Mostrando postagens com marcador Lobo do Mar. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Lobo do Mar. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

ZÉ TORRES, O ALCE

Resultado de imagem para IMAGENS DE CHIFRES



O Velho Marinheiro, nosso Lobo do Mar, acompanhava com impaciência evidente a falação besta de Zeca Comedor, como gostava de ser chamado José Torres – um sujeito de alguma aparência e posse, que gostava de contar em alto e péssimo som (ainda que ninguém lhe perguntasse) suas peripécias sexuais. 

Para garantir assistência, Zé Comedor pagava cachaça e cerveja a todos os que se dispunham a ouvi-lo no bar do Carneiro. Tarefa fácil. O que mais se encontra ali é gente pronta, capaz de rir, aplaudir e pedir bis por um trago gratuito.

Naquele dia, José Torres estava particularmente insuportável. 

-- Com a mulher da gente, a coisa é diferente. Sexo só de vez em quando. E nada além do convencional. Ela tem que se comportar como esposa e mãe. Foi para isso que se casou. Ou não foi?

O Velho Marinheiro interrompeu a conversa:

-- José Torres: não sou homem de dar conselhos a ninguém, muito menos a um tipo como você: safado. Mas saiba que, a exemplo do dinheiro, vagina não aceita desaforo. Quem se gaba de pôr galhos na cabeça dos outros e despreza a companheira, cedo ou tarde, vira alce. Seu destino é ser corno. 


(Atualizado em dezembro de 2019)



quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

OS NÚMEROS ENGANAM



GOOGLE

-- Sei que vocês, jornalistas, embora vivam das letras, têm um gosto especial pelos números. Mas eu não me fio muito neles, não – iniciou a conversa o Velho Marinheiro, como quem não quer nada, mas louquinho da silva para enveredar pela discussão política.

Ananias, nosso repórter em fim de carreira, mordeu a isca:

-- Os números dão credibilidade à reportagem. Além do quê, os números não mentem.

-- Sei disso. Mas não se pode dizer o mesmo de quem produz e interpreta os números. Tenho pra mim que eles enganam tanto quanto as palavras, se não enganarem mais. Não por acaso, políticos são obcecados por números. E isso não é uma escolha casual.


-- Mas os números, Velho Marinheiro, permitem comparar o que governos fizeram. Dão ao povo condições de escolher com critério seus representantes – argumentou Ananias com sua sabedoria de botequim.

-- Bobagem, meu jornalista. Se isso fosse verdade, não teríamos os governos que temos. A opinião do povo não é parâmetro pra nada. De que vale dizer que este governo construiu em quatro anos o dobro de casas e hospitais em relação a seu antecessor, se está deixando a conta para o sucessor? Ora, construir e não pagar é coisa fácil, qualquer um pode fazer. Até nós dois – dois bestas. Quer outro exemplo, Ananias? Se a dita economia mundial está superaquecida, se os preços dos produtos estão nas alturas, é natural que, em termos absolutos, em termos de grana, as exportações cresçam. Isso é fruto de uma série de fatores. Não é obra de um governo...

-- Está certo, está certo, mas...

-- O que importa é saber o quanto avançamos em relação aos outros. Qual o quê! O Brasil não vai de fato pra frente porque não gosta da verdade, prefere se comparar com ele mesmo. É mais fácil e de grande utilidade para o jogo político rastaquera que aqui se pratica, no qual o roto fala do rasgado.

-- Pensando bem...

-- Pensando bem vamos pedir logo a saideira. Romualdo Bastos está chegando com aquela sua empáfia de cruzadista.

(OS 2014 - atualizado em dezembro de 2019)



quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

VOSSA EXCELÊNCIA É VEADO?

MYRRIS


O fato indiscutível é que o dedão do pé direito já estava em carne viva, sem que o bicho do pé desse sinal de morte. Ou de vida. Nem poderia. Era imaginário. Existia apenas na cabeça do Velho Marinheiro, nosso imbatível Lobo do Mar, homem de muita experiência, poucas palavras, paciência nenhuma. Sem saber dos riscos que corria, o candidato deitava falação para aquela plateia miúda, mas atenta, porque a conveniência gera milagres.

