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quarta-feira, 26 de junho de 2019

A SENHORA DO JUVENAL



Sempre impliquei com essa coisa de dizer ao amigo “me recomende à sua senhora”. Ora, respeito é bom. Que insinuação vagabunda é essa? Que bandalheira é essa? Há de ser muito safado para falar barbaridade dessas a um amigo.

Em bom Português: quem fala uma coisa dessas - "me recomente à sua senhora" -  chama amigo de corno. De corno manso!

Mas o tempo – senhor da razão ou do ladrão? – passa. E a gente aprende alguma coisinha e outra, percebe que expressões populares nem sempre são inservíveis.

Hoje, mais velho, sou adepto da expressão. Mas sempre faço a ressalva:

-- Quando lhe peço para me recomendar à sua senhora, quero seu bem. Se ela topar a recomendação – o que é improvável – terá grande decepção. E vai querer você de volta. Juvenal: captou a mensagem? Sou seu amigo. Me recomende à sua senhora. 



segunda-feira, 11 de março de 2019

FUTEBOL VAGABUNDO

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Dirigentes esportivos – os de futebol muito à frente – valem tanto quanto à maioria dos nossos políticos: nada. É uma vergonha. Qualquer jogador, por mais perneta e burro que seja, sabe que, se tirar a camisa para comemorar o gol de canela, vai receber cartão amarelo. Ou seja: está prejudicando seu time, de propósito. Qual é a punição que os marginais recebem? Nenhuma.

***

No país da caixinha, jogador de futebol se acha no direito de receber “bicho” quando seu time ganha, por mais ordinário que seja o adversário. Caracas! Jogar bem é sua obrigação; lutar para vencer, idem. Ora, então não seria justo descontar o “bicho” do salário da moçada quando o time perde?

***

Os dirigentes de meu time sempre inovam, embora não sejam piores que os de outras agremiações. Contratam ou renovam contratos de jogadores a salário de ouro, o “liga” não joga nada, resolvem emprestá-lo e se dispõem a pagar metade do salário. E acham que fizeram bom negócio.

***

Vamos criar vergonha na cara: não vamos mais aos estádios.

(Atualizado em março de 2019)




sábado, 17 de novembro de 2018

QUASE HISTÓRIAS: A VIÚVA



O amigo de longa data, por motivo de viagem profissional, não pode ir ao velório nem ao enterro do Almeida, velho companheiro de copo e carteado. Mas não deixou de marcar presença na missa de sétimo dia.

Compungido, após a cerimônia, dirigiu-se à viúva, e disparou uma frase feita, das que costumam ser ditas nessas horas em que pouco ou nada se tem a dizer.

-- Meus mais profundos sentimentos. Nosso Almeida descansou.

 E a viúva devolveu de pronto:

-- Descansou de quê? Almeida sempre foi mandrião, levou a vida na flauta. Acordava cedo para ficar mais tempo sem fazer nada. (OS)



segunda-feira, 14 de novembro de 2016

QUASE HISTÓRIAS

ARQUIVO GOOGLE

CAMINHO SUAVE

Meu pai, grande pai, tentou me ensinar grandes coisas. Pobre pai. Por birra, burrice minha, aprendi pouco. Fui mau aluno. Paciência. Nunca quis ser o primeiro da classe. O penúltimo lugar sempre me pareceu suficiente.

Mas, dos ensinamentos do pai, incorporei um, definitivo:

-- Deus não se manifesta no barulho. 

O CONTADOR DE CARNEIROS

Era uma vez um homem que, desde menino, acostumara-se a ver a vida pela janela. Esperava sempre as condições ideais para fazer aquilo que sonhava fazer – a maneira mais objetiva de nunca fazer nada. Condições ideais não existem.

Como o tempo não para, ele também ficou velho, como ficam velhos todos, ou quase todos, os meninos. (Alguns morrem no meio do caminho.)

