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quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

CHÁ DAS CINCO: VINÍCIUS DE MORAES E PAULO MENDES CAMPOS

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FOTO: ARQUIVO GOOGLE


SONETO A QUATRO MÃOS


Tudo de amor que existe em mim foi dado
Tudo que fala em mim de amor foi dito
Do nada em mim o amor fez o infinito
Que por muito tornou-me escravizado.

Tão pródigo de amor fiquei coitado
Tão fácil para amar fiquei proscrito
Cada voto que fiz ergueu-se em grito
Contra o meu próprio dar demasiado.

Tenho dado de amor mais que coubesse
Nesse meu pobre coração humano
Desse eterno amor meu antes não desse.

Pois se por tanto dar me fiz engano
Melhor fora que desse e recebesse
Para viver da vida o amor sem dano.

(Vinícius de Moraes e Paulo Mendes Campos)

***

LEIA TAMBÉM

Resultado de imagem para imagens barco no rio

Robertinho não deu a volta por cima, mas voltou a remar. 
Agora, sem tanto peso na alma.
 Por Orlando Silveira, em "De volta ao rio"


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sábado, 2 de dezembro de 2017

CHÁ DAS CINCO: PAULO MENDES CAMPOS




DECLARAÇÃO DE MALES

Ilmo. Sr. Diretor do Imposto de Renda.

Antes de tudo devo declarar que já estou, parceladamente, à venda.

Não sou rico nem pobre, como o Brasil, que também precisa de boa parte do meu dinheirinho.

Pago imposto de renda na fonte e no pelourinho.

Marchei em colégio interno durante seis anos, mas nunca cheguei ao fim de nada, a não ser dos meus enganos.

Fui caixeiro. Fui redator. Fui bibliotecário.

Fui roteirista e vilão de cinema. Fui pegador de operário.

Já estive, sem diagnóstico, bem doente.

Fui acabando confuso e autocomplacente.

Deixei o futebol por causa do joelho.

Viver foi virando dever e entrei aos poucos no vermelho.

No Rio, que eu amava, o saldo devedor já há algum tempo que supera o saldo do meu amor.

Não posso beber tanto quanto mereço, pela fadiga do fígado e a contusão do preço.

Sou órfão de mãe excelente.

Outras doces amigas morreram de repente.

Não sei cantar. Não sei dançar.

A morte há de me dar o que fazer até chegar.

Uma vez quis viver em Paris até o fim, mas não sei grego nem latim.

Acho que devia ter estudado anatomia patológica ou pelo menos anatomia filológica.

Escrevo aos trancos e sem querer e há contudo orgulhos humilhantes no meu ser.

Será do avesso dos meus traços que faço o meu retrato?

Sou um insensato a buscar o concreto no abstrato.

Minha cosmovisão é míope, baça, impura, mas nada odiei, a não ser a injustiça e a impostura.

Não bebi os vinhos crespos que desejara, não me deitei sobre os sossegos verdes que acalentara.

Sou um narciso malcontente da minha imagem e jamais deixei de saber que vou de torna-viagem.

Não acredito nos relógios... the pule cast of throught... sou o que não sou (all that I am I am not).

Podia ter sido talvez um bom corredor de distância: correr até morrer era a euforia da minha infância.

O medo do inferno torceu as raízes gregas do meu psiquismo e só vi que as mãos prolongam a cabeça quando me perdera no egotismo.

Não creio contudo em myself.

Nem creio mais que possa revelar-me em other self.

Não soube buscar (em que céu?) o peso leve dos anjos e da divina medida.

Sou o próprio síndico de minha massa falida.

Não amei com suficiência o espaço e a cor.

Comi muita terra antes de abrir-me à flor.

Gosto dos peixes da Noruega, do caviar russo, das uvas de outra terra; meus amores pela minha são legião, mas vivem em guerra.

Fatigante é o ofício para quem oscila entre ferir e remir.


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A onça montou em mim sem dizer aonde queria ir.

A burocracia e o barulho do mercado me exasperam num instante.

Decerto sou crucificado por ter amado mal meu semelhante.

Algum deus em mim persiste, mas não soube decidir entre a lua que vemos e a lua que existe.

Lobisomem, sou arrogante às sextas-feiras, menos quando é lua cheia.

Persistirá talvez também, ao rumor da tormenta, algum canto da sereia.

Deixei de subir ao que me faz falta, mas não por virtude: meu ouvido é fino e dói à menor mudança de altitude.

Não sei muito dos modernos e tenho receios da caverna de Platão: vivo num mundo de mentiras captadas pela minha televisão.

Jamais compreendi os estatutos da mente.

O mundo não é divertido, afortunadamente.

E mesmo o desengano talvez seja um engano.



(Texto extraído do livro "O amor acaba", Civilização Brasileira - Rio de Janeiro, 1999, pág. 259, organização de Flávio Pinheiro.)

sexta-feira, 29 de julho de 2016

NO DIA EM QUE OTTO LARA "VIROU" ZÉ APARECIDO

OTTO LARA RESENDE

O mineiro Otto Lara Resende (1922 – 1992) viveu mais tempo no Rio de Janeiro que em seu estado natal. Se nunca abandonou a “mineirice” trazida de São João Del Rei, incorporou, definitivamente, o senso de humor dos cariocas. Advogado, jornalista, escritor e frasista de primeira, Otto formou com Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Hélio Pellegrino, seus amigos de juventude, todos igualmente mineiros e talentosos, o que eles próprios definiram como os quatro “Cavaleiros do Apocalipse”. Ou: “adolescentes definitivos”.  

Antes de tudo, Otto foi um exímio contador de casos. Há quem o considere o “ultimo causeur”. Ficcionista, ele próprio transformou-se num personagem. Diz-se que certa noite, em plena ditadura militar, ele entornou uns uísques a mais no famoso Antonio’s, reduto da boemia intelectual do Leblon. Lá pelas tantas, subiu numa cadeira e fez um duro discurso contra o regime vigente. Mais um gole, Otto voltou ao palanque improvisado, agora para comunicar à assistência, em alto e bom som, quem era: “Anotem o meu nome: José Aparecido de Oliveira”.

Em tempo: José Aparecido de Oliveira, ex-secretário do ex-presidente Jânio Quadros, mineiro como ele, era amigo de Otto desde os tempos de juventude, nas Gerais. Se a história é verdadeira ou falsa, ninguém sabe. Nem o jornalista Benício Medeiros, autor de um excelente perfil sobre o “mais carioca dos mineiros”.


DA ESQUERDA PARA A DIREITA: SABINO, HÉLIO, OTTO E PAULINHO

Nos tempos de juventude, numa brincadeira, 
Fernando Sabino fez a seguinte quadrinha, 
para adornar a lápide de Otto:

"Aqui jaz Otto Lara Resende
mineiro ilustre, mancebo guapo.
Deixou saudades, isso se entende:
Passou cem anos batendo papo."

LEIA TAMBÉM ALGUMAS FRASES FAMOSAS DE OTTO
http://orlandosilveira1956.blogspot.com.br/2015/06/cha-das-cinco-otto-lara-resende.html#comment-form

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

CHÁ DAS CINCO: PAULO MENDES CAMPOS

O AMOR ACABA

www.casmurro.com.br 



O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.


impresso.em.com.br 


(Texto extraído do livro "O amor acaba", Editora Civilização Brasileira – Rio de Janeiro, 1999, pág. 21, organização e apresentação de Flávio Pinheiro.)