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quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

ZÉ TORRES, O ALCE

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O Velho Marinheiro, nosso Lobo do Mar, acompanhava com impaciência evidente a falação besta de Zeca Comedor, como gostava de ser chamado José Torres – um sujeito de alguma aparência e posse, que gostava de contar em alto e péssimo som (ainda que ninguém lhe perguntasse) suas peripécias sexuais. 

Para garantir assistência, Zé Comedor pagava cachaça e cerveja a todos os que se dispunham a ouvi-lo no bar do Carneiro. Tarefa fácil. O que mais se encontra ali é gente pronta, capaz de rir, aplaudir e pedir bis por um trago gratuito.

Naquele dia, José Torres estava particularmente insuportável. 

-- Com a mulher da gente, a coisa é diferente. Sexo só de vez em quando. E nada além do convencional. Ela tem que se comportar como esposa e mãe. Foi para isso que se casou. Ou não foi?

O Velho Marinheiro interrompeu a conversa:

-- José Torres: não sou homem de dar conselhos a ninguém, muito menos a um tipo como você: safado. Mas saiba que, a exemplo do dinheiro, vagina não aceita desaforo. Quem se gaba de pôr galhos na cabeça dos outros e despreza a companheira, cedo ou tarde, vira alce. Seu destino é ser corno. 


(Atualizado em dezembro de 2019)



quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

OS NÚMEROS ENGANAM



GOOGLE

-- Sei que vocês, jornalistas, embora vivam das letras, têm um gosto especial pelos números. Mas eu não me fio muito neles, não – iniciou a conversa o Velho Marinheiro, como quem não quer nada, mas louquinho da silva para enveredar pela discussão política.

Ananias, nosso repórter em fim de carreira, mordeu a isca:

-- Os números dão credibilidade à reportagem. Além do quê, os números não mentem.

-- Sei disso. Mas não se pode dizer o mesmo de quem produz e interpreta os números. Tenho pra mim que eles enganam tanto quanto as palavras, se não enganarem mais. Não por acaso, políticos são obcecados por números. E isso não é uma escolha casual.


-- Mas os números, Velho Marinheiro, permitem comparar o que governos fizeram. Dão ao povo condições de escolher com critério seus representantes – argumentou Ananias com sua sabedoria de botequim.

-- Bobagem, meu jornalista. Se isso fosse verdade, não teríamos os governos que temos. A opinião do povo não é parâmetro pra nada. De que vale dizer que este governo construiu em quatro anos o dobro de casas e hospitais em relação a seu antecessor, se está deixando a conta para o sucessor? Ora, construir e não pagar é coisa fácil, qualquer um pode fazer. Até nós dois – dois bestas. Quer outro exemplo, Ananias? Se a dita economia mundial está superaquecida, se os preços dos produtos estão nas alturas, é natural que, em termos absolutos, em termos de grana, as exportações cresçam. Isso é fruto de uma série de fatores. Não é obra de um governo...

-- Está certo, está certo, mas...

-- O que importa é saber o quanto avançamos em relação aos outros. Qual o quê! O Brasil não vai de fato pra frente porque não gosta da verdade, prefere se comparar com ele mesmo. É mais fácil e de grande utilidade para o jogo político rastaquera que aqui se pratica, no qual o roto fala do rasgado.

-- Pensando bem...

-- Pensando bem vamos pedir logo a saideira. Romualdo Bastos está chegando com aquela sua empáfia de cruzadista.

(OS 2014 - atualizado em dezembro de 2019)



quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

VOSSA EXCELÊNCIA É VEADO?

MYRRIS


O fato indiscutível é que o dedão do pé direito já estava em carne viva, sem que o bicho do pé desse sinal de morte. Ou de vida. Nem poderia. Era imaginário. Existia apenas na cabeça do Velho Marinheiro, nosso imbatível Lobo do Mar, homem de muita experiência, poucas palavras, paciência nenhuma. Sem saber dos riscos que corria, o candidato deitava falação para aquela plateia miúda, mas atenta, porque a conveniência gera milagres.