Ainda lhe restam forças para fechar a janela, tomar o elevador e, finalmente, caminhar. Mas de que lhe vale este fiapo de vigor, se ele não aprendeu a atravessar a rua?

Melhor cerrar a cortina. E contar carneiros. Como sempre fez.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

QUASE HISTÓRIAS

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SKRACHUSCO.COM


QUEM PROCURA...

De Coutinho todos procuravam fugir: no bar do Carneiro, no trabalho, nas raras festas de família para as quais era convidado. Coutinho era um chato incurável, de uma inconveniência avassaladora. Queria saber quanto Fulano ganhava, quanto Beltrano pagara pelo carro novo, se a mulher de Sicrano casara virgem. Passava o dia na porta do prédio em que morava, para acompanhar o entra e sai dos vizinhos. Não raro, quando alguém chegava com uma sacola nas mãos, ele perguntava:

-- O que temos de bom aí?

Justamente por isso, causava estranheza o fato de Donato – só ele, mais ninguém – ter tanta paciência com Coutinho.

Certo dia, Donato esqueceu o celular na mesa do bar. Coutinho não se fez de rogado: pegou a aparelho do amigo, acessou a lista de contatos e a de mensagens. Depois, partiu para as fotos. Ficou excitado quando se deparou com a imagem de uma mulherona seminua. A excitação cresceu – e muito – quando a viu pelada, em poses pornográficas. Aquele corpão violão não lhe era de todo estranho. Quem seria a beldade? Descobriu logo em seguida. A beldade era Maria Rita, sua mulher.

Coutinho pensou - em alto e bom som - palavrão cabeludo. Mas não teve tempo de gritá-lo. Um infarto fulminante levou sua bisbilhotice sabe-se lá pra onde. De volta ao bar, Donato chamou o SAMU, tirou o celular das mãos do morto e apagou as fotos. A partir daquele instante, Maria Rita era mulher desimpedida - o que, segundo ele, deveria melhorar ainda mais o desempenho dela.


BOLA CANTADA

 Filhos e filhas, noras e genros, netos e netas, todos ali, aflitos, queriam saber de seu João, 8.4:

-- E o que o médico lhe disse, afinal?

-- O que eu já sabia: que da cintura pra cima, tirando a catarata, está tudo bem. (OS)


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domingo, 25 de setembro de 2016

QUASE HISTÓRIAS



A ÉTICA DO CRUZ-CREDO (III)

-- Sucupira, esses salgadinhos são todos de ontem?

-- São. Sobraram. Minha mulher, pra variar, fritou mais do que devia. Não vai aprender nunca.

-- Que prejuízo, mano. Agora, vai tudo para o lixo?

-- Enlouqueceu? Vou fritar de novo. Eles ficam parecendo novinho em folha.

-- Você frita de novo o que sobra?

-- Claro. Mas só vendo pra quem não é freguês de todo dia, pra quem está de passagem. Pra você, frito na hora. Pode confiar.

-- Está certo. Não dá pra confundir freguês com paraquedista.


A ÉTICA DO CRUZ-CREDO (IV)




-- Consultório do doutor João Matos, boa tarde.

-- Boa tarde. Gostaria de marcar uma consulta pra minha filha.

-- Só temos pra janeiro.

-- Três meses! Que absurdo, pior que o SUS!

-- Qual é seu convênio?

-- Nenhum. A consulta é particular.

-- Ah, bom! Pode vir amanhã. Que horas a senhora prefere? 



(ORLANDO SILVEIRA - PUBLICADO EM 25/05/2015)


quinta-feira, 22 de setembro de 2016

QUASE HISTÓRIAS

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PAPO FROUXO

Há muito não se visitavam. A afinidade entre eles era, na hipótese mais generosa, nenhuma. Sempre fora assim. Não haveria de mudar com o tempo. Quando se encontravam em festas, a convivência era mais fácil. Muita gente, alguma bebida, nenhum compromisso de falar sobre isso ou aquilo. Cara a cara, apartados da multidão, a coisa mudava – para pior.

