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quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

OS NÚMEROS ENGANAM



GOOGLE

-- Sei que vocês, jornalistas, embora vivam das letras, têm um gosto especial pelos números. Mas eu não me fio muito neles, não – iniciou a conversa o Velho Marinheiro, como quem não quer nada, mas louquinho da silva para enveredar pela discussão política.

Ananias, nosso repórter em fim de carreira, mordeu a isca:

-- Os números dão credibilidade à reportagem. Além do quê, os números não mentem.

-- Sei disso. Mas não se pode dizer o mesmo de quem produz e interpreta os números. Tenho pra mim que eles enganam tanto quanto as palavras, se não enganarem mais. Não por acaso, políticos são obcecados por números. E isso não é uma escolha casual.


-- Mas os números, Velho Marinheiro, permitem comparar o que governos fizeram. Dão ao povo condições de escolher com critério seus representantes – argumentou Ananias com sua sabedoria de botequim.

-- Bobagem, meu jornalista. Se isso fosse verdade, não teríamos os governos que temos. A opinião do povo não é parâmetro pra nada. De que vale dizer que este governo construiu em quatro anos o dobro de casas e hospitais em relação a seu antecessor, se está deixando a conta para o sucessor? Ora, construir e não pagar é coisa fácil, qualquer um pode fazer. Até nós dois – dois bestas. Quer outro exemplo, Ananias? Se a dita economia mundial está superaquecida, se os preços dos produtos estão nas alturas, é natural que, em termos absolutos, em termos de grana, as exportações cresçam. Isso é fruto de uma série de fatores. Não é obra de um governo...

-- Está certo, está certo, mas...

-- O que importa é saber o quanto avançamos em relação aos outros. Qual o quê! O Brasil não vai de fato pra frente porque não gosta da verdade, prefere se comparar com ele mesmo. É mais fácil e de grande utilidade para o jogo político rastaquera que aqui se pratica, no qual o roto fala do rasgado.

-- Pensando bem...

-- Pensando bem vamos pedir logo a saideira. Romualdo Bastos está chegando com aquela sua empáfia de cruzadista.

(OS 2014 - atualizado em dezembro de 2019)



sábado, 1 de setembro de 2018

E POR FALAR EM SINÔNIMOS...

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ARQUIVO GOOGLE


Romualdo Bastos estava mais impossível que nunca. 

O maior cruzadista de Vila Invernada de todos os tempos - talvez o único em todos os tempos - não disfarçava a satisfação de ter uma plateia numerosa e atenta, jogada a seus pés, babando de admiração por aquela vasta e inútil cultura.

Gabava-se de saber de cor e salteado os nomes de todos os técnicos e jogadores das 32 seleções que disputaram no Brasil a 20ª Copa do Mundo de futebol. Sabia mais: as datas e horários de todos os jogos, os nomes e nacionalidades de todos os árbitros, bem como a escalação de todas as equipes que conquistaram a taça. Também era de seu conhecimento os principais artilheiros de cada certame e as defesas menos vazadas.

Grande Romualdo. Romualdo imbatível. Era assim que ele se via, era assim que ele se sentia.

Animado pelos aplausos e olhares de admiração, Romualdo disse em alto e bom som, no bar do Carneiro, que a Copa, para ele, “sob o aspecto cultural”, já era página virada em seu folhetim, que agora estava concentrado nas eleições de outubro, que estava a gravar os nomes dos 32 partidos registrados no Tribunal Superior Eleitoral e das dezenas de legendas com registro provisório. Mais ainda: sabia porque sabia  a data de fundação e nome de seus respectivos presidentes.

O Velho Marinheiro, então, resolveu lhe fazer uma pergunta:

-- Seu Romualdo, eu conheço bem essa sua obsessão por decorar bobagens. Gostaria que o senhor me respondesse uma coisa, ou melhor, duas: (1) quanto de grana cada agremiação leva, por ano, do fundo partidário? e (2) qual o tempo que cada uma dispõe no horário eleitoral gratuito?

Ante o silêncio do cruzadista, o Velho Marinheiro não deixou por menos:

-- Estou vendo que o senhor não fez direito a lição de casa. Está fraco. Só para não perder viagem, gostaria de lhe fazer outra pergunta: quantos sinônimos de “cona” o senhor conhece?

