Mostrando postagens com marcador Leandro Narloch. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Leandro Narloch. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

POLÍTICA/OPINIÃO: LEANDRO NARLOCH


Resultado de imagem para imagens protestos de estudantes
FOTO: UOL/EDUCAÇÃO

A LEI GERAL DOS PROTESTOS DE ESTUDANTES

Quanto mais sensatas forem as leis e as mudanças propostas
pelo governo, mais estudantes protestarão contra elas

POR LEANDRO NARLOCH (*)

VEJA.ABRIL.COM.BR
26/10/2016 às 13:38

Dada a recente onda de passeatas e invasões a escolas, temos material suficiente para formular um tratado – a Lei Geral dos Protestos de Estudantes. O enunciado é simples:

Os protestos estudantis são diretamente proporcionais à sensatez do tema em questão. Quanto mais sensatas forem as leis e as mudanças propostas pelo governo, mais estudantes protestarão contra elas.

Leitor, essa lei é pobre e simplória, mas tem uma capacidade riquíssima de explicar o noticiário brasileiro. Veja a reforma do Ensino Médio preparada por Dilma e proposta por Temer. Não há notícia melhor para os adolescentes. Eles agora poderão escolher ter menos aulas de química orgânica ou sociologia e mais aulas de inglês ou matemática.

Para os invasores das escolas, a reforma é de uma sensatez insuportável. “Química orgânica é essencial à cidadania”, devem dizer os invasores paranaenses quando não matam os colegas. “Como preparar a revolução se não sabemos o que é uma função nitrogenada?”

No Paraná e em outros estados, estudantes também protestam contra a PEC 241. Que é simplesmente a coisa mais sensata que houve nesta década.

Qualquer pessoa que não seja um completo analfabeto em economia, qualquer um que não seja adepto de uma seita obscurantista, enfim, qualquer pessoa que entenda de política um pouco mais que o Gregorio Duvivier sabe que o maior risco dos governos é aloprar nos gastos. Políticos gostam de garantir a alegria do povo do curto prazo e empurrar a crise para os próximos mandatos. Por isso uns trinta países civilizados criaram leis como a PEC 241, entre eles Holanda, Bélgica e Austrália. Mas alguns estudantes, enojados com a coerência da PEC, correram apavorados protestar contra ela na Paulista e nas escolas.

Há exemplos para todo lado. No ano passado, Alckmin tentou remanejar vagas nas escolas estaduais, seguindo uma tendência de todo lugar em que o número de alunos, por causa da menor fecundidade, está caindo. Os estudantes viram ali o ideal da revolução, um motivo para levar bomba da polícia e escapar da monotonia deprê dos tempos de paz.

Voltem duas décadas e a Lei Geral dos Protestos de Estudantes continua em pé. Falo por experiência própria. Lá por 1997, eu participava do grêmio do CEFET-PR, onde estudava mecânica, e o ministro Paulo Renato decidiu mexer no currículo das escolas técnicas.

Muita gente ocupava uma vaga mais cara do ensino técnico para depois virar filósofo, gerente de banco ou jornalista metido a historiador. Por isso o ministério decidiu separar o ensino tradicional do técnico. Os três primeiros anos seriam para Ensino Médio regular e o quarto ano concentraria o ensino profissionalizante. Era uma ideia sensata. Era uma ideia que fazia todo sentido. Bastava somar dois mais dois para concordar com ela. Justamente por isso protestávamos.

Resultado de imagem para foto leandro narloch
FOTO: VEJA/ABRIL
Mas é verdade que, em certas condições de temperatura e pressão, a Lei dos Protestos dos Estudantes não funciona. Se o governo que propõe a medida está alinhado aos sindicatos de professores, a reação não se forma, e os protestos não aparecem. Nesse caso, não há sensatez ou maluquice capaz de revoltar os estudantes conduzidos pela esquerda.

(*) Jornalista, foi editor da revista Superinteressante e repórter de ciência de Veja. Escreveu o Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, entre outros. É mestre em filosofia pela Universidade de Londres.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

POLÍTICA/OPINIÃO: LEANDRO NARLOCH



Resultado de imagem para imagens fernando holiday
FERNANDO HOLIDAY/GOOGLE



POR QUE A ESQUERDA NÃO CONSEGUE
DIGERIR FERNANDO HOLIDAY

Militantes menos sofisticados da esquerda costumam achar 
que só eles defendem os pobres, os negros e os gays. 
Por isso não conseguem entender
 o mais jovem vereador de São Paulo

Por Leandro Narloch
VEJA.ABRIL.COM.BR

Em 07/10/2016 às 14:15



“Como pode um homem gay, negro e pobre ser de direita?”

A esquerda voltou a se debater com essa pergunta desde a vitória de Fernando Holiday na eleição em São Paulo. Aos 20 anos, o rapaz foi o 13º candidato mais votado a vereador.

Há respostas das mais variadas. “Ele encarnou um capitão do mato, é um negro contra os negros”, diz a explicação mais comum. Um daqueles sites patrocinados pelo governo Dilma solucionou a questão com uma sacada criativa: concluiu que o rapaz, na verdade, não é negro, pois “ser negro não é uma condição dada, a priori. É um vir a ser”. Pronto, um problema a menos, Fernando Holiday é branco!

A esquerda não consegue entender a existência de Holiday porque acredita ter o monopólio da defesa dos negros, pobres e “oprimidos” em geral. Se um negro luta contra a esquerda, então há algo de errado com ele. Ou não seria realmente negro ou teria algum problema psicológico, uma anomalia que o faria agir contra a própria identidade.  Oras, se a esquerda está do lado do povo, por que o povo estaria contra a esquerda?

Militantes mais embrutecidos acreditam também que para beneficiar os pobres é preciso prejudicar os ricos (com impostos sobre fortunas, por exemplo). Por isso um negro e pobre jamais se alinharia a partidos dos ricos. Mas Fernando Holiday, um liberal, é contra a ideia do conflito irreconciliável entre as classes. Acredita que a prosperidade beneficia tanto pobres quanto ricos, e que ideias econômicas de esquerda prejudicam todos, incluindo gays e negros.

Há ainda um terceiro motivo. Assim como a direita mais tacanha, a esquerda menos sofisticada gosta de achar que seus adversários se resumem a estereótipos ridículos ou políticos radicais. A direita seria apenas a senhora racista da praia do Rio de Janeiro, o empresário engomado que se incomoda com pobres no aeroporto, o deputado-pastor contrário ao casamento gay.

É mais confortável, para militantes da esquerda, ignorar a existência de adversários com mais nuances. O rosto de Fernando Holiday, um gay, negro, defensor de privatizações e antipetista radical, não poderia ser mais indigesto.

Resultado de imagem para IMAGENS LEANDRO NARLOCH
NARLOCH É JORNALISTA E ESCRITOR/GOOGLE