

Com mais frequência, porém, eles agem nos calçadões e nas ruas da Zona Sul. Só na segunda-feira de carnaval, a Delegacia de Atendimento ao Turista registrou 26 ocorrências. Dois italianos foram feridos na cabeça; uma chinesa e uma alemã levaram socos no rosto, além de chutes; uma argentina que passeava com um bebê foi jogada no chão.

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Zuenir Ventura é jornalista

Um vídeo flagrou a cena de uma senhora de 58 anos em Ipanema. Ela chegava ao trabalho às 7h30m num condomínio, quando foi atacada pelas costas por quatro bandidos. “Foi uma covardia o que fizeram comigo”, ela contou, inconformada com a violência gratuita. “Por que não me pediram para passar a bolsa? Eu entregaria. Não precisava ser agredida”.

Nos ataques a transeuntes, é essa a característica: o requinte de crueldade. Os jovens bandidos não se contentam mais em roubar. O prazer maior é proporcionado pelo sadismo com que agridem, espancam e até matam sem qualquer motivação. É muito difícil prendê-los porque se dispersam rapidamente após cada ação.


Não têm chefes, agem de modo anárquico em bandos e por conta própria, numa espécie de versão tupiniquim dos “lobos solitários”. Será que a intervenção federal tem algum plano para secar essas fontes de nosso desassossego?

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

COMPORTAMENTO: NELSON MOTTA

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Trump: uma besta impulsiva fantasiada de gente

A ERA DA INSTANTANEIDADE

Xingamentos não significam mais nada além de raiva animal.
Podem ser substituídos por emojis, que são mais práticos

Por Nelson Motta
O Globo – 19/01/2018

Não deixe para amanhã o que pode fazer hoje, compre já! Era o slogan de uma rede varejista nos anos 60, que nunca me saiu da cabeça. Mas aprendi ao longo de minha vida que é o contrário: não se deve fazer hoje o que podemos fazer (melhor) amanhã. Não é um elogio do atraso e da procrastinação, mas a necessidade de tempo para refletir e melhorar suas escolhas. Quanta besteira se faz por decisões precipitadas, no calor da hora, no trabalho e na vida? Quantas decisões erradas, que, se fossem adiadas, não seriam tomadas?

Vivemos na era da instantaneidade, respostas têm que ser imediatas, a voracidade por novas informações, ainda que falsas ou duvidosas, é insaciável, alimentando reações em cadeia. Os julgamentos são sumários, as condenações, imediatas, movidas não só a fanatismo, ignorância, ódio e rancor — mas a pressa e urgência.

A reação furiosa que se tem ao ler uma notícia hoje, dois dias depois será mais serena e racional — que é a melhor forma de defender seu ponto de vista.

Xingamentos são como ejaculações precoces de ódio, e não atingem mais ninguém. O que é filho da puta? Viado? Corno? São como rosnados e grunhidos, não significam mais nada além de raiva animal. Podem ser substituídos por emojis, que são mais práticos. A preferencia nacional pelos xingamentos de “viado” e “corno” é sintomática, reflete nossa homofobia e machismo, em todos os sexos, raças e classes.

O imediatismo combinado com o exibicionismo pode ter consequências desastrosas, principalmente para políticos e artistas. A ânsia de aparecer leva a atitudes temerárias e a situações constrangedoras que os expõem ao ridículo nas redes sociais.

Não por acaso, o Twitter é o meio de expressão favorito da besta que habita Donald Trump, reagindo instantaneamente com seu vocabulário de criança de 8 anos em 128 caracteres. Se escrevesse a mensagem, relesse no dia seguinte, e só então a publicasse, talvez economizasse micos.