Passados os primeiros dez minutos, os dois casais já sabiam que, ao menos no discurso, estava tudo mais ou menos bem com todos, menos para tia Maria cuja doença só fazia piorar etc.

O silêncio se impôs, para o constrangimento dos cinco. Cinco? Cinco. Até o cão não conseguia esconder seu desconforto.

O marido da dona da casa, sabedor da língua de trapo da prima, resolveu facilitar as coisas:

-- E aí, gente: vamos falar mal de quem?

A noite continuou chata. Mas, apressado, o silêncio saiu pela janela.


RELÓGIO SUÍÇO



Naquela casa, tudo funcionava a contento. 

Impossível encontrar objetos fora de lugar. Havia horário para tudo – para o café da manhã, almoço, lanche da tarde, jantar, cear. Havia hora certa para acordar, dormir, tirar cochilo, tomar banho e remédios.Só não havia hora certa para brincar, sorrir. Desnecessário. Ali, era impossível encontrar um contente. 


(ORLANDO SILVEIRA - PUBLICADO EM 23/05/2015)


quarta-feira, 21 de setembro de 2016

QUASE HISTÓRIAS

GOOGLE


A VASSOURA

O marido tivera um dia pesado, de muito trabalho, reuniões e caceteação. Queria tomar um banho morno, ouvir boa música e entornar seu uisquinho em paz. Nada além. Mas, assim que abriu a porta do apartamento, percebeu que havia algo de estranho no ar. Perguntou pela mulher. A empregada não teve tempo de responder. A antiga alma gêmea apareceu na sala toda produzida:

-- Que tal? – quis saber a madame.

-- Nem pensar, eu estou exausto. Hoje, não saio de casa, por nada.

-- Fique tranquilo, não vamos sair. Os Souza vêm jantar com a gente. Devem estar chegando...

-- Pelo amor de Deus! Porra, não me faltava mais nada.

-- Querido: calma. Eles não são ruins, são apenas chatos, muito chatos.

-- E você acha pouco?

-- Aonde você vai?

-- Colocar uma vassoura atrás da porta. Não acredito em simpatia. Mas não custa tentar.


CAPACHOS

Para certas visitas, eles deveriam ter dupla face.

Na entrada: “SEJAM BREVES”.

Na saída: “NÃO TENHAM PRESSA DE VOLTAR”.

(POR ORLANDO SILVEIRA - 12/05/2015)


domingo, 4 de setembro de 2016

QUASE HISTÓRIAS

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INVENTÁRIO

A velha se foi. Deixou saudade miúda. Ninguém ameaçou cortar os pulsos. Sempre foi chata. Esse demérito ninguém lhe tira. Missa de sétimo dia rezada, hora do acerto: como dividir o “espólio” entre os quatro filhos?

A velha se casara uma vez; o velho, duas. Problema. Do primeiro casamento, ele trouxe dois filhos. Que casaram e produziram filha única cada um. Na ponta do lápis, o que se tinha eram quatro netas e dois netos. E quatro “jóias” ordinárias: dois pares de brincos, duas correntes de feira de artesanato.

A irmã mais nova, já com seus 50 e tantos anos, tentou argumentar:

-- A mãe tinha quatro netas. Justo dar uma lembrança pra cada uma.

-- Você é louca? – rosnou a mais velha. Eles são irmãos só por parte de pai. Logo, as meninas não são tão netas como nossas filhas. E tem mais: a panela de pressão que a mãe deixou é minha. 


UM PACIENTE SINCERO (I)

-- Doutor: vou abrir o jogo, não engano ninguém. Gosto de beber, fumo sem descontinuar, como o que me dá vontade, não gosto de andar. E mais: não vou mudar. O que o senhor pode fazer por mim?

-- Nada, meu caro, nada. Se você não mudar seus hábitos, nada feito.

