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segunda-feira, 10 de setembro de 2018

CRÔNICA: WALCYR CARRASCO

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Ilustração: Arquivo Google


O OUTRO LADO DO ASSÉDIO

Anônimos eram preteridos por quem topava o assédio,
acompanhado de promoções e salários

POR WALCYR CARRASCO
Época Digital
23/01/2018 - 08h00

Durante boa parte da minha vida profissional, eu fui vítima de assédio sexual. Calma. Já explico. É mais complicado do que parece. Tanto que meu primeiro impulso, ao saber do manifesto das mulheres francesas, foi libertador. Que mal faz um galanteio no ambiente de trabalho, afinal? Tenho horror a entrar num clima de caça às bruxas. Hoje, nos Estados Unidos, homem algum tem coragem de entrar no elevador sozinho com uma mulher. É mais fácil as pessoas se conhecerem no ambiente de trabalho, fora de dúvida. A convivência produz relacionamentos. Elogio, paquerada, é crime? Desde que se saiba ouvir não... Por outro lado, se a tentativa envolve relação de poder, fica difícil. O chefe pode demitir, se não rolar. Ou não escolher a candidata, como no caso de tantos filmes americanos. Podem se horrorizar comigo. Boa parte das famosas de Hollywood que hoje denunciam assédio topou. Das outras nem se sabe o nome. Há um caso antiquíssimo da TV brasileira, cujos personagens nem estão mais na ativa. Um superexecutivo foi em cima de uma atriz. Ela atirou um cinzeiro na cara dele. Nunca mais se ouviu falar nela. Mas há um aspecto do assédio em que ninguém tocou.

Volto ao início. Fui vítima do assédio, mas indiretamente. Durante anos, antes de ser autor de novelas, trabalhei em grandes empresas, em funções diferentes. Inclusive como jornalista. Mas não só. Lembro-me de que certa vez me espantei com a absoluta incompetência de uma chefe. Mas logo me explicaram.

– Ela teve caso com o dono da empresa.

Em meu currículo consta um número incontável de amantes que viraram chefes, diretoras, executivas. A mulher tinha caso com o dono, o presidente? Virava diretora, executiva. Hoje, qualquer uma delas pode dizer que foi assediada na carreira. Mas e quem, como eu, era obrigado a obedecer a uma chefe horrorosa, só porque ela teve um caso com a pessoa certa? Trabalhei em empresas cujos donos eram gulosos. Em vários cargos de direção, estavam ex-namoradas. Hoje se diria que a ex foi vítima do assédio. Vamos combinar? As vítimas também éramos nós, eu e meus colegas. Nós, que ficamos à margem, aguardando promoções que nunca vinham, enquanto poderosos cometiam assédios. Bem recebidos assédios também aconteciam com homens. Certa vez, fiz um trabalho para uma editora (não tentem adivinhar, eu também traduzo, fiz revisões de livros...). O presidente era um rapaz bonitão. E me avisaram que não sabia nada, mas transava com o dono. Trabalhei por mim e por ele.

Uma amiga trabalhava numa grande empresa do ramo editorial. O patrão tinha caso com a secretária. (Secretária era um alvo clássico dos tempos pré-denúncias.) Curvilínea, a tal tinha tanto silicone que, se riscassem um fósforo por perto, explodia. Tudo pago pelo dono da empresa. Minha amiga desabafou:

– Não vou suportar se tiver de responder a ela.

Teve. A do silicone foi promovida a diretora, sem saber escrever uma linha ou escolher a capa de um livro.

Nem no jornalismo, que tanto denuncia, tem sido diferente. Deu até em assassinato. Há anos, o então diretor de redação de O Estado de S. Paulo Pimenta Neves matou a jornalista Sandra Gomide, sua namorada. Foi um escândalo. Que Deus a tenha. Mas, nas redações onde ambos trabalharam, sabia-se que era intocável. Por ser a namorada do chefão. Chegou a ser editora, tendo jovens jornalistas, semelhantes a mim no passado, subordinados a ela. Pessoalmente, nunca trabalhei com essa pessoa, mas passei por situações parecidas. Fiz faculdade de jornalismo. Como jornalista, trabalhei em grandes veículos. Mas meu currículo era pó diante de uma amante. O mesmo acontece em praticamente qualquer ambiente profissional. Talvez não nos técnicos, e olha lá... As pessoas adoram falar do mundo artístico. Estrelas de Hollywood denunciando têm mais força. O uso de um cargo, de um pequeno poder, para sexo, há em todas as profissões. E a pessoa incompetente que tomou o poder mais tarde repete a fórmula. Envelhece no cargo e abre espaço para outro incompetente subir na vida.