-- Uns 50 – balbuciou Romualdo Bastos.

-- Pois eu tenho na ponta da língua mais de 100. Até logo. Boa tarde a todos. (Atualizado em agosto de 2018)

***

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O MAR ENSINA

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Boas amizades são urdidas na quietude. Ser amigo não é bisbilhotar a vida do outro, querer que o outro lhe conte o que ele não quer contar. Há tempo para tudo: para discutir coisas sérias, para contar piadas, para assuntar besteiras, para, eventualmente, desabafar... Por Orlando Silveira
https://orlandosilveira1956.blogspot.com/2018/08/o-mar-ensina.html#comment-form

sábado, 10 de dezembro de 2016

O REI DO CONTO

INTERNET

Romualdo Bastos, como sabemos, virou quase unanimidade na Vila Invernada. Por ali, é raro encontrar quem não teça loas à sua sabedoria, forjada ao longo de anos de palavras cruzadas. A desafiar, de peito aberto e olhos nos olhos, seus conhecimentos só um: o Velho Marinheiro, nosso Lobo do Mar, caçador de bicho do pé imaginário – problema que o atormenta desde os anos adolescentes.

Dizem as más línguas que a ira do senhor dos mares contra Romualdo Bastos teve início com a reverência quase vassala que lhe dedicam os frequentadores do bar do Carneiro. É mais que sabido que o Velho Marinheiro tem paciência zero com baba-ovos. Sua irritação, porém – é o que dizem –, adquiriu proporções inimagináveis por conta de Deolinda, que, viúva de defunto ainda quente, passou a arrastar asas e exibir as ancas para o cruzadista de óculos de lentes grossas e cara de acadêmico.

O Velho Marinheiro parece ter jurado o homem de morte – de morte intelectual, porque, apesar das bravatas, é incapaz de matar um inseto, como sabem bem os que o conhecem de perto. Sentindo-se cutucado por vara curta, o Lobo do Mar foi pesquisar o prêmio de que se gabava tanto Romualdo Bastos. Depois de semanas de inúmeros telefonemas e despesas sem fim, concluiu que o cruzadista não mentia: de fato, ele obtivera o primeiro lugar no concurso literário (categoria contos) de Carmo de Iemanjá, próspera cidade do nosso vasto Nordeste, com 2,5 mil habitantes, se tanto.

O Lobo do Mar, para sossego de seu bicho de pé imaginário, descobriu mais: apurou que, além de Romualdo Bastos, do tal concurso participara apenas outro concorrente, ou melhor, outra concorrente: Jussara Bastos, sua esposa, mulher de grande valor, mas sem fôlego para ler Caminho Suave de cabo a rabo.

Hora de colocar Romualdo Bastos em seu devido lugar. (OS - 2013)

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Argemiro nunca foi aluno brilhante. Do antigo primário à faculdade, o máximo que conseguiu foi assegurar, quando muito, uma vaga no grupo dos que não cheiram nem fedem. Ou seja: um lugar no pelotão dos medíocres... 
Por Orlando Silveira, em "Argemiro foi com as outras e  se deu (quase) muito bem"
 
http://orlandosilveira1956.blogspot.com.br/2016/12/quase-historias.html#comment-form

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

DA COSTA, O PENTELHO

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Da Costa não viveu e não deixou ninguém viver. Passou a vida em busca da condição ideal. Pra viver. Pra fazer isso e aquilo. Da Costa não fez nada (ou quase nada) que lhe desse um pingo de prazer. É unanimidade na Vila Invernada. Unanimidade dupla, não lhe bastasse uma – a lhe assegurar a burrice. Ah, Nelson Rodrigues... 

No bar do Carneiro, não há quem lhe negue o mérito de ter sido e ser bom pai, marido prestimoso, trabalhador incansável, pagador de contas. Mas também não há ser vivente que não lhe atribua o título devido: pé no saco. Dá Costa é um chato. Sem cura! Da Costa gosta de dar conselhos que ninguém lhe pediu. E de distribuir livros que ninguém quer ler. Da Costa é assim: incansável.

Passa no bar do Carneiro só pra ver quem bebe. Balança a cabeça – e pergunta: “Por que bebem?” Implica com Romualdo Bastos, nosso cruzadista: “Não basta, senhor Bastos, saber quais foram os times e jogadores que ganharam todas as Copas do Mundo. Quem eram os reservas?”