Será que responder na lata é melhor, mais efetivo, do que ter um tempo para pensar? Se confirmar a sua escolha, o tempo lhe dará mais convicção; se não, ainda haverá tempo para mudar.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

COMPORTAMENTO/OPINIÃO: GUILHERME FIUZA

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Oprah: luz, câmara, propaganda

O MURO DE OPRAH

Catherine e suas colegas disseram, com jeitinho,
que suposto despertar feminista hollywoodiano
é show autopromocional

Por Guilherme Fiuza
O Globo – 13/01/2018

Desta vez Meryl Streep não chorou. Na edição anterior do Globo de Ouro, suas lágrimas roubaram a cena para anunciar o fim do mundo com a derrota eleitoral da companheira Hillary. Os Estados Unidos tinham acabado de cair nas mãos da elite branca egoísta, e a atriz estava inconsolável diante do destino hediondo que colhera a maior democracia do planeta. Um ano depois, o emprego entre negros e hispânicos no país alcançou nível recorde. E o tema deixou de comover Meryl.

Ela e seus colegas preocupadíssimos em defender alguma vítima de alguma coisa mudaram de assunto no Globo de Ouro deste ano. Com a desoladora notícia de que os fracos e oprimidos tinham melhorado de vida no primeiro ano do governo assassino, a brigada salvacionista concentrou-se nos casos de assédio sexual. A convocação da estilista que organizou o protesto dos trajes pretos era uma fofura, tipo “não é uma boa hora para você bancar a pessoa errada e ficar fora dessa”.

Se uma intimação assim viesse do inimigo era assédio moral na certa.

Mas o show tem que continuar, e a butique ideológica foi um arraso. O stand up apocalíptico de Meryl Streep em 2017 deu lugar ao palanque apoteótico de Oprah Winfrey — aclamada, eleita e já empossada como a nova presidente dos Estados Unidos da América. Faltam apenas uns detalhes burocráticos, bobagens da vida real — que só existem para atrapalhar, como mostram os números do emprego. O ideal seria se Oprah pudesse culpar o agente laranja da Casa Branca pela marginalização dos negros, mas a realidade atrapalhou mais uma vez.

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Fiuza: "Não há nada mais moralista e reacionário
que o politicamente correto."
Foto: YouTube

Aí ela gritou pela mulher. Coisa linda. Todo mundo chorando de novo, que nem no apocalipse da Meryl. Se Obama ganhou o Nobel da Paz antes de começar a governar, Oprah era capaz de levar o prêmio ainda no tapete vermelho. Aí vieram os estraga-prazeres lembrar a bonita sintonia da apresentadora com o dublê de produtor e predador Harvey Weinstein — sem uma única palavra dela sobre os notórios métodos do selvagem de Hollywood. Ainda veio o cantor Seal, que também é negro, dizer que Oprah é “hipócrita” e “parte do problema”. Impressionante como essa gente não sabe assistir a um happy end em paz.

O governo Oprah deveria começar construindo um muro para os invejosos não secarem mais o Globo de Ouro. Quem viesse com comentários desagradáveis sobre esse impecável espetáculo demagógico seria sumariamente deportado. Não faz o menor sentido você ter um trabalhão montando a coleção outono-inverno do luto sexual para vir um bando de forasteiros rasgar a fantasia e deixar o heroísmo de ocasião inteiramente nu.

Como se não bastasse, aparece Catherine Deneuve para jogar a pá de cal no picadeiro. Mais uma invejosa. Sobe logo esse muro, presidenta Oprah. Catherine e suas colegas disseram, com jeitinho, que o suposto despertar feminista hollywoodiano é basicamente um show autopromocional e não ataca o problema real. Estaremos sonhando? Será que finalmente alguém relevante teve a bondade de dizer isso?

Não, não é sonho. E La Deneuve disse mais: essas estrelas falsamente engajadas trazem, na verdade, uma ameaça de retorno à “moral vitoriana”, escondida nessa “febre por enviar os porcos ao matadouro”, nas palavras do manifesto publicado no “Le Monde”. Ou seja: não há nada mais moralista e reacionário que o politicamente correto. Até que enfim.