Este é o lado banal do assédio. Dos anônimos, como eu fui, preteridos por alguém que topava. E vamos falar a verdade? Com acompanhamento de promoções e salários, muitos e muitas queriam ser assediados. Entravam na fila, no passado. Quem estava fora dela é que se dava mal. O maior legado desse barulho contra o assédio não é só o fim desse tipo de abuso. Mas abrir oportunidades para as pessoas serem promovidas pela competência.

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WALCYR CARRASCO é jornalista, colunista da revista Época, autor de livros, peças teatrais e novelas de televisão.



segunda-feira, 3 de setembro de 2018

CRÔNICA: WALCYR CARRASCO

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Ilustração: Stockfresh


HORA DA VERDADE

Muitos adultos pensam, esquecendo a própria infância,
que a criança é um anjinho ingênuo e intocável

POR WALCYR CARRASCO
Época Digital
30/01/2018 - 08h00

Criança sabe ou não de sexo? Com que idade? Não estou falando do que seria ideal, em termos educacionais, teóricos etc. etc. Mas do real. Informações sobre sexo variam muito entre as classes sociais e locais de moradia. Escrevo livros infantojuvenis. Em certa época, muitos autores amigos achavam importante falar de sexo em seus livros. Eu não. Pelo simples fato, comentei com uma escritora amiga minha, que as crianças saberiam mais sobre sexo do que eu. Já soube de casos absurdos. Uma escola adotou um livro de um amigo para leitura paradidática. Em certa página, o casal de adolescentes descobria o sexo. Alguns pais fizeram escândalo. A solução da escola foi arrancar a página específica e queimar! Muitos adultos pensam, esquecendo a própria infância, que a criança é um anjinho ingênuo e intocável, a quem as informações jamais devem ser oferecidas. Nossa, quanta bobagem! Entre meus muitos livros, tenho um que aborda a questão do crack, Vida de droga. A personagem é uma adolescente que se vicia. Escrevi a partir de entrevistas com adolescentes. Achava que seria um fracasso absoluto, devido à ousadia do tema. Para minha surpresa, logo após o lançamento, fui chamado para dar muitas palestras em escolas religiosas. Um dia perguntei para uma freira se não se chocava com o tema.


– A gente quer mostrar como realmente acontece! O fundo do poço! Para evitar o vício – disse ela.

Achei interessante. Mas foi em um colégio público, na periferia de São Paulo, que descobri a real. Dei uma palestra e, em seguida, assisti à dramatização do meu livro, feita pelos próprios alunos. Para minha surpresa, havia cachimbos em cena e uma descrição do uso de crack absolutamente completa! No intervalo, falei com a diretora e com os professores. Comentei sobre meu medo de o livro ser pesado. A diretora apontou a janela.

– Está vendo aquela esquina? Atravessando a rua?

Concordei.

– Boa parte das alunas sai daqui no fim da tarde e vai se prostituir, logo ali.

Eu todo cheio de dedos. A diretora me revelou outras coisas de arrepiar.

– Pegamos uma aluna com seis garotos. Chamamos a família. Mas... como lidar com isso?

Eu já quebrei a cara em palestra. Tenho outro livro, A corrente da vida, que fala sobre a contaminação do HIV entre jovens. Fui a uma cidade próxima a São Paulo. Terminada a palestra em que falei sobre os riscos – nessas ocasiões, sou bem professoral –, pedi aos alunos que me enviassem perguntas escritas e anônimas, para que cada um se sentisse à vontade para perguntar o que quisesse. Lá pelas tantas, veio: “É possível reutilizar uma seringa?”.

Olhei para aqueles rostinhos, entre 10 e 12 anos. E me senti no papel de moralizar. Respondi:

– Nunca se pode reutilizar uma seringa, porque há risco de contaminação.

Sinceramente, eu só queria que ninguém naquela sala usasse a tal seringa. Um garoto de no máximo 11 anos ergueu a mão.

– O senhor está mentindo. Para esterilizar uma seringa, a gente faz assim, assim...

E deu o serviço. Quase caí duro.


Meus livros abordam temas atuais, mas não em torno da sexualidade. Vi amigos despencar nas vendas porque pais reclamam de situações que, segundo dizem, os filhos não podem saber. Na televisão e em todo meio de comunicação, a mesma pressão. Até na propaganda. Proíbem-se anúncios e comerciais para crianças, para não criar desejos que redundem em frustrações se o pai não puder comprar. Fui um menino pobre, tive muitos desejos que meus pais não puderam satisfazer. Isso me deu noção de limites. Não um sofrimento atroz. A não ser por um cavalo branco, que eu desejava ter no quintal. Foram anos de briga com o Papai Noel, que nunca trazia o tal cavalo!