Para Da Costa, que viu a vida pela janela, nunca ninguém está pronto pra tomar banho de mar, atravessar a rua, fazer sexo... Da Costa busca a condição ideal. E quer seguidores. Todo louco precisa de loucos, multidão de loucos a lhe fazer loas.

Da Costa acabou com o livro de Ananias, nosso repórter em fim de carreira. “Cem páginas, se tanto! Ananias: crie vergonha na cara, homem. Livro que presta tem que ter, no mínimo, no mínimo, quatrocentas páginas” – defecou o autor de nada.

Da Costa tentou engatar prosa com o Velho Marinheiro, não deu certo:

-- Da Costa, sossegue o facho.  Quando você se for, espero que não tarde, mando fazer uma placa para colocar na sua campa: “Aqui jaz um pentelho!" 

(ORLANDO SILVEIRA - 2014)


sábado, 10 de setembro de 2016

DECEPÇÕES À VISTA

racas.org

-- Ananias, o que estão fazendo com os cães é uma barbaridade, verdadeiro crime. Às vezes, tenho vontade de partir para a ignorância – resmungou o Velho Marinheiro.

-- O senhor é contra o uso de animais em pesquisas científicas? - quis saber o jornalista "aposentado" pelo desemprego.

-- Não me refiro a isso, não. Esta é uma polêmica em que não quero entrar. Não por que tenha medo de patrulhas. É que não tenho conhecimentos suficientes. Não sei se é possível (ou não) avançar na medicina sem a ajuda involuntária dos bichos.

-- Então, a que o senhor se refere? 

-- Dia desses, Deolinda esteve com seu cachorro, um poodle, aqui, no bar do Carneiro. Veio para se exibir para o cruzadista. Só faltou esfregar as nádegas nos óculos dele. 

-- Mas, e o cachorro com isso? – questionou Ananias.

-- O cachorro estava todo paramentado. Usava uma roupa esquisita, com direito a cachecol! Numa das orelhas, tinha um brinquinho; numa das patas dianteiras, uma pulseira. E ostentava um colar com os dizeres: “Sou da mamãe”...

-- É que virou moda...

-- Desde quando, Ananias, moda presta? A exibida da Deolinda ficou mais assanhada ainda quando aquele sujeito das palavras cruzadas lhe disse que também tinha uma cachorrinha poodle e que eles poderiam cruzar.

-- Eles quem?

O Velho Marinheiro, nosso Lobo do Mar, não deixou por menos:

-- Acho que os quatro, pelo menos foi o que aquela troca de olhares lânguidos me sugeriu. Se isso ocorrer, teremos duas decepções: a da cachorra do cruzadista com o cachorro da viúva alegre e a de Deolinda com Romualdo Bastos. (ORLANDO SILVEIRA - 2013)


sexta-feira, 9 de setembro de 2016

A NOVA MANIA DE ROMUALDO BASTOS


Foto de Gustavo Jansson
da tela de Jorge Chueri

Sempre que Romualdo Bastos entra no bar do Carneiro, os fregueses da espelunca se agitam, querem saber do maior cruzadista da Vila Invernada o que andava fazendo, por que sumira. Naquele sábado, não foi diferente. Para garantir a atenção e aplausos, ele tratou, como sempre faz, de pagar aperitivos para os ouvintes, invariavelmente prontos e sedentos. O sucesso, nessas ocasiões, é certo.

-- Queridos, ando bastante ocupado. Além de desenvolver o estatuto da futura “Escola Romualdo Bastos de Palavras Cruzadas”, eu tenho me dedicado ao estudo de adágios.

-- Que diabo é isso, mestre? – quis saber Toninho Mula.

Romualdo Bastos estufou o peito e fez aquela cara de intelectual de subúrbio:

-- Toninho, caro Toninho: você vai longe, é movido pela curiosidade, e a curiosidade é a mãe do saber. Parabéns. Adágios são ditados, ditos, rifões, máximas. É uma forma de sabedoria popular.

Embalado pelos aplausos, Romualdo Bastos pediu ao Carneiro que servisse mais uma rodada à platéia. E continuou a falação:

-- Antes que nosso querido Toninho Mula me pergunte por que tenho me dedicado aos adágios, me explico: é para ter sempre um conselho a dar aos amigos necessitados. É uma maneira de ajudar quem precisa de apoio, de orientar os desorientados, de dar alento aos carentes.