“Chega de dar plateia a esses reacionários trans.
Melhor deixá-los a sós discutindo se Anitta
na laje é cachorra ou empoderada”

Claro que a patrulha já caiu em cima, acusando as francesas de complacência com o machismo tirânico. Retocar os fatos, como se sabe, é a especialidade da casa. Abuso de poder para chantagem sexual precisa ser denunciado sempre — não só quando se acendem as luzes do teatrinho, companheira presidenta Oprah Winfrey e grande elenco enlutado. Mas montar uma caça às bruxas fingindo que sedução é agressão — e colecionando banimentos de grandes artistas como troféu — é igualmente abominável. Tão feio quanto abandonar o tema da opressão aos negros quando o script do tapete vermelho é contrariado pela realidade.

Danuza Leão disse que o desfile dos vestidos pretos no Globo de Ouro parecia um velório. Já está sendo devidamente patrulhada, porque não se desmascara os retrógrados moderninhos impunemente (a patrulha não sabe com quem está se metendo). Aguinaldo Silva também anda sendo patrulhado por ser gay e não fazer proselitismo gay — veja a que ponto chegamos. É o ponto em que uns procuradores iluminados resolvem obrigar (repetindo: obrigar) o Santander a remontar a exposição da criança viada para fazer a selfie “heróis da diversidade”. Perguntem a Catherine Deneuve se arbitrariedade promocional faz bem à liberdade sexual.

Chega de dar plateia a esses reacionários trans. Melhor deixá-los a sós discutindo se Anitta na laje é cachorra ou empoderada.

Guilherme Fiuza é jornalista


sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

COMPORTAMENTO/OPINIÃO: NELSON MOTTA

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Catherine Deneuve: a favor da sedução
Foto: REGIS DUVIGNAU - REUTERS

O FEMINISTO

As presidentas e ministras são as pessoas mais
empoderadas de seus países, para o bem e para o mal.
De Thatcher a Cristina Kirchner

Por Nelson Motta
O Globo – 12/01/2018

Com três filhas e duas netas que adoro, sempre fui e serei feminista, pela igualdade total de direitos e salários, pelo respeito absoluto. Mas como sou de uma geração criada sob o machismo primitivo, fui um predadorzinho cheio de preconceitos contra mulheres, até ter a primeira filha. Aí mudou a forma de ver as mulheres. Acompanhei entusiasmado a rebeldia das feministas americanas nos anos 70 e depois, quando morei em Roma nos anos 80, admirei a força e o poder (e a beleza) das feministas italianas, em marchas que paravam a cidade. Duas filhas depois, estava ainda mais feminista.

Mas se a Dilma pode se chamar de presidenta, acho que eu poderia me dizer um feministo... rsrs

O mandamento fundamental de um feministo é: “Não tratai as filhas dos outros como não quereis que tratem as vossas. Não tratai a mãe dos outros como não gostarias que tratassem a vossa.”

Nos anos 90, acompanhei de perto a radicalização das feministas americanas, a defesa das mulheres movida por ódio e rancor contra os homens. Hoje, a quantidade e a qualidade de mulheres dirigindo e produzindo filmes e séries é o símbolo de uma mudança irreversível. As presidentas e ministras são as pessoas mais empoderadas de seus países, para o bem e para o mal.

Conjunção do politicamente correto, do puritanismo americano e da hipocrisia, o feminismo de resultados está se tornando uma febre nos Estados Unidos, uma caça aos bruxos que também envolve indenizações milionárias e o assassinato cultural de alguns grandes artistas, embora cafajestes. Por elas, o cafajestíssimo Picasso nunca mais venderia um quadro. Hitchcock seria banido de Hollywood. Miles Davis estaria preso. As feministas francesas tentam equilibrar o debate.

Quantas tentativas são necessárias para conquistar uma mulher que é, ou se faz, de “difícil”? É proibido insistir? rsrs

Em “A megera domada”, Shakespeare mostra que, aos tapas e beijos, também se constroem grandes amores.