Enquanto o homem, sem corar nem desbotar, impávido colosso, prometia mundos, fundos e um bocadito mais para toda a humanidade e emprego dos bons para todos os presentes – uns dez gatos pingados, no máximo –, o Velho Marinheiro confrontava a foto do “santinho” com a imagem ao vivo da triste figura. Não se conteve:

- Afinal, qual é a cor original de seu cabelo? Acaju é que não é. Asa da graúna não pode ser.

Político tarimbado, o candidato se fez de surdo. E deu vazão à cantilena ordinária:

- Amigos, eu não posso resolver tudo. Mas farei de tudo para tudo resolver. Em nome de meu povo, por amar cada um de vocês, a começar por este senhor tão fofo.

O Velho Marinheiro se inquietou e quis saber:

- Fofo? Quem é o fofo aqui?

- O senhor, meu lindo.

- Não me faltava mais nada. Já devia ter morrido. Estou fazendo hora extra. Vou cochilar. Mas, antes disso, com o perdão da pergunta indiscreta: Vossa Excelência é veado? (OS - 2013 - atualizado em dezembro de 2019)



quarta-feira, 27 de novembro de 2019

MULHER PÚBLICA

GOOGLE

Ananias, nosso jornalista em fim de carreira, estava literalmente inconsolável:

-- Não me faltava mais nada, Velho Marinheiro, mais nada mesmo. Além de não pegar o trabalho de assessoria, fui humilhado. A deputada me colocou abaixo de cachorro.

-- O que você fez? – quis saber o Lobo do Mar.

-- Nada. Só a cumprimentei por ter sido eleita.

-- Só por isso? Não pode ser.

-- Também lhe disse: “Agora, a senhora é uma mulher pública”. E ela retrucou: "Mulher pública é sua mãe, vagabundo!"



-- Tenha paciência, Ananias. Você morre pela boca. Só tomando uma lapada. 

(OSilveira 2014 - atualizada em novembro de 2019)

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

NÃO É O MELHOR, MAS...



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ILUSTRAÇÃO: ARQUIVO GOOGLE




Não há quem não conheça Josué Lemos na Vila Invernada, bairro pobre da zona Leste de São Paulo, local em que nasceu, criou-se e entrou na pior idade. A vida dura o obrigou a se virar nos trinta, seja lá o que isso queira dizer. Ele é uma espécie de “faz tudo”, pau pra toda obra. Ergue e pinta paredes, enche laje, desentope canos, troca fiação, remenda calçadas e muros, cata lata, vende papelão, faz carreto na feira.

Para Josué, não há tempo ruim. Gaba-se de estar a serviço da “comunidade” 24 horas por dia, de segunda a segunda, incluindo feriados. Só não trabalha na sexta-feira da Paixão. E o que é melhor – para os clientes, claro: é barateiro. Sobe no telhado por qualquer bagatela, apara grama de quintal e trepadeira de muros por duas pingas e uma cerveja. Nunca reclama do que lhe pagam: “Eu preciso de pouco pra viver”.

Josué só não gosta muito de fazer serviços na casa do Velho Marinheiro, nosso Lobo do Mar:

-- Ele é exigente demais, põe reparo em tudo, difícil agradar aquele homem. Quando começa a caçar o bicho do pé, então, me deixa nervoso, sei que a bronca é certa. Só vou lá por causa de dona Mafalda, um doce de criatura.

Sejamos justos: que o Velho Marinheiro tem gênio ruim, todo mundo sabe; mas não é o único a reclamar de Josué. Ao contrário. É raro encontrar alguém que elogie os serviços que faz. Afinal, ninguém pode ser bom em tudo, não é? Por que o contratam, afinal? Porque é boa praça, está sempre disponível, não bebe durante o expediente, é barateiro e de confiança, ao contrário da maioria de seus concorrentes, cujos serviços, em termos de qualidade, igualam-se aos seus.

Josué sabe disso.

Quando alguém reclama disso ou daquilo, dispara seu bordão predileto: “Eu sou Josué Lemos. Não sou o melhor. Mas sou o que temos”.