A comoção interesseira foi geral. Ela só não prosperou por que nosso Velho Marinheiro resolveu dar seu pitaco:

-- Seu Romualdo Bastos, essa coisa de conselho quase nunca tem serventia. De que adianta pedir “calma” ao ansioso? Ora, que servidão tem dizer ao cachaceiro que a uca em excesso faz mal à saúde? Qual a utilidade de alertar o desajuizado de que, sem tino, não se chega a lugar algum? O ansioso precisa de remédio; o borracho, idem. Tolos, como se sabe, não têm cura. Mas, vou contribuir com seus estudos, anote essa: “O professor só aparece quando o aluno está pronto”. Até mais ver. 

(Orlando Silveira – outubro de 2015)


terça-feira, 6 de setembro de 2016

MEMÓRIA DE ELEFANTE


GOOGLE
 -- E o senhor, Velho Marinheiro, está animado com as próximas eleições?

-- Seu Romualdo Bastos, não me cutuque com vara curta... Quem pode se animar com uma porcaria dessas? É a farsa de sempre – respondeu-lhe nosso Lobo do Mar aposentado, com sua impaciência histórica, por todos conhecida, enquanto sacava do bolso da camisa um papelucho.

-- Farsa! Por quê? – quis saber o maior cruzadista da Vila Invernada, talvez o único de toda região.

-- Vou lhe dar uns números, que minha neta pegou pelo computador. Em São Paulo, teremos 1.339 candidatos a deputado federal e 1.962 candidatos a deputado estadual. Ora, quem tem tantas opções, a bem da verdade, não tem nenhuma. É uma vergonha, essa nossa legislação. A palhaçada se repete há anos e anos, e continuará sendo assim por muito tempo. O Congresso Nacional não tem interesse em mudar as regras. A cambada vai para o rádio e televisão falar qualquer besteira que o partido lhes mande dizer em 15 segundos. Quase ninguém presta atenção no que é dito. Muitos desligam os aparelhos. Os que tentam acompanhar, no final do programa, não sabem quem disse o quê. Francamente, temos uma democracia muito da mixuruca.

-- Salvo engano meu, o senhor é contra a pluralidade...

À beira de um ataque de nervos (os dois nunca se bicaram) e já à caça do bicho de pé imaginário, o Velho Marinheiro pediu mais uma cerveja e um aperitivo para o Carneiro, dono do boteco. E emendou:

-- Seu Romualdo Bastos, no fundo, eu o entendo bem. Fazedor obstinado de palavras cruzadas, o senhor adora decorar inutilidades, e se gaba disso. Está diante de um prato cheio. Mas quero ver o senhor, com essa sua memória de elefante, gravar nome, número e partido de toda aquela gente. O repto está feito. Se conseguir, uma rodada de cerveja, aperitivo e tremoço fica por minha conta. Ao trabalho. (2014) 

domingo, 22 de maio de 2016

CONVERSA FIADA

INTERNET


Josué Lemos (lembram-se dele?) é figurinha carimbada na Vila Invernada. Homem de poucos dotes, mas esforçado que só. Troca courinho de torneira. Ajeita telha quebrada, faz carreto na feira etc. Faz tudo que lhe pedem. Seu bordão: “Sou Josué Lemos. Não sou o melhor. Sou o que temos”. Barateiro, serviço não lhe falta. Dona Mafalda, mulher do Velho Marinheiro, adora Lemos. E a recíproca é verdadeira. “Um doce de criatura”, não cansa de repetir o quebra-galho.

Depois de hora e meia, se tanto, Lemos já fizera um bocado de pequenos reparos. Faltava apenas trocar a resistência do chuveiro do banheiro dos fundos – recanto predileto do nosso Lobo do Mar. Antes de concluir a tarefa, resolveu puxar um dedo de prosa com o caçador do bicho de pé imaginário.

-- O senhor tem visto Ananias?

O silêncio de cemitério do Velho Marinheiro não o intimidou.

-- Ele anda sorumbático, como diria Romualdo Bastos, o cruzadista. Pra mim, essa tal de internet está acabando com ele. Vive repetindo: “Fulano está em férias. Beltrano foi pro sítio. Sicrana curte ondas. Só eu é que não vou pra lugar nenhum. Nunca soube o que é descanso.” Acho que ele está doente. Com hipertensão.