Eu vejo argumentos de educadores e penso: onde é que eles estão, num país em que adolescentes têm seu primeiro filho aos 12, 13 anos? E onde o problema já é evitar o segundo? Onde as drogas correm solto nas praias, escolas? Vamos continuar fingindo que nada disso existe? Que a criança é um anjinho de procissão?

Penso que está na hora de rever o Estatuto da Criança e do Adolescente. Rever situações que satisfazem aos adultos, aos teóricos, mas não resolvem as questões básicas. Penso que aulas de educação sexual, com valores, jamais poderiam ser abolidas, porque ou a criança já sabe ou vai saber de um jeito pior.

Eu só não entendo como os teóricos de educação e tantos pais podem ser tão inocentes – enquanto para crianças e adolescentes basta abrir a internet e fazer o diabo.

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WALCYR CARRASCO é jornalista, colunista da revista Época, autor de livros, peças teatrais e novelas de televisão.


segunda-feira, 27 de agosto de 2018

CRÔNICA: WALCYR CARRASCO

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Foto: Arquivo Google

METAS DE VIDA

As pessoas querem brilhar. Confundem vocação
com a vontade de aparecer

Por Walcyr Carrasco
Revista Época Digital
16/01/2018 - 08h00

Dou ossinhos de petshop à minha cachorra Luna. Ela enterra. Depois desenterra. Simples assim. Se uma pomba dá mole, ela come, sem problemas de consciência. Luna é husky, e como tal, caçadora. Não enfrenta nenhum movimento pelos direitos dos pombos. Simplesmente pula em cima e depois engole até as penas. Gosta quando coço suas orelhas. Se chega uma visita que ela adora, simplesmente deita, patas para cima, expondo as partes íntimas. Que é exatamente o que eu gostaria de fazer, dependendo da visita. Mas sento educadamente e ofereço um café. Luna sábia. Eu a sustento. Ela nem mesmo tem a preocupação de ganhar a vida.

Desde que eu me conheço por gente, aprendi que devia estudar, me profissionalizar. E subir na vida. E formar um patrimônio. A sabedoria popular diz que no caixão nada se leva. Mas o magnífico mundo criado pelos humanos não leva essa sábia advertência em consideração. Quando eu era criança, ouvia ser preciso me preparar para a velhice. Sem condições de trabalhar, eu teria de sobreviver do dinheirinho amealhado durante a vida. Aposentadoria era uma palavra doce. Descobri que não ao visitar uma antiga professora. Com os índices de correção do governo, ela, mais de 80 anos, não recebe o suficiente para pagar a faxineira duas vezes por semana. Do que adiantou o sacrifício de mais de 40 horas semanais?

O grande objetivo da vida, portanto, não seria viver um amor, escalar montanhas ou plantar árvores. Mas formar o tal patrimônio. Lembro-me de uma antiga história, não me recordo onde li, de um pescador que vivia à margem de um rio. Chegou um homem da cidade, ofereceu uma fortuna pelo terreno. O pescador perguntou por que deveria vender.

– Com esse dinheiro o senhor poderá viver tranquilamente, à beira de um rio, pescando como gosta – explicou o comprador.

– Mas eu já vivo assim. Não preciso vender coisa nenhuma.

E o pescador continuou tranquilo em sua terrinha. Vendemos nossos sonhos, desejos, sentimentos mais íntimos, para termos a tal terrinha à beira de um lago. Mas... já não temos tudo isso? Eu assisto a esse processo, dolorosamente, no que toca à expressão artística. Já conheci muito candidato a escritor. Houve um tempo em que a questão da qualidade se sobrepunha a qualquer outra. Escrever era um mergulho íntimo. Mas a visão americana, que privilegia o sucesso, ganhou o mercado. Um livro é bom dependendo de quantos exemplares vendeu. É cada porcaria que ganha espaço na imprensa! Isso também vale para cantores, músicas, peças de teatro... todas formas de expressão artística. Tenho consciência de que vivo cercado de obras rasas. Isso ainda é uma sorte, fazer sucesso. Conheço inúmeras pessoas que, ao escolherem sua profissão, optaram pela mais segura. Depois, querem expressar sua veia artística. Acho maravilhoso alguém dar aulas de pintura em um asilo, criar grupos de teatro nas escolas, clubes, cantar com os amigos nas festas. Mas, novamente, as pessoas querem brilhar. Confundem vocação com a vontade de aparecer.

