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quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

COMPORTAMENTO/OPINIÃO: ZUENIR VENTURA

Resultado de imagem para imagens arrastões no Rio
Alerta aos turistas
Foto: G17

FONTES DO DESASSOSSEGO

Jovens bandidos não se contentam mais em roubar.
O prazer maior é proporcionado pelo sadismo
com que agridem e até matam sem qualquer motivação

Por Zuenir Ventura
O Globo – 21/02/2018

A intervenção federal ainda requer muita explicação, mas já se pode afirmar que uma das maiores dificuldades que a medida vai enfrentar é a existência no Rio dos dois principais agentes da desordem: o crime organizado e o crime desorganizado, o que age no atacado e o que atua no varejo. O primeiro se dedica preferencialmente a grandes ações, como tráfico de drogas, contrabando, assaltos a caminhões de carga, explosão de caixas eletrônicos e rebelião nos presídios.

Tão ou mais bem armados do que a polícia, os traficantes são os donos das favelas, exercendo sobre elas domínio absoluto — territorial, político, econômico e militar. Antes, ainda tinham que disputar a hegemonia com a milícia, mas hoje são parceiros, e a força do terror duplicou.

Eles formaram um Estado paralelo tirânico, que impõe suas leis seja por meio da extorsão — pedágios e tributos sobre serviços como luz e gás —, seja por meio da execução dos que desobedecem ou transgridem. Seus “tribunais” julgam, condenam e aplicam sentenças de morte.

Tudo isso é sabido, mas, como ocorre do “outro lado” da cidade, não chega a assustar tanto quanto o crime desorganizado, que neste verão, principalmente no carnaval, aterrorizou os moradores do asfalto, com grupos de menores agindo em conjunto e praticando pequenos furtos e roubos a pé ou de bicicleta, às vezes usando facas. Eles têm promovido arrastões não só na praia, mas também em lojas, onde entram em bandos, saqueiam rapidamente e saem, como fizeram no supermercado Pão de Açúcar no Leblon.

Com mais frequência, porém, eles agem nos calçadões e nas ruas da Zona Sul. Só na segunda-feira de carnaval, a Delegacia de Atendimento ao Turista registrou 26 ocorrências. Dois italianos foram feridos na cabeça; uma chinesa e uma alemã levaram socos no rosto, além de chutes; uma argentina que passeava com um bebê foi jogada no chão.

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Zuenir Ventura é jornalista

Um vídeo flagrou a cena de uma senhora de 58 anos em Ipanema. Ela chegava ao trabalho às 7h30m num condomínio, quando foi atacada pelas costas por quatro bandidos. “Foi uma covardia o que fizeram comigo”, ela contou, inconformada com a violência gratuita. “Por que não me pediram para passar a bolsa? Eu entregaria. Não precisava ser agredida”.

Nos ataques a transeuntes, é essa a característica: o requinte de crueldade. Os jovens bandidos não se contentam mais em roubar. O prazer maior é proporcionado pelo sadismo com que agridem, espancam e até matam sem qualquer motivação. É muito difícil prendê-los porque se dispersam rapidamente após cada ação.


Não têm chefes, agem de modo anárquico em bandos e por conta própria, numa espécie de versão tupiniquim dos “lobos solitários”. Será que a intervenção federal tem algum plano para secar essas fontes de nosso desassossego?

domingo, 14 de janeiro de 2018

POLÍTICA/OPINIÃO: ZUENIR VENTURA

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TRUMP: GUGU-DADÁ, NÃO QUERO MAIS BRINCAR
CARICATURA: DAMIEN GLEZ

TRUMP E ALICE: A FALA INFANTIL

Se avaliações estiverem corretas, ele se encontra
na fase de pré-adolescência tardia, com os sintomas
típicos: inconstância, agressividade, entre outros