-- O senhor é igualzinho aos outros. Se basta parar de beber e fumar, comer só verduras e frutas, andar uma hora por dia e abraçar árvores, não preciso de médico. Até mais ver.

UM PACIENTE SINCERO (II)

-- Quer dizer, doutor, que se eu parar de fumar melhoro muito.

-- Uns oitenta por cento.

-- Então, estou morto: nunca fumei.



sábado, 3 de setembro de 2016

QUASE HISTÓRIAS

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FERNANDO BOTERO


O GORDO JÁ NASCE GORDO

Fui criança especial, especialíssima. Diferenciada mesmo, modéstia à parte. 

Minha mãe nunca precisou fazer aviãozinho para que eu enchesse o bucho. Nem ameaçar me colocar de castigo caso deixasse sobra de comida no prato. Mesmo assim, fui punido. Diversas vezes. Ora com tapinhas na bunda, ora com puxões de orelha, ora sendo obrigado a assistir aos capítulos intermináveis de “O Direito de Nascer” – a novela mais longa da história da tevê.

Fui punido por abater todo aviãozinho que cruzasse os ares de minha gula, por jamais deixar comida no prato e por manter a conta de luz nas alturas. A porta da geladeira, dizia ela, permanecia mais aberta que fechada, por culpa minha. Mãe é bicho complicado. É duro de agradar.

Uns apanham porque comem demais; outros, porque nada lhes apetece. 

METABOLISMO PREGUIÇOSO

-- Não sei por que estou engordando tanto. Eu como tão pouco, doutor. Deve ser problema de metabolismo preguiçoso. Só pode ser isso – jura Jurema, notória saqueadora noturna de geladeiras.

A MELHOR DIETA

É a que não precisa ser feita.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

QUASE HISTÓRIAS

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DEZ MINUTOS

O amontoado de segundos, que pareciam horas, foi dramático. Não sei se aqueles dez minutos foram os piores de minha vida – de minha infância, com certeza, foram. A sirene anunciava o momento de voltar para casa. Era meu primeiro dia de aula. Os portões se abriram. Mães esperavam os filhos do lado de fora. As crianças saiam correndo para abraçá-las. Cadê minha mãe? Ficamos sozinhos no pátio – eu e minha lancheira vazia. Minha mãe me abandonou? Minha mãe morreu? Angústia, pânico. Finalmente, minha mãe chegou. Foi o abraço na cintura mais gostoso que dei em minha vida.

CHEIROS

Padre Serafim era dublê de professor de espanhol e comandante em chefe da cantina do colégio. Às nove da manhã, começava a tortura. Aquele cheiro de misto quente de mortadela com queijo tomava as salas de aula, o quarteirão. Crianças, contávamos os segundos para comer o lanche abençoado. Com o passar dos anos, descobri outros cheiros, até melhores que aquele, ou tão bons quanto. Mas daquele não me esqueço. Por conta do cigarro, perdi o olfato. A vida sem cheiros é mais triste.

FILHOS DA MÃE

Noite fria. Quase meia-noite. Lá vai ela coar café para os três rebentos adultos, dois deles já formados, pós-graduados e concursados, caminho que a caçula segue com idêntica raça.

As “crianças” vão estudar de madrugada – os dois mais velhos, para concurso de juiz; a pequena, para a prova da OAB. Enquanto o café não sai, os três irmãos brincam, riem, trocam informações, contam causos, fazem carinho no cachorro ancião, que depois de velho acata a ordem para sentar – desde que, evidentemente, ganhe, em troca, uma guloseima.

Café coado, ela repousa a cabeça no travesseiro. Segundos depois, já dorme profundamente seu sono Sabiá. (2013)





quarta-feira, 20 de julho de 2016

QUASE HISTÓRIAS (XXIV)





AS PRIMAS

Como sempre, a prima endinheirada, “perua” assumida, deitou falação nos ouvidos da prima pobre:

- Você está uma lástima, precisa se cuidar, emagrecer, secar as varizes, cuidar da pele… Seus dentes estão uma miséria, seus cabelos parecem ninho de rato. Ponha silicone nos peitos. Vai acabar pisando nos bicos.