Um grande músico pode ser pobre e desconhecido. Repercutirá no mundo cultural e artístico. Mas ninguém se conforma com isso. Abandonam-se vocações, sede de viver e até amores. Mesmo não expressa em voz alta, talvez a frase que grita mais intensamente no íntimo de cada pessoa seja simplesmente:

– Eu me vendi.

Falei da área artística porque conheço mais de perto, convivo com sede de sucesso e riqueza em meu cotidiano. Mas estou farto de conhecer financistas, médicos, engenheiros idem. Poucos são felizes em ser quem realmente são. Trocam seus anseios, seu desejo de vida por um carro para se exibir, uma casa que não usam inteiramente, closets imensos, com roupas que não repetem. Existe algo mais ridículo que o caso do político escondendo uma fortuna em malas num apartamento? O dinheiro não servia para nada, a não ser para ser olhado. Como tantas contas em paraísos fiscais das quais os corruptos e traficantes não podem lançar mão, para não serem descobertos. É o patrimônio contemplado, que se torna apenas um símbolo. Sem palavras. Ainda estamos no início do ano. Não é questão de pensar em promessas como perder a barriga ou aprender um novo idioma. A grande questão geral da vida, essa sim merece atenção: quais são minhas metas? E afinal, o que levo no caixão?

Só se leva a vida que a gente viveu. Contemplo a sabedoria da minha cachorra, que nem pensa nisso. Só vive. Eu queria ser um cachorro.


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WALCYR CARRASCO é jornalista, colunista da revista Época, autor de livros, peças teatrais e novelas de televisão.

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AMOR E SABOR

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"O convidado conhecia a alta culinária de Madri e Paris.
Mesmo assim, repetiu três vezes minha canjica com amendoim..."
 POR WALCYR CARRASCO, em "AMOR E SABOR"


segunda-feira, 20 de agosto de 2018

CRÔNICA: WALCYR CARRASCO

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Ilustração: Nidhi Chanani

GENTE FELIZ ME IRRITA

Impossível conviver com a alegria carnavalesca.
Resolvi fugir de tanta comemoração

POR WALCYR CARRASCO
Época Digital
13/02/2018 – 8h

Ahhh, eu sei que muitas almas generosas ficam escandalizadas quando digo uma coisa dessas. Mas é fato. Não há nada mais irritante, e até tenebroso, do que gente feliz. Vá a uma churrascaria em almoço de domingo. Tem coisa pior? É contemplar o espetáculo de famílias rindo, gritando entre si, crianças chorando, mães nervosas, mas nem por isso menos felizes. Enquanto eu e um ou dois amigos nos refugiamos num canto, tentando conversar. Aí alguém canta "Parabéns", o garçom vem com um bolo, a outra mesa comemora. E algum de nós se lembra do último aniversário, que caiu na véspera de um feriado prolongado, e ninguém foi à festa. Algo assim. Soube que a taxa de suicídio no Natal e no Ano-Novo aumenta. Óbvio. Alguma alma solitária está em seu apartamento, ouvindo o tilintar de copos no apartamento do lado. A troca de presentes com gritinhos. Chega um momento, não resiste mais. Abre a janela e se atira. Já passei por isso há muitos anos. Um Natal solitário, depois da morte de meus pais. Inicialmente estava muito bem. Até comprei uma roupa que queria, de presente para mim mesmo. Mas e à noite, com a casa do lado toda iluminada, risos infantis? Só não me atirei porque morava em casa térrea. O máximo seria quebrar o nariz no cimento. A partir daí, cultivei outras relações familiares e tenho ótimos natais com minhas sobrinhas. Não se preocupem com meu próximo Natal.

Mas estou escrevendo uma novela, O outro lado do paraíso. Um capítulo por dia. Eu estava no Rio de Janeiro. Pretendia passar pelo menos uma noite na Sapucaí, assistindo ao desfile. Já me irritei só de pensar nisso. É numa data dessas que minha barriga tira a vontade de botar fantasia. Ou de sair num bloco, como um respeitável advogado amigo meu fez, de sunga e gravatinha-borboleta. Mas ele comparece à academia diariamente. Minha resolução de permanecer no Rio desapareceu em um único fim de semana. Das primeiras horas da manhã até a noite, um bloco desabrochou em frente a meu apartamento. Ouvi samba, pagode. Sem parar. Eu escrevendo. Adoro escrever. Mas não com uma multidão enchendo a rua, feliz, feliz! Gente que veio de todos os cantos do país e até do mundo, sambando, arrancando a roupa, se conhecendo e partindo pras finalizações. Eu, ouvindo. E até a madrugada, na praia, um outro bloco, também de gente feliz.

