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quarta-feira, 20 de novembro de 2019

NÃO É O MELHOR, MAS...



Resultado de imagem para IMAGEM DE PAU PRA TODA OBRA
ILUSTRAÇÃO: ARQUIVO GOOGLE




Não há quem não conheça Josué Lemos na Vila Invernada, bairro pobre da zona Leste de São Paulo, local em que nasceu, criou-se e entrou na pior idade. A vida dura o obrigou a se virar nos trinta, seja lá o que isso queira dizer. Ele é uma espécie de “faz tudo”, pau pra toda obra. Ergue e pinta paredes, enche laje, desentope canos, troca fiação, remenda calçadas e muros, cata lata, vende papelão, faz carreto na feira.

Para Josué, não há tempo ruim. Gaba-se de estar a serviço da “comunidade” 24 horas por dia, de segunda a segunda, incluindo feriados. Só não trabalha na sexta-feira da Paixão. E o que é melhor – para os clientes, claro: é barateiro. Sobe no telhado por qualquer bagatela, apara grama de quintal e trepadeira de muros por duas pingas e uma cerveja. Nunca reclama do que lhe pagam: “Eu preciso de pouco pra viver”.

Josué só não gosta muito de fazer serviços na casa do Velho Marinheiro, nosso Lobo do Mar:

-- Ele é exigente demais, põe reparo em tudo, difícil agradar aquele homem. Quando começa a caçar o bicho do pé, então, me deixa nervoso, sei que a bronca é certa. Só vou lá por causa de dona Mafalda, um doce de criatura.

Sejamos justos: que o Velho Marinheiro tem gênio ruim, todo mundo sabe; mas não é o único a reclamar de Josué. Ao contrário. É raro encontrar alguém que elogie os serviços que faz. Afinal, ninguém pode ser bom em tudo, não é? Por que o contratam, afinal? Porque é boa praça, está sempre disponível, não bebe durante o expediente, é barateiro e de confiança, ao contrário da maioria de seus concorrentes, cujos serviços, em termos de qualidade, igualam-se aos seus.

Josué sabe disso.

Quando alguém reclama disso ou daquilo, dispara seu bordão predileto: “Eu sou Josué Lemos. Não sou o melhor. Mas sou o que temos”.

(OS 2013 - atualizado em novembro de 2019)



domingo, 22 de maio de 2016

CONVERSA FIADA

INTERNET


Josué Lemos (lembram-se dele?) é figurinha carimbada na Vila Invernada. Homem de poucos dotes, mas esforçado que só. Troca courinho de torneira. Ajeita telha quebrada, faz carreto na feira etc. Faz tudo que lhe pedem. Seu bordão: “Sou Josué Lemos. Não sou o melhor. Sou o que temos”. Barateiro, serviço não lhe falta. Dona Mafalda, mulher do Velho Marinheiro, adora Lemos. E a recíproca é verdadeira. “Um doce de criatura”, não cansa de repetir o quebra-galho.

Depois de hora e meia, se tanto, Lemos já fizera um bocado de pequenos reparos. Faltava apenas trocar a resistência do chuveiro do banheiro dos fundos – recanto predileto do nosso Lobo do Mar. Antes de concluir a tarefa, resolveu puxar um dedo de prosa com o caçador do bicho de pé imaginário.

-- O senhor tem visto Ananias?

O silêncio de cemitério do Velho Marinheiro não o intimidou.

-- Ele anda sorumbático, como diria Romualdo Bastos, o cruzadista. Pra mim, essa tal de internet está acabando com ele. Vive repetindo: “Fulano está em férias. Beltrano foi pro sítio. Sicrana curte ondas. Só eu é que não vou pra lugar nenhum. Nunca soube o que é descanso.” Acho que ele está doente. Com hipertensão.

-- Hipertensão tinha sua avó, Josué. Ananias tem depressão. É obcecado. Fala essas coisas porque é verão. No outono, lamenta porque não foi guarda metropolitano, ou sei lá o quê. No inverno, ele impreca porque todo mundo comeu a mulher do padre, menos ele...

-- E na primavera, de que ele reclama? – quis saber o barateiro do bairro.

-- De ter conhecido você. Vá trocar a resistência. (2014)

sexta-feira, 29 de maio de 2015

NÃO ERA O MELHOR. MAS...




Não há quem não conheça Josué Lemos na Vila Invernada, bairro pobre da zona Leste de São Paulo, local em que nasceu, criou-se e entrou na pior idade. A vida dura o obrigou a se virar nos trinta, seja lá o que isso queira dizer. Ele é uma espécie de “faz tudo”, pau pra toda obra. Ergue e pinta paredes, enche laje, desentope canos, troca fiação, remenda calçadas e muros, cata lata, vende papelão, faz carreto na feira. 

Para Josué, não há tempo ruim. Gaba-se de estar a serviço da “comunidade” 24 horas por dia, de segunda a segunda, incluindo feriados. Só não trabalha na sexta-feira da Paixão. E o que é melhor – para os clientes, claro: é barateiro. Sobe no telhado por qualquer bagatela, apara grama de quintal e trepadeira de muros por duas pingas e uma cerveja. Nunca reclama do que lhe pagam: “Eu preciso de pouco pra viver”.

Josué só não gosta muito de fazer serviços na casa do Velho Marinheiro, nosso Lobo do Mar:

-- Ele é exigente demais, põe reparo em tudo, difícil agradar aquele homem. Quando começa a caçar o bicho do pé, então, me deixa nervoso, sei que a bronca é certa. Só vou lá por causa de dona Mafalda, um doce de criatura.

Sejamos justos: que o Velho Marinheiro tem gênio ruim, todo mundo sabe; mas não é o único a reclamar de Josué. Ao contrário. É raro encontrar alguém que elogie os serviços que faz. Afinal, ninguém pode ser bom em tudo, não é? Por que o contratam, afinal? Porque é boa praça, está sempre disponível, não bebe durante o expediente, é barateiro e de confiança, ao contrário da maioria de seus concorrentes, cujos serviços, em termos de qualidade, igualam-se aos seus.

Josué sabe disso. 

Quando alguém reclama disso ou daquilo, dispara seu bordão predileto: “Eu sou Josué Lemos. Não sou o melhor. Mas sou o que temos”.


(Publicado em 29/10/2013)