A prima pobre tentou falar. Em vão. A outra não deixou:

- Você também precisa se vestir melhor, comprar sapatos e sandálias boas. Vá à academia. Bem, estou lhe dando esses conselhos, porque sou sua amiga, você sempre foi minha prima predileta. Mas, cada um faz da vida o que quer. Não é, meu bem?

A prima pobre ia lhe perguntar onde arrumaria dinheiro para tanto.

Desistiu.

Agradeceu os conselhos da prima rica. Disse que ia pensar.


BIBLIOTECA

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Num ambiente povoado por analfabetos, orgulhosos da sua ignorância longamente cultivada, o pai fez história. Foi ridicularizado. Gastar dinheiro com livros? Isso é coisa pra gente rica, pra quem tem dinheiro sobrando, diziam.

Apesar do dinheiro miúdo, o pai sempre comprou muitos exemplares, uns três mil, talvez. Leu bastante. Suas preferências literárias nunca bateram com as minhas. Visões diferentes do mundo. Que importa? Com seu exemplo, ele ajudou os netos a gostar de ler e a estudar sempre. Trabalho de Hércules.

A propósito, há quem nos pergunte:

-- O que vão fazer com essa tralha toda, quando ele morrer?

Pode? (OS - maio de 2015)



terça-feira, 19 de julho de 2016

QUASE HISTÓRIAS (XLV)

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ESCREVER PARA QUÊ?

Queria cometer um poema, um mísero que fosse.

Não sei versar.

Queria tecer um conto, uma crônica qualquer.

Sei fazer não.

Tropeço nas palavras, verbos me atrapalham.

Romance?

Nem pensar. A este escriba faltam talento e fôlego.

E verve. E tanto mais.

Que valia tem um homem que não sabe escrever?

Pensando melhor: escrever para quê?



É A PREGUIÇA, ESTÚPIDO

Dia desses, no boteco, um conhecido muito chato, do tipo compenetrado, que nunca baixa a guarda, queria tratar de assuntos que, em nossa mesa ao menos, ninguém queria tratar. Afinal, estávamos ali para cuidar de temas relevantes em situações como essas, ou seja, de nada que tenha importância.

A certa altura, me perguntou por que escrevo pouco e por que, em geral, meus textos são curtos.

-- Para errar menos, encerrei o assunto.

Para vocês, conto a verdade: é a preguiça que me impulsiona. 

Faço minhas as palavras do filósofo Luiz Felipe Pondé:

-- A preguiça me persegue: quero ser rápido como quem rouba, assim como quem conhece a si mesmo e sabe que desgraçadamente cansa rápido de tudo que faz e quer. Minha inspiração dura pouco. (OS - junho de 2015)




terça-feira, 21 de junho de 2016

QUASE HISTÓRIAS (III)

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DOLORES, DOLORES

-- Acordei hoje sem dores. O dia estava bonito, ensolarado. Uma beleza. Mas não consegui segurar o choro.

-- Uai, chorou por quê?

-- Até elas, as dores, Dolores, me abandonaram.


JOÃO BOBO

Ele ia e vinha, vinha e ia, ao sabor dos murros e pontapés que tomava. Sua alegria era dar alegria a quem lhe batia. João Bobo. Bobo João.

João Bobo cansou de apanhar. De ir e vir, vir e ir sem ver o mar. Bobo João cansou da vida sem graça, cansou de apanhar.

Quando o menino do vizinho chegou com o espeto na mão, para lhe furar os pés de plástico, ele não lhe disse palavra, não reagiu, nada fez.

Murchou em paz. Aliviado.