Dois amigos vêm do exterior. Sugeriu-se que ficassem em meu apartamento. Expliquei que não. Impossível conviver com a alegria carnavalesca de quem veio passar férias, tendo de trabalhar. Imaginei os dois chegando às 3, 4 da manhã, sem nem conseguir andar em linha reta. E eu, ainda no computador. Resolvi fugir de tanta comemoração. Um amigo falou de um retiro, aonde pretende ir.

Lembrei-me de que no meu tempo de adolescente ia, sim, a retiros carnavalescos. O mais inesquecível foi um em que nós, os garotos, dormimos em uma capela antiga onde havia morcegos. Silêncio. Pensei em ir também. Escreveria no silêncio da madrugada. Meu amigo explicou. O retiro seria próximo ao Rio de Janeiro.

– O bom é que fazem iniciação ao ayahuasca.

– Ahn? Que tipo de retiro é esse?

– Espiritual. A gente vai entrar em outros mundos, atingir outra dimensão.

Quatro ou cinco dias com ayahuasca! A bebida, no passado, fez parte de rituais xamânicos. Hoje também faz, mas os xamãs são mais modernos. Eu suportaria passar esse tempo com todo mundo sorrindo, viajando, viajando... e eu, terráqueo, atolado no mundo real? Tantos sorrisos me dariam pânico. Resolvi me esconder em São Paulo. Até o fim do Carnaval, o que se torna cada vez mais uma data desconhecida. No ano passado, logo após a Quarta-Feira de Cinzas, tinha bloco. De despedida. No sábado o desfile das campeãs. Aí, surgem outros blocos porque a alegria não acabou. Dá-lhe Carnaval!

Não tenho uma alma generosa que se derrete enquanto noivos choram no altar e saem para uma lua de mel em alguma ilha exótica. Eu queria, isso sim, ir para a tal ilha. Bem acompanhado. E amigos que saem para festas às 11 da noite e voltam às 9 da manhã? Ou às 14, porque agora tem o after e o pós-after? Tanta energia irrita. Pronto, falei.

Sou egoísta? Atire a primeira pedra se puder. Antes faça uma experiência. Vá sozinho e veja um bloco de Carnaval. Ontem vi um com todos, moças e rapazes, de saias verdes e asas de anjo. Assista anônimo enquanto pulam, bebem, se divertem.

Consulte seu coração. Foi a melhor experiência da sua vida? Seja sincero. Gente feliz é irritante.

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WALCYR CARRASCO é jornalista, colunista da revista Época, autor de livros, peças teatrais e novelas de televisão.


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E o Velho Marinheiro explicou a Mafalda as razões de seu "retiro" espiritual: "Após muita reflexão, cheguei à conclusão de que a gula é a mãe de quase todos os pecados capitais e de muitos veniais também..." Por Orlando Silveira
https://orlandosilveira1956.blogspot.com/2018/08/pecados-capitais.html#comment-form


segunda-feira, 13 de agosto de 2018

CRÔNICA: WALCYR CARRASCO

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Imagem: Reprodução WhatsApp

ODEIO CORRETOR AUTOMÁTICO

Preciso estar atento a cada letra digitada.
Qualquer distração pode estragar uma amizade

Por Walcyr Carrasco
Época Digital
06/02/2018 - 08h00

Todas vezes em que compro um novo computador, na instalação, imploro:

– Tire o corretor automático e as atualizações.

Adianta? É preciso entrar no cérebro da máquina para arrancar o corretor. As atualizações, nem se fala. É impossível sumir com elas. Pior: seu método de marketing é o terror. Recebo avisos do tipo: “Este computador está em risco. Atualize e reinicie”. Pior. Vou iniciar o trabalho. Surge na tela o aviso: “Este computador está sendo atualizado. Não desligue”. Óbvio, não quero desligar. Quero atirar pela janela. Tenho e-mails urgentes a responder. Trabalhos. Mas aguardo enquanto o programa roda, roda, roda. Em uma dessas atualizações, de repente meu computador ficou com o Windows 10. Que me desculpem, mas é... Gostava do 7. Agora não consigo mais nem abrir uma pasta nova. Mas eu não havia entendido que mudariam o programa. Parecia uma atualização urgentíssima. Fora as de segurança, também sempre ameaçadoras. Uso o computador para escrever. Tenho um programa próprio para fazer roteiros. Impossível entender por que, de repente, ele se rebela. Em meus textos, com frequência há personagens caipiras, que falam errado. Vem o corretor e transforma o texto em algo absolutamente inexplicável. No celular é horrível. Às vezes, torna-se vergonhoso. Outro dia trocava WhatsApp com um conhecido.