Enquanto o homem, sem corar nem desbotar, impávido colosso, prometia mundos, fundos e um bocadito mais para toda a humanidade e emprego dos bons para todos os presentes – uns dez gatos pingados, no máximo –, o Velho Marinheiro confrontava a foto do “santinho” com a imagem ao vivo da triste figura. Não se conteve:

- Afinal, qual é a cor original de seu cabelo? Acaju é que não é. Asa da graúna não pode ser.

Político tarimbado, o candidato se fez de surdo. E deu vazão à cantilena ordinária:

- Amigos, eu não posso resolver tudo. Mas farei de tudo para tudo resolver. Em nome de meu povo, por amar cada um de vocês, a começar por este senhor tão fofo.

O Velho Marinheiro se inquietou e quis saber:

- Fofo? Quem é o fofo aqui?

- O senhor, meu lindo.

- Não me faltava mais nada. Já devia ter morrido. Estou fazendo hora extra. Vou cochilar. Mas, antes disso, com o perdão da pergunta indiscreta: Vossa Excelência é veado? (OS - 2013 - atualizado em dezembro de 2019)



domingo, 11 de novembro de 2018

PAPO CABEÇA


-- Nunca fui homem de letras, menos ainda de poesia. Gosto de coisas diretas. Não sou chegado a floreios, Ananias. Implico com rimas. Amor com flor e amor com dor me tiram do sério. Não obstante, gosto daquele poema que diz assim: “A solidão é o fim de quem ama”.

-- De Vinícius...

-- De Moraes, eu sei, eu sei. No fundo, todo mundo é solitário, embora muitos vivam rodeados de gente barulhenta. Viver é um ato solitário. Quem é do mar sabe disso. De nossos medos, só nós sabemos.

-- E o senhor, Velho Marinheiro, já sentiu medo?

-- Se até rato – bicho mais abusado que homem – tem, por que eu não teria? Agora, ter medo, uma vez ou outra, é uma coisa, ser cagão é outra. Vamos pedir torresmos e mudar de conversa. Esse papo cabeça me enfara. 

(Orlando Silveira - atualizado em novembro de 2018)

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

TERAPIAS ALTERNATIVAS


-- Sabe da última? Tiago, noivo de Irene, foi demitido. Agora, que ele se afunda na depressão. Nossa neta está arrasada. Vão ter que adiar o casamento. De novo.

-- Mafalda: até que demorou – limitou-se a dizer o Velho Marinheiro, nosso Lobo do Mar. É melhor que não se casem.

-- Demorou pra que, meu velho?

-- Pra ele levar um pontapé nos fundilhos. Tem cabimento um homem, na idade dele, fazer o que ele faz? Não tem. Primeiro, começou com aquela história de comprar livros e mais livros de autoajuda. Não dá pra levar a sério um sujeito que, na idade dele, lê coisas do tipo “Desperte o gigante que existe dentro de você”. Livro de autoajuda é bom pra quem escreve e vende. Pra mais ninguém. Depois, começou com aquela mania afeminada de andar descalço, abraçar árvores e falar com passarinhos.

-- Ele tem problemas.

-- Que procure um psiquiatra, um médium, um padre exorcista, sei lá. Não faz muito tempo, ficou um mês sem trabalhar. Foi fazer um curso não sei de quê, lhe mandaram andar sobre brasas, ele andou... Deu no que deu: ficou com os pés em situação calamitosa, sem poder sequer ir ao banheiro.

-- É que Tiago...

-- É que Tiago é uma besta. Não lhe tinha contado nada pra não lhe chatear. Ele só não foi trucidado no velório de Valdomiro, marido de Deolinda, porque estava comigo. De uma hora para outra, sem mais nem por que, ele desandou a bater palmas e gargalhar. Queriam linchá-lo ali mesmo, ao lado do defunto. Quanto mais a turba se enfurecia, ele mais batia palmas e gargalhava. Tive que lhe dar um safanão pra tirá-lo do transe. No carro, me disse que era adepto da terapia do riso. Deve ter feito coisa afim no serviço. E isso é coisa que gerente de banco faz, na frente de cliente pedindo empréstimo?