(OS 2013 - atualizado em novembro de 2019)



quarta-feira, 13 de novembro de 2019

PERGUNTAR NÃO OFENDE

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FOTO: UOL
O Velho Marinheiro andava injuriado, com os nervos em frangalhos, paciência zero. Não era para menos. O início de pneumonia o tirou de combate. Nem ao bar do Carneiro podia ir para trocar prosa com Ananias. Dar uma talagada? Nem pensar. Malditos antibióticos. Se ele apanhava o maço de cigarros, tinha que ouvir as reprimendas de Mafalda (a mulher) e de Irene (a neta predileta). “O que vocês querem que eu faça? Que aprenda a tricotar?” – resmungava.

Ante o mau humor do nosso Lobo do Mar, caçador implacável de bicho de pé imaginário, Mafalda e Irene rezavam: “Senhor, não permita que nos apareça alguma visita surpresa”. Ocupado com coisas mais importantes, o Todo Poderoso fez ouvidos moucos. A visita chegou. Era Marlene, amiga da neta, perua assumida, mais espalhafatosa impossível. E Marlene chegou com uma novidade: botara silicone nos seios. Estavam tão volumosos e firmes que se dava ao luxo duplo: dispensar o sutiã e usar camiseta branca.

Falante que só, Marlene exaltava a perícia do cirurgião plástico e detalhava seus planos futuros: esticar a pele aqui e acolá, colocar botox etc. O Velho Marinheiro era todo ouvido; Mafalda e Irene, pura aflição. Chegaram a lhe sugerir que fosse descansar no quarto, proposta de pronto rechaçada:

-- Daqui eu não saio. A conversa está muito boa. Mas vou dar um conselho à moça: se você for fazer novas cirurgias, mude de cirurgião.

-- Por que o senhor diz isso? – quis saber a visitante.

-- Por duas razões. A primeira: você não tem mais peitos, carrega duas bolas de capotão, que vão lhe arruinar a coluna. A segunda: observei que os bicos ficaram estrábicos, cada um “olha” para um lado.

-- Meu velho: vá fumar seu cigarrinho na outra sala, pelo amor de Deus.

E ele foi, todo contente, mas antes fez uma pergunta à visitante:

-- Seu marido tem coragem de chegar perto de um "trem" desses?

(OS - ATUALIZADA EM novembro de 2019)


quarta-feira, 6 de novembro de 2019

DE CARTOLA E PINCENÊ


 -- Gostei de ver meu amigo Velho Marinheiro ontem à noite, na fila de autógrafos, todo nos trinques, arrumado, cheirando perfume bom. Até Deolinda comentou.

-- O que ela lhe disse, Ananias?

-- Que o senhor estava um “gato”.

-- Não me venha com zombaria, seu vagabundo.

-- Verdade, Velho Marinheiro, juro. “Gato”. Palavra dela.

-- Não me importa. Deolinda é minha amiga, tem idade para ser minha filha. Vamos voltar ao livro.

-- Tudo bem. O senhor é quem manda.

-- Ananias: tenho gênio difícil, mas não sou homem de fazer desfeita para seu ninguém, nunca fui. Não suporto uma coisa dessas. Não poderia deixar de ir ao lançamento do livro. Muito embora você saiba o que eu penso de Romualdo Bastos: é uma besta de discurso oco e empolado. Nem poderia ser diferente. O homem não faz outra coisa, além palavras cruzadas.

-- Mas o senhor gostou do romance?

-- Não.

-- Mas já leu o livro inteiro?

-- Não li nem vou ler. Livro é como mulher. De cara, a gente percebe se vale a pena. Aliás, se você quiser, eu lhe dou o meu exemplar. 

-- Não precisa. Eu também comprei um.

-- Qual o problema? Você dá de presente para um desafeto. Não é possível que você não tenha nenhum desafeto. Além do mais, até onde sei, sua sogra está viva e com saúde.

-- Está bom. Vou pensar. Mas por que não gostou do romance?