Por Zuenir Ventura
O Globo – 13/01/2018


Um levantamento exaustivo e um livro explosivo acabam de revelar, cada um à sua maneira, que Donald Trump é uma criança — ou pelo menos fala, age e é tratado como tal pelos que o cercam em casa e na Casa Branca. A análise de 30 mil palavras pronunciadas pelo presidente em discursos, entrevistas e declarações concluiu que seu vocabulário apresenta nível inferior ao de todos os que o antecederam na Presidência desde 1929 e, mais grave, equivale ao de uma criança de 8 anos, a idade de Alice, minha neta. Com a diferença de que, pelo que sei dos dois, o repertório vocabular e gramatical dela é mais rico do que os 140 caracteres que ele usa diariamente no Twitter.

“Na verdade” — para citar uma expressão que ela adora — a comparação é desfavorável a ele, que dificilmente teria nível para frequentar a turma dela na escola, pois não seria capaz, por exemplo, de dar uma aula sobre Nelson Mandela, como ela fez recentemente. Em comum, talvez eles tenham apenas o narcisismo, que nela é infantil e nele, senil. Ela tem a pretensão de entrar para a ABL já e ele, bom, ele garantiu que é “um gênio muito estável” e “realmente esperto”. No caso de Alice, ainda há tempo para conserto; no dele, com 71 anos, talvez não tenha mais jeito.

Em recente comício em Nashville, o presidente se dirigiu ao público assim: “Vocês são felizes por terem votado em mim. Têm sorte de eu ter dado a vocês esse privilégio”. No livro “Fogo e fúria — Dentro da Casa Branca de Trump”, que já é um best-seller nos EUA e tem lançamento previsto para março no Brasil, seu autor, o jornalista Michael Wolff, cita como um dos sintomas de imaturidade emocional a necessidade de aprovação e gratificação imediatas. A descrição que todos lhe fizeram do personagem retratado é a de uma pessoa com ego insaciável. “É tudo para e sobre ele. Esse homem não lê, não escuta”. Talvez por saberem dessa carência patológica é que os íntimos lhe dispensem tratamento diferenciado.

Se essas avaliações do seu comportamento estiverem corretas, ele se encontra na fase de pré-adolescência tardia, com os sintomas típicos: inconstância, agressividade, entre outros distúrbios.

Fenômeno político que tem desafiado a sociologia, o caso Donald Trump está precisando da psicologia para ajudar a entender esse seu inexistente mundo de maravilhas inventadas.

Há dias, numa conversa sobre ciência e religião, Alice declarou: “Eu acredito na evolução” (da espécie). Com certeza, ela não estava pensando em Donald Trump quando afirmou isso.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

CULTURA/OPINIÃO: ZUENIR VENTURA

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 AINDA CONY, INESGOTÁVEL

Há mais de 40 anos, o crítico Otto Maria Carpeaux
advertia: ‘Esconde atrás da máscara de um cinismo
feroz seu sentimentalismo inato’

Por Zuenir Ventura
O Globo – 10/01/2018

Carlos Heitor Cony morreu deixando de propósito a imagem de que era pessimista, cético, cínico e, como revelou no seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, anarquista. Gozador, deve estar se divertindo por ter conseguido que acreditassem nisso. Mas será que esse Cony correspondia ao real, de carne e osso? Pelo menos seu amigo Otto Maria Carpeaux achava que não. Há mais de 40 anos, o grande crítico advertia: “Cony esconde atrás da máscara de um cinismo feroz seu sentimentalismo inato”.

Bastaria lembrar o que o cronista expressou publicamente sobre Mila (*). Um trechinho: “Foram 13 anos de chamego e encanto. Dormimos muitas vezes juntos, a patinha dela em cima de meu ombro”. É difícil imaginar um cínico capaz de se enternecer e chorar de saudade a perda de uma cadelinha.

A mesma contradição se encontra nesse anarquista obediente aos rituais. Foi ele quem revelou: “Estudei em seminário não por um sentido místico, mas porque a liturgia me atraía”. Quer dizer: o que o fascinava nos dez anos de internato não era a fé, mas os ritos da religião.