-- Tiago é adepto de tratamentos alternativos.

-- Então, que vá bater palmas em outros mares e deixe nossa neta em paz. Melhor assim. Que fique pra tia. Hoje, pra fazer sexo, ninguém precisa casar. (OS - Atualizado em setembro de 2018)

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

PECADOS CAPITAIS



Resultado de imagem para IMAGENS GULA
Para surpresa de todos, em especial da mulher Mafalda e da neta Irene, o Velho Marinheiro passou os últimos dias calado, sem se meter em polêmicas, reflexivo que só. Falava nada além do indispensável, coisas do tipo “bom-dia”, "boa-tarde", “boa-noite”, “estou satisfeito, obrigado”. Passava horas e mais horas trancafiado no quartinho do fundo de sua casa, um misto de escritório e depósito de quinquilharias.

-- O que anda acontecendo com você? Anda tão calado... Está doente? – quis saber Mafalda, na primeira brecha que encontrou.

-- Ando, não. Quem anda com os nervos arruinados é Josué. Qualquer hora, ele explode – embora muito gorda seja sua mulher. Esmeralda está imensa. Do tamanho daquela gorda da novela, talvez um pouco menos. Esmeralda, além de gorda, é geniosa.

O Velho Marinheiro, nosso Lobo do Mar, explicou a Mafalda as razões de seu retiro espiritual:

-- Após muita reflexão, cheguei à conclusão de que a gula é a mãe de quase todos os pecados capitais e de muitos veniais também. Esmeralda está sempre com apetite de ontem, segundo Josué. Nada lhe sacia. Ela, dominada pela avareza, esconde guloseimas por toda parte, só pra não ter que dividir com filhos e netos. Por isso, não para de engordar. Já tentou todas as dietas, mas não tem firmeza para levá-las adiante. Desiste. E despeja sua ira em quem encontra pela frente, principalmente nos vendedores de legumes e produtos light. Josué, que é magro, também paga o pato. Chama o coitado de tudo que é nome, diz que, por ela, ele pode bater as botas. Passa o dia no sofá, dominada pela preguiça. E morre de inveja das mulheres magras, também alvo de sua ira medonha. Manda fazer “trabalhos” para que engordem também.

-- Que coisa, meu velho, que coisa! – diz Mafalda, sem se descuidar de anotar num papelucho os pecados capitais citados pelo caçador de bicho de pé imaginário.

-- Se não bastasse, ostenta um orgulho besta, porque falso. Diz que é gorda porque tem dinheiro para comprar comida até se fartar. O que, segundo ela, não deve acontecer na casa de suas ex-amigas. O que sei é que Josué definha a olhos vistos.

-- Ficou faltando um pecado capital!

-- Qual?

-- Luxúria.

-- Ela também o comete. Apesar da gula desmedida, é humana. Mas, nesse caso, só peca em pensamento. Certas coisas exigem um mínimo de mobilidade e fôlego. E isso ela não tem. (OS - atualizado em agosto de 2018)


***

LEIA TAMBÉM

Resultado de imagem para fotos homem olhando o mar

Boas amizades são urdidas na quietude. Ser amigo não é bisbilhotar a vida do outro, querer que o outro lhe conte o que ele não quer contar. Há tempo para tudo: para discutir coisas sérias, para contar piadas, para assuntar besteiras, para, eventualmente, desabafar... Por Orlando Silveira


https://orlandosilveira1956.blogspot.com/2018/08/o-mar-ensina.html#comment-form


sexta-feira, 2 de março de 2018

UMA SABATINA COM O VELHO MARINHEIRO

Resultado de imagem para fotos albatroz
Albatroz - Foto: arquivo Google
A notícia caiu feito bomba no colo do Velho Marinheiro: o jornal semestral da associação dos Lobos do Mar, voltado aos reformados da Marinha, queria uma entrevista exclusiva com ele, com direito a foto e tudo mais. Só que ela teria que ser feita por e-mail. Falta de repórteres. E a foto teria que ser enviada pelo entrevistado. Falta de fotógrafos. Sem problemas. Irene, a neta predileta, imprimiria as perguntas e enviaria as respostas pelo computador. E contrataria os préstimos de Sebastião Doce, o retratista do bairro.