– Estou impaciente – escrevi, me referindo a um possível trabalho.

O corretor rapidamente “corrigiu”. Não percebi. E lá se foi a mensagem:

– Estou impotente.

Depois de um silêncio constrangido, a resposta:

– Já tentou as pílulas?

O corretor atacou. Recebi:

– Já tentou as vírgulas?

No susto ele deve ter trocado “p” por “v” e deu nisso. Reli, percebi a troca de palavras. Tentei explicar.

– Eu não quis dizer que estou impotente.

Lógico, o corretor agiu. E foi:

– Eu não quis dizer que estou indecente.

Solidário, meu amigo quis me fortalecer. Respondeu, como descobri depois:

– Tem jeito de solucionar o problema.

E veio, após o corretor:

– Tem peito de selecionar o esquema.

– Eu tenho de ter peito pra quê? O que devo selecionar, que esquema? – assustei-me.

– Você aproveite bem o sistema, que pro peito tem jeito.

– Não quis dizer que estou impotente, mas impaciente.

– Imagino que quem está impaciente é sua namorada.

– Não tem segredo nenhum, a culpa é do corredor.

Eu queria dizer corretor, mas...

– Tem algum corredor no meio da história?

– Não disse corredor, mas condutor.

– Condutor de ônibus? Metrô? Não sabia dessa história, mas sou discreto, não se preocupe.

– CORRETOR! CORRETOR! CORRETOR AUTOMÁTICO!

– Sei, sei...

Em toda editora de livros, revistas, jornais, os revisores têm importância vital. Sempre tive vontade de esganá-los, um por um. Ocorre que gosto de escrever no coloquial, usando “pra”, por exemplo. Ou contorcendo as frases para tirar os “lhe”. Revisores caçam “pra” e “lhe” com a fúria de inquisidores atrás de bruxas. Assim, se eu boto um garoto de 9 anos dizendo:

– Vou pra casa do meu amigo levar um presente pra ele.

Ferozmente, o revisor corrige:

– Vou para a casa de meu amigo levar-lhe um presente.

Alguém já viu um menino de 9 anos falar assim? Não há argumento para convencer revisores do contrário. Mas o corretor automático é pior. Não é possível ligar e argumentar:

– Senhor corretor automático, eu não quis dizer que caímos na lama, mas, sim, na cama.

Há uma boa diferença entre cair na lama ou na cama, concordam? O corretor automático não tem olhos nem ouvidos. Corrige, e tenho de estar atento a cada palavra de cada mensagem. Um instante de distração, uma letra mal digitada e se digo “você estava muito elegante”, sai “estava um purgante”. O que era amizade se transforma em ódio.


Eu espero que em um futuro próximo as empresas de informática e de celulares percebam que há um grande número de pessoas desejosas de simplicidade. Eu queria um computador, como tantos que já tive, em que simplesmente pudesse anular as atualizações automáticas. Conseguir que o corretor me deixe escrever como as pessoas falam, e não em um português castiço. Ao contrário, cada vez mais sou obrigado a enfrentar máquinas sofisticadas. Não duvido que o próximo modelo de celular se transforme até em asa-delta. Mas eu só quero falar, trocar mensagens, bem simples, sem correr o risco de perder amigos. Mesmo porque agora a turma anda comentando que estou impotente. E não adianta argumentar que a culpa é do corretor automático.

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WALCYR CARRASCO é jornalista, colunista da revista Época, autor de livros, peças teatrais e novelas de televisão.



quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

CRÔNICA: WALCYR CARRASCO

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 AS PERSONALIDADES E AS REDES

As pessoas postam fotos sensuais. Enviam junto
com o primeiro “oi”. Likes viciam tanto quanto o crack

Por Walcyr Carrasco
Época – 12/12/2017

Ando surpreso como as redes sociais transformam as pessoas. Ou revelam outros lados da personalidade. Os nudes, por exemplo. Sou de uma época em que havia prós e contrários à nudez. Uma atriz famosa, ao posar nua, provocava escândalo – e maravilhamento. Algumas se negavam: nua, jamais. Homens, nem pensar. Hoje ficar nu é habitual. As pessoas postam fotos sensuais. Enviam junto com o primeiro “oi, tudo bem”. Eu não caí na tentação do nude devido a minha barriga. Explico. Quando olho para baixo, vejo somente meu umbigo. Não me sinto habilitado a posar para um clique pelado. Já se tornou comum certo tipo de escândalo: um ator famoso é flagrado num vídeo íntimo. Viraliza nas redes. Eu me pergunto: foi mesmo uma câmera oculta? Ou um vídeo transmitido pelo próprio para alguém? Pior: quem sabe o próprio alvo do escândalo seja autor do vazamento?