Dois mecanismos foram importantes na formação de Cony. O primeiro, de compensação. Aos 5 anos, quando começou a articular palavras, ele misturava letras, o que o levou a se refugiar na escrita. Escrevendo, não trocava, por exemplo, o “g” pelo “d” em “fogão” como fazia ao falar, provocando bullying dos colegas.

O segundo mecanismo foi o de defesa — “um modo de não se deslumbrar” — e de proteção contra o niilismo e o desespero. Caminhando sempre entre paradoxos, ele às vezes se mostrava tão cético que parecia não acreditar nem no ceticismo.

Em 1958, Luiz Garcia e eu éramos editores do suplemento literário da “Tribuna da Imprensa” de Carlos Lacerda, quando apareceu na redação um desconhecido com um envelope: “São os originais de meu livro. Não sei se vale uma resenha”. Era Cony, com o “Ventre”. Valia, e como.

Já estava nesse romance de estreia com imagens fortes e uma inesperada contundência de linguagem um pouco da dissonância que iria marcar sua vida e obra — uma espécie de espírito de contradição que gostava de contestar expectativas óbvias e de não se permitir estacionar numa posição ideológica. Chegou a ser flagrado na esquerda, na direita e no centro, mas não por muito tempo.

Uma vez ele escreveu que, vizinhos de bairro, só nos encontrávamos nos aeroportos ou fora do Brasil. Num desses encontros a caminho de alguma palestra, perguntei que máscara ele ia usar na sua fala. Como não aceitava provocação nem de brincadeira, retrucou: “Eu uso a máscara do pessimismo e você, a do otimismo. Cada um se defende como pode da tentação contrária”.

À sua maneira, ele concordava enfim com o diagnóstico de Carpeaux.

***

LEIA A CRÔNICA “MILA”

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domingo, 10 de dezembro de 2017

INTERNACIONAL/OPINIÃO: ZUENIR VENTURA

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 SE LHE DER NA TELHA

Apenas os judeus ortodoxos estariam interessados na opção
adotada por Trump. Os mais ao centro e à esquerda
prefeririam uma solução negociada

Por Zuenir Ventura
O Globo – 09/12/2017

Desta vez não se trata apenas de uma decisão polêmica e provocativa como têm sido quase todas as de Donald Trump. A de agora, reconhecendo Jerusalém como a capital de Israel, desafiando importantes aliados internacionais, inclusive o Papa Francisco, contém um potencial explosivo capaz de inflamar o Oriente Médio e de, como disse o líder do Hamas, abrir as “portas do inferno”, ao destruir o sonho dos “dois estados” (os protestos violentos já começaram). Quais foram os motivos que o levaram a abrir mão do papel dos EUA na mediação do conflito entre israelenses e palestinos, pondo fim às negociações de paz? São questões que os analistas estão procurando entender.

Segundo J.J. Goldberg, editor da “Forward”, revista voltada para o público judeu, Trump foi movido por pressão da direita evangélica republicana, que é hoje uma sólida base de apoio ao partido. Com ele concorda Kenneth Wald, professor de Ciência Política da Universidade da Flórida. Eles acham que a influência dos evangélicos foi mais determinante do que a dos judeus, que seriam em menor número e não teriam uma boa interlocução com Trump.

Além disso, apenas os judeus ortodoxos estariam interessados na opção adotada por Trump. Os mais ao centro e à esquerda prefeririam uma solução negociada. “A decisão não tem a ver com a comunidade judaica, que é majoritariamente liberal”, afirma Goldberg. “Os evangélicos estão em êxtase”, noticiou a rede de Radiodifusão Cristã. Já Michael Barnett, professor de Assuntos Internacionais da Universidade George Washington, acha difícil encontrar uma explicação razoável. Para ele, Trump “faz o que lhe dá na cabeça” — ou na telha. “A sua política é dirigida por impulso”.