Munido de café forte e cigarros, o Velho Marinheiro se trancou no escritório no fundo da casa. Passou a madrugada esboçando respostas para a crise das Forças Armadas, para a degradação moral das instituições e para tudo o mais que lhe parecia relevante. Quando as perguntas chegaram, uma estaca de decepção lhe varou o peito. Era o questionário Proust – brincadeira de salão, popular na Europa do século XVIII. Achou aquilo coisa de boiola. Mas não passou recibo. Ao questionário e suas respostas:

Qual é sua maior qualidade? “Sinceridade.”

E seu maior defeito? “Sinceridade. Quase sempre é melhor ficar calado. Não consigo.”

A característica mais importante em um homem?  “Caráter”.

E em uma mulher? “Caráter”.

O que você mais aprecia nos seus amigos? “Lealdade”.

Sua atividade favorita é… “Observar. E rir da ignorância humana”.

Qual é sua ideia de felicidade? “Ter a consciência tranquila”.

E o que seria a maior das tragédias? “Perder a coragem de enfrentar as adversidades que a vida nos apresenta”.

Quem você gostaria de ser, se não fosse você mesmo? “Ninguém. Não me vejo na pele de outro”.

E onde gostaria de viver? “Aqui”.

Qual sua cor favorita? “Azul”.

Uma flor? “Mafalda, minha mulher”.

Um pássaro? “Albatroz”.

Seus autores preferidos? “Machado, Graciliano”.

E os poetas de que mais gosta? “Bandeira, Quintana, de todos que me botam comovido. Tarefa difícil”.

Quem são seus heróis de ficção? “Não tenho”.

Quem são suas heroínas? “Não tenho”.

Seu compositor favorito é… “São tantos. Não vou correr o risco de me esquecer de alguém”.

E os pintores que você mais curte? “Se for de parede, sei que não é, é Genésio. De tela, não entendo nada”.

Quem são suas heroínas na vida real? “Não tenho”.

E quem são seus heróis? “Não tenho também. Quem precisa de herói é basbaque”.

Qual é sua palavra favorita? “Trabalho”.

O que você mais detesta? “Gente fingida. É o que mais tem”.

Quais são os personagens históricos que você mais despreza? “Todos os opressores”.

Quais dons da natureza que você gostaria de possuir? “Nenhum. Meus erros e acertos me bastam”.

Como você gostaria de morrer? “Com Mafalda ao meu lado”.

Qual seu atual estado de espírito? “Bom. O de quem sabe que errou, errou muito, mas que nunca sacaneou ninguém de propósito. O de quem não tem pressa pra morrer.”

Que defeito é mais fácil perdoar? “O que não me afeta”.

Qual é o lema da sua vida? “Navegar é preciso”. 

( 2013 - atualizado em fevereiro/2018)


segunda-feira, 17 de outubro de 2016

MAQUININHAS. SEMPRE ELAS

Resultado de imagem para IMAGENS MÁQUINAS CAÇA NÍQUEIS
ARQUIVO GOOGLE

-- Ananias, como anda nosso tal de blog? – quis saber o Velho Marinheiro de seu amigo transformado em assessor de imprensa informal, por paga miúda, negócio de compadres.

-- Está indo bem. Em breve, estará no ar. Já temos alguns artigos escritos. As entrevistas que tenho feito com o senhor estão sendo muito úteis. Sua experiência é grande; suas opiniões, contundentes.

-- Obrigado pela sinceridade. Não tenho pressa. É que gostaria de lhe pedir mais um artigo.

-- Sobre?

-- Sobre as desgraças do Carneiro.

-- Do carneiro? O que tem o bicho?

-- Não estou falando de bicho, Ananias. Estou falando do Carneiro, dono do boteco. Carneiro faz jus ao sobrenome. É um manso – disse nosso lobo do mar, enquanto caçava o bicho do pé imaginário. Por isso, lhe pedi que viesse até minha casa. Não dá para comentar certos assuntos na frente dele.