-- Porque o livro é a cara do autor. Ele deve ter escrito aquela porcaria caçando palavras difíceis no dicionário, para impressionar os incautos. É uma escrita de cartola e pincenê, se me entende. O que poderia ser dito num único parágrafo consome páginas e mais páginas. Romualdo também abusa dos gerúndios. E o pior de tudo: escreve como se estivesse cumprindo uma missão impossível – salvar o mundo. A função do romance é outra. Se gostasse de conselheiros, vivia de mãos dadas com o padre Chico. Deixa pra lá. Mas, afinal, você quer ou não quer o livro?

-- Aceito.

-- Sua sogra vai gostar. Amanhã lhe trago o danado. Vamos esquecer o livro e o autor. Por mera curiosidade, Ananias, o que Deolinda lhe disse mesmo a meu respeito? (OS - atualizado em novembro de 2019)



quarta-feira, 30 de outubro de 2019

UVAS VERDES






Domingão de sol ardente, onze da manhã, lá vem Deolinda – a “Fabulosa”, primeiro e único símbolo sexual da Vila Invernada – descendo a ladeira, com um daqueles shortinhos descolados que fazem os velhos babarem com gosto. Ela parou na esquina, para trocar dois dedos de prosa com uma conhecida. E ali permaneceu Deolinda por bom tempo, tempo suficiente para que a turma do bar do Carneiro largasse os tacos de bilhar sobre o pano verde, adiasse a próxima partida de dominó, deixasse o buraco para lá e se apinhasse na porta e calçada do estabelecimento – para admirar, o que, na opinião de Romualdo Bastos, o cruzadista, era a oitava maravilha do mundo moderno.

Mas, naquele domingão de sol ardente, a admiração de outrora cedeu espaço ao mais puro e vergonhoso despeito.

-- Ela já foi boa. Hoje, está caída. Os peitos já não são mais os mesmos. Depois que fez regime, a bunda também despencou. Vejam lá: ela tem até varizes. Também deu para todo mundo. Queriam o quê?

Entusiasmados, todos concordaram com o comentário de Teleco, cuja mulher acabara de ser operada, para reduzir o estômago, obesa mórbida que é. O que mais se ouvia ali eram manifestações de apoio ao Teleco: “É isso aí, mano velho. Falou e disse.”

O Velho Marinheiro, então, resolveu pôr ordem na casa:

-- Deolinda continua linda. Alguém aqui já saiu com ela? Se ela deu para todo mundo, não deu para ninguém daqui, porque não é besta. Aqui, só dá pobre desdentado, gente feia e burra. A Deolinda não é para o bico de vocês. Vão se catar.

Mal o Lobo do Mar virou as costas e acenou para Deolinda, que retribuiu o cumprimento com igual entusiasmo. Teleco levantou a dúvida:

-- Será que esse velho safado comeu a Deolinda e ninguém sabe?

As discussões e as apostas duraram o dia todo no bar do Carneiro. (Atualizado em outubro de 2019)

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

NEM PENSAR, ANANIAS!

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-- Ananias, diga “não”, e pronto. Não perca tempo com falsas explicações, com mentirinhas nas quais ninguém acredita: “Minha mulher e eu fizemos um pacto: se eu assinar, ela não assina, e vice-versa”. O sujeito vai lá, conversa com sua patroa, amolece o coração dela e você fica sem saída. Acaba por assinar a papelada. Ser fiador? Nunca mais.

-- É que o rapaz, Velho Marinheiro, é meu amigo de longa data...

-- Fie-se nisso. Ele pode até ser honesto, mas depois de amanhã perde o emprego, vira a cabeça, sei lá. E quem terá que pagar o aluguel dele? Ora, você quer perder sua casa ou o pouco que tem na poupança? O sujeito que vá ao banco e pague um seguro fiança.

-- O senhor tem razão, mas é que...

-- Não quero ter razão, Ananias. Não quero que você se estrepe outra vez na vida. Já sei. Não tem coragem. Vou lá com você. Aproveito a ocasião e aviso o homem: “Ananias e sua patroa também não batizam mais ninguém”.

-- Como o senhor sabe que ele me convidou para batizar o filho?