A hipótese do impulso ou, digamos, do surto, remete ao que aconteceu na campanha eleitoral, quando um estudo da Universidade de Oxford, na Inglaterra, fez o perfil dos candidatos para estabelecer seus “traços psicopáticos”, os quais, no caso de Trump, foram comparados aos de Adolf Hitler e de Idi Amin Dada, ex-ditador de Uganda. O responsável pelo estudo, o professor Kevin Dutton, psicólogo especialista em análises comportamentais, acabou amenizando um pouco seu diagnóstico, admitindo que a psicopatia tem “um lado bom” e que nem todos seriam apenas perversos e narcisistas. “Nem todo psicopata é criminoso. Nem todos são malucos ou maus”, ele procura tranquilizar.

Mesmo assim, fiquei tão preocupado que, em pesadelo, um deles tinha acesso ao botão para explodir o mundo — se lhe desse na telha.

domingo, 3 de dezembro de 2017

COMPORTAMENTO/OPINIÃO: ZUENIR VENTURA

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"Iracundos das redes sociais, em vez do rancor, 
deixem o computador e façam amor"
Ilustração: iStock


O ÓDIO É UM VENENO

Parece que não é a sociologia que vai resolver isso,
mas a psicoterapia, já que não é uma questão ideológica,
mas de ego ferido por rancores vãos

Por Zuenir Ventura
O Globo – 02/12/2017

O ódio sempre existiu, inclusive entre irmãos, como o de Caim contra Abel, relatado pela Bíblia como o primeiro homicídio da história da Humanidade. Mas esse sentimento nunca dispôs de um instrumento tão poderoso e rápido de disseminação quanto a internet agora.

Segundo o historiador escocês Niall Ferguson, as redes sociais assumiram um papel tão importante e promoveram de tal maneira a radicalização das ideias e opiniões que essa polarização raivosa se transformou em “veneno”. Professor da Universidade de Stanford e estudioso da decadência do mundo ocidental, ele acredita que “os Estados Unidos chegaram a um nível de declínio que se tornaram uma sociedade não civilizada”.

Não sei se nós, brasileiros, estamos muito diferentes. A nosso favor, não temos um presidente que já acorda com a obsessão de transmitir para o país e o mundo sua dose diária de bílis diretamente do fígado.

E faz isso por meio dos 140 caracteres do Twitter, ou seja, em mensagens instantâneas, recheadas de notícias falsas (as fake news) que se dirigem não à reflexão, mas ao reflexo, incitando os baixos instintos de quem recebe.

O Prêmio Nobel José Saramago, pensando nessa tendência para o monossílabo como forma de comunicação, previa: “De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido”.

Felizmente, não temos um Donald Trump com seus grunhidos contra inimigos reais e inventados — o maluco da Coreia do Norte, os muçulmanos indiscriminadamente, os imigrantes em geral e os terroristas em particular. Mas vai ver que nós não precisamos — nós nos bastamos.

O nosso ódio já foi contra os ditadores militares, hoje se volta contra nós mesmos. E parece que não é a sociologia que vai resolver isso, mas a psicoterapia, já que não é uma questão ideológica, mas de ego ferido por rancores vãos, carência, rejeição, falta de autoestima, intolerância com a diferença.

Enquanto Ferguson diagnosticou o ódio como um veneno que ataca a saúde — podendo afetar o sistema nervoso, a respiração, provocar desordem emocional — o terapeuta cognitivo-comportamental Juan Antonio Picasso, que também esteve recentemente no Brasil, para um seminário de Combate ao Estresse e à Ansiedade, receitou como antídoto o sentimento contrário: “O único elemento que dá paz e ordem a seu cérebro é o amor. É impossível não estar feliz se houver amor de boa qualidade”.