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ZÉ PAULO

Desde sempre, lástima das lástimas, ele entornava todas, mais algumas, com direito a “chorinho”. Sem descontinuar. O pai se foi, a mãe se foi, Zé Paulo ficou livre para fazer o que mais gosta: beber. Entornou em dobro. Sem parar.

Herdou casa própria, recebia aluguel. O irmão – ex-sócio na oficina – lhe dava mesada. Zé Paulo ia em frente, contra o vento. Bebendo muito, comendo nada.

Final de ano.

Zé Paulo, solitário como sempre, sentou-se na porta de casa. Passou muitas horas sem falar coisa com coisa. Chamaram seu irmão. O irmão chegou. E fez o que deveria ser feito: colocou Zé Paulo numa clínica.

Zé Paulo falando sandices, sandices sem parar.

Apesar da uca, Zé Paulo sempre foi inteligente, gozador nato.

Dias depois, o irmão quis saber da enfermeira se Zé Paulo estava melhor, se o juízo (ou a falta dele) estava voltando. Por via das dúvidas, foi direto ao ponto:

-- Zé Paulo: dois e dois são quanto?

Zé Paulo não se fez de besta:

-- Porra! Isso aqui é hospital ou escola?



terça-feira, 31 de maio de 2016

QUASE HISTÓRIAS (I)

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OLHOS

-- Você está ficando velho, meu velho. Não se preocupe, não. Ninguém lhe dá a idade que, de fato, tem. Parece ter quinze anos a menos. Continua bonito, conservado. Mas – como eu – envelheceu.

-- Por que diz isso?

-- Seus olhos marejam por qualquer coisa. Os meus também.

SENHOR

Não me queira mal por chegar assim: de mãos abanando. Cheguei como pude – sem terno, sem mortalha, sem roupinha melhor. Sem compostura. Compostura, aliás, nunca foi minha praia. Venho como vivi: quase pelado: de bermuda ordinária, camiseta, chinelos, assuntando inutilidades.  Com cigarros no bolso, caixinha de fósforo na mão... Pode fumar aqui, Senhor?

DIÁLOGO NO BOTECO

-- Então, como ficaram seus olhos após a operação?

-- A mesma porcaria de antes. Tanto faz eu estar de óculos ou sem óculos. Enxergo a mesma coisa: muito mal.

-- Então, deixe os óculos em casa. Pelo menos, o senhor deixa de carregar um peso desnecessário.




sexta-feira, 13 de maio de 2016

O BRASIL REGRIDE



As benzedeiras sumiram. 
O SUS claudica. 
Os planos de saúde são o que são.
Aos copos, portanto.
Antes que o bucho vire. (OS)

sexta-feira, 18 de março de 2016

QUASE HISTÓRIAS (II)

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AMADA AMANTE

Era, sim, um amante à moda antiga, embora não tivesse o hábito de dar flores a seu ninguém. Colocou o vinil na vitrola. E deixou o danado rodando seus lamentos. Entornou parati, ficou emocionado que só. Aquele amor de décadas aflorou. Era "o dia", os filhos saíram para passear... Estavam sozinhos. Mas ela tinha manicure com hora marcada. Paciência. Ficou para a próxima.


SINA

Nunca atirou pau em gato, torceu rabo de cachorro, caçou passarinho com espingarda de chumbo ou com estilingue e mamona. Ao contrário. Sempre que podia, fazia barulho para espantá-los. Era o seu jeito de protegê-los.

Talvez por isso, ou também por isso, nunca foi bem visto pelos primos e amigos dos primos. Está convencido de que eles, por pura vingança, atiraram pedra na cruz. E disseram a Jesus Cristinho que foi ele.

Distraído, Jesus Cristinho acreditou. Só pode ser isso.


CÍRCULO VICIOSO

-- Quintino, meu amigo: você ficou rico, muito rico, depois que entrou para a política. Por que, então, continua fazendo trapaças? 

-- Para poder contratar advogados de ponta. Ninguém sabe como será o dia de amanhã. E essa gente cobra caro, caríssimo.