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sábado, 4 de março de 2017

A JINA DE JAHU É COM JOTA. E NÃO SE FALA MAIS NISSO. CERTO?

 
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CADÊ A "JINA"? (IMAGEM: OPERÁRIOS DE TARSILA DO AMARAL)


Meu sogro, verdade seja dita, foi homem de muitas qualidades. Tinha memória de elefante, era inventivo e, acima de tudo, inabalável. Jamais, em momento algum, se deixava apanhar em calças de guri. Nesses três quesitos, só havia uma pessoa capaz de enfrentá-lo: dona Tereza, sua mãe. Aliás, puxar pela memória e desafiá-la no limite, salvo engano, era o esporte que mais os encantava, para desespero da assistência.

Nas tardes de domingo, mãe e filho travavam duelos memoráveis sobre qualquer assunto, muito embora houvesse um tema que lhes proporcionasse prazer imenso: dizer, por ordem de arrebentação, os dezoito nomes (todos iniciados com J) dos filhos de um casal que haviam conhecido em Jaú, terra de meu amigo José Cássio, jornalista dos bons.

Antes de prosseguir, convém ressaltar que dezoito foi resultado de um armistício entre as partes, após anos de guerra (quase) sangrenta. A mãe de meu sogro jurava que o casal de Jaú tivera dezenove filhos. Meu sogro não arredava os pés dos dezessete. Chegaram aos dezoito por exaustão e medo de que o debate seria encerrado, por falta de plateia. De qualquer forma, das três uma: ou rasgaram a certidão de nascimento de um dos rebentos, ou deram vida a quem nunca a teve, ou – o que é mais provável – a capacidade do casal fazer filhos foi superdimensionada.

Soado o gongo, a mãe do filho dava a largada:

-- Jean, José Josefa, Jina...

-- Pera aí, vó: Gina é com G, não com J, protestava uma das netas.

-- Aquela Gina era com J, retrucava a avó, à beira de um ataque de nervos, pela insolência da guria.

Este era um dos raros momentos em que os contendores se uniam.

-- Aquela Gina era com J, sim. Eu também vi o papelucho, afirmava categoricamente o filho em defesa da mãe.

Frequentemente, a contagem não batia. Ou passavam dos vinte nomes, ou ficavam aquém dos quinze.  Mas ninguém percebia, porque ninguém prestava mais atenção na contenda. E não seria eu, um estranho no ninho, que iria me meter a besta. (OS - atualizado em fevereiro de 2017)

***

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SEM LEVAR UM MÍSERO SOCO



quarta-feira, 1 de março de 2017

LEMBRANÇAS

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O PAI ADORAVA LER (FOTO: GOOGLE)


Papi, meu sogro, foi gente da melhor qualidade. Sua principal característica era falar, falar, falar. Adorava falar. E falava alto. O assunto sempre era detalhe menor. Bastava lhe dizer “bom dia”, e o papo estava garantido. Os mais escolados puxavam uma cadeira.

Para que incorporasse o “comandante” Fidel, não eram necessários mais que segundos. Em dia de garganta arruinada, coisa que nunca vi, a preleção era mais curta: de duas horas, em média. Quando lhe dava na telha, pedia licença e colocava ponto final na prosa. 

O pai, ao contrário, sempre foi quieto, recatado. Raramente, elevava o tom de voz. Mas não havia chance de lhe dizer “bom dia” e não receber algum incentivo, um conselho, um livro emprestado.

Dois estilos, dois mestres.

***

O pai nunca foi homem de farra, nunca teve muitos amigos. Gostava mesmo era de ler e reler seus muitos livros. E de fazer planos, ainda que já não tivesse mais condições de colocá-los em prática. Sempre foi um homem afável, mas sem tempo para, como se diz, jogar conversa fora. 

-- Por que o senhor não desce e vai conversar com outras pessoas lá embaixo, no jardim? Fica tão só...

Era o que sempre lhe perguntavam, a começar por minha irmã e eu.

E ele nos dizia:

-- Não tenho nada contra ninguém, não. Tenho uma relação cordial com todos os que moram no prédio. Também não me sinto melhor ou pior que os outros. Mas o que tenho para lhes falar não é do interesse deles. A recíproca é verdadeira. E a vida é curta, filho. Nunca dá tempo para a gente ler tudo o que precisava ler.

(OS – Atualizado em fevereiro de 2017)