Portanto, iracundos das redes sociais, em vez do rancor, da raiva, do ressentimento e da ira, deixem o computador e façam amor — de preferência com humor.

domingo, 12 de novembro de 2017

POLÍTICA/OPINIÃO: ZUENIR VENTURA

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Foto: arquivo Google

NÃO VALEM A BRIGA

O perigo é os inocentes continuarem brigando entre si
por aqueles políticos que no final se entendem e se
desentendem conforme suas próprias conveniências

Por Zuenir Ventura
O Globo – 11/11/2017

Vendo a foto de Lula sorridente entre Renan Calheiros e o filho, como se fossem velhos amigos, e lendo dias depois o relato da briga de Aécio Neves com seu companheiro Tasso Jereissati, a quem destituiu do comando interino do partido e foi por este acusado de apoiar o “fisiologismo do governo Temer” (o vice na chapa de Dilma que em 2014 derrotou o então candidato do PSDB, que é o mesmo gravado por Joesley Batista, dono do frigorífico JBS, pedindo R$ 2 milhões, dá pra entender?), a gente se dá conta de quanto a velha prática política, independentemente de siglas, é responsável pelos nossos tempos de cólera.

Os efeitos visíveis são a intolerância e o ódio rompendo relações, abalando ligações familiares e criando um embate na sociedade manipulado por lideranças, em que os desafetos políticos de ontem são os afetos de hoje e vice-versa.

Em algumas famílias o assunto teve que ser proibido na mesa do jantar. Conheço o caso de uma amizade de mais de meio século que só não se rompeu definitivamente porque uma das partes alegou, para mantê-la, que não teria tempo para construir outra com a mesma duração.

Deixei de ser ingênuo o bastante para saber que não é de agora que em política só há interesses, às vezes até legítimos.

Nesse jogo, a negociação é inevitável, e as divergências são naturais numa democracia. O problema é o que se negocia, é a transgressão dos limites éticos, é o toma lá dá cá, o troca-troca a qualquer preço, literalmente — como, por exemplo, aconteceu para que o presidente Temer conseguisse se livrar na Câmara dos Deputados da segunda denúncia, para só citar esta, por obstrução da Justiça e organização criminosa.

O nível das transações foi dado pela predominância da linguagem usada, mais própria de outras páginas. Falava-se nos bastidores em compra e venda de votos, chantagem, dívidas, pagamentos, como se os nossos representantes estivessem numa feira.

Como a campanha para as eleições do ano que vem já começou, a nova moda deverá ser a “reconciliação”, inaugurada por Lula com sua declaração de que “perdoa os golpistas”. Seria até louvável, se esses impulsos de reatamento, de “fazer as pazes”, fossem sinceros, edificantes, motivados por sentimentos legítimos, e não gestos de oportunismo de pré-candidatos em busca de apoios — novos e os que foram perdidos.

O perigo é os inocentes continuarem brigando entre si por aqueles políticos que no final se entendem e se desentendem conforme suas próprias conveniências. Eles não valem a briga.


Zuenir Ventura é jornalista

domingo, 5 de novembro de 2017

POLÍTICA/OPINIÃO: ZUENIR VENTURA

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Torquato Jardim

OS EFEITOS DE UM SURTO

‘Se estou errado que me provem’, desafiou o ministro. 
Quem sou eu para contestar um jurista como ele, 
mas sempre soube que o ônus da prova cabe 
a quem acusa. Ou não?

Por Zuenir Ventura
O Globo – 04/11/2017

Se fosse um médico, o ministro da Justiça, Torquato Jardim, teria feito um diagnóstico do Rio que, em vez de tratar a doença, indignou o doente. Talvez por considerá-lo incurável, nem chegou a receitar remédio.

Alguns meses antes, vejam a diferença, o ministro da Defesa, Raul Jungmann, diante do mesmo quadro, chamou a atenção para a gravidade da situação, mas sem o estilo hiperbólico e espalhafatoso de seu colega de Ministério que tantos protestos tem causado, como o do governador, que foi ao STF solicitar que ele seja interpelado por suas declarações sem provas.