Houve um tempo em que as mulheres se sentiam lisonjeadas quando passavam na rua e ouviam inocentes assovios de admiração. Haverá um dia em que dizer “você é linda!” será considerado assédio?

domingo, 3 de dezembro de 2017

COMPORTAMENTO/OPINIÃO: PERCIVAL PUGGINA

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Heley sacrificou a vida para salvar crianças
Foto; Arquivo Google

QUAL É A MULHER DO ANO?

Ao pesquisar no Google sobre a mulher do ano de 2017,
vejo tantas referências à cantora Anitta, sintoma de que
o torneado do corpo se impõe ao torneado da alma

Por Percival Puggina
01/12/2017

Eu sei que os títulos de mulher do ano costumam ser concedidos para celebridades do meio artístico, dos palcos, das câmeras e das passarelas. Isso tem muito a ver com a superficialidade das relações sociais, vulgarmente incapazes de avançar um milímetro sequer sobre as aparências. Ao afirmá-lo, não estou emitindo juízo de valor sobre quem quer que seja.

Já quando olhamos ao nosso redor, provavelmente todos temos a quem outorgar esse destaque. Num círculo mais estreito de relações, onde conhecimentos e sentimentos são mais profundos, quase sempre há alguém que é, a um só tempo, rainha, deusa, leoa, obreira infatigável de incontáveis tarefas, pessoa de vontades contidas e interesses postergados, primeira e espontânea oferta no altar dos sacrifícios. Meu louvor, meu apaixonado louvor à essa multidão anônima de mulheres do ano!

Ao pesquisar no Google sobre a mulher do ano de 2017, vejo tantas referências à cantora Anitta, que não posso deixar de dizer: tal escolha constrange a nação. É sintoma de que o torneado do corpo se impõe ao torneado da alma, e que as formas obscurecem a beleza e a nobreza das virtudes.

Neste ano de 2017, ninguém se ergueu acima de Heley de Abreu Silva Batista! Foi ela que entrou em luta corporal com um louco incendiário. Foi ela que retirou 25 crianças de uma creche em chamas, salvando-as de morrerem no trágico acontecimento do dia 5 de outubro em Janaúba MG. Horas depois, não resistindo às queimaduras, Heley morreu.

Em João 15:13, numa alusão ao que viria a acontecer consigo mesmo, Jesus diz: "Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos". Amor supremo, cuja imposição vem do coração e chega à superação dos mais naturais instintos humanos. Quando enunciou o mandamento do amor, Jesus disse que devemos amar o próximo "como" (tanto quanto) a nós mesmos. Ele não nos exige o que Ele fez. Ele não pediu a Heley o que Heley realizou. Ela agiu voluntariamente. Amor ao próximo além do amor próprio é altruísmo, virtude das almas mais nobres, dos santos, dos heróis, dos que se erguem à reverência de todos nos altares, nos monumentos e nas páginas da História.

Por isso, quando a agenda de 2017 começa a buscar na prateleira seu lugar ao lado das precedentes, eu me uno aos que escolhem Heley de Abreu Silva Batista e digo: “Professora, este ano não tem para mais ninguém! Dê um abraço em Jesus por mim.”

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Percival Puggina (72), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A tomada do Brasil. integrante do grupo Pensar+.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

COMPORTAMENTO/OPINIÃO: AUGUSTO NUNES

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POIS É, QUE PENA

 NA INTERNET, A COMPAIXÃO
É UM SENTIMENTO EM EXTINÇÃO

O caso do submarino mostra que, num Brasil embrutecido
pelo Fla X Flu interminável, talvez não haja mais espaço
para manifestações de solidariedade

Por Augusto Nunes
http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/
24/11/2017 | 11h40

Oito dias depois do desaparecimento do submarino argentino num ponto do Oceano Atlântico, o mundo ignora se os 44 tripulantes — 43 homens e uma mulher — continuam vivos. Ninguém sabe se a embarcação ainda existe ou foi destruída por uma explosão. Nem em que parte do mar há marinheiros implorando por socorro agarrados à esperança ou corpos à espera de resgate e sepultamento em terra firme.

Há uma semana, acompanho a saga dos argentinos sumidos no fundo do mar com angústia e espanto. Angustia-me imaginar o desespero crescente de um grupo de seres humanos. Espanta-me o pouco interesse despertado pela tragédia no mundo da internet, que até recentemente reagia com mobilizações imediatas e portentosas ao topar, por exemplo, com a imagem de alguma baleia encalhada na praia.

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PACIÊNCIA

Nos grandes sites, posts sobre o drama pavoroso são quase todos rasos e burocráticos. Seguem-se pouquíssimos comentários — às vezes nenhum. Um texto publicado no UOL, por exemplo, mereceu uma única observação: o leitor se declarou indignado com um prosaico erro gramatical cometido pelo redator anônimo.

Num Brasil embrutecido pelo Fla X Flu interminável e feroz, talvez não haja mais espaço para manifestações de solidariedade. Essas ondas de clemência até pouco tempo atrás irrompiam espontâneas e vigorosas, fossem quais fossem o palco da tragédia e a nacionalidade das vítimas.

Hoje, é penoso constatar que no universo das redes sociais, é o ódio que mais mobiliza. A cólera epidêmica parece ter transformado a compaixão num sentimento ameaçado de extinção.

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FIZ O QUE (NÃO) PUDE

domingo, 26 de junho de 2016

COMPORTAMENTO/OPINIÃO: LUIZ FELIPE PONDÉ



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ILUSTRAÇÃO: GUSTAVO DUARTE


“QUANDO OUSASTE FOSTE HOMEM!”

Folha de S. Paulo – 20/06/2016


(Por Luiz Felipe Pondé) Quem disse essa frase que está no título acima? Se você conhece a obra do autor em questão, já sabe quem disse essa famosa frase. Ela foi dita num contexto de uma peça em que a personagem feminina, uma das mais famosas da literatura clássica, fala para seu marido, que naquele momento se encontra reticente em levar adiante o plano que apresentara a ela momentos antes.

Essa frase carrega em si uma concepção de homem (gênero) que sempre foi muito comum em nosso imaginário: aquele, como diz nossa famosa personagem, que tem coragem de seguir seu desejo e suas ambições.

Essa mulher diz essa frase porque seu marido recuou num projeto específico, que faria dele rei. Mas qual concepção de homem é esta? Trata-se da concepção segundo a qual um homem é medido pela ousadia e coragem acima de qualquer limite moral.

O filósofo Adam Smith, no século 18, temia que o avanço da sociedade comercial (o que alguns chamam de sociedade de mercado, outros de capitalismo) destruísse as chamadas virtudes guerreiras do homem, fazendo dele um "contador de dinheiro" sem ambição nenhuma além de acumular riquezas materiais por meio dos negócios.

Interessante observar que muitos estudiosos da pré-história levantam hipótese semelhante quando da nossa passagem da condição de caçador coletor para a de agricultor, preso à terra, sem poder "ser ousado", sempre escravo da colheita a vir. Na condição de agricultor, o homem tornara-se temeroso dos riscos de perder todo o cultivo sob a ameaça de invasores. A perda da mobilidade em nome do "patrimônio" teria feito o agricultor mais covarde do que o caçador coletor.

No mundo contemporâneo, o processo de acovardamento do homem é crescente. Mas isso é apenas consequência da civilização enquanto tal, no seu modo crescente de domesticação dos afetos e dos humores.

De volta à nossa personagem feminina. Sua frase magnífica cobra de seu marido que volte à ousadia que demonstrara quando de sua ideia "genial" de matar o rei Duncan da Escócia, a fim de tomar seu trono. Já sabe de qual mulher estou falando?

Seu marido, guerreiro reconhecido como virtuoso pelo próprio rei (estamos na Idade Média), se pergunta, afinal, por que ele não poderia ser rei, uma vez que era absolutamente acima da média em comparação aos outros homens à sua volta.

Momentos depois, quando o rei Duncan se encontra na casa do casal em questão, o marido de nossa famosa personagem, em conversa com ela, demonstra dúvidas com relação ao plano inicial de matar o rei e tomar seu trono. Demonstra ter medo das consequências do seu ato.

Sim, estamos falando do casal Macbeth, da peça homônima de Shakespeare. A frase em questão é dita pela Lady Macbeth diante das dúvidas de seu marido quanto a levar a cabo o assassinato do rei.

A frase "quando ousaste foste homem" representou para a fortuna crítica o reconhecimento dessa mulher como a maior vilã da literatura ocidental, talvez equiparada a Medeia, na tragédia homônima, com a diferença que Medeia, ao assassinar seus filhos com Jasão, tinha pelo menos a desculpa do ciúme e do desespero diante do fato de ser trocada pela princesa, mais jovem e mais bela, que ela também matará. O ódio de Medeia é de alguma forma compreensível.

A fala de Lady Macbeth não teria a mesma justificativa. Ela, em vez de apoiar seu marido em suas dúvidas morais, se desespera diante da aparente covardia dele.

Ao dizer que ele era mais homem quando ousava, Lady Macbeth falava da mais atávica das expectativas de uma mulher para com seu homem. Claro que, diante da monstruosidade que seu marido realizará, ela se arrependerá do que disse.

Nunca achei a Lady Macbeth um monstro. Sempre vi nela apenas uma expectativa feminina para com a masculinidade, expectativa esta já há muito inexistente.

O mundo contemporâneo jamais produzirá uma Lady Macbeth. Não haverá mais quaisquer expectativas quanto à masculinidade. O conceito caducará. Restará apenas o estuprador, o frouxinho e o menino bonzinho. O futuro próximo nos legará uma vida pequena, farta de cacarecos e cheia de tédio.

sábado, 19 de março de 2016

COMPORTAMENTO/OPINIÃO: LUIZ FELIPE PONDÉ

07.03.2016 – FOLHA DE S. PAULO


ATÉ OS ORIXÁS ESTÃO DE SACO CHEIO



(Por Luiz Felipe Pondé) A crença nos espíritos data da pré-história. E tudo que data da pré-história e dura até hoje implica razoável sucesso evolucionário. Levo a pré-história muito a sério e a julgo tão importante quanto os últimos 200 anos para que possamos entender os humanos. Só pessoas superficiais em repertório e pobres de espírito avaliam a humanidade sem levar em conta o Alto Paleolítico (nosso melhor momento).

A escuridão do mundo e seus ruídos, a presença dos sonhos à noite e o medo da morte seguramente pavimentaram o caminho para o mundo dos espíritos.

Uma coisa que sempre me chamou a atenção na crença nos espíritos é como eles estão sempre envolvidos com as coisas terrenas. Afinal, se já desencarnaram, qual a razão de ficarem se enrolando com os assuntos dos encarnados? Sei da resposta padrão: missão.

Muitos desses espíritos precisam cuidar dos assuntos terrenos para que eles mesmos ganhem alguma luz em suas evoluções espirituais. Como parte importante dessa evolução espiritual está a necessidade de nos ajudar em nossos rolos. Seres humanos sempre patinam nas mesmas coisas.

“Na realidade, existem três grandes áreas de choque
na vida das pessoas: 1. trabalho e dinheiro, 2. saúde e doença,
3. amor e família”

Já tive algumas oportunidades de ver orixás e entidades variadas, como Exu (em si um orixá), Pomba Gira, Caboclo, Preto Velho e outros, em ação. Em algumas dessas vezes cheguei a conversar com eles, e impressiona uma certa sabedoria popular presente em suas falas. Na realidade, existem três grande áreas de choque na vida das pessoas: 1. trabalho e dinheiro, 2. saúde e doença, 3. amor e família. Se você pensar um pouco, verá que a maioria das coisas que nos afetam, transita, pelo menos, por uma dessas três áreas.

Muitas vezes, suspeito que algumas dessas entidades entendem melhor sobre humanos do que muitos professores e "cientistas" das humanidades.

Por isso, talvez, as falas desses espíritos nos soem tão significativas. Seja porque eles (os espíritos) de fato entendem das nossas agonias, seja porque os pais de santo e as mães de santo é que entendem dessas nossas agonias, como pensa o cético. De qualquer forma, não me interessa a crítica cética aqui. Interessa-me apenas como muitas dessas entidades falam de coisas que de fato nos tocam no dia a dia. Talvez mesmo porque sejamos banais e comuns: todos nós vivemos quase o tempo todo passando por aquelas três grandes áreas de choque descritas acima.

“Posso imaginar a irritação de um ser que já passou
 pela Terra antes de ela ser tomada pela comunidade de retardados
em rede que hoje assola o mundo”

Numa conversa familiar e entre amigos, uma dessas pessoas muito conhecedoras "do ramo" soube de um relato que me chamou a atenção, e que quero partilhar com você aqui, cara leitora e caro leitor.

O relato é o seguinte. Numa gira (evento em que entidades da umbanda atendem pessoas em suas agonias cotidianas), um Caboclo (caboclos são da linhagem de Oxóssi) de grande experiência em atendimento (cujo "cavalo" é um pai de santo de enorme sucesso no ramo) se aborreceu profundamente com as demandas de seus "clientes" ali presentes. Vale salientar para os especialistas que se tratava de um terreiro de candomblé que tem giras de umbanda também, o que é cada vez mais comum.

Precisamos lembrar que, mesmo no ramo de atendimento espiritual, você deve tomar cuidado para não "chutar o saco do cliente", porque ele pode procurar outro orixá, de outro terreiro, para se consultar. E, normalmente, consultas assim podem se transformar em "trabalhos" de todos os tipos, "trabalhos" esses que giram a economia do terreiro e de quem se dedica a essa profissão. Nem só do verbo vive o homem, mas também do pão e da carne.

A irritação do Caboclo (eu sei o nome dele, mas não quero expô-lo aqui) foi com as "conversinhas" de seus clientes ali presentes. Segundo o Caboclo, todo mundo só queria falar com ele sobre "bobagens mesquinhas". E ele, vindo de "tão longe", perdera a paciência para atender pessoas tão bobas. Para nosso Caboclo, o irritante era a "infantilidade" das pessoas ali presentes.

Posso imaginar a irritação de um ser que já passou pela Terra antes de ela ser tomada pela comunidade de retardados em rede que hoje assola o mundo. Até os orixás estão de saco cheio. Caboclo de coragem esse. E sábio.

01-luiz-felipe-ponde-filosofa-sobre-fe-religiao
ILUSTRAÇÃO: GUSTAVO DUARTE

Luiz Felipe Pondé é pernambucano, filósofo, escritor e ensaísta, doutor pela USP, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, professor da PUC-SP e da Faap, discute temas como comportamento contemporâneo, religião, niilismo, ciência. Autor de vários títulos, entre eles, "Contra um mundo melhor" (Ed. LeYa).)

sábado, 15 de março de 2014

TEM JEITO? TEM NÃO (I)

blogaodoslagos.blogspot.com 

O Brasil é a merda que sabemos.

Infeliz o país em que donos de boteco são obrigados a colocar, inutilmente, sobre a privada imunda que liberam para os clientes “Vips”, só pra eles, plaquinhas assim:

Não urinem fora do vaso”. 
“Não defequem no chão”. 
“Favor não jogar seu absorvente na privada”. 
“Favor acionar a descarga”.

Ao Brasil, falta berço.
 Muitas das “boas famílias” se fazem de mortas.

Ao menos nesses casos, PT e PMDB, reis do cangaço, não são os culpados. 
Embora se locupletem com a ignorância coletiva.