-- Hipertensão tinha sua avó, Josué. Ananias tem depressão. É obcecado. Fala essas coisas porque é verão. No outono, lamenta porque não foi guarda metropolitano, ou sei lá o quê. No inverno, ele impreca porque todo mundo comeu a mulher do padre, menos ele...

-- E na primavera, de que ele reclama? – quis saber o barateiro do bairro.

-- De ter conhecido você. Vá trocar a resistência. (2014)

segunda-feira, 25 de abril de 2016

QUASE HISTÓRIAS



A DÚVIDA DE ARGEMIRO

A tão sonhada aposentadoria transformou-se num inferno. Há cinco anos, a vida de Argemiro era uma mesmice insuportável. Acordava, tomava café bebido, fingia ler o jornal, sempre de olho no relógio à espera das onze horas, hora de marcar ponto no bar do Carneiro, tomar umas e outras, jogar conversa fora. 

À tarde e à noite, o ritual se repetia. Filhos e noras, todos morando no mesmo quintal, não queriam muita prosa com ele. Dona Celina menos ainda. E quando se falavam a briga era certa.

-- Passa o dia no bar, conversando com bêbados, estragando a saúde, gastando o dinheiro miúdo da aposentadoria. Não tem ânimo pra fazer mais nada. Volta atacado, torra o saco de todos. Quer beber? Beba em casa. O gasto é menor.

Com pequenas variações, aquele era o discurso diário de Dona Celina.


Certo dia, Argemiro desabafou:

-- No bar do Carneiro, só tem mala. Tirando uns poucos – Velho Marinheiro, Romualdo Bastos e Ananias, que são de pouco falar –, não tenho mais com quem conversar. Um pede para lhe pagar uma cachaça; outros filam cigarros. Um inferno. Acho que você tem razão, Celina: vou começar a beber meus aperitivos em casa, gasto menos, não me aborreço com prosa frouxa. O problema é que preciso ver gente, trocar ideias, sabe como é?

-- Compre um espelho.

-- Espelho, Celina!?

-- É. Falar sozinho você já fala. E não é de hoje! Pega o copo, olha para o espelho e conversa com você mesmo.

-- Será que eu vou me suportar?

segunda-feira, 20 de julho de 2015

O HOMEM BARSA



INTERNET

O Velho Marinheiro, nosso Lobo do Mar, deu uma passada no bar do Carneiro. Queria saber como andava o amigo, sempre às voltas com suas catorze doenças e com o vício da mulher, que gastava o dinheiro miúdo da família numa máquina caça-níqueis escondida no fundo da espelunca. Ficou perplexo com o que viu e ouviu. 

Romualdo Bastos – o cruzadista –, alçado à categoria de intelectual da Vila Invernada, por conta de seus sólidos conhecimentos sobre os mais variados e inusitados temas, improvisava uma palestra sobre seu “método de trabalho”. O que mais impressionava nosso Lobo do Mar, no entanto, era a atenção que lhe dedicavam os presentes, uma gente avessa à leitura. Tacos de bilhar repousavam sobre o pano verde, ninguém ousava interromper o homem. O silêncio só era quebrado pela tosse renitente de Toninho Moleza. Os malditos cigarros lhe arruinaram os pulmões.

-- Meu método é simples: não acumulo dúvidas e me deixo – tal qual um pai de santo – ser tomado pela curiosidade. Se o desafio é responder qual o continente mais populoso do mundo – e a resposta eu já sei, claro! –, vou além: quero saber quais são os países que dele fazem parte, qual a população de cada um deles, quem os preside etc. Não paro por aí: vou pesquisar também como são formados os outros continentes. Anoto, decoro, passo semanas fazendo isso. Agora mesmo, estou memorizando os nomes de todos os países que compõem a ONU, os nomes de seus respectivos presidentes e capitais, a área geográfica e a população de cada um deles – gabava-se Romualdo Bastos.

Toninho Moleza acendeu mais um cigarro, tossiu a valer e disparou:

-- Doutor Romualdo: o senhor ainda vai entrar naquela academia e virar imortal! Para orgulho de Vila Invernada!