Ou como o da viúva de um coronel que quer processá-lo por ter levantado suspeitas de que a morte do marido não foi assalto, mas uma execução, um acerto de contas.

No entanto, em que pesem seus desacertos, não se pode cometer contra o “laudo” de Torquato o mesmo erro que ele cometeu nas denúncias. Suas críticas ao comando da segurança pública do estado não devem ser de todo descartadas, já que são notórios os desvios de conduta da “banda podre” da polícia.

Só este ano, três casos vieram à tona: em junho, 96 policiais foram presos em São Gonçalo acusados de receber de traficantes R$ 1 milhão por mês. Na mesma época, uma líder comunitária de Cordovil foi morta logo após denunciar que bandidos subornavam PMs. Mais recentemente, quatro policiais da UPP do Caju, inclusive o comandante, foram presos em flagrante por desvio de armas e fraude processual.

Isso, porém, não dá direito ao ministro da Justiça de afirmar, sem nomes e provas, que comandantes de batalhões da PM “são sócios do crime organizado”. E nem de denunciar vagamente o envolvimento de autoridades com traficantes na Rocinha.

“Se estou errado que me provem”, desafiou. Quem sou eu para contestar um jurista como ele, mas sempre soube que o ônus da prova cabe a quem acusa. Ou não?

Mais discreto no tom e mais criterioso, Jungmann não se limitou a expor suas críticas, parecidas com a de Torquato. Além de constatar que “o crime conseguiu se infiltrar nas diversas esferas governamentais do Rio”, sua análise continha também uma receita de tratamento: a criação de uma força-tarefa de combate ao crime no Rio, uma providência que teve o apoio da procuradora-geral, Raquel Dodge, que aceitou a sugestão e criou o grupo.

Essa, sim, muito mais do que qualquer surto verborrágico, é uma medida capaz de ajudar no processo de “assepsia de parte do poder público do estado que foi capturado pela criminalidade”, como propôs o ministro da Defesa, tendo o cuidado de falar em “parte”, não em todo o poder público.



sábado, 16 de setembro de 2017

POLÍTICA/OPINIÃO: ZUENIR VENTURA

Corrupção custa caro (Foto: Arquivo Google)
Lula e Temer: dois amantes (do dinheiro alheio), dois irmãos
Foto: Arquivo Google

A POLÍTICA COMO CASO DE POLÍCIA

Não sei se a história da República registra um momento como este,
em que um presidente em exercício e um que pretende voltar
a sê-lo se encontram em igual risco

Por Zuenir Ventura
O Globo – 16/09/2017

Assim como já houve a judicialização da política e a politização da Justiça, a moda agora é a policialização da política, ou seja, a política como caso de polícia.

Basta ver a primeira página do jornal em um dia desta semana. A manchete era sobre o presidente Temer e o ex-presidente Lula às voltas com idêntico problema: como enfrentar as graves denúncias de recebimento de propina.

Outras notícias: “Aliado de Geddel quer colaborar com a Polícia Federal”, “Garotinho é preso com tornozeleira”, “Outro dono da JBS vai para a cadeia”, “PF diz que PGR sabia de ação de Miller na JBS”.

Na charge do Chico, a caricatura de cinco conhecidos personagens vestidos de presidiários, com Temer ao fundo, no palácio, observando a cena, preocupado.

Para quem acha que esse acúmulo de informações sobre o mesmo tema é atípico, veja o dia seguinte. A principal revelação era: “Em nova denúncia, Temer é acusado de chefiar organização criminosa”. Ele e mais uma meia dúzia de membros da cúpula de seu governo seriam o chamado “quadrilhão do PMDB”, que teria embolsado R$ 587 milhões de dinheiro indevido.

E há mais: “PF vasculha a casa de ministro Blairo Maggi”. “STJ autoriza inquérito sobre Pezão por corrupção passiva”.

A impressão é de que quem não está preso é porque ainda vai ser.