Likes viciam tanto quanto o crack. Tenho um amigo que posta fotos de si mesmo sem camisa, na academia, na praia etc. É um executivo de mais de 40 anos. Em sua loucura, posta também as viagens de fim de semana, que começam na sexta-feira e terminam na tarde de segunda-feira. Perdeu um emprego, por motivos nebulosos. Fez entrevista para outro. O futuro chefe pediu:

– Não se exponha mais na internet.

Adiantou? Não. Meu amigo segurou duas semanas. Admitido, voltou a publicar fotos sem camisa, com a expressão de quem se acha a suprema beleza neste Universo. Por que acredita que seus seguidores têm interesse em vê-lo na academia praticamente todos os dias? Ou de sunga na praia? Conversei.

– Cuidado ao postar todas as fugidas de fim de semana, inclusive a outros países. Vai causar descontentamento e inveja entre quem trabalha com você.

Ficou duas semanas sem postar. Agora não resiste mais. Exibe os cliques. Não causa só inveja. Evidencia que está matando tempo do trabalho. Não há mais o que dizer. A internet transformou um homem até tímido num exibicionista. Outro amigo já sabe analisar a personalidade de alguém por meio de quem segue. Examina os amigos nas redes sociais. Descobre qual é seu campo de interesse. Recentemente, estávamos falando sobre uma pessoa que se aproximou de mim. Como costuma acontecer, há muita gente que forja uma amizade, garantindo que não tem a menor vontade de ser ator ou atriz... para depois dar o bote e pedir um papel. Faz parte da minha vida. Em geral, são pessoas sem experiência na área artística, para quem o sucesso na mídia é algo instantâneo e milagroso. Não uma profissão. Esse amigo de quem falei abriu o Instagram de alguém que tentava uma nova amizade.  Ela só seguia famosos.

– É óbvio o fascínio pela fama.

“O distanciamento da internet é que permite tal nível
de hostilidade. Se estivéssemos conversando,
discutiríamos e a amizade continuaria”

Conhecem-se as profundezas e até os desvios do caráter analisando as redes sociais de alguém. Essas mesmas pessoas, muitas vezes, na vida cotidiana são tímidas. Têm profissões comuns. Por que postam cada pedaço de pizza no fim de semana? Óbvio. A possibilidade de aparecer estimula o exibicionismo. São poucos os que postam livros. Frases, há muitos. Mas a maioria gosta de mostrar a si mesmo. Ou até de estabelecer uma relação de poder. Recentemente, um amigo de muito tempo separou-se. Pediu a todos os seus amigos que excluíssem seu ex das próprias redes. Argumentou que era uma atitude para deixar claro ao rapaz que já não pertencia a seu mundo. Pessoalmente, sou adepto do velho ditado: “Em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”. Adaptado para os novos tempos, quer dizer simplesmente: quando um casal se separa, melhor não tomar partido. E se depois os dois voltam? Terei feito péssimo papel. Também considerei a questão do ponto de vista ético. Um queria dar uma demonstração de poder sobre o outro. Por que devia participar disso? E não excluí o outro.

Resultado: recebi de meu ex-amigo, pela internet, uma mensagem que até me chamava de “alma trevosa”. Francamente, alguém falaria isso ao vivo? O distanciamento da internet é que permite tal nível de hostilidade. Se estivéssemos conversando, discutiríamos e a amizade continuaria. Mas, diante de tal mensagem, reagi. Excluí meu antigo amigo de todas as minhas redes, bloqueei etc. Mas me assustei com a maneira como as redes sociais evidenciam aspectos de alguém, que não conheceríamos de outra maneira. Mais. Estimulam esses aspectos a emergir.

