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sábado, 2 de março de 2019

COXINHA? NÃO. JURUBEBA QUER PINGA

Resultado de imagem para fotos copo de pinga
Foto: Arquivo Google

Jurubeba – o morador de rua mais famoso de Vila Invernada – parou na porta do bar do Carneiro. Não disse palavra. Nem precisava. Seus olhos embotados suplicavam por cachaça. É como se rogassem: “Uma dose por Deus”.

Encostado no balcão, Chico Pança, cujos olhos estavam tão embotados quanto os de Jurubeba, desandou a falar – aos berros, evidentemente, porque a ignorância é sempre estridente - para que todos o ouvissem:

-- Quer comer uma coxinha? Eu pago. Quer um doce? Eu pago. Agora, só não dou dinheiro nem pago cachaça pra pinguço. Isso eu não faço.

O Velho Marinheiro levantou-se da cadeira, foi até o balcão e pediu ao dono do bar que pegasse um copo descartável e o enchesse de aguardente até a boca. Fez-se silêncio. Então, foi até a porta e entregou o copo cheio a Jurubeba, junto com uma nota de cinco reais. Retornou para a mesa e tentou retomar o papo com Ananias, seu amigo.

Chico Pança resolveu cutucar a fera com varinha de condão:

-- É por isso que pinguço não se emenda. Tem sempre um otário...

Não teve tempo de concluir sua fala despropositada. 

-- Escuta aqui, vagabundo: o dinheiro é meu, faço dele o que quero. Quem precisa de pinga para ficar em pé não quer saber de coxinha. Nem consegue comê-la. Não desce. E você o que é? Um bêbado ordinário que ainda tem casa pra morar. Jurubeba precisa mesmo é de tratamento. Você vai pagar, vai? Você é um ignorante incorrigível, Chico. Pega sua coxinha e enfia no rabo, junto com seu moralismo safado. E tem mais: se você humilhar Jurubeba de novo, eu lhe soco a cara. Espero nunca vê-lo dormindo na rua, totalmente dominado pelo vício. Cuide-se, Chico. Porque jamais lhe pagarei uma cachaça nem lhe darei uma moeda sequer. Mas lhe garantirei – tenha certeza – uma coxinha e um doce de bar. (OS - Atualizado em março de 2019)

terça-feira, 18 de março de 2014

FILHO CABEÇA


gaveta-virtual.blogspot.com


Jurubeba nunca foi homem de meias palavras nem de ocultar seus pensamentos alcoólicos. No bar do Carneiro, todo mundo sabia disso. Naquele início de madrugada, porém, avançou o sinal, foi além do previsível, sem que ninguém lhe tivesse perguntado sobre o furor uterino da velha:

__ Mamãe soube levar a vida. Morreu quase aos 75. Foi ativa até a véspera do enterro. Incansável.  

__ E seu pai ainda é vivo? – quis saber um gaiato.

__ Pirou? O velho morreu muito antes, vinte anos antes.  Mamãe era um trator. Tinha que ser macho para segurar o rojão. Papai fez o possível. Mamãe soube levar a vida.