Palmas se confundiam com gritos de “bravo”. Alguém ameaçou puxar o refrão “Romualdo é coisa nossa”. O cruzadista sorvia aos golinhos o aperitivo, afetando falsa modéstia. Até que o Velho Marinheiro interveio:

-- Qual é a mesmo sua graça?

-- Romualdo. Romualdo Bastos. A seu dispor.

-- Eu também sou curioso, seu Romualdo: que serventia pode ter uma cultura inútil dessas? 


OUTUBRO/2013



quinta-feira, 28 de maio de 2015

O HOMEM BARSA

Adicionar legenda

O Velho Marinheiro, nosso Lobo do Mar, deu uma passada no bar do Carneiro. Queria saber como andava o amigo, sempre às voltas com suas catorze doenças e com o vício da mulher, que gastava o dinheiro miúdo da família numa máquina caça-níqueis escondida no fundo da espelunca. Ficou perplexo com o que viu e ouviu. 

Romualdo Bastos – o cruzadista –, alçado à categoria de intelectual da Vila Invernada, por conta de seus sólidos conhecimentos sobre os mais variados e inusitados temas, improvisava uma palestra sobre seu “método de trabalho”. O que mais impressionava nosso Lobo do Mar, no entanto, era a atenção que lhe dedicavam os presentes, uma gente avessa à leitura. Tacos de bilhar repousavam sobre o pano verde, ninguém ousava interromper o homem. O silêncio só era quebrado pela tosse renitente de Toninho Moleza. Os malditos cigarros lhe arruinaram os pulmões.

-- Meu método é simples: não acumulo dúvidas e me deixo – tal qual um pai de santo – ser tomado pela curiosidade. Se o desafio é responder qual o continente mais populoso do mundo – e a resposta eu já sei, claro! –, vou além: quero saber quais são os países que dele fazem parte, qual a população de cada um deles, quem os preside etc. Não paro por aí: vou pesquisar também como são formados os outros continentes. Anoto, decoro, passo semanas fazendo isso. Agora mesmo, estou memorizando os nomes de todos os países que compõem a ONU, os nomes de seus respectivos presidentes e capitais, a área geográfica e a população de cada um deles – gabava-se Romualdo Bastos.

Toninho Moleza acendeu mais um cigarro, tossiu a valer e disparou:

-- Doutor Romualdo: o senhor ainda vai entrar naquela academia e virar imortal! Para orgulho de Vila Invernada!

Palmas se confundiam com gritos de “bravo”. Alguém ameaçou puxar o refrão “Romualdo é coisa nossa”. O cruzadista sorvia aos golinhos o aperitivo, afetando falsa modéstia. Até que o Velho Marinheiro interveio:

-- Qual é a mesmo sua graça?

-- Romualdo. Romualdo Bastos. A seu dispor.

-- Eu também sou curioso, seu Romualdo: que serventia pode ter uma cultura inútil dessas?  

(outubro 2013)


domingo, 8 de março de 2015

“NÓIS FUMO” OU “NÓIS FOMO”?

fiveprime.org

Naquele domingo de manhã, no bar do Carneiro, a disputa acirrada no bilhar (era campeonato) não acabou em pancadaria por um triz. Os jogadores de olho no troféu anual “O BAMBAM DA VILA INVERNADA” – o mais importante evento esportivo do bairro –, buscavam pretextos para armar confusão. Nem que para isso fosse preciso atropelar a gramática, ferrar a regência, jogar o pai dos burros no lixo. Foi o que alguns fizeram.  

-- Animal, analfabeto: não se fala “nóis fumo”; o certo é “nóis fomo”. Tô errado, doutor? – quis saber, em tom agressivo, o mais ignorante e grandalhão deles, do intelectual da redondeza, Romualdo Bastos, o cruzadista.

(Bastos dedicava-se diariamente a esse ofício: fazer palavras cruzadas – para espanto geral. Muitos se perguntavam: “Como pode alguém preencher com letras todos esses quadrinhos e dar sentido a esse preenchimento? Coisa para sábio.”)

Bastos sempre foi orgulhoso de sua sabedoria, mas tinha tino, jamais se meteu em discussões que pudessem lhe trazer danos físicos, não seria agora, depois de velho, que faria isso:

-- Os dois estão certos. A língua é dinâmica, se me entendem – balbuciou, com as pernas trêmulas e as mãos em busca de pandeiro.  