Não sei se a história da República registra um momento como este, em que um presidente em exercício e um que já não é, mas pretende voltar a sê-lo, se encontram ao mesmo tempo em igual situação de risco. Os dois têm também uma queixa comum: se acham vítimas de perseguição. Temer, do procurador-geral, a quem acusa de ter usado depoimentos falsos e “delação fraudulenta”. Lula, de todo mundo que não o apoia, principalmente Sergio Moro, a quem atribui fixação nele.

A estratégia de ambos é também a mesma: revidar o acusador devolvendo as acusações.

Nesse item, Temer é um aprendiz diante de Lula, que é imbatível, como demonstrou no seu mais recente depoimento a Moro, classificando Palocci, que até a semana anterior era um admirável companheiro, de “frio, calculista, dissimulado”. E “mentiroso”, embora a maior mentira fosse a sua, ao discursar para militantes e manifestar, com sincero cinismo, um discutível desejo para quem gosta dos prazeres da vida e tem tanta ambição de futuro: “Eu prefiro a morte a passar para a História como mentiroso”.

Alguém acredita?


Nós, colunistas, somos pagos para comentar e explicar os fatos. Porém, diante da indefinição em que se encontra o atual cenário político, acho que vou devolver o salário.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

POLÍTICA/OPINIÃO: ZUENIR VENTURA

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"O Grito", de Edvard Munch (Imagem: arquivo Google)

O QUE AINDA CAUSA ESPANTO?

Depoimento de Palocci produziu um estrago definitivo na imagem
que é oferecida aos eleitores,
a de um partido impoluto e um líder incorruptível

Por Zuenir Ventura
O Globo
09/09/2017

Foi uma semana para desafiar quem achava que já vira de tudo, e para confirmar a tese de que no Brasil não houve surrealismo nem realismo fantástico como movimentos literários porque eles existem na vida real.

Apenas alguns exemplos. Teve o inacreditável vídeo dos R$ 51 milhões contados por máquinas como numa cena na Casa da Moeda. O dinheiro continha as impressões digitais de Geddel Vieira, aquele que há dois anos se indignava na televisão: “Chega. Ninguém aguenta mais. Isso já deixou de ser corrupção, é roubo”.

O candidato ao Prêmio Cara de Pau tinha razão. Como classificou um procurador, ele é “um criminoso em série”.

Teve também o áudio em que o indecoroso Joesley, não satisfeito em fazer intrigas e levantar suspeitas, alegando depois, como defesa, ter sido uma “conversa de bêbados” com Ricardo Saud, também delator, assassina a gramática: “nóis só vai entregar o Judiciário e o Executivo”.

A gravação serviu pelo menos para que o procurador-geral decidisse consertar o inexplicável erro que cometeu no acordo que concedeu tantas regalias indevidas, como imunidade penal, aos delatores da J&F.

A revogação dos benefícios seria feita ontem à tarde, junto com um provável pedido de prisão ao ministro Edson Fachin, relator do caso no STF

Em outro capítulo, igualmente inédito, teve o ministro Marco Aurélio Mello, do STF, confessando sua “inimizade capital” pelo colega Gilmar Mendes, que, por sua vez, xingou o procurador-geral de “delinquente” (Mello acrescentou que, se estivessem no século XVIII, os dois partiriam para um duelo de vida ou morte).

Porém, o que mais causou espanto foi o depoimento de Antonio Palocci ao juiz Sergio Moro, em especial o trecho que ele classificou de “pacto de sangue” entre Lula e Emílio Odebrecht, envolvendo um presente pessoal — um sítio (em Atibaia) — palestras a R$ 200 mil, fora impostos, e uma reserva de R$ 300 milhões para atividades políticas nos anos seguintes ao fim do mandato.