-- Ananias: a desgraça nunca anda só, está sempre com más companhias.

-- O senhor se recusa a batizar uma criança?

-- Não recuso nem batizo. Não sou padre. Eu me recuso é ser padrinho. Tenho vários afilhados. Todos eles só vieram à minha casa para pedir isso e aquilo. Anos atrás, um compadre, depois da cerimônia religiosa e do almoço (que Mafalda e eu pagamos), me sai com essa: “Agora, posso morrer em paz. Minha filhinha tem um segundo pai e uma segunda mãe, está em boas mãos.” Vá se catar! Que cada um cuide dos seus. 

-- E como o senhor faz para se livrar do convite?

-- Ananias: no começo, eu dizia “não quero” e ponto final. Mafalda insistia para que eu não fosse tão direto, grosseiro. Passei a adotar uma estratégia. Se os pais são católicos, digo que somos evangélicos. Se eles são evangélicos, digo que não saímos do terreiro...

-- Mas, afinal, do ponto de vista religioso, o que o senhor é?

-- Filho de Deus. Apesar de agnóstico.  (OS - 2014 - atualizado em outubro de 2019)

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

LUVAS PRA QUÊ?



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O Velho Marinheiro, nosso Lobo do Mar, entrou sala adentro pisando duro, soltando fogo pelas fuças, imprecando contra Deus, o diabo e a terra do sol. Não falou com ninguém. Nem com Mafalda, sua mulher. Foi direto para o quartinho no fundo do quintal, onde guardava suas tralhas. E por lá ficou bom tempo, revirando caixas e recortes de jornais, esbravejando.

-- O que será que vovô tem? – quis saber Irene, sua neta predileta. Vou lá ver.

-- Não vá. Quando ele fica assim, melhor não chegar perto – aconselhou Mafalda. A raiva dele logo passa. Estou acostumada.

Meia hora depois, já mais calmo, nosso enfrentador de ondas e caçador de bicho de pé inexistente, retornou à sala. E sem que, por prudência, ninguém lhe perguntasse nada, foi direto ao assunto:

-- Não me comprem mais nada na padaria da esquina – ordenou. Aquilo é uma imundície só.

-- Que barbaridade, meu velho. A padaria é tão bonita, chique mesmo; os funcionários estão sempre de uniforme limpo, redinha na cabeça e luvas nas mãos...

-- E de que vale tudo isso? Agorinha mesmo, flagrei o rapaz que faz lanches coçando com vigor as partes baixas. Com a mão e a luva por dentro das calças! Rejeitei o lanche, lhe disse poucas e boas, tive vontade de lhe cortar o "instrumento". Se eles fazem isso na frente do cliente, imagine o que não fazem os padeiros pelas costas dos fregueses. Haja furico. Ali, não piso mais. (OS - agosto/2013, atualizado em outubro de 2019)



sábado, 6 de julho de 2019

SEJA BREVE, DOUTOR

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O Velho Marinheiro, nosso lobo do mar, não é homem de se omitir. Nunca foi. Ainda mais se o assunto for grave, como o toque retal – aquele exame que assusta homens, mas salva vidas. Aproveitou a ausência das mulheres na sala e investiu contra a visita, um aparentado distante do genro:

-- O amigo me perdoe: vou ser sincero. Já tenho idade. Há vinte e tantos anos, todo ano, passo no urologista. Coisa boa não é. Não minto. Faço por necessidade. Não faço por safadeza. Tomo uma lapada antes, pra perder a vergonha. E duas depois, pra esquecer o constrangimento. Mas faço o maldito do exame. Religiosamente. Minha próstata está tinindo. É o que dizem.

-- É que... – ameaçou argumentar o temeroso.

-- Você senhoria está com medo de quê, de descobrir uma vocação tardia? Seja homem. O que não pode de jeito algum é fazer o exame toda semana. Nem pedir um segundo parecer médico. Aí, já não é precisão. É lambança.

-- Vamos mudar de assunto? – sugeriu o genro.