O cruzadista mais não disse. Os dois contendores não entenderam nada, mas fizeram que sim. Acalmaram-se. Estavam satisfeitos com a resposta. Bastos pegou, então, o caminho da roça. Homem prudente.

O Velho Marinheiro, desafeto do cruzadista, não deixou por menos:

-- Ananias: esse Bastos, além de chato, é mentiroso e covarde.





sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

ROMUALDO BASTOS



Onze horas. Um homem bem vestido (para os padrões locais, evidentemente) entra no bar, deseja (em tom solene) que “todos os senhores tenham um excelente dia”, dirige-se até o balcão, cumprimenta o dono da espelunca, pede um aperitivo e uma lata de cerveja, vai até a mesa mais retirada, senta-se, abre o jornal em determinada página, saca a caneta do bolso, dá um gole no aperitivo e outro na cerveja, escreve algo que ninguém ali imagina o que seja, olha para o alto como se pedisse ajuda divina, baixa a cabeça de novo, escreve mais alguma coisa, dá um gole no aperitivo e outro na cerveja, volta a olhar para o alto etc.

Esse ritual leva cerca de uma hora, período em que, por nenhuma vez, virou a página do jornal. Levanta-se, vai até o balcão, pede um novo aperitivo (que entorna de uma vez, ao contrário do que fizera com o primeiro, sorvido aos golinhos), paga a conta, despede-se do dono do bar, deseja (sempre em tom solene) que “todos os senhores tenham uma excelente tarde”.

Mal atravessou a rua, começaram as especulações: quem seria a figura, de onde viera, era morador novo no bairro, que fazia da vida, já tinha aparecido por ali antes, por que olhava tanto para o alto antes de escrever, por que não virava a página do jornal? As indagações eram muitas, do tamanho da curiosidade humana.

Infelizmente, Carneiro, o dono do boteco, também não tinha maiores informações sobre aquele homem bem vestido (para os padrões locais, evidentemente). Sabia apenas que era a segunda vez que aparecia ali, que hoje repetiu o ritual de ontem, que se mudara para a casa do falecido J. Pinto (na rua debaixo), que ele se chamava Romualdo Bastos e que, salvo engano, ele viria todos os dias, aposentado que era. Nada mais que isso.

O pessoal do bilhar deixou os tacos de lado, para se concentrar nas especulações. Para fulano, o homem era investigador e estava de campana, atrás de informações sobre o paradeiro de Chiquinho da Maconha, o principal traficante da área. Para beltrano, não era nada disso, não. Logo se via, pela grossura dos óculos, que não era polícia coisa nenhuma. Nunca tinha visto investigador de óculos com lentes tipo fundo de garrafa, coisa para intelectual, gente que lê muito. Sicrano observou que os óculos poderiam ser um disfarce, investigadores e detetives adoram disfarces, era bom não se fiar no homem. Alguém sugeriu que a turma lhe desse uma prensa, para que revelasse quem era. Carneiro achou a operação arriscada, melhor todo mundo ficar quieto, não dizer palavra enquanto ele estiver no bar.

 O mal-estar só se dissipou quando Toninho Moleza chegou e disse:

-- Seu Romualdo gostou muito do ambiente daqui, Carneiro. Disse que virá todos os dias.

-- E você conhece Romualdo Bastos, Toninho Moleza? – quiseram saber todos.

-- Claro! Minha mãe faz faxina na casa dele há uns dez anos ou mais, desde o tempo em que ele morava na Penha. É gente boa. Só tem um vício: palavras cruzadas.


OUTUBRO DE 2013




sábado, 29 de março de 2014

FEIXES

Romualdo Bastos, nosso cruzadista da Vila Invernada, deu um gole no aperitivo, outro na cerveja, acendeu um cigarro, pigarreou, fez cara de conteúdo e disparou:

-- Todo homem é um feixe de hábitos.

lojamaconicasaojose14.blogspot.com

A turma que estava no bar do Carneiro balançou a cabeça afirmativamente e disse em uníssono: “É verdade, é verdade!” 

Romualdo Bastos, por ali, era tido em alta conta. Afinal, fazer palavras cruzadas todos os dias não é coisa pra qualquer um.

-- Pode até ser, seu Romualdo Bastos, pode até ser. Mas, depois de certa idade, todo homem vira  mesmo um feixe de dores – retrucou o Velho Marinheiro.