-- Mas, noves fora os fiados, que outros problemas ele têm?

-- Vários, a começar pela saúde arruinada. Ele jura que tem catorze doenças.

-- Catorze?

-- Catorze. Muita embora tenha minhas dúvidas. Por diversas vezes, começou a me dizer quais eram. Mas, depois da sexta ou sétima, repetia os nomes das chagas. Tem a cabeça fraca. Agora, quem lhe arruína os nervos mesmo é a mulher, viciada nas maquininhas. Quando ela está no bar, todo cuidado é pouco. Ela pega R$ 20 do caixa e vai jogar. E leva a chave da máquina junto. Perde os R$ 20, abre a gaveta, toma os R$ 20 de volta, torna a perder, retoma os R$ 20... E assim vai. Tem dado muito prejuízo ao marido. O dono da máquina não quer saber de conversa, quer a parte dele. 

-- Dessa eu não sabia. Por que o Carneiro não esconde a chave da mulher? 

-- Ele escondeu, não adiantou. Ela fez cópias. Com um fardo desses, os males do Carneiro só tendem a aumentar. O coitado vai entrar no livro dos recordes como o homem mais doente do mundo. E um título desses ninguém quer, ninguém merece. Muito menos um manso como Carneiro. Escreva alguma coisa sobre isso, mudando os nomes, claro. Vamos publicar um artigo no jornal do bairro. (atualizado em 2016)

leia também algumas "RAPIDÍSSIMAS"

 http://orlandosilveira1956.blogspot.com.br/2016/10/rapidissimas_17.html#comment-form

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

FOLHA CORRIDA

Resultado de imagem para imagens folha corrida

-- Tiago, eu preciso de um favor seu. Quero que me ajude a escolher uma boa assessoria de comunicação, a melhor que tiver. Dinheiro não é problema, você sabe disso. As eleições estão chegando. A disputa será acirrada. Não posso correr o risco de não me reeleger. É hora de contar com o apoio de especialistas em gerenciamento de crises e reposicionamento de imagem. Tenho sido muito injustiçado pela mídia – discorria, com o cinismo habitual, Campos Filho, deputado de vários mandatos e reputação abaixo de qualquer suspeita.

-- Conte comigo, deputado Campos. Sei bem o quanto o senhor tem sido vítima da imprensa e do Ministério Público. Tenho uns bons contatos nessa área de comunicação. Fique tranquilo – respondeu o noivo de Irene, a neta predileta do Velho Marinheiro. Não há nada que bons marqueteiros não resolvam.

-- Você, Tiago, sabe que a política me fez empobrecer...

O Velho Marinheiro, nosso Lobo do Mar não se conteve:

-- Deputado, esse negócio de gerenciamento de crise e reposicionamento de imagem não funciona no seu caso. Não há quem modifique sua folha corrida. Suas digitais estão em toda parte. Vai gastar uma fortuna, um dinheiro que não lhe pertence, para nada. Mais prejuízo para o povo.

E foi adiante:

-- Tiago, eu vou lhe dizer uma coisa: se trouxer Sua Excelência aqui em casa de novo – o que espero que não aconteça mais –, me avise antes. Mando a empregada tirar os objetos de valor da sala. Com licença. Vou tirar uma soneca.  (OS - janeiro/2014)

     



terça-feira, 13 de setembro de 2016

UMA ENTREVISTA QUE NÃO HOUVE





Estava tudo acertado, combinadinho da silva. Mas gorou.

A família não entendia por que aquela rede de tevê queria entrevistá-lo, menos ainda por que queria saber sua opinião sobre assuntos tão diversos – da passeata gay à festa de Iemanjá, sem descuidar do aumento da passagem dos transportes coletivos. Não era ZIca. Nem Canô.

-- Diga à tevê que eu topo. Falo sobre tudo. Pra mim, não há, nunca houve, assunto tabu. Até que enfim, alguém resolveu dar valor à experiência, a forma mais sólida de sabedoria. Que venha a tevê. Vou me banhar, fazer a barba, coçar o pé, botar o pijama novo. 

A equipe chegou. A repórter foi logo passando ao Velho Marinheiro as instruções:

-- Vou lhe perguntar isso. Depois, aquilo. Seja breve. O tempo de tevê é curto...

-- Princesa, não se preocupe: sou de pouco falar. 

Eis que entra em cena o maquiador. Precisava passar um pó no rosto do lobo do mar, para retirar o excesso de brilho.

-- É de praxe, vovô.

-- Vovô, o cacete. Nunca tive neto veado. Que eu saiba!

Conversa daqui, conversa de lá, o Velho Marinheiro aquiesceu:

-- Mas não pinte minhas bochechas de vermelho. Quem gostava de ruge era sua avó, que conheci bem. Não ouse sapecar pontinhos pretos. Homem como a senhora não merece confiança, ainda mais numa época como essa: de festejos juninos.

A coisa desandou de vez, quando o maquiador ponderou:

-- Sem um batom neutro nos lábios...

A correria foi grande; o vexame, imenso. A equipe se mandou sem cumprir a pauta, em solidariedade ao maquiador. 

O Velho Marinheiro, nosso Lobo do Mar, resolveu que entrevistas, dali pra frente, só pra jornal ou rádio.  Ou por escrito.  

(ORLANDO SILVEIRA - 2013)



sexta-feira, 24 de junho de 2016

AS "NAMORADAS" DO VELHO MARINHEIRO

EDRA


O Velho Marinheiro, nosso Lobo do Mar, deu um pontapé na compostura e um chega pra lá no silêncio quase forçado que a família, antes do retorno triunfal de Mafalda ao lar, lhe impusera.  E pediu à neta:

-- Faça um favor a seu avô, Irene: mande este negócio que escrevi pra Deolinda pelo computador, pelo tal de e-mail, que vocês tanto usam. Com essas coisas não sei mexer, não. Nem quero aprender. O endereço está aí, anotado por ela, de próprio punho. Sinal de que espera alguma coisa de mim. Ou não?  

A neta ficou abismada com o que leu:

“Deolinda, Deolinda, coisa linda demais, faço minhas as poucas – mas sempre sábias – palavras de Mário Quintana: ‘Eu queria trazer-te uns versos lindos.../Trago-te estas mãos vazias/Que vão tomando a forma das tuas nádegas’”.

-- Não bastasse sua canalhice, o senhor errou feio: Quintana não falou em nádegas. Ele falou em seios – esbravejou a neta.

-- Eu sei, eu sei. Conheço o poema. Quem não sabe de nada é você. Perto das nádegas, os seios de Deolinda são pinto. O poema original já foi enviado para Guiomar, mulher de bunda miúda e seios fartos, quase uma vaca profana, como a cantada por aquele baiano, o  tal de Caetano. Um amigo me fez o favor de lhe enviar o bilhete. Estou semeando. Uma delas cai na rede desse velho solitário. (atualizada em junho/2016)

sexta-feira, 17 de junho de 2016

MULHER LARGADA, MULHER VIÚVA




Estava impaciente que só, o Velho Marinheiro, nosso Lobo do Mar. Para variar, o dedão direito estava prestes a sangrar. E nada de achar o bicho do pé. Nem poderia. É imaginário. Coisa da idade? Ninguém sabe.

Resolveu falar para aliviar a agonia:

-- Mafalda: tive conversa séria com Tiago.

-- Com o diabo?

-- Mafalda, temos que por pilha nova ou trocar esse seu aparelho de ouvido. Falo uma coisa, você entende outra. Assim não pode ser por muito tempo. Se tivesse ainda o vozeirão que já tive, lhe cantava “Conceição”, só para colocar Peixoto em seu devido lugar. Falei com TIAGO (OUVIU?), noivo de Irene, nossa neta.  Tiago quer entrar na política. Que a política está cheia de diabo todo mundo sabe, até Tiago, candidato a capeta.

-- Agora, ouvi. E falou o quê para Tiago?

-- Pra desistir da política. Isso já foi coisa boa. Hoje, é para quem não presta. Ele é meio tolo, um simplório deslumbrado. Vai meter os pés pelas mãos. Acaba preso. Ainda lhe disse: se for para entrar numa encrenca dessas, seja honesto. A concorrência será menor.

-- E o que ele lhe disse, meu velho?

-- Não disse nada, sorriu maroto, deu de ombros. Quis parecer o que não é: esperto. Tiago é tolo. Mas lhe fiz uma advertência final. Acho que é por conta disso que Irene tem feito café ralo e doce demais, coisa de mineiro vingativo. Ando desarranjado. 

-- Qual foi o aviso? Você me bota agoniada.

-- Disse a Tiago com todas as letras, vírgulas e pontos: o homem entra na política, fica esperto: pinta cabelos, negocia, arruma amante de estômago estufado, larga a mulher e filhos. Então, saiba que faço minhas as palavras de ACM, de quem nunca gostei: “Na minha família, não tem mulher largada. Tem mulher viúva”. Veja lá o que vai fazer com Irene. Tiago ficou de pensar. (2013)

domingo, 10 de abril de 2016

A FILHA DA P...



Tiago, eterno noivo de Irene, neta predileta do Velho Marinheiro, não se emenda – e, com o perdão da rima ordinária, não é por falta de reprimenda. Nosso Lobo do Mar não perde a oportunidade de, como se dizia, chamá-lo aos costumes. Trabalho em vão. Tiago, por irrecuperável, insiste em aporrinhar quem o circunda. Consegue.

Ontem mesmo, trouxe à casa do avô de sua noiva uma candidata à deputada federal (o candidato para o qual ele trabalhava, sem receber, lhe deu um pontapé no traseiro), muito embora o caçador de bicho de pé imaginário já o tivesse alertado para que não cometesse mais tal desatino - trazer políticos à sua casa. .

A moça ameaçou um discurso politicamente correto. Não prosperou. O Lobo do Mar foi direto ao ponto:

-- Não vamos perder tempo, a vida é curta. Qual o número de sua mãe?

-- Mamãe não é candidata. A candidata sou eu.

-- Danou-se. Só voto na matriz. Jamais na filial. (OS - 2013)


quarta-feira, 9 de março de 2016

SEM TRIBOS E APITOS



-- Ananias: gosto de você. Você sempre foi homem correto. Isso me basta. Temos mais afinidades que divergências, meu caro. Sou menos forte do que pareço; você não é tão frágil quanto sugere ser. No fundo, somos dois índios sem tribo. Melhor assim. Você e eu erramos pela própria cabeça, pagamos o preço. Dois índios que, por opção e sina, não querem apitos. É o que tem a lhe dizer esse Velho Marinheiro, antes de pedir ao Carneiro uma gelada e brindar nossa amizade: não deixem que o humilhem, você tem valor. Feliz aniversário. (OS - 2014)




sexta-feira, 4 de março de 2016

DIREITA & ESQUERDA

youtube


Cansado de ser motivo de chacotas nos bares da Vila Invernada, Ananias, aquele repórter em fim de carreira, encontrou (quem diria?) no Velho Marinheiro um ombro amigo. Ouvia com atenção máxima suas falações e, na medida do possível, procurava pôr em prática os raros conselhos que recebia. Em ano de eleições, tinha interesse em saber a opinião do nosso Lobo do Mar sobre Política.

-- Eis um assunto que me interessa cada vez menos – foi logo avisando o caçador de bicho de pé imaginário. Dias atrás, coloquei pra fora de casa um sujeito despudorado, candidato que Tiago, noivo de Irene, minha neta, levou até lá. Não tenho mais paciência com essa gente.

-- É muita roubalheira, Velho Marinheiro.

-- Roubalheira sempre houve. Mas agora está demais. Se fosse editor de jornal, transferia as notícias de Política para a editoria de Polícia. Hoje, a esquerda rouba mais que a direita, se é que ainda se pode fazer essa distinção. Rouba mais porque rouba duas vezes: para os cofres do partido e para o próprio bolso. Direita e esquerda se casaram: estão juntas na roubalheira e na mentira. Não há amante que as separe. Viraram um casal de pombos. 

-- Qual a saída? – quis saber Ananias.



-- Quem me dera saber. (OS - 2013)