Sendo de quem foi, de um ex-homem de confiança dos governos Lula e Dilma, o explosivo depoimento (cuja íntegra não cabe neste espaço) produziu um estrago definitivo na imagem que é oferecida aos eleitores, a de um partido impoluto e um líder incorruptível. Lula se disse decepcionado, e pode-se imaginar o quanto, lembrando o que ele declarou não faz muito tempo: “Palocci é meu amigo, uma das maiores inteligências políticas do país. Ele tá trancafiado e se resolver falar tudo o que sabe pode, sim, prejudicar muita gente. Mas não a mim. Não tenho nenhuma preocupação com delação dele”..

Desta vez não deu para atribuir as denúncias à perseguição política ou à vingança dos “golpistas”. A flecha partiu de dentro, de onde ele menos esperava.



domingo, 2 de abril de 2017

POLÍTICA/OPINIÃO: ZUENIR VENTURA




Ana Júlia Aleixo recebeu um novo coração após série de reportagens do Globo (Foto: Michel Filho / Agência O Globo)
ANA JÚLIA (FOTO: MICHEL FILHO/AGÊNCIA O GLOBO)



O PAÍS DAS COISAS BOAS

Acompanhei todas as edições do Prêmio Faz Diferença,
e esta 14ª deve ter sido a mais emocionante por ter
privilegiado a sociedade, em vez de sua representação política

Por Zuenir Ventura
Em O Globo – 01/04/2017


Parecia um daqueles dias típicos de notícias ruins a que estamos habituados no Rio de Janeiro. Quatro meses depois da prisão do ex-governador, eram encarcerados por corrupção cinco dos sete conselheiros do TCE, o tribunal que justamente deveria fiscalizar as contas do estado.

Se não bastasse, houve a condução coercitiva do presidente da Assembleia para prestar depoimento sobre conluio com empresários de ônibus.

No mais, a rotina de violência de sempre: menina de 13 anos morta por bala perdida, reação dos moradores, arrastão, crise econômica, caos urbano.

Foi em meio a esse clima de fundo de poço que se assistiu a um espetáculo memorável, reunindo em noite exemplar cerca de 20 pessoas que, com suas realizações, se destacaram por fazer o bem, representando uma espécie de outro país onde tudo deu certo.

Acompanhei todas as edições do Prêmio Faz Diferença, e esta 14ª deve ter sido a mais emocionante por ter privilegiado a sociedade, em vez de sua representação política.

Houve troféus para a pesquisa científica, a arqueologia, a medicina, a saúde, a educação, as artes, perfazendo 18 categorias.

Acho que nunca se derramaram tantas lágrimas, no palco e na plateia. Chorou Jô Soares, chorou Guti Fraga, e foi difícil não chorar quando se ouviu a doutora em sociologia Natalicia Tracy dedicar seu prêmio às mulheres oprimidas como ela foi.

Natalicia chegou a Boston com 19 anos como babá, sofreu maus-tratos, estudou, tornou-se professora universitária e hoje dirige o importante Centro do Trabalhador Brasileiro naquela cidade.

E quem não chorou com o discurso de Ana Júlia, de 9 anos e coração novo, agradecendo aos que contribuíram para o transplante do órgão, inclusive o repórter Vinícius Sassine, graças a quem os aviões da FAB deixaram de transportar autoridades para salvar vidas. “Quero agradecer a Deus, aos meus pais...” e paro por aqui para não chorar de novo.

Por fim, o merecidíssimo troféu “Personalidades de 2016” para as médicas Celina Turchi e Adriana Melo, por terem estabelecido com suas pesquisas a relação entre a zika e a microcefalia.

Elas alertaram para a falta de apoio financeiro às pesquisas e às “mais de duas mil crianças esquecidas”, como disse Adriana, que trabalha em Campina Grande, na Paraíba.

Já Celina é pesquisadora da Fiocruz em Pernambuco, tendo sido eleita pela revista científica “Nature” como um dos dez nomes de maior destaque da ciência em 2016.

Não dá para registrar aqui tudo o que houve de bom nessa noite. É pena, mas, pensando bem, nos dias de hoje é sinal positivo quando as coisas boas são tantas que não cabem no espaço de uma coluna.