Continuo a ser um admirador da internet e de tudo que ela proporciona. Mas não me engano mais. É perigosa até para minha própria personalidade. Ainda bem, já me dei conta. É um vício.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

CRÔNICA: WALCYR CARRASCO

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 ERA ESSENCIAL, MAS SUMIU

Há um mundo de objetos desaparecendo.
Em algum tempo,
o carro vai para a mesma categoria

Por Walcyr Carrasco
Época – 19/12/2017

Não há pior caso de marketing que o dos fabricantes de chapéu. No passado, nenhum sujeito elegante saía de casa sem o seu. Havia vários estilos: coco, palheta, panamá. Mulheres também tinham os seus, chiquérrimos.  Mas o chapéu sumiu do vestuário cotidiano. Entre os vários motivos, há um de profundo preconceito estético. Valorizada era a pele branca, de quem não tomava sol. Só há algumas décadas a cútis morena recebeu o status de bela. O chapéu aposentou-se. É usado ainda, mas por charme. Eu tenho alguns. Só ponho quando quero aparecer. Ainda se usa o boné, esse sim, em dias de sol inclemente. Junto com o chapéu, foi-se a bengala. Não se usava bengala por necessidade, como hoje. Era item essencial à elegância. Havia lindas, com castão de prata. Cadê as bengalas?

Objetos, coisas, desaparecem do cotidiano numa velocidade surpreendente. Alguns ainda resistem a esse processo. O relógio de bolso era chique, mas tornou-se raro. O de pulso sobrevive. Mas a cada vez conheço menos pessoas que usam. Para saber as horas, basta olhar no celular. Relógios digitais, com funções variadas, tomaram conta do mercado. Os grandes fabricantes de relógios tradicionais reagiram. “O relógio é a joia masculina”, já li em vários lugares. Relógios de grife custam fortunas. Eu tenho lindos relógios, que acumulei ao longo da vida. Todos guardados. Vários amigos também já aposentaram os seus. É questão de tempo para sumirem. Junto com as abotoaduras. Outro dia ganhei uma linda, de grife. Uma verdadeira joia. Levei um susto.

– Onde vou usar isso? – surpreendi-me.

O amigo que me ofereceu enumerou várias ocasiões possíveis. Às pressas procurei. No fundo do armário havia uma camisa, na qual evetualmente seria possível botar as ditas-cujas. Educadamente, garanti que usaria sempre. Onde, quando? Quem me deu o presente só usa bermuda e tênis. Boto smoking e gravata-borboleta ainda, muito eventualmente. Mas dá uma preguiça! É traje de museu.

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Outro item desaparece: lenço de pano. Como sou alérgico, do tipo capaz de espirrar 40 vezes seguidas, sempre tenho um. É cada vez mais difícil encontrar. Usa-se lenço de papel. Existir, existem, mas estão indo rapidamente para a prateleira do desuso. Junto com aparelhos de CD, vencidos pelo streaming. Dá uma tristeza quando me lembro do videocassete. De símbolo da modernidade, transformou-se num tijolo. Para não falar do super-8, que contagiou toda uma geração. Também sumiu, pelo menos do dia a dia, assim como máquinas fotográficas são cada vez mais restritas a profissionais. Em meus áureos tempos fiz até curso de revelação de fotografia. Mergulhava o filme em uma mistureba de produtos, no escuro total. Aos poucos a imagem ia aparecendo. Era impressa em papel, com os contornos de um rosto retomando a vida. Hoje eu faço tchan no celular e, tchun, olho a foto. Se não saiu boa, outra. Máquina fotográfica existe, mas restrita somente a apaixonados por elas ou profissionais.

Sapatos, ninguém vai dizer que não há. Só que a maioria das pessoas, homens e mulheres, no cotidiano, no metrô, no trabalho, usa tênis. Cada vez mais o sapato fica restrito a uma função social. Surgiu até o sapatênis, uma junção dos dois que vale para qualquer ocasião. Mulheres ainda amam sapatos de saltos finíssimos, onde se equilibram harmoniosamente. Hum...até há homens que gostam de ser pisados por esses saltos! A galera masculina optou por tênis. Eu, como todos os meus amigos, odeio sapatos de sola de couro. Escorregam. Muitos de meus amigos já usam somente chinelos e bermudas. Mais que isso: as empresas aceitam com tranquilidade esse traje no trabalho.

Há um mundo inteiro de objetos desaparecendo. Farei uma previsão. Em algum tempo, o carro vai para a mesma categoria. Já conheço várias pessoas (pioneiras) que, diante da praticidade dos aplicativos, venderam seus próprios veículos. É mais barato usar, não exigem manutenção nem pagamento de imposto. A próxima geração, em ritmo veloz, abdicará de carros pelas bicicletas, meios de transporte coletivos e aplicativos.

Só há um detalhe. Qualquer um desses objetos ainda tem função, como charme. Garota ou rapaz de chapéu, tênis, jeans e camiseta ficam mais interessantes. Uma gravata-borboleta num traje informal também. Já que está na hora de pensar nisso, todos são ótimos presentes. Inclusive de Natal. Fica a dica. Ah, sim. Já que toquei no assunto, se Papai Noel me der um carro, aceito humildemente.

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