-- Mudar? Temos que dizer a verdade toda, homem. Teve um deputado que queria aprovar lei incentivando o autotoque. Nunca mais se reelegeu. Acabou se amasiando com Dito Preto – o que jogava no Ameriquinha. Se ele é feliz, não sei. Nem quero saber. (OS - atualizado em julho de 2019)

***

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O militante profissional é uma mala, mas não é tolo. Sem uma verbinha, não vai à luta. 
Por Orlando Silveira
http://orlandosilveira1956.blogspot.com/2019/07/quase-historias.html#comment-form

terça-feira, 5 de março de 2019

QUEM ASSOBIA NÃO COME

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De repente – não mais que de repente – o pessoal que jogava bilhar no bar do Carneiro, um dos mais movimentados da Vila Invernada, largou os tacos sobre o pano verde e veio até a porta do estabelecimento para apreciar a paisagem andante. A atitude foi seguida também por quem jogava dominó e por quem estava lá só para entornar umas e outras. Em seus postos, permaneceram o dono do bar, o Velho Marinheiro e Ananias. O primeiro, atrás do balcão, com os olhos grudados no caderno de fiados. Os outros dois deram de ombros à excitação coletiva e continuaram bebericando e observando a malta.

Por paisagem andante entenda-se uma mulher de uns trinta anos, obesa, com celulite para dar, alugar e vender, de quadris imensos, vestindo uma bermuda branca, transparente e colada ao corpo, cujo número estava muito aquém de suas necessidades.  Para completar o que se poderia chamar de “uma tela de Dante”, a portadora da bermuda branca e transparente usava calcinha preta, minúscula, tipo fio dental. Sua barriga protuberante e estriada transbordava a vestimenta. O que, pelo visto, contribuía para excitar ainda mais o bando de desvairados.

Não faltaram, claro, assobios nem falsos gemidos nem comentários do tipo:

(a)  Que peixão;

(b)  Vá ser gostosa assim na PQP;

(c)  Com uma gata dessas faço sexo três dias sem parar;

(d)  E tem cara que prefere homem;

(e)  Etc.

Aos poucos, os machos retornaram à mesa de bilhar e ao balcão. Um deles, sabedor de sua timidez, resolveu provocar Ananias:

-- E aí, jornalista, não veio ver a gatona por quê? Não gosta?

O Velho Marinheiro não esperou o amigo se manifestar:

-- O Ananias é como eu: não gosta de filme B. Além disso, ele também sabe que quem assobia não come.  
(OS - maio/2015 - Atualizado em março de 2019)


segunda-feira, 4 de março de 2019

O MAR ENSINA

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Foto: Arquivo Google

- Ananias, eu sei que no bar do Carneiro, mas não só aqui, muita gente me toma por arrogante. O que fazer? Nada. Ora, cada um pense o que quiser. Não ligo. Mas posso lhe garantir que não sou arrogante. Tenho apenas paciência zero com a maioria das pessoas. Acho quase impossível manter conversa com elas por mais de vinte minutos, se tanto. O que as pessoas, em geral, têm a me dizer não me interessa. A recíproca é verdadeira. Para que manter a farsa? Que fique cada um no seu quadrado. Melhor assim. Ninguém é obrigado a ouvir minhas falações, mas eu também não sou obrigado a ouvir as falações alheias. Compreende?

- Perfeitamente. Sou obrigado a deduzir que tenho sorte: comigo – não sei o motivo – o senhor tem paciência de Jó. Há dias em que ficamos sentados à mesma mesa por duas, três horas...

- Sabe por quê?

- Não, Velho Marinheiro. Nem imagino.

- Porque nós, Ananias, permanecemos a maior parte do tempo em silêncio. Boas amizades são urdidas na quietude. Ser amigo não é bisbilhotar a vida do outro, querer que o outro lhe conte o que ele não quer contar. Há tempo para tudo: para discutir coisas sérias, para contar piadas, para assuntar besteiras, para, eventualmente, desabafar. Mas, para que seja, de fato, bem aproveitado, o tempo não abre mão de uma dose generosa de silêncio. Aprendi isso com o mar. (Atualizado em março de 2019)

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