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segunda-feira, 30 de março de 2015

PARABÉNS A VOCÊ

foto: www.meuclubnet.com


Tomou um banho bem tomado, como há muito não tomava. Colocou o melhor vestido que tinha, fez as unhas das mãos e dos pés. Depois, ligou para a floricultura, encomendou seis buquês de rosas carmim. Ditou o que deveria ser dito nos cartões, todos anônimos e levemente eróticos. Acionou a melhor e única amiga que tinha – antiga vizinha, velha colega de trabalho. Pediu sua ajuda. Gostaria muito de receber telefonemas e e-mails nesta data querida. (A amiga não lhe faltou.) Comprou o melhor bolo da padaria. Não descuidou das velas.

Avisou mamãe que o dia seria agitado. E foi. O telefone tocou. Mensagens eletrônicas também chegaram, junto com o bolo da padaria e as flores.

Foi o aniversário mais feliz de sua vida. 


DEZEMBRO/2013
ATUALIZADO EM SETEMBRO DE 2017

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

PARABÉNS, HUMBERTO


wwwblackwings.blogspot.com 

Humberto, coitado, nunca soube o que era sossego, coisa que os mais refinados chamam de paz de espírito. Passou a vida toda como se fora o mais contente de todos. Não era. Nunca foi. Mas era assim que o viam: como o mais contente de todos. Família é besta. Família quase sempre não percebe nada.

Depois, antes mesmo de perder o “núcleo duro da família”, pai e mãe, dois irmãos e uma irmã, Humberto jogou a toalha. Não queria saber de mais nada. Não queria saber de festa. Não queria saber de ninguém. Não queria ver ninguém. Mas, num dia, só, absolutamente só, como sempre, resolveu fazer o que há tempos não fazia: comemorar seu aniversário.

Tomou banho bem tomado, cortou as unhas (dos pés e mãos), fez barba bem feita, resolveu encarar o mundo: tomou duas batidas e uma lata de cerveja, comprou pizza, de dois sabores. Pagou pelo sabor mais caro (um roubo). Ofereceu dois pedaços ao porteiro, um de cada tipo. O porteiro alegou já ter jantado, obrigado, sábado a gente come demais, todo mundo fica generoso. Humberto lhe ofereceu uma lata de cerveja. Não bebo. Sou evangélico.

Humberto pegou o elevador crente de que o cachorrinho de anos (como não?) emplacaria dois pedaços de pizza: uma de frango, outra de peru. Mas não havia mais cachorrinho...

Humberto comeu as azeitonas sem caroço, bebeu as duas latas de cerveja, entornou um chá de boldo, pediu a Deus que o perdoasse.

No dia seguinte, jogou o resto de pizza fora, junto com as duas latas vazias. E sobreviveu. Porque Deus é pai. Porque sua hora não chegara.