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segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

DOIS QUERIDOS

Resultado de imagem para ilustração velho surdo
Ilustração: arquivo Google

Não bateu hoje, não. Tem batido há tempos. Saudade do tio, saudade da tia.

Acho que a prima à distância, via FB, direto de Floripa, turbinou a danada da saudade sem preço. Coisa boa ter tios de que quem não se esquece jamais. Iraci e Valésia. Tive outros, igualmente queridos. Dei sorte. Antônio, Tonico, Orlando, Laura "Pamonha"... 

Nunca conheci ninguém tão querido e teimoso como tio Iraci.

Menino, eu gostava demais de almoçar arroz com feijão, bife, ovo frito, salada, na casa dele. Coisas da tia. Mulher de ouro. Ele chegava, ouvidos moucos, carinhoso, víamos juntos - ele, eu e a nossa fome - o noticiário esportivo. Tempos de Geraldo Breta. Gremista, meu tio. Corintiano também. Gostava de ficar por ali, dois, três dias. Nas férias. Só para almoçar o almoço da tia Valésia e ver o futebol com o tio.

O tio nunca ouviu bem. Iraci, surdo. Valésia, paciência de Jó, gritava para que ele a ouvisse. Ela gritou uma vida toda, com o carinho de quem ama. Iraci implicava. Só quem ama implica.

Compraram um aparelho para o tio. O tio passou a ouvir tanto que o aparelho ficava mais desligado que ligado. Ele não suportava o clamor das ruas, menos ainda as falas de tia Valésia. Sempre altas, altíssimas.

A tia passou a vida gritando para que ele a ouvisse. Para a tia, não era possível voltar a falar baixo, uma vida inteira falando alto, para seu amor ouvir!

E ele com aquela impaciência e teimosia queridas: “Lá vem a Valésia”. Baixava o som do aparelho. Pura birra. Era seu jeito de dizer: “Valésia, te amo.”  

(junho de 2014)

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

SUA BENÇÃO, IRACI



Passou a vida andarilhando. Nunca teve sossego, jamais esquentou cadeira em lugar algum. Quando vinha visitar o irmão em São Paulo, tomava café bebido e ia para a rua, logo cedo. Queria rever vizinhos, parentes, amigos. Queria prosear. Por querido, era bem recebido por todos. Trazia sempre novidades.

Na hora do almoço, retornava ao quartel-general. Para sair logo em seguida, retornar só na hora do jantar. A vida é curta. Há muita gente para rever, há muita coisa nova para se conhecer. Ia a pé ou de ônibus. Nunca teve carro. Só não ia nem vinha de metrô, passava mal.

Hoje, as pernas fraquejadas pela idade já não lhe permitem ir e vir. Mas é certo que até o último minuto continuará fazendo o que mais gostou de fazer na vida: andarilhar.


Ainda que hoje só andarilhe em pensamentos. 

Sua